Centella asiática (madecassosídeo, asiaticosídeo) para vasinhos no rosto ou rosácea e colo avermelhado: o que a ciência mostra
É o “cica” que virou febre no skincare coreano, com tolerância cutânea de dar inveja a qualquer ativo. A ciência por trás dela é real — só que ela é mais forte em cicatrização e reparo de barreira do que em rosácea e vasinhos propriamente ditos. Reunimos o que os estudos realmente mediram, e onde a extrapolação começa.
Este material é educativo e resume o que estudos científicos publicados mostram sobre a centella asiática de uso tópico/cosmético — não é diagnóstico, não substitui avaliação individual e não afirma que qualquer produto “cica” trata rosácea. Vasinhos faciais, colo avermelhado e rosácea têm causas que vão além do que um cosmético resolve sozinho: a avaliação de uma profissional habilitada é o que define o que está por trás da vermelhidão e o plano de cuidado adequado. A Dra. Daniele Florêncio é Biomédica (CRBM 8242-PR) e assina este conteúdo organizando e traduzindo a literatura científica disponível.
Toda semana chega alguém com um sérum ou creme “cica” na mão perguntando se aquilo vai “fechar os vasinhos” ou “tirar a vermelhidão da rosácea”. E a resposta honesta tem duas partes que quase nunca aparecem juntas no rótulo.
A primeira parte é boa notícia de verdade: a centella asiática tem tolerância cutânea excelente e uma base mecanística sólida — os triterpenos madecassosídeo e asiaticosídeo estimulam colágeno e reduzem inflamação de forma mensurável em laboratório e em ensaios clínicos de cicatrização (Bonté et al., 1995; Witkowska et al., 2024). A segunda parte é a que esta apostila existe para contar: quando se procura, na literatura, um ensaio clínico controlado testando centella isolada especificamente em rosácea ou em vasinhos faciais, a prateleira fica quase vazia. Uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados com centella encontrou, ao todo, 5 estudos — e nenhum deles em rosácea; todos em queimadura, úlcera de pé diabético, cicatriz hipertrófica, enxerto de pele ou ferida pós-laser (Hongsing et al., 2022). O que existe de evidência direta em rosácea é um único ensaio, pequeno, com a centella dentro de uma máscara combinada com outros ativos — não isolada (Wang et al., 2024). Isso não invalida o ativo; só muda o tamanho da promessa que ele pode sustentar sozinho.
Comece pelo que está mais bem estabelecido. Um estudo prospectivo observacional com 88 mulheres de pele sensível, usando um creme com extrato de folha de centella asiática combinado a ceramida NP e pantenol por 4 semanas, mediu o escore agregado de sintomas sensíveis (SS-10) e encontrou queda de 66% na 2ª semana e 76% na 4ª semana, com redução significativa de irritação, tensão, coceira e vermelhidão referidas, além de diminuição da perda transepidérmica de água (TEWL) já nas semanas 1 e 2 e aumento da hidratação do estrato córneo em todos os pontos avaliados (Su et al., J Cosmet Dermatol, 2025). É um dado real de melhora de sintomas sensíveis e de barreira — mas vale o alerta de honestidade: o produto testado tinha três ingredientes ativos, não centella isolada, então parte do efeito pode vir da ceramida e do pantenol, não só do “cica”. Já o painel de segurança da Cosmetic Ingredient Review, que avaliou 9 tipos de ingrediente derivado de centella usados em cosméticos, concluiu que são seguros nas concentrações e práticas de uso atuais quando formulados para não sensibilizar (Johnson et al., Int J Toxicol, 2023) — a base regulatória por trás da fama de “hipoalergênico” do ativo.
Aqui está a base científica que sustenta a fama da centella em reparo de pele. Em cultura de fibroblastos humanos, tanto o asiaticosídeo quanto o madecassosídeo aumentaram a secreção de colágeno tipo I em 25% a 30% — efeito parecido entre os dois triterpenos. A diferença aparece no colágeno tipo III: só o madecassosídeo conseguiu aumentar de forma significativa a secreção desse subtipo, enquanto o asiaticosídeo não teve o mesmo resultado (Bonté et al., Ann Pharm Fr, 1995). Uma revisão mais recente soma a peça anti-inflamatória a esse mecanismo: o asiaticosídeo reduz citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6, e o ácido madecássico contribui reduzindo a expressão de iNOS e COX, além de estimular fibronectina e a proliferação de fibroblastos (Witkowska et al., Pharmaceutics, 2024). É o tipo de mecanismo que explica por que a centella funciona bem em cicatrização — e é também, adiante nesta apostila, a base do que hoje é extrapolação, não prova direta, quando se fala em vasinhos e rosácea.
Cicatrização e reparo de barreira: 5 RCTs em revisão sistemática (queimadura, úlcera diabética, cicatriz hipertrófica, enxerto, ferida pós-laser) — Hongsing et al., 2022.
Reparo pós-procedimento estético: RCT split-face reduziu eritema e melhorou aspecto da ferida pós-laser — Damkerngsuntorn et al., 2020.
Estímulo de colágeno e tolerância cutânea: mecanismo em fibroblastos e patch tests — Bonté et al., 1995; Johnson et al., 2023.
Eficácia em rosácea isolada: 1 único RCT, com centella dentro de uma máscara multi-ativo, associada a antibiótico oral — Wang et al., 2024.
Redução direta de vasinhos/telangiectasias faciais: nenhum RCT dedicado encontrado; racional vem do mecanismo anti-inflamatório e vascular indireto, não de medição direta do vaso.
“Fecha rosácea/vasinho” como promessa isolada: extrapolação de marketing além do que a literatura mede hoje.
O estudo mais próximo de “pele agredida, com vermelhidão, num rosto real” é um ensaio clínico split-face, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, com 30 pessoas com cicatriz de acne tratadas por laser de resurfacing Er:YAG. Um lado do rosto recebeu gel com 0,05% de ECa 233 (extrato padronizado de centella asiática), o outro recebeu placebo, 4 vezes ao dia por 7 dias e depois 2 vezes ao dia por 3 meses. O lado tratado com centella teve índice de eritema significativamente menor ao longo do acompanhamento (coeficiente −0,03; IC95% −0,06 a −0,0006; p=0,046), além de avaliação médica com melhora significativamente maior do eritema nos dias 2, 4 e 7 (p=0,009; 0,0061; 0,012), menos crosta no dia 2 (p=0,02) e melhor aspecto geral da ferida nos dias 2, 4 e 7 (p=0,008; 0,001; 0,044) (Damkerngsuntorn et al., J Altern Complement Med, 2020). É a evidência mais concreta que a centella tópica reduz vermelhidão num contexto de pele lesionada e inflamada — só que o contexto é dano pós-procedimento, com reparo de barreira em curso, não a inflamação crônica vascular característica da rosácea propriamente dita.
Baseado em Damkerngsuntorn W et al., J Altern Complement Med, 2020. Ilustrativo — as barras contam quantos dos 5 desfechos avaliados (eritema, crosta, aspecto da ferida em múltiplos dias) tiveram p<0,05 a favor do lado tratado; não representam a magnitude do efeito, que no índice de eritema foi pequena (−0,03 unidade).
Aqui mora o coração desta apostila. O único ensaio clínico controlado que testou um produto de centella especificamente em rosácea foi conduzido em dois centros, com 64 pacientes recrutados e 54 concluindo o estudo (41 no grupo máscara, 13 no grupo controle, alocação 3:1). A máscara facial reparadora à base de centella asiática foi usada 3 vezes por semana durante 6 semanas como tratamento adjuvante — todas as pacientes, dos dois grupos, continuaram tomando minociclina oral 50 mg duas vezes ao dia e usando um creme hidratante intensivo. Em 3 e 6 semanas, o escore de Avaliação Global do Investigador (IGA), o ressecamento facial, o rubor facial e a gravidade da lesão melhoraram significativamente no grupo máscara (p<0,05), com variação do rubor significativamente maior que no controle (p=0,037) e nenhum evento adverso relatado (Wang et al., J Cosmet Dermatol, 2024). É um resultado favorável e vale ser citado — mas repare nas três limitações que o próprio desenho do estudo carrega: (1) a centella nunca foi testada sozinha contra placebo, sempre somada a antibiótico oral e a um hidratante; (2) a amostra é pequena e o grupo controle, de apenas 13 pessoas; (3) o desfecho fala em “rubor facial” avaliado clinicamente, não em contagem ou medição direta dos vasinhos/telangiectasias. Não é evidência fraca por acaso — é o retrato realista de um campo em que a pesquisa de centella ainda não fez, para rosácea, o que já fez para cicatrização de queimadura ou ferida pós-laser.
A centella tem, sim, ação anti-inflamatória e de suporte à barreira bem documentada (Witkowska et al., 2024) — e a rosácea envolve inflamação de barreira e vasos dilatados. É por isso que o racional faz sentido no papel. Mas “faz sentido no mecanismo” e “foi medido diretamente em rosácea, isolado, contra placebo, em amostra grande” são coisas diferentes — e hoje só a primeira está bem coberta pela literatura.
Quando um estudo mediu resultado real em pele com vermelhidão/dano, a concentração usada foi baixa: os 0,05% de ECa 233 do ensaio pós-laser (Damkerngsuntorn et al., 2020). Já os testes de tolerância e segurança revisados pelo painel da Cosmetic Ingredient Review cobrem uma faixa mais ampla de uso cosmético, concluindo segurança “nas concentrações e práticas de uso atuais” dos extratos de centella no mercado, sem apontar uma dose mínima eficaz contra vermelhidão (Johnson et al., 2023). Na prateleira, produtos “cica” vendidos hoje variam livremente entre concentrações declaradas de 0,1% a mais de 5% de extrato, faixa que não corresponde a um estudo de dose-resposta específico publicado para eritema facial — ou seja, não existe hoje literatura que diga “quanto maior o %, maior o efeito antivermelhidão”. Rótulo com número mais alto, aqui, é argumento de venda; não é argumento clínico.
Achar que, porque a centella tem RCTs sólidos em cicatrização de ferida, ela também está “comprovada” para tratar rosácea ou vasinhos faciais — e usar um sérum “cica” isolado como se fosse o tratamento da vermelhidão.
A confusão nasce de misturar duas evidências diferentes: os 5 RCTs de cicatrização que a revisão sistemática encontrou (Hongsing et al., 2022) foram feitos em queimadura, úlcera diabética, cicatriz e ferida pós-laser — não em rosácea. O único estudo direto em rosácea usou a centella dentro de uma máscara com outros ativos, somada a antibiótico oral, com apenas 54 pacientes concluindo o estudo (Wang et al., 2024). Tratar isso como “prova definitiva contra vasinhos” estica o dado além do que ele sustenta.
O certo: usar a centella pelo que ela tem evidência real — suporte de barreira, tolerância alta e apoio em peles reativas ou em recuperação pós-procedimento — dentro de uma avaliação individual que investigue a causa da vermelhidão (rosácea, fragilidade capilar, fotoexposição) e defina o plano de cuidado completo, com fotoproteção sempre incluída.
A centella asiática merece parte da sua fama: tolerância cutânea muito acima da média, mecanismo de estímulo de colágeno bem descrito desde os anos 1990 (Bonté et al., 1995) e o conjunto de RCTs mais robusto que qualquer outro “queridinho” do K-beauty quando o assunto é cicatrização e reparo pós-procedimento (Damkerngsuntorn et al., 2020; Hongsing et al., 2022). O que não existe, ainda, é o mesmo tamanho de prova para rosácea e vasinhos faciais isolados: um único ensaio, pequeno, com a centella somada a outros ativos e a um antibiótico oral (Wang et al., 2024). Isso não torna a centella inútil para quem tem pele reativa ou com vermelhidão — torna ela uma coadjuvante honesta de suporte de barreira, não a protagonista comprovada do tratamento de rosácea. A diferença entre as duas frases é exatamente o que essa apostila tentou mostrar, número por número.
- A tolerância cutânea é um ponto forte real: creme com centella + ceramida + pantenol reduziu o escore de sintomas sensíveis em 66% (semana 2) e 76% (semana 4) em 88 mulheres (Su et al., 2025); CIR considerou os extratos de centella seguros nas concentrações de uso atuais (Johnson et al., 2023).
- O mecanismo de colágeno é bem descrito: asiaticosídeo e madecassosídeo aumentam colágeno tipo I em 25–30% em fibroblastos; só o madecassosídeo aumenta significativamente o colágeno tipo III (Bonté et al., 1995).
- A evidência mais forte em “vermelhidão” é pós-procedimento, não rosácea: gel com 0,05% de ECa 233 reduziu o índice de eritema pós-laser (p=0,046) num RCT split-face com 30 pessoas (Damkerngsuntorn et al., 2020).
- Uma revisão sistemática de RCTs de centella encontrou apenas 5 estudos — todos em queimadura, úlcera diabética, cicatriz hipertrófica, enxerto ou ferida pós-laser; nenhum em rosácea (Hongsing et al., 2022).
- O único RCT direto em rosácea usou a centella combinada, não isolada: máscara + minociclina oral melhorou IGA e rubor facial em 54 pacientes, mas não separou o efeito da centella dos demais componentes (Wang et al., 2024).
- Concentração não tem dose-resposta estabelecida para vermelhidão: o RCT de reparo usou 0,05%; produtos de mercado variam de 0,1% a mais de 5% sem estudo dedicado que sustente “mais forte, mais eficaz” (Johnson et al., 2023).
- Vasinhos e rosácea pedem investigação da causa, não só cosmético: a avaliação individual é o que direciona o cuidado — a centella entra como suporte de barreira, não como tratamento isolado comprovado.
- Damkerngsuntorn W, Rerknimitr P, Panchaprateep R, Tangkijngamvong N, Kumtornrut C, Kerr SJ, Asawanonda P, Tantisira MH, Khemawoot P. The Effects of a Standardized Extract of Centella asiatica on Postlaser Resurfacing Wound Healing on the Face: A Split-Face, Double-Blind, Randomized, Placebo-Controlled Trial. J Altern Complement Med, 2020;26(6):529–536 — n=30; ECa 233 0,05% reduziu índice de eritema (p=0,046) e melhorou aspecto da ferida pós-laser.
- Wang Y, et al. A two-center randomized controlled trial of a repairing mask as an adjunctive treatment for mild to moderate rosacea. J Cosmet Dermatol, 2024;23(10):3281–3286 — n=54 concluintes; máscara de centella como adjuvante à minociclina oral melhorou IGA e rubor facial (p=0,037), sem isolar o efeito da centella.
- Bonté F, Dumas M, Chaudagne C, Meybeck A. Comparative activity of asiaticoside and madecassoside on type I and III collagen synthesis by cultured human fibroblasts. Ann Pharm Fr, 1995;53(1):38–42 — colágeno tipo I aumentado 25–30% por ambos; só madecassosídeo aumentou colágeno tipo III de forma significativa.
- Witkowska K, Paczkowska-Walendowska M, Garbiec E, Cielecka-Piontek J. Topical Application of Centella asiatica in Wound Healing: Recent Insights into Mechanisms and Clinical Efficacy. Pharmaceutics, 2024;16(10):1252 — revisão de mecanismo (TNF-α, IL-6, iNOS/COX, colágeno tipo I, fibronectina) e do escopo de evidência clínica, majoritariamente em cicatrização, não rosácea.
- Su Z, Zheng Y, Yi J, Lai W, Ye C. The Effectiveness and Safety of a Skin Care Product With Centella asiatica Leaf Extract, Ceramide NP, and Panthenol in Subjects With Sensitive Skin: A Prospective, Observational Study. J Cosmet Dermatol, 2025;24(7):e70324 — n=88; escore SS-10 reduzido 66% (semana 2) e 76% (semana 4); TEWL reduzida, hidratação aumentada.
- Johnson W Jr, Bergfeld WF, Belsito DV, Hill RA, Klaassen CD, Liebler DC, Marks JG Jr, Shank RC, Slaga TJ, Snyder PW, Gill LJ, Heldreth B. Safety Assessment of Centella asiatica-Derived Ingredients as Used in Cosmetics. Int J Toxicol, 2023;42(1_suppl):5S–22S — painel CIR concluiu segurança nas concentrações e práticas de uso atuais, quando não sensibilizante.
- Hongsing P, Areesuk K, Atsalikon N, Pitiwattanakulchai R, Wei CJ. A Systematic Review of Randomized Controlled Trial on Efficacy of Centella asiatica for Wound Healing. J Health Sci Altern Med, 2022;(Special Vol. 2nd ICIM):109–115 — 5 RCTs identificados (queimadura, úlcera diabética, cicatriz hipertrófica, enxerto, ferida pós-laser); nenhum em rosácea.