O protocolo que os estudos usaram — e por que não existe um único padrão-ouro
Agulha 30G, alíquotas de 0,002 mL, volume médio pouco acima de meio mililitro por sessão — esses números existem e vêm de um ensaio clínico randomizado real. O que não existe é um protocolo único, replicado por múltiplos estudos independentes, que sirva de padrão-ouro para toda cicatriz rolling. Esta é a terceira de nove apostilas desta série, e ela mapeia o que cada estudo publicado realmente usou — não uma receita para aplicar em casa.
Preenchimento com ácido hialurônico em cicatriz de acne é um PROCEDIMENTO ESTÉTICO INJETÁVEL — ato biomédico, sempre realizado por profissional habilitado, com avaliação prévia do tipo de cicatriz, do grau de fibrose e do histórico de cada pessoa. Todos os volumes, agulhas, planos de aplicação e números de sessão descritos aqui são exatamente o que cada estudo citado usou em sua metodologia publicada — nunca uma recomendação de dose, técnica ou protocolo para o leitor aplicar em si mesmo ou em terceiros. Não existe “a dose certa” fora de uma avaliação presencial: existe o que a literatura registrou, com suas diferenças e suas lacunas, e é isso que esta apostila organiza.
A apostila anterior desta série mostrou que existe, sim, um ensaio clínico randomizado controlado por placebo testando ácido hialurônico isolado em cicatriz atrófica — o que já derruba a ideia de que “não há nenhum estudo sério” sobre o tema. Mas um RCT existir não significa que ele tenha virado protocolo-padrão. Esta apostila pergunta uma coisa mais específica: o que, exatamente, cada estudo publicado usou — que agulha, que plano de pele, que volume, quantas sessões — e o que acontece quando se coloca essas técnicas lado a lado.
A resposta é honesta e um pouco desconfortável para quem espera uma resposta simples: os três estudos com detalhe técnico reprodutível usaram três produtos diferentes, três planos de aplicação diferentes e três lógicas de volume diferentes. Não é sinal de que a técnica não funcione — é sinal de que ela ainda não convergiu para um único desenho testado e replicado por grupos de pesquisa independentes, do jeito que aconteceu com o comparador de referência desta série (assunto que a apostila 08 aprofunda).
Dos estudos de ácido hialurônico em cicatriz rolling localizados na literatura, o RCT de Siperstein, Nestor, Meran e Grunebaum (2022, Journal of Cosmetic Dermatology) é o único que descreve a técnica com detalhe suficiente para ser reproduzido metodologicamente por outro grupo de pesquisa. O estudo usou uma agulha 30G co-empacotada com o próprio produto (VYC-17.5L, um AH reticulado de alta viscosidade), aplicada em planos paralelo e perpendicular à superfície da pele, depositando alíquotas de 0,002 mL — volumes pequenos o suficiente para formar pápulas dérmicas superficiais discretas sob cada área tratada, não um bolus único.
O volume total aplicado por sessão também foi registrado com precisão: 0,66 mL em média na primeira sessão e 0,61 mL em média na segunda sessão, realizada 30 dias depois da primeira. O plano de injeção descrito no protocolo é dérmico superficial em toda a extensão do tratamento (Siperstein et al., 2022). É esse conjunto de números — agulha, plano, alíquota, volume, intervalo — que compõe o protocolo mais detalhado hoje disponível para AH isolado em cicatriz atrófica de acne.
Fora do protocolo de Siperstein, outros dois desenhos aparecem na literatura com técnica descrita, mas nenhum reproduz o anterior. Halachmi, Ben Amitai e Lapidoth (2013, Journal of Drugs in Dermatology) descreveram uma série de casos com microdoses de AH de baixa viscosidade (NASHA 20 mg/mL), aplicadas na derme média-superficial, sob cada lesão individualmente, depois de uma série prévia de laser fracionado — sem volume total padronizado por paciente, já que a dose era decidida lesão a lesão. Já Abdelwahab, Omar e Hamdino (2022, Lasers in Medical Science) testaram AH reticulado, aplicado depois da subcisão, no mesmo tempo cirúrgico, com a lógica de ocupar o espaço mecânico recém-criado pela ruptura da banda fibrosa — um uso do AH como sequência de outra técnica, não como agente isolado.
Nenhum dos três estudos usou o mesmo produto, o mesmo plano de pele ou a mesma lógica de volume que os outros dois. Isso é o oposto do que se costuma imaginar quando se fala em “protocolo estabelecido” — não há uma técnica única sendo confirmada por réplicas independentes, há três grupos de pesquisa testando três abordagens distintas, cada uma em sua própria amostra pequena.
| Estudo | Produto / técnica | Plano de aplicação | Volume ou dose | N / desenho |
|---|---|---|---|---|
| Siperstein et al., 2022 | VYC-17.5L (AH reticulado, alta viscosidade), agulha 30G co-empacotada | Dérmico superficial, planos paralelo e perpendicular | Alíquotas de 0,002 mL; 0,66 mL (1ª sessão) / 0,61 mL (2ª sessão) | RCT placebo-controlado N=15 (30 bochechas), 2 sessões / 30 dias |
| Halachmi et al., 2013 | NASHA 20 mg/mL (AH de baixa viscosidade), microdoses | Derme média-superficial, sob cada lesão, após laser fracionado prévio | Sem volume total padronizado — dose por lesão individual | Série de casos N=12, sem grupo controle |
| Abdelwahab et al., 2022 | AH reticulado, aplicado após subcisão no mesmo tempo cirúrgico | Espaço criado pela subcisão (plano subdérmico) | Sem alíquota isolada reportada — sequência pós-subcisão; redução média 62,29% (±13,62) | Ensaio controlado, 3 braços N=20 neste braço (N=40 total) |
Volumes, planos e desenhos exatamente como registrados nos artigos originais. Nenhuma destas técnicas foi replicada, com o mesmo desenho, por um segundo grupo de pesquisa independente.
Vale nomear o contraste, sem se aprofundar nele aqui: o material com o protocolo mais padronizado desta área inteira não é o ácido hialurônico, é o PMMA-colágeno, cujo esquema de aplicação — até duas sessões, mesmo critério de inclusão, mesma escala de avaliação — vem de um único RCT grande e multicêntrico (Karnik et al., 2014, Journal of the American Academy of Dermatology, N=147), com extensão de acompanhamento a 12 meses na mesma coorte. É um desenho concentrado num só estudo robusto, não fragmentado em técnicas diferentes como acontece com o AH. Esse comparador é o assunto inteiro da apostila 08 desta série — aqui, ele serve só para mostrar que a fragmentação de protocolo do AH não é a regra geral do campo, é uma característica específica da evidência de AH isolado até o momento.
Achar que existe “a dose certa” de ácido hialurônico para cicatriz de acne, como se fosse um número fixo aplicável a qualquer pessoa.
É comum ouvir alguém perguntar “quantos mL eu preciso” ou “qual agulha é a certa” como se a literatura tivesse fechado essa conta. Ela não fechou. O que existe são parâmetros diferentes, usados em estudos diferentes, com produtos diferentes, planos de pele diferentes e lógicas de volume diferentes — 0,66 mL de VYC-17.5L em pápulas de 0,002 mL num RCT (Siperstein 2022) não é comparável a uma microdose de NASHA 20mg/mL sob laser prévio numa série de 12 casos (Halachmi 2013), nem ao AH reticulado usado como sequência de uma subcisão (Abdelwahab 2022). Tratar qualquer um desses números como “a dose de referência universal” é confundir o que um estudo específico mediu com uma regra geral que a ciência ainda não estabeleceu.
O certo: entender esses números como registros de metodologia de pesquisa, não como protocolo pronto para replicar. Volume, agulha, plano e número de sessões dependem do produto escolhido, do grau de distensibilidade da cicatriz e da avaliação clínica de cada caso — decisão que cabe exclusivamente ao profissional habilitado, presencialmente, e não a uma tabela de estudo aplicada de memória.
Quando leio esses três estudos lado a lado, o que mais me chama atenção não é nenhuma técnica isolada — é o fato de que nenhuma delas apareceu duas vezes. Cada grupo de pesquisa escolheu um produto, um plano de pele e uma lógica de volume próprios, e nenhum replicou o desenho do outro. Isso não invalida os achados: o RCT de Siperstein é real, controlado por placebo, e mostrou diferença estatística clara. Mas é diferente de dizer que a área já tem um protocolo consolidado, do jeito que o PMMA-colágeno tem. Para quem está lendo por fora da ciência, a lição prática é simples: qualquer número específico de volume ou técnica que você ouvir sobre “preenchimento em cicatriz” veio de um estudo com seu próprio desenho — não é uma regra universal, e a avaliação presencial é o que traduz esses números para o caso real de cada pessoa.
- O único protocolo de AH isolado descrito com detalhe reprodutível é o de Siperstein et al. (2022): agulha 30G co-empacotada, alíquotas de 0,002 mL, pápulas dérmicas superficiais, ~0,66 mL na 1ª sessão e ~0,61 mL na 2ª, intervalo de 30 dias.
- Halachmi et al. (2013) usaram uma técnica totalmente diferente: microdoses de NASHA 20mg/mL na derme média-superficial, sob cada lesão, após laser fracionado prévio — sem volume total padronizado.
- Abdelwahab et al. (2022) aplicaram AH reticulado depois da subcisão, no mesmo tempo cirúrgico, para ocupar o espaço mecânico criado — redução média de 62,29% nesse braço do estudo.
- Não existe um único protocolo-padrão de AH validado por múltiplos RCTs independentes — cada série usa produto e técnica próprios, diferente do comparador PMMA-colágeno, cujo protocolo vem de um único RCT grande e replicado (assunto da apostila 08).
- Nenhum desses volumes ou técnicas é uma recomendação de dose para o leitor — são registros de metodologia de pesquisa, não um manual de aplicação.
- A escolha de produto, plano de pele e número de sessões é decisão clínica, tomada presencialmente, considerando o grau de distensibilidade da cicatriz e o histórico da pessoa.
- É procedimento estético injetável: ato biomédico, realizado por profissional habilitado; nada aqui substitui a avaliação individual presencial.
Com o protocolo mapeado — e a honestidade de que ele ainda não convergiu para um único padrão —, a pergunta natural é: “esse procedimento serve para o meu tipo de cicatriz?” A próxima apostila da série reúne os critérios que os estudos usaram para selecionar quem responde bem — e para quem esse tratamento não é indicado. Leve estas informações à avaliação individual: é o profissional habilitado, presencialmente, quem examina o tipo e o grau de fibrose da sua cicatriz e decide o que é seguro e o que é possível no seu caso.
- Siperstein M, Nestor M, Meran S, Grunebaum L. A Randomized, Split-Face, Placebo-Controlled Study Evaluating the Safety and Efficacy of a Hyaluronic Acid Filler for the Correction of Atrophic Acne Scars. J Cosmet Dermatol, 2022 — RCT split-face, N=15 (30 bochechas); protocolo detalhado: agulha 30G co-empacotada, alíquotas de 0,002 mL, volume médio 0,66 mL (1ª sessão) e 0,61 mL (2ª sessão), plano dérmico superficial.
- Halachmi S, Ben Amitai D, Lapidoth M. Treatment of Acne Scars with Hyaluronic Acid: An Improved Approach. J Drugs Dermatol, 2013 — série de casos, N=12; microdoses de NASHA 20mg/mL na derme média-superficial, após laser fracionado prévio, sem volume total padronizado.
- Abdelwahab AA, Omar GA, Hamdino M. Subcision versus subcision plus fractional CO2 laser versus subcision plus cross-linked hyaluronic acid filler in treatment of atrophic post-acne scars. Lasers Med Sci, 2022 — ensaio controlado de 3 braços, N=40 (n=20 no braço subcisão+AH reticulado); AH aplicado após a subcisão, no mesmo tempo cirúrgico; redução média 62,29% (±13,62).
- Karnik J, Baumann L, Bruce S, Callender V, Cohen S, Grimes P, Joseph J, Shamban A, Spencer J, Tedaldi R, Werschler WP, Smith SR. A double-blind, randomized, multicenter, controlled trial of suspended polymethylmethacrylate microspheres for the correction of atrophic facial acne scars. J Am Acad Dermatol, 2014 — RCT pivotal de PMMA-colágeno, N=147, protocolo de até 2 sessões; citado aqui apenas como contraste de padronização — aprofundado na apostila 08 desta série.