Toxina Botulínica na Região Perioral: o Que a Ciência Mostra sobre Lip Flip, Código de Barras, DAO e Sorriso Gengival
Lábio que “some” ao sorrir, rugas verticais que aparecem ao beber no canudo, cantos da boca que parecem sempre tristes — quatro queixas, um mesmo ativo. Mas na região perioral a toxina se aplica em unidades pequenas e milímetros de distância: a diferença entre o efeito desejado e uma boca que não fecha direito é uma questão de dose e de técnica, não de “quanto mais, melhor”. Veja o que os estudos mostram — e quando essa não é a ferramenta certa.
A toxina botulínica tipo A na região perioral é um procedimento injetável, ato de profissional biomédico habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — reúne o que os estudos científicos mostram sobre o uso da toxina no lip flip, nas rugas periorais (“código de barras”), no músculo depressor do ângulo da boca (DAO) e no sorriso gengival. Não é indicação fechada nem substitui avaliação individual. As doses citadas aqui são as usadas nos estudos, como informação científica — a dose, o ponto de aplicação e a indicação corretos para o seu caso dependem de exame clínico presencial, da anatomia facial e da força muscular de cada pessoa.
É comum alguém pedir “toxina para deixar o lábio mais cheio”. E aí mora a primeira confusão que esta apostila resolve: a toxina botulínica não repõe volume nenhum — ela relaxa músculo. O que ela faz na região perioral é reposicionar: destrava o “cordão” que puxa o lábio superior pra dentro ao sorrir, suaviza a ruga vertical que aparece ao franzir os lábios, levanta um canto de boca que o tempo deixou caído, ou reduz a mostra de gengiva de um sorriso muito aberto. Quatro problemas diferentes, quatro pontos de aplicação diferentes — e a mesma lógica por trás de todos: dose pequena, no lugar certo, sem exagerar.
Essa é também a parte que exige mais honestidade. A região perioral trabalha o dia inteiro — falar, beijar, beber, sorrir, assobiar, segurar um canudo — e cada um desses movimentos depende de um músculo que, se relaxado demais ou no lugar errado, deixa de responder direito. Nesta apostila, mostro o que os estudos usaram de dose e de técnica em cada uma das quatro indicações, o que eles mediram de resultado e de efeito colateral, e por que “a dose mínima eficaz” não é só um jargão de bula — é o que decide se o resultado fica natural ou se compromete uma função que ninguém quer perder.
O orbicular da boca funciona como um “cordão de bolsa”: ao se contrair, franze e recolhe o lábio superior — é esse mesmo movimento que, com a idade e a perda de tônus, faz o lábio “sumir” quando a pessoa sorri ou fala. O lip flip não acrescenta volume: relaxa parcialmente as fibras superficiais desse músculo perto da borda do vermelhão, o que reduz a força de fechamento vertical e permite uma leve eversão do lábio superior, deixando-o mais visível em repouso e no sorriso.
Uma revisão sistemática de 2025 que avaliou 48 artigos e selecionou 7 com dados detalhados de dose e técnica encontrou um padrão consistente: a técnica usa 4 a 6 unidades de toxina botulínica tipo A aplicadas no orbicular da boca, com eversão do lábio superior e melhora de contorno relatadas de forma consistente entre os estudos incluídos (Pitchford, Desrosiers & Tolkachjov, 2025). Os efeitos colaterais descritos foram leves e transitórios: dificuldade passageira para assobiar ou para beber no canudo, resolvendo em poucas semanas — exatamente os movimentos que dependem desse mesmo músculo.
As rugas verticais do lábio superior — o “código de barras” — nascem da contração repetida do orbicular da boca ao longo dos anos, somada à perda de colágeno da pele fina dessa região. Um dos primeiros estudos a tratar essas rugas com toxina botulínica, em 18 pacientes, injetou o ativo diretamente nas rugas verticais do lábio e observou suavização das linhas hiperfuncionais e maior plenitude/eversão do lábio superior; 72% das pacientes optaram por continuar o tratamento após a avaliação inicial, feita 2 a 3 semanas após a aplicação (Semchyshyn & Sengelmann, 2003).
Uma publicação mais recente detalha a dose por gravidade da ruga, com uma técnica paracomissural que trata o lábio superior de forma mais homogênea: para o código de barras “iniciante” (visível só ao movimento), a dose usada foi de 8–10 unidades Speywood (equivalentes a 4 unidades Allergan/onabotulinumtoxinA); para o código de barras já marcado em repouso, a dose subiu para 10–20 unidades Speywood (4–8 unidades Allergan) — em 63 pacientes, com 79% de resultados considerados positivos e efeito mantido por 4 a 6 meses, chegando a 18 meses quando combinado a preenchedor de ácido hialurônico (Molé, 2024). O mesmo estudo relatou extravasamento de líquido pelos lábios em 6% dos casos, atribuído a doses excessivas de toxina — um lembrete direto de que “mais forte” não é sinônimo de “mais seguro” nessa região.
O depressor do ângulo da boca (DAO) é o músculo que, ao contrair, traciona os cantos da boca para baixo — com a perda de tônus facial, essa tração passa a predominar mesmo em repouso, dando a impressão de expressão triste ou de raiva mesmo quando não há nenhuma emoção envolvida. Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 20 participantes de 18 a 65 anos, testou uma técnica de 3 pontos de injeção no DAO superior, com 1,5 unidade de onabotulinumtoxinA por ponto. Na 4ª semana, 100% dos participantes tratados apresentaram melhora em relação ao início do estudo, contra 90% do grupo placebo sem qualquer mudança (p<0,001); a melhora se manteve estatisticamente significativa até a 12ª semana (Moradi, Khalifian, Alghoul & Poehler, 2023).
A proximidade do DAO com outros músculos perioperiorais é o que torna essa aplicação sensível à técnica: uma revisão sobre toxina na região oral e maxilofacial descreve que a injeção acidental no músculo depressor do lábio inferior pode causar dificuldade para sorver líquidos, e que a mira imprecisa entre os músculos leva a assimetria do sorriso — daí a técnica de 3 pontos estritamente no DAO superior, e não em qualquer ponto do sulco labiomandibular (Hong, 2023).
O “sorriso gengival” acontece quando os músculos elevadores do lábio superior — sobretudo o levantador do lábio superior e da asa do nariz — puxam o lábio para cima com força desproporcional, expondo mais gengiva do que o esperado ao sorrir. Um ensaio randomizado com 49 participantes com exposição gengival anterior de pelo menos 3 mm comparou duas técnicas com a mesma dose total: injeção em ponto único bilateral (o “ponto Yonsei”), com 3 unidades de cada lado (6 U no total), contra a técnica tradicional de dois pontos por lado no músculo elevador. Ambas reduziram significativamente a exposição gengival nas semanas 4, 12 e 24 (p≤0,05), com boa satisfação dos participantes nos dois grupos — a exposição voltou gradualmente ao valor basal por volta da 48ª semana (Gong et al., 2024).
Um estudo anterior, com 30 pacientes, documentou a magnitude do efeito: a exposição gengival média caiu de 5,2 mm (±1,4 mm) para 0,09 mm (±1,06 mm) em apenas 2 semanas — uma elevação média do lábio de 5,1 mm — com projeção estatística de retorno gradual ao valor basal entre a 30ª e a 32ª semana (Polo, 2008). É um efeito rápido de instalar e visualmente marcante, mas também temporário: sorriso gengival tratado com toxina pede reaplicação periódica, não é solução definitiva.
Comparados a áreas como a testa ou a glabela, os pontos de aplicação perioral trabalham com doses baixas e margens de segurança estreitas — porque a boca é, ao mesmo tempo, estética e função. A mesma revisão que descreve os riscos do DAO resume o princípio que atravessa as quatro indicações desta apostila: “doses baixas de toxina são recomendadas” na região oral porque incompetência funcional, assimetria facial, depressão ou elevação indesejada do lábio podem ocorrer quando a dose ou o ponto de aplicação erram o alvo (Hong, 2023). Não é uma frase de cautela genérica — é a mesma lógica por trás dos números que você viu até aqui: 4–6 U no lip flip, 4 a 8 U no código de barras conforme a gravidade, 1,5 U por ponto no DAO, 3 U por lado no sorriso gengival. Nenhuma dessas indicações usa “o quanto o músculo aguentar” como critério.
Quem toca instrumento de sopro (flauta, saxofone, trompete) ou depende de força labial precisa para o trabalho ou o lazer deve discutir isso antes de qualquer aplicação perioral — a mesma redução de força que suaviza uma ruga pode atrapalhar a embocadura. Quem usa prótese dentária móvel mal adaptada também exige avaliação prévia: menos tônus labial pode comprometer a retenção da prótese durante a fala e a mastigação. E quem busca lábio “cheio” — mais volume, não menos ruga ou mais eversão — está pedindo o resultado de um preenchedor, não de uma neuromodulação; aplicar toxina com essa expectativa tende a frustrar, mesmo com a técnica correta.
| Indicação | Dose usada no estudo | Duração do efeito | Atenção principal |
|---|---|---|---|
| Lip flip (lábio que “some”) | 4–6 U no orbicular, borda do vermelhão (Pitchford et al., 2025) | Não padronizada nos estudos revisados; efeitos leves resolvem em semanas | Dificuldade transitória para assobiar/beber no canudo |
| Código de barras | 4 U (iniciante) a 4–8 U (marcado) (Molé, 2024) | 4–6 meses; até 18 meses combinado a preenchedor | Extravasamento de líquido em 6% com doses excessivas |
| DAO (cantos caídos) | 1,5 U por ponto × 3 pontos, DAO superior (Moradi et al., 2023) | Melhora sustentada até 12 semanas (p<0,001) | Mira imprecisa gera assimetria; atingir o depressor do lábio inferior atrapalha sorver líquidos (Hong, 2023) |
| Sorriso gengival | 3 U de cada lado, ponto único (6 U total) (Gong et al., 2024) | Reduz exposição até a semana 24; retorna à base por volta da semana 48 | Dose deve respeitar a gravidade da exposição gengival |
Pedir “toxina no lábio” esperando o resultado de um preenchimento — lábio visivelmente mais volumoso, mais carnudo.
A toxina botulínica não adiciona volume: ela relaxa músculo. No lip flip, o que ela entrega é uma leve eversão do lábio superior e menos ruga vertical, porque o músculo que antes “recolhia” o lábio para dentro passa a puxar menos (Pitchford, Desrosiers & Tolkachjov, 2025). Quem sai da aplicação comparando o resultado a um preenchimento de ácido hialurônico costuma se decepcionar — não porque o procedimento falhou, mas porque a expectativa era de outra ferramenta.
O certo: alinhar a expectativa antes de aplicar. Se o pedido é volume, a ferramenta é o preenchedor; se é reposicionamento — lábio mais visível, ruga suavizada, cantos da boca menos caídos, menos gengiva à mostra — a toxina é a ferramenta certa, sempre com avaliação individual e dose mínima eficaz.
A ciência sustenta bem as quatro indicações desta apostila: o lip flip everte o lábio superior com 4–6 U (Pitchford et al., 2025); o código de barras responde de forma dose-dependente à gravidade da ruga (Molé, 2024); o DAO relaxa com uma técnica de 3 pontos que melhora estatisticamente o canto da boca por até 12 semanas (Moradi et al., 2023); e o sorriso gengival reduz de forma consistente com um único ponto bilateral (Gong et al., 2024). O que amarra os quatro é a mesma variável: a região perioral trabalha o dia inteiro em falar, comer, beijar e sorrir, e por isso todos os estudos usam unidades baixas e pontos de aplicação estritos — não porque a toxina seja “fraca” nessa área, mas porque a margem entre o efeito estético desejado e uma função comprometida é estreita. Quando a dose e a técnica respeitam essa margem, o resultado tende a ser natural; quando não respeitam, o preço é pago em fala, sucção ou expressão. A decisão de quanto, onde e se aplicar é sempre uma avaliação individual — depende da força muscular de cada pessoa, da anatomia labial e do objetivo real de quem está sentado na cadeira.
- Lip flip não é preenchimento: 4–6 U no orbicular relaxam o músculo e evertem o lábio, sem adicionar volume (Pitchford et al., 2025).
- Código de barras tem dose por gravidade: 4 U quando a ruga aparece só ao movimento, 4–8 U quando já marcada em repouso; extravasamento de líquido em 6% dos casos com dose excessiva (Molé, 2024).
- DAO responde de forma testada em ensaio controlado: técnica de 3 pontos com 1,5 U/ponto melhorou 100% dos tratados na semana 4 (p<0,001), efeito sustentado até a semana 12 (Moradi et al., 2023).
- Sorriso gengival reduz com um ponto único bilateral: 3 U de cada lado (6 U total) reduzem a exposição gengival por até 24 semanas, retornando à base por volta da semana 48 (Gong et al., 2024).
- Doses baixas são regra, não exceção: a margem entre o efeito estético e a incompetência funcional é estreita em toda a região perioral (Hong, 2023).
- Há quem não deva fazer sem avaliação cuidadosa antes: músicos de instrumento de sopro, usuários de prótese móvel mal adaptada, e quem espera volume em vez de reposicionamento.
- Concentração, dose e ponto de aplicação são sempre decisão de avaliação individual com um profissional habilitado — este material não substitui essa avaliação.
Se o que te incomoda é o lábio que “some” ao sorrir, a ruga vertical que aparece ao beber no copo, os cantos da boca sempre caídos ou o excesso de gengiva à mostra, o ponto de partida não é decidir sozinho quantas unidades pedir — é avaliar, com um profissional habilitado, qual dessas quatro indicações (ou combinação delas) se aplica ao seu caso, e qual é a dose mínima eficaz para a sua anatomia e força muscular.
- Pitchford CA, Desrosiers AS, Tolkachjov SN. The lip flip: a systematic review of botulinum toxin lip augmentation. Arch Dermatol Res, 2025;317(1):765 — revisão de 7 estudos: dose de 4–6 U no orbicular da boca, eversão consistente, efeitos leves e transitórios.
- Semchyshyn N, Sengelmann RD. Botulinum toxin A treatment of perioral rhytides. Dermatol Surg, 2003;29(5):490–495 — 18 pacientes tratadas nas rugas verticais do lábio superior; suavização das linhas e maior eversão; 72% seguiram o tratamento.
- Molé B. Restauração do código labial por injeção simultânea “one shot” de toxina botulínica-ácido hialurônico na mesma seringa. Ann Chir Plast Esthet, 2024;69(1):2–16 — dose por gravidade (8–10 U Speywood/4 U Allergan no início; 10–20 U Speywood/4–8 U Allergan já marcada); 63 pacientes, 79% de resultado positivo, extravasamento de líquido em 6% com dose excessiva.
- Moradi A, Khalifian S, Alghoul MS, Poehler J. A Novel 3-Point Injection Technique for OnabotulinumtoxinA in the Upper Depressor Anguli Oris. Dermatol Surg, 2023;49(3):259–265 — ensaio randomizado controlado por placebo, 20 participantes; 1,5 U/ponto em 3 pontos; 100% de melhora na semana 4 (p<0,001), sustentada até a semana 12.
- Gong X, Tang HN, Zhang AR, Wang Z, Tang ZH, Han XF, Su JZ. Application of Botulinum Toxin at the Yonsei Point for the Treatment of Gummy Smile: A Randomized Controlled Trial. Plast Reconstr Surg, 2024;153(4):711e–721e — 49 participantes; 3 U de cada lado (6 U total) em ponto único; redução significativa da exposição gengival até a semana 24, retorno à base por volta da semana 48.
- Polo M. Botulinum toxin type A (Botox) for the neuromuscular correction of excessive gingival display on smiling (gummy smile). Am J Orthod Dentofacial Orthop, 2008;133(2):195–203 — 30 pacientes; exposição gengival de 5,2 mm para 0,09 mm em 2 semanas; projeção de retorno à base entre as semanas 30–32.
- Hong SO. Cosmetic Treatment Using Botulinum Toxin in the Oral and Maxillofacial Area: A Narrative Review of Esthetic Techniques. Toxins (Basel), 2023;15(2):82 — revisão que sustenta a recomendação de doses baixas na região oral e descreve os riscos de assimetria do sorriso e dificuldade de sucção por erro de ponto de aplicação no DAO.