SÉRIE PREENCHIMENTO COM AH × ROLLING (CICATRIZ ATRÓFICA) · 4 DE 9

Para quem é — e para quem definitivamente não é

As duas primeiras apostilas mostraram que o preenchedor funciona no rolling porque a lesão tem uma banda de fibrose rasa que traciona a pele para baixo, mas que se distende ao ser esticada. Esse mesmo raciocínio, lido ao contrário, já diz quem não é candidato: cicatriz rígida, endurecida, que não estica sob o dedo. Esta é a quarta de nove apostilas desta série, e ela existe para separar, com critério, quem entra e quem fica de fora dessa indicação.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes desta apostila

Preenchimento com ácido hialurônico em cicatriz de acne é um PROCEDIMENTO ESTÉTICO INJETÁVEL — ato biomédico, sempre realizado por profissional habilitado, com exame presencial do tipo, do tamanho e do grau de fibrose de cada cicatriz. Os critérios reunidos aqui são os mesmos que a literatura científica usou para descrever quem responde bem ao preenchedor e quem não responde — nunca um roteiro de autodiagnóstico. Nenhuma pessoa deve decidir sozinha, olhando no espelho, se sua cicatriz “é candidata” ou não: essa distinção exige palpação e avaliação clínica presencial, feita por quem tem treinamento para isso.

Nem toda cicatriz que parece uma ondulação no rosto responde da mesma forma ao ácido hialurônico. A apostila 01 desta série já explicou o mecanismo: rolling é preenchível porque tem uma banda de fibrose rasa que traciona a derme para baixo, mas que continua distensível — ao contrário do icepick, com fibrose funda e aderida, e do boxcar, com bordas verticais rígidas. Esta apostila usa esse mesmo mecanismo como critério de seleção: o que separa quem é bom candidato ao preenchedor de quem não é.

A resposta não é “rolling sim, icepick e boxcar não” de forma automática. Existe uma variável dentro do próprio rolling que muda tudo: o grau de fibrose sob a lesão. Um rolling amplo, macio e que se distende ao esticar a pele é o cenário descrito na literatura como ideal. Um rolling endurecido, que não cede à tração manual, é outra história — mesmo tendo o mesmo nome clínico.

O critério central: amplo, macio, distensível

Fife (2011, Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology) descreve o critério de seleção de forma direta: os candidatos ideais para preenchedor são cicatrizes rolling amplas, macias e distensíveis/esticáveis — ou seja, que cedem visivelmente quando a pele ao redor é esticada com os dedos, mostrando que a base da depressão ainda tem tecido mole capaz de ser elevado pelo volume injetado. O mesmo texto nomeia o cenário oposto com igual clareza: quando existe fibrose sob a lesão, a deposição do preenchedor pode ficar desigual, resultando em extrusão do material para a pele ao redor da cicatriz (Fife, 2011).

Esse alerta não é um detalhe menor. Ele descreve um resultado estético ruim e específico: em vez de nivelar a depressão, o preenchedor pode “vazar” visualmente para os lados, porque a base fibrosada e aderida não aceita o volume de forma uniforme. É esse risco de resultado desigual, mais do que qualquer regra abstrata, que sustenta a cautela com rolling fibrosado — e que justifica a subcisão prévia como opção nesses casos (assunto da apostila 05 desta série).

Bom candidato
Rolling leve a moderado
Critério de Fife (2011)
  • Ondulação ampla, de bordas suaves
  • Macia ao toque, sem endurecimento perceptível
  • Distensível: cede visivelmente ao esticar a pele ao redor
  • Base da depressão ainda tem tecido mole mobilizável
Mecanismo presentetração fibrosa rasa
Não é candidato (isolado)
Rolling fibrosado / icepick / boxcar profundo
Contraindicação relativa descrita na literatura
  • Endurecida, não cede à tração manual
  • Risco de deposição desigual e extrusão do material (Fife, 2011)
  • Icepick: excluído por desenho de ensaio controlado (Abdelwahab, 2022)
  • Boxcar profundo e icepick: resposta inferior em revisão sistemática (Albargawi, 2025)
Mecanismo ausentefibrose densa/aderida

As barras ilustram a presença relativa do mecanismo que sustenta a indicação (tração fibrosa rasa e distensível) em cada cenário — não uma nota de resposta clínica medida.

Icepick não entrou no ensaio — e isso já é um dado

Um dos achados mais diretos desta seção não vem de um estudo desenhado para comparar subtipos de cicatriz entre si — vem de uma decisão de desenho de pesquisa. O ensaio controlado de três braços de Abdelwahab, Omar e Hamdino (2022, Lasers in Medical Science), que testou subcisão combinada a preenchedor de ácido hialurônico reticulado, excluiu icepick puro da elegibilidade para participar do estudo. Essa exclusão não foi um detalhe burocrático: é o reconhecimento direto de que o mecanismo de tração fibrosa rasa — a base física de por que subcisão e preenchedor funcionam em rolling — simplesmente não existe no icepick, cuja fibrose é funda, estreita e aderida à derme profunda.

Esse mesmo raciocínio já estava presente, de forma mais geral, no trabalho fundacional de Jacob, Dover e Kaminer (2001, Journal of the American Academy of Dermatology), que criou a classificação de cicatriz atrófica em três subtipos e propôs um algoritmo de tratamento por subtipo: o preenchedor aparece como opção listada para rolling, não para icepick ou para boxcar profundo — subtipos que, no algoritmo original, pedem outras ferramentas, como punch excision, CROSS ou laser fracionado.

Rolling e boxcar respondem melhor que icepick — tendência entre 26 estudos
Albargawi (2025), revisão sistemática, 26 estudos, N=1.121 — padrão relatado como consistente entre os estudos incluídos, não uma taxa única medida em um só ensaio
Rolling
melhora maior
Boxcar
melhora maior
Icepick
resposta inferior
Albargawi (2025) relata que cicatrizes rolling e boxcar “melhoraram significativamente mais” que cicatrizes icepick, de forma consistente entre os 26 estudos analisados — a revisão não publica um único número percentual comparável entre os três subtipos. As barras acima ilustram essa direção relatada qualitativamente; não são uma medição de efeito único, e sim uma tendência consistente entre estudos.
O que a evidência não testou

É importante nomear o limite exato deste critério: nenhum estudo localizado testou formalmente um “teste de distensibilidade” com corte quantitativo, comparando o desfecho entre rolling distensível e rolling fibrosado/rígido dentro do mesmo ensaio. O que existe é (1) o critério clínico direto de Fife (2011), força C, uma observação de revisão narrativa; (2) reforçado indiretamente por um ensaio controlado que excluiu icepick por desenho, não por teste de subgrupo (Abdelwahab, 2022, força B); e (3) por uma revisão sistemática que relata resposta relativa menor do icepick frente a rolling e boxcar, também sem corte quantitativo de distensibilidade (Albargawi, 2025, força B). É uma lógica clínica bem estabelecida e convergente — não um achado experimental de subgrupo controlado.

Um erro muito comum

Achar que toda cicatriz que parece uma ondulação é rolling que pode ser preenchida.

É comum alguém olhar no espelho, ver uma depressão de bordas suaves e concluir “isso é rolling, então dá para preencher”. O nome do subtipo, sozinho, não garante a indicação. Uma cicatriz rolling fibrosada e endurecida tem o mesmo nome clínico de uma rolling macia e distensível, mas um mecanismo de fixação diferente — e, segundo Fife (2011), pode responder ao preenchedor com deposição desigual e extrusão de material para a pele ao redor, exatamente o oposto do resultado estético desejado. Classificar pelo nome do subtipo sem checar a distensibilidade é confundir a categoria com o critério real de seleção.

O certo: o critério que decide a indicação não é só “é rolling”, é “é rolling amplo, macio e que estica sob a tração manual”. Quando a cicatriz é rolling, mas fibrosada e rígida, a avaliação presencial do profissional habilitado é quem decide se o caminho é subcisão antes do preenchedor, preenchedor combinado a outra técnica, ou outra abordagem — nunca preenchedor isolado aplicado por presunção do nome do subtipo.

A Sacada dos DoutoresO teste que mais me diz sobre uma cicatriz não é olhar, é esticar

Na avaliação presencial, a primeira coisa que eu faço com uma cicatriz que parece rolling não é medir a profundidade nem tirar foto — é esticar a pele ao redor com os dedos e ver o que acontece com a depressão. Se ela cede, se a ondulação quase desaparece sob a tração, isso me diz que a base ainda tem tecido mole mobilizável: é o cenário que Fife descreve como candidato ideal. Se a pele fica dura, se a depressão não muda de forma sob a tração, isso muda a conversa inteira — não significa que a pessoa não tenha solução, significa que o caminho provavelmente passa por subcisão antes, ou por outra combinação, não pelo preenchedor isolado. É esse gesto simples, feito com as mãos, que decide mais sobre a indicação do que o nome do subtipo escrito num laudo.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Candidato ideal: rolling amplo, macio e distensível/esticável ao teste de tração manual (Fife, 2011).
  • Alerta direto de Fife (2011): quando há fibrose sob a lesão, a deposição do preenchedor pode ficar desigual e extrudir para a pele ao redor.
  • Icepick foi excluído por desenho de um ensaio controlado (Abdelwahab et al., 2022, N=40) — reconhecimento de que a tração fibrosa rasa não existe nesse subtipo.
  • Revisão sistemática (Albargawi 2025, 26 estudos, N=1.121): rolling e boxcar melhoraram significativamente mais que icepick, de forma consistente entre os estudos.
  • Jacob et al. (2001) já listava preenchedor como opção para rolling, não para icepick ou boxcar profundo, no algoritmo fundacional de tratamento por subtipo.
  • Honestidade: nenhum estudo testou formalmente um “teste de distensibilidade” com corte quantitativo comparando subgrupos dentro do mesmo ensaio — o critério é consenso clínico consistente (força C), reforçado indiretamente por dois estudos de força B.
  • É procedimento estético injetável: ato biomédico, realizado por profissional habilitado; a distinção entre rolling distensível e fibrosado exige avaliação presencial, nunca autodiagnóstico.
O próximo passo

Com os critérios de seleção mapeados — quem responde bem ao preenchedor isolado e quem precisa de outra estratégia —, a pergunta natural é: “e quando a cicatriz é fibrosada, ou quando o preenchedor sozinho não é suficiente, o que se combina com ele?” A próxima apostila da série reúne o que a evidência mostra sobre combinar preenchedor com subcisão e com outras técnicas. Leve estas informações à avaliação individual: é o profissional habilitado, presencialmente, quem examina o grau de distensibilidade da sua cicatriz e decide o que é seguro e o que é possível no seu caso.

Referências
  1. Fife D. Practical Evaluation and Management of Atrophic Acne Scars: Tips for the General Dermatologist. J Clin Aesthet Dermatol, 2011 — critério de candidato ideal (rolling amplo, macio, distensível) e alerta sobre deposição desigual/extrusão em rolling fibrosado.
  2. Abdelwahab AA, Omar GA, Hamdino M. Subcision versus subcision plus fractional CO2 laser versus subcision plus cross-linked hyaluronic acid filler in treatment of atrophic post-acne scars. Lasers Med Sci, 2022 — ensaio controlado de 3 braços, N=40; icepick puro excluído da elegibilidade por desenho do estudo.
  3. Albargawi S. Comparative efficacy and safety of synthetic fillers for acne scar treatment: a systematic review. J Cosmet Dermatol, 2025 — revisão sistemática, 26 estudos, N=1.121; rolling e boxcar melhoraram significativamente mais que icepick, de forma consistente entre os estudos.
  4. Jacob CI, Dover JS, Kaminer MS. Acne scarring: a classification system and review of treatment options. J Am Acad Dermatol, 2001 — classificação fundacional em 3 subtipos (icepick, rolling, boxcar) e algoritmo de tratamento por subtipo, com preenchedor listado como opção para rolling.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação fechada, protocolo pronto nem convite a autodiagnóstico. Preenchimento com ácido hialurônico em cicatriz de acne é procedimento estético injetável, ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Os critérios de seleção descritos aqui refletem o que a literatura científica publicou, incluindo suas lacunas — não uma régua para o leitor aplicar em si mesmo no espelho. Tipo de cicatriz, grau de distensibilidade, plano de aplicação, técnica e a própria indicação do procedimento dependem de avaliação individual presencial, feita por profissional habilitado.