Apostila 3/9 · Laser Não Ablativo × Sardas ou Efélides · Estudo

O protocolo real: comprimento de onda e sessões

Um estudo tratou sarda com 1 única sessão. Outro usou entre 10 e 15. Entre eles, protocolos de 2 a 8 sessões, em três comprimentos de onda diferentes (532nm, 755nm, 1064nm). Essa variação enorme não é bagunça nem indecisão da ciência — é o próprio achado desta apostila, e ele muda como você deve ler qualquer número de sessão que aparecer numa clínica.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O laser não ablativo é um procedimento que utiliza dispositivo médico, realizado por profissional habilitado. Este material tem finalidade exclusivamente informativa e educativa. Os comprimentos de onda, números de sessão e intervalos citados aqui descrevem o que estudos científicos publicados usaram em pesquisa — não são uma dose, receita ou protocolo para o leitor seguir, exigir de um profissional ou usar como régua de “quantidade certa de sessões”. A definição real de qualquer parâmetro para um caso específico — inclusive o número de sessões — depende de avaliação individual (tipo de pele, densidade de sarda, tecnologia disponível), feita no consultório, e não deste material.

Se você pesquisar “quantas sessões de laser para sarda”, vai encontrar respostas que variam de “resolve numa sessão” a “programe um pacote de mais de dez”. As duas informações existem na literatura — e isso não é motivo para desconfiar da ciência. É motivo para entender por que ela não convergiu ainda para um número único, ao contrário do que a maioria dos textos de marketing sugere quando anuncia “o protocolo ideal”.

Esta apostila reúne, lado a lado, os parâmetros exatamente como cada estudo publicou — comprimento de onda, número de sessões, intervalo entre elas — nos cinco trabalhos com esse dado disponível. Depois, explica a razão estrutural para a variação: não é que ninguém sabe o número certo. É que cada estudo foi desenhado para responder uma pergunta diferente, e o número de sessões é consequência do desenho, não uma dose otimizada testada contra outras doses.

De 1 a 15 sessões, em três comprimentos de onda — a variação é o próprio dado

O levantamento localizou cinco estudos com parâmetro de sessão relatado, cobrindo três famílias de laser Q-switched: 532nm (Rashid, 2002; Sarkar, 2025), 755nm Alexandrite (Wang, 2006; Ho, 2011) e 1064nm (Zheng, 2023). O número de sessões variou de 1 a 15 — a faixa mais larga já registrada num levantamento de protocolo desta série. No extremo mais curto, Wang et al. (2006) e Ho et al. (2011) trataram sarda com uma única sessão por lado da face, em desenho split-face. No extremo mais longo, Zheng et al. (2023) usaram 10 a 15 sessões, com intervalo de 10 a 15 dias entre cada uma — o protocolo mais longo de todo o levantamento desta série.

EstudoComprimento de ondaParâmetro técnico relatadoSessõesIntervalo
Wang et al., 2006755nm Alexandrite, Q-switchedFluência não detalhada no abstract consultado; comparado a IPL (2 sessões) no mesmo desenho split-face1Sessão única
Ho et al., 2011755nm Alexandrite — Q-switched (50ns) × long-pulsed (100µs)Fluência não detalhada no abstract consultado; comparação split-face entre dois modos de pulso1Sessão única
Sarkar et al., 2025532nm Nd:YAG, Q-switchedFluência não detalhada no abstract consultado; Fitzpatrick IV-V2Mensal (~30 dias)
Rashid et al., 2002532nm Nd:YAG, Q-switchedFluência não detalhada no abstract consultado; N=10 com sarda (Fitzpatrick IV)3 a 84 a 12 semanas
Zheng et al., 20231064nm Nd:YAG, Q-switched2,0-3,3 J/cm², spot 6-8mm, 10Hz, pulso de 10ns10 a 1510 a 15 dias
Como ler os parâmetros técnicos citados aqui

Quando esta apostila cita “2,0-3,3 J/cm²” ou “10 a 15 sessões”, está descrevendo o que aquele ensaio específico usou como parâmetro de pesquisa — não uma configuração recomendada para o leitor pedir ou o profissional replicar. Em quatro dos cinco estudos revisados, a fluência exata (J/cm²) não estava disponível no resumo consultado — é uma lacuna real da literatura acessível, e esta apostila prefere declarar essa lacuna a preenchê-la com uma estimativa.

Onde cada estudo ficou na faixa de sessões
Ilustrativo — ordena os estudos pelo número de sessões relatado, não é uma escala de “melhor resultado com mais sessão”
Wang 2006 (755nm)
1
Ho 2011 (755nm)
1
Sarkar 2025 (532nm)
2
Rashid 2002 (532nm)
3 a 8
Zheng 2023 (1064nm)
10 a 15
Barras proporcionais ao número máximo de sessões relatado em cada estudo — servem para ordenar visualmente a amplitude, não para comparar eficácia entre elas. Nenhum desses cinco estudos testou o mesmo desenho experimental, então a barra maior não significa “resultado melhor”.
Por que a variação existe: cada número de sessão responde a uma pergunta diferente

A razão estrutural para essa amplitude de 1 a 15 sessões não é falta de consenso — é que os cinco estudos têm objetivos de desenho diferentes. Wang (2006) e Ho (2011) usaram sessão única em split-face porque a pergunta de pesquisa era comparativa: qual tecnologia (Alexandrite × IPL; Q-switched × long-pulsed) reduz mais pigmento no mesmo paciente, no mesmo momento — uma sessão basta para medir essa diferença. Rashid (2002) e Sarkar (2025) trataram até a resposta clínica satisfatória, o que levou a protocolos de 2 a 8 sessões. Zheng (2023) testou um curso de tratamento mais longo, de 10 a 15 sessões a cada 10-15 dias — desenho voltado a avaliar resposta cumulativa ao longo do tempo, não a comparar tecnologias entre si.

Um erro muito comum

Achar que existe “o” número certo de sessões escondido nessa variação — como se 1, 8 e 15 sessões fossem respostas concorrentes para a mesma pergunta, e uma delas estivesse “errada”.

Não são respostas concorrentes. São desenhos de pesquisa diferentes, medindo coisas diferentes, em populações diferentes (Fitzpatrick IV em Rashid; IV-V em Sarkar; não especificado em Wang, Ho e Zheng, mas todos os cinco em pele mais pigmentada — tema da apostila 4). Nenhum dos cinco estudos comparou, dentro da mesma tecnologia, “2 sessões” contra “10 sessões” para o mesmo tipo de sarda. Tratar essa faixa de 1 a 15 como um intervalo de confiança em torno de um número ideal é uma leitura estatisticamente incorreta dos próprios dados.

O certo: entender que a ciência ainda não respondeu “quantas sessões são necessárias para a sarda” como pergunta comparativa direta — o número que faz sentido para cada caso é definição de avaliação individual, no consultório, considerando densidade de pigmento, fototipo e tecnologia disponível.

A lacuna que esta apostila não vai fingir que não existe: a fluência

Zheng et al. (2023) é o único estudo, dos cinco revisados, com parâmetro de energia completo: 2,0 a 3,3 J/cm², spot de 6 a 8mm, frequência de 10Hz e pulso de 10 nanossegundos. Nos outros quatro — Wang (2006), Ho (2011), Sarkar (2025) e Rashid (2002) — o resumo consultado não detalha a fluência exata em J/cm² usada no tratamento da sarda. Isso significa que, hoje, é possível reconstituir o número de sessões e o intervalo de quatro estudos com precisão, mas não a intensidade de energia aplicada em cada disparo — uma peça de informação que normalmente pesa tanto quanto o número de sessões na resposta clínica.

Fato

Cinco estudos, três comprimentos de onda, protocolos de 1 a 15 sessões — todos com resultado positivo relatado (detalhado na apostila 2). A variação de desenho é real e documentável.

Debate

Não existe, até este levantamento, um estudo que compare diretamente “quantas sessões, na mesma tecnologia e no mesmo comprimento de onda, produzem mais clareamento de sarda”. Nem tampouco a fluência exata usada em quatro dos cinco protocolos é conhecida publicamente. A convergência que existiria “na prática clínica” fica fora do escopo desta apostila — que trata só do que os estudos publicaram.

A Sacada dos DoutoresA variação de 1 a 15 sessões é informação, não indecisão

Quando reuni esses cinco estudos lado a lado, a primeira reação é estranhar a distância entre “1 sessão” e “10 a 15 sessões” — dá a impressão de que a ciência não sabe o que está fazendo. É o contrário: cada número reflete uma pergunta de pesquisa diferente, e ler isso com essa lente é que é a leitura honesta. O que ainda falta — e prefiro dizer isso a inventar um número — é um estudo que compare doses e sessões dentro da mesma tecnologia, no mesmo tipo de sarda, para responder de fato “quanto é o suficiente”. Até esse estudo existir, o número de sessões do seu caso não vem de uma média entre 1 e 15; vem de avaliação individual, olhando a densidade da sua sarda, seu fototipo e a tecnologia disponível no consultório.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Cinco estudos, três comprimentos de onda: 532nm (Rashid 2002, Sarkar 2025), 755nm Alexandrite (Wang 2006, Ho 2011) e 1064nm (Zheng 2023).
  • O número de sessões variou de 1 a 15 — a faixa mais ampla já documentada nesta série; não existe “o” protocolo padrão testado na literatura.
  • A sessão única (Wang, Ho) não é “menos tratamento” — é desenho comparativo split-face, feito para medir tecnologia contra tecnologia, não resposta cumulativa.
  • Zheng et al. (2023) usaram o protocolo mais longo: 10 a 15 sessões, intervalo de 10-15 dias — e é o único com fluência completa (2,0-3,3 J/cm²).
  • Em 4 dos 5 estudos, a fluência exata não está disponível no resumo consultado — uma lacuna real da literatura, declarada aqui em vez de estimada.
  • Nenhum estudo comparou densidade/sessão dentro da mesma tecnologia — então a variação observada não permite apontar um número “ótimo”.
  • O número de sessões de cada caso é decisão de avaliação individual — depende de fototipo, densidade de sarda e tecnologia disponível, não de uma média entre os estudos.
O próximo passo

Reparou que os cinco estudos desta apostila têm algo em comum além da variação de sessões? Quase todos foram conduzidos em pele mais pigmentada — chinesa, indiana, do sul da Ásia. A apostila 4 entra no primeiro pilar da série: o que essa concentração de evidência num tipo de pele significa para quem tem sarda de pele clara — justamente onde a sarda é mais comum. Para revisitar o que os estudos mostram sobre eficácia antes de entrar no protocolo, volte à apostila 2 da série.

Referências
  1. Wang CC, Sue YM, Yang CH, Chen CK. A comparison of Q-switched alexandrite laser and intense pulsed light for the treatment of freckles and lentigines in Asian persons. J Am Acad Dermatol, 2006;54(5):804-810 — sessão única, split-face; Alexandrite 755nm superior ao IPL (2 sessões) em sarda, p=0,04.
  2. Ho SGY, Yeung CK, Chan NPY, Shek SYN, Kono T, Chan HHL. A comparison of Q-switched and long-pulsed alexandrite laser for the treatment of freckles and lentigines in oriental patients. Lasers Surg Med, 2011;43(2):108-113 — N=20, sessão única split-face, 755nm Q-switched (50ns) × long-pulsed (100µs); eficácia comparável, PIH 22% (QS) vs 6% (LP).
  3. Sarkar R, et al. Efficacy and Safety of Q-Switched Neodymium-Doped Yttrium Aluminum Garnet 532 nm in Freckles in Skin of Color Patients. J Cutan Aesthet Surg, 2025;18(4):273-277 — 2 sessões mensais, 532nm; 60% do grupo laser com ≥51% de melhora vs 10% do controle (p<0,05).
  4. Rashid T, Hussain I, Haider M, Haroon TS. Laser therapy of freckles and lentigines with quasi-continuous, frequency-doubled, Nd:YAG (532 nm) laser in Fitzpatrick skin type IV: a clinical and histopathological study. J Cosmet Laser Ther, 2002;4(3-4):81-85 — N=10 com sarda, 3 a 8 sessões, intervalo de 4-12 semanas, 532nm; 80% (16/20 no total do estudo) com >50% de melhora.
  5. Zheng H, Qiao G, Zhang Y. Efficacy of Q-Switched Nd:YAG Laser in the Treatment of Freckles. Int J Clin Pract, 2023;art. 4081427 — texto completo: PMC10335754. 1064nm, 2,0-3,3 J/cm², spot 6-8mm, 10Hz, pulso 10ns, 10 a 15 sessões, intervalo 10-15 dias — o protocolo mais longo do levantamento.
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