Apostila 9 · Preenchimento com Ácido Hialurônico × Rugas de Marionete · O Limite

Onde a evidência para de sustentar a promessa — e o que fica de pé

Esta é a última apostila da série. Não traz um estudo novo: reúne o que as 8 anteriores já mostraram e traça, com honestidade, a linha entre o que a ciência sustenta sobre preenchimento na linha de marionete e o que ela ainda não prova.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O preenchimento da linha de marionete com ácido hialurônico é um PROCEDIMENTO INJETÁVEL — um ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Esta apostila de fechamento sintetiza o que a literatura científica reunida ao longo desta série sustenta e onde ela para de sustentar — nunca uma indicação fechada, uma promessa de resultado ou um diagnóstico. O que esperar no seu caso, e a conduta adequada a ele, depende de avaliação individual, feita por profissional habilitado.

Chegamos à última apostila desta série, e vale contar, em resumo, a jornada que fizemos juntos. Começamos pelo mecanismo: a linha de marionete não é uma ruga de superfície qualquer — é um sulco com componente estático (volume perdido na região perioral/mandibular) somado a um componente dinâmico (o músculo depressor anguli oris, DAO, puxando o canto da boca para baixo a cada expressão). Fomos aos números reais de resposta: existe melhora mensurável, mas nenhum estudo reúne, ao mesmo tempo, alta especificidade para essa linha e alto controle metodológico — por isso a força de evidência desta série é B, não A. Vimos o protocolo e a anatomia de segurança, os quatro cenários em que a causa pode ser outra, a combinação com toxina no DAO, a segurança vascular específica da região, a diferença entre o que o marketing promete e o que a ciência sustenta, e por quanto tempo o efeito realmente se mantém antes de qualquer decisão de retoque.

Esta apostila não traz um estudo novo. Ela faz o trabalho que só a última apostila de uma série pode fazer: amarrar tudo e responder a uma pergunta que ficou pendente ao longo do caminho — não “o preenchimento funciona?”, que a apostila 2 já respondeu com números, mas até onde essa resposta pode ir. Onde termina o que a evidência sustenta, e onde começa a expectativa que precisa ser calibrada pela conversa com um profissional habilitado, não pela vitrine de antes-e-depois.

A jornada desta série, em quatro movimentos
Como as 9 apostilas se encaixam — do mecanismo ao limite que fecha a série
Por que a linha existemecanismo (1) + números reais de resposta, força B (2)
Como se aplica com segurançaprotocolo e anatomia (3) + segurança vascular do queixo (6)
Quando não basta sozinhoquatro cenários em que a causa é outra (4) + combinação com toxina (5)
O que fica de pémarketing × ciência (7), quanto dura o efeito (8) e o limite (9)
Por que isso importa agora: cada movimento respondeu a uma pergunta diferente. Esta apostila não repete nenhuma delas — usa as respostas já dadas para traçar, de uma vez, a fronteira entre o que a série sustenta com fonte e o que ainda é expectativa a calibrar.
O teto que a própria evidência declara: nenhum RCT desenhado para esta linha

A apostila 2 já mostrou o motivo pelo qual esta série declara força de evidência B, e não A: não existe, na literatura levantada para esta série, nenhum ensaio clínico randomizado e controlado desenhado especificamente para a linha de marionete como desfecho primário. O que existe é o melhor que dois desenhos diferentes oferecem — o Estudo A (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025), prospectivo e dedicado a essa linha, mas aberto, single-arm, sem grupo controle; e o Estudo B (Burgess et al., 2025), um RCT robusto, mas desenhado para definição de mandíbula, no qual a marionete aparece como desfecho secundário. Nenhum dos dois, sozinho, é o “RCT ideal” que a especialidade tem para outras regiões.

Essa lacuna não é um detalhe técnico menor: é o teto real da promessa que a ciência atual permite fazer sobre essa linha específica. A revisão sistemática de Cohen e colaboradores (2013), que reuniu 53 relatos clínicos primários sobre preenchedores de ácido hialurônico, mostra exatamente onde esse teto se localiza — e por que ele é mais baixo aqui do que em outras regiões da face.

Força A — nível mais alto
Sulco nasogeniano
Concentra os RCTs face-divididos e cegos da revisão de Cohen et al. (2013) — o desenho de maior nível de evidência da especialidade
Base de RCTs cegos disponívelalta
Força B — nível desta série
Linha de marionete
No grupo de evidência mais baixa da mesma revisão: estudos abertos, não-randomizados ou retrospectivos (Cohen et al., 2013)
Base de RCTs cegos disponívelbaixa

As barras acima ordenam a posição relativa das duas regiões na classificação de qualidade de evidência da revisão de Cohen et al. (2013) — não são um percentual de RCTs medido pela própria revisão, que classifica por tipo de desenho, não por contagem direta comparável entre regiões.

O efeito declina — mesmo no melhor cenário que a literatura oferece

A apostila 2 apresentou o dado que precisa ser lembrado aqui, porque é ele que define a palavra “realista” nesta apostila de fechamento: no único estudo dedicado à linha de marionete (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025; N=83, 78 no mês 12), a proporção de participantes com melhora “melhorada/muito melhorada” no GAIS caiu de 98,8% no mês 1 para 50% no mês 12; a satisfação medida pelo FACE-Q caiu de +18,1 para +10,9 pontos no mesmo intervalo. Isso não é um efeito colateral do estudo ser aberto — é o comportamento natural de um preenchedor reabsorvível ao longo do tempo, e é o número mais honesto disponível sobre durabilidade nesta região específica.

Reforçando o ponto: mesmo o cenário em que o preenchimento tende a responder melhor — perda de volume predominante, com o DAO amortecido por pouco tecido de sustentação (cenário 1 da apostila 4) — não escapa dessa curva de declínio. “Força B” não significa “efeito fraco”; a resposta no mês 1 é real e mensurável. Significa que a confiança nesse efeito tem um teto mais baixo do que em áreas com mais evidência acumulada, e que o próprio efeito, mesmo positivo, não é estático no tempo.

O que esta série avaliouSustentado porVeredito
Preenchimento melhora a linha de marionete de forma mensurável69,9% com melhora ≥1 ponto na AMLS no mês 1 (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025)SUSTENTADO
Essa melhora se mantém estável ao longo de 12 mesesGAIS 98,8%→50%; FACE-Q +18,1→+10,9 pts no mesmo estudoNÃO — declina
Combinar toxina no DAO supera preenchimento isoladoCarruthers et al., 2010 (RCT N=90, 3 braços)SUSTENTADO — força B, estudo único
Existe RCT desenhado especificamente para linha de marionete como desfecho primárioCohen et al., 2013; cobertura de evidência desta sérieNÃO EXISTE
Força de evidência equivalente à do sulco nasogeniano (nível A)Cohen et al., 2013 — marionete no grupo de evidência mais baixaNÃO — teto é B
Preenchimento resolve sozinho o componente dinâmico (DAO)Mecanismo (apostila 1) e combinação (apostila 5)NÃO — só o volume
Se a causa predominante for outra (ex.: frouxidão de pele), o preenchimento isolado ainda entrega o mesmo resultadoQuatro cenários da apostila 4DEPENDE — avaliação individual

Esta tabela recicla apenas dados já verificados e citados nas apostilas anteriores desta série — é uma síntese de fechamento, não uma nova análise.

O que o preenchimento realisticamente entrega — e o que ele não entrega sozinho

Juntando o que as 8 apostilas anteriores mostraram, dá para escrever, com honestidade, duas listas curtas. O que o preenchimento com ácido hialurônico realisticamente entrega na linha de marionete, quando o componente volumétrico predomina: melhora mensurável no curto prazo (mês 1), avaliada tanto pelo investigador quanto pela própria paciente, com redução do estiramento dinâmico da região a ponto de se aproximar do perfil de uma face mais jovem (Percec et al., 2020). O que ele não entrega: um resultado permanente — o efeito declina ao longo de 12 meses, mesmo no estudo mais favorável; e não é “como se nunca tivesse tido” a linha — é redução mensurável, não apagamento.

O que ele também não resolve sozinho: a causa dinâmica, quando ela é a força predominante — aí a combinação com toxina no DAO tende a somar mais do que o preenchimento isolado (apostila 5, com o RCT de Carruthers et al., 2010, mostrando a combinação superior aos dois isolados na maioria dos desfechos). E não é solução única quando a causa predominante é outra — frouxidão de pele avançada, por exemplo, não medida como desfecho em nenhum dos estudos de eficácia desta série (apostila 4). Nas duas situações, a ferramenta certa pode não ser o preenchimento sozinho — e só a avaliação individual identifica qual é o caso.

Traduzindo o termo técnico

Força de evidência (A, B, C): uma forma padronizada de classificar o quanto se pode confiar numa afirmação científica, de acordo com o desenho dos estudos disponíveis — A é o nível mais alto (RCTs múltiplos, cegos, replicados), B é evidência real mas com desenho mais limitado ou em menor quantidade, C é opinião de especialista ou revisão narrativa. Força B não é “evidência ruim”: é evidência real, com teto de confiança mais baixo do que A. É a classificação usada ao longo de toda esta série (Cohen et al., 2013, como base do capítulo 2).

Um erro muito comum

Tratar “força de evidência B” como se fosse “não funciona” — ou, no extremo oposto, tratar um estudo de força B como se fosse uma garantia de resultado.

Os dois erros aparecem na prática, em direções opostas. O primeiro: alguém lê “força B, não A” e conclui que o preenchimento “não tem evidência” ou “não é confiável” — o que ignora os 69,9% de resposta clínica no mês 1 e o RCT que mostra a combinação superando os isolados. O segundo, mais comum: alguém vê o número mais bonito do estudo (98,8% de melhora) e trata como se fosse o resultado esperado e permanente, ignorando que o mesmo estudo mostra esse número caindo pela metade em 12 meses, sem grupo controle, com N de 83 participantes. Nenhum dos dois extremos é honesto com o que a literatura realmente mostra.

O certo: força B significa evidência real, com resposta mensurável no curto prazo, mas com um teto de confiança mais baixo do que áreas mais estudadas (como o sulco nasogeniano) — e com um efeito que declina no tempo. É essa calibração, nem otimista nem cética demais, que uma avaliação individual honesta transmite.

Como em qualquer procedimento injetável

Tudo o que esta série reuniu sobre mecanismo, números, protocolo, combinação e limite de evidência serve para uma única finalidade: preparar uma conversa mais informada com quem vai examinar o seu caso. O preenchimento com ácido hialurônico segue sendo um procedimento injetável, ato biomédico — a decisão de indicar, a técnica, o plano de aplicação e a conduta diante de qualquer intercorrência são sempre do profissional habilitado, após avaliação individual.

A Sacada dos DoutoresNove apostilas depois, a honestidade continua sendo o resultado

Se eu pudesse deixar uma única frase depois de nove apostilas, seria esta: a linha de marionete tem uma causa real (volume perdido e um músculo específico puxando por cima), uma resposta real ao preenchimento (medida, com número, no mês 1) e um limite real (o efeito cai com o tempo, e nenhum estudo até hoje foi desenhado especificamente para provar, com o rigor mais alto da especialidade, o que essa linha ganha com o procedimento). Nenhuma dessas três partes cancela as outras duas. Ignorar a primeira é subestimar a queixa; ignorar a segunda é negar um tratamento que ajuda; ignorar a terceira é prometer o que a ciência ainda não sustenta. A pergunta que fecha esta série não é “funciona ou não funciona” — é “o que, especificamente, este procedimento pode fazer pelo seu rosto, com que durabilidade, e o que ele não vai fazer sozinho”. Essa pergunta só se responde numa sala de avaliação, olhando para o seu caso — não numa apostila, por mais completa que ela seja.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta série inteira
  • A linha de marionete tem duas causas que se somam: perda de volume (estático) e a ação do músculo DAO puxando o canto da boca para baixo (dinâmico) — apostilas 1 e 3.
  • A resposta ao preenchimento é real, mas força B, não A: 69,9% de melhora clínica no mês 1 no único estudo dedicado, sem RCT desenhado especificamente para esta linha — apostila 2.
  • O efeito declina com o tempo, mesmo no melhor cenário: GAIS de 98,8% para 50% e satisfação de +18,1 para +10,9 pontos entre o mês 1 e o mês 12.
  • A causa nem sempre é a volumétrica: frouxidão de pele avançada e ação dinâmica isolada do DAO respondem diferente ao preenchimento sozinho — apostila 4.
  • Combinar toxina no DAO com preenchimento supera os dois isolados num RCT de 2010 — mas é um estudo, força B — apostila 5.
  • Nenhum estudo reúne, ao mesmo tempo, alta especificidade para a linha de marionete e alto controle metodológico — esse é o teto real da promessa que a ciência atual permite.
  • É procedimento injetável, ato biomédico: o que esperar, quanto vai durar e se este é o procedimento certo para o seu caso depende sempre de avaliação individual, feita por profissional habilitado.
O próximo passo

Esta é a última apostila da série — não há uma próxima a indicar, porque a peça que falta agora não está em mais nenhum texto. As 9 apostilas juntas dão o mapa: o mecanismo, os números reais, o protocolo, quando a causa é outra, a combinação, a segurança, o limite da evidência. O que elas não podem fazer é examinar o seu rosto específico. Esse é exatamente o papel da avaliação individual com a Dra. Daniele Florêncio: entender qual componente predomina no seu caso, calibrar a expectativa com os números reais desta série, e decidir juntos se e como o preenchimento se encaixa na sua situação.

Referências
  1. Ruiz Del Cueto S, Urdiales Gálvez F, Gritti A, et al. An Evaluation of VYC-17.5L for the Treatment of Marionette Lines: A Prospective, Open-Label, Postmarketing Study. J Cosmet Dermatol, 2024/2025;24(2):e16694. doi:10.1111/jocd.16694. PMID 39600229 — único estudo dedicado à linha de marionete; N=83 (78 no mês 12); base dos números de resposta e da curva de declínio recapitulados nesta apostila de fechamento.
  2. Cohen JL, Dayan SH, Brandt FS, Nelson DB, Axford-Gatley RA, Theisen MJ, Narins RS. Systematic Review of Clinical Trials of Small- and Large-Gel-Particle Hyaluronic Acid Injectable Fillers for Aesthetic Soft Tissue Augmentation. Dermatol Surg, 2013;39(2):205-231. doi:10.1111/dsu.12036. PMID 23164066 — revisão sistemática de 53 relatos clínicos; base do teto de evidência e da comparação nasolabial (força A) × marionete (força B) desta apostila.
  3. Burgess CE, Dayan S, Bank D, Weinkle S, Sartor M, Chawla S, Keaney T. Hyaluronic Acid Filler VYC-25L for Jawline Restoration Yields High Satisfaction, Improved Jawline Measurements, and Sustained Effectiveness Across Skin Types, Age, and Gender for up to 12 Months. Aesthetic Surg J, 2025;45(1):98-107. doi:10.1093/asj/sjae172. PMID 39141784 — RCT com desfecho secundário de marionete (FACE-Q +32,6 pts); citado para sustentar por que o nível de evidência mais alto disponível não teve essa linha como alvo primário.
  4. Carruthers A, Carruthers J, Monheit GD, Davis PG, Tardie G. Multicenter, Randomized, Parallel-Group Study of the Safety and Effectiveness of OnabotulinumtoxinA and Hyaluronic Acid Dermal Fillers (24-mg/mL Smooth, Cohesive Gel) Alone and in Combination for Lower Facial Rejuvenation. Dermatol Surg, 2010;36 Suppl 4:2121-2134. doi:10.1111/j.1524-4725.2010.01705.x. PMID 21134044 — RCT N=90, base do dado de combinação superior aos isolados, recapitulado nesta apostila.
  5. Percec I, Bertucci V, Solish N, Wagner T, Nogueira A, Mashburn J. An Objective, Quantitative, Dynamic Assessment of Hyaluronic Acid Fillers That Adapt to Facial Movement. Plast Reconstr Surg, 2020;145(2):295e-305e. doi:10.1097/PRS.0000000000006461. PMID 31985621 — base do mecanismo dinâmico recapitulado nesta apostila de fechamento.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação fechada nem promessa de resultado. O preenchimento da linha de marionete com ácido hialurônico é um procedimento injetável, ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Esta apostila fecha uma série de 9 materiais educativos; os estudos e limitações citados refletem o que a literatura científica mostra, não uma recomendação de marca ou de autotratamento. O que esperar no seu caso depende sempre de avaliação individual.