Preenchimento de mento funciona mesmo? O que os RCTs pivotais mostram
Sete ensaios clínicos randomizados, somando cerca de 875 pacientes tratados, testando produtos e populações diferentes — e chegando à mesma conclusão desconfortável: nenhum deles mede “harmonização”. Todos medem um ângulo em graus ou uma escala validada, e em pelo menos dois estudos a resposta já cai antes de completar 12 meses.
Preenchimento de mento com ácido hialurônico é um PROCEDIMENTO INJETÁVEL — ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne o que ensaios clínicos randomizados publicados mostram sobre eficácia e desenho de estudo, nunca uma indicação fechada, um protocolo pronto ou uma promessa de resultado. Produto, volume e técnica são decisão clínica individual, tomada após avaliação presencial do mento, do perfil facial e do histórico de cada pessoa.
Na apostila anterior desta série, vimos o mecanismo: por que um mento retraído ou pouco projetado é, na maioria dos casos, uma questão de compartimento de gordura e suporte ósseo, não de “falta de personalidade” no rosto. Agora a pergunta muda para o terreno em que a ciência realmente precisa responder: o preenchimento funciona mesmo?
A resposta curta é sim, com evidência de força A. Mas a resposta completa é mais interessante — e mais honesta — porque revela como a ciência mede “funcionar” no mento: nunca por uma palavra de marketing como “harmonização” ou “perfil grego”, sempre por um número. Um ângulo craniofacial em graus, medido em fotografia padronizada, ou uma pontuação numa escala clínica validada. Sete RCTs pivotais, publicados entre 2022 e 2026, com populações americanas, europeias e chinesas, e cerca de 875 pacientes tratados ao todo, sustentam esta apostila.
Nos sete RCTs revisados aqui, o desfecho de eficácia é medido de duas formas complementares, nunca por autoavaliação estética livre. A primeira é o ângulo craniofacial — o mais citado é o G-Sn-Pog (glabela–subnasal–pogônio), o mesmo tipo de referência que descrevemos na apostila 1 sobre anatomia do mento, agora usado como régua de resultado antes e depois da injeção. A segunda é uma escala clínica validada específica para aumento de mento, aplicada por avaliador treinado sobre fotografia padronizada — nos estudos mais recentes de Xie et al. (2025), essa escala aparece como CACRS; em Liao et al. (2024/25), como Galderma CRS. Em ambos os casos, “responder” é cruzar um corte definido antes do estudo começar — normalmente uma melhora de pelo menos 1 ponto na escala —, não uma nota de satisfação isolada do paciente.
Essa escolha metodológica importa porque fecha a porta para o argumento subjetivo mais comum do marketing estético: dizer que um resultado “harmonizou o rosto” sem nunca precisar provar, com régua ou escala, o que mudou. Nos sete estudos desta apostila, isso não acontece — cada um decide “funcionou” com um instrumento reprodutível, cego quando possível, e comparado contra um grupo controle que não recebeu produto ativo.
O RCT de Liao Z et al. (2024/25), publicado em Aesthetic Plastic Surgery, randomizou N=200 participantes na proporção 3:1 — 150 no grupo tratado com o preenchedor Hyamax e 50 no grupo controle, sem produto ativo. Usando a escala Galderma CRS como desfecho, a taxa de resposta aos 6 meses foi de 70% no grupo tratado contra 0% no controle (p<0,0001) — uma diferença estatisticamente inequívoca. O dado que a maior parte do marketing não repete é o seguinte: aos 12 meses, a resposta no grupo tratado caiu para 54,67%, enquanto o controle seguiu em 0%. A vantagem sobre o placebo continua enorme — mas a proporção de pessoas ainda “respondendo” dentro da própria escala já encolheu quase um terço num único ano.
Grupo controle (N=50, sem produto ativo) manteve 0% de respondedores em ambos os prazos — a diferença contra o controle continua estatisticamente robusta; a queda de 70% para 54,67% é dentro do próprio braço tratado, ao longo do tempo. Fonte: Liao Z et al., Aesthetic Plastic Surgery, 2024/25.
O RCT de Xie Y et al. (2024), também em Aesthetic Plastic Surgery, testou o Restylane Defyne numa população chinesa. Aos 6 meses, 81% dos tratados responderam contra 5% do controle (p<0,001) — uma das maiores taxas de resposta precoce entre os sete estudos revisados. Aos 12 meses, a resposta caiu para 61% no grupo tratado. É o mesmo padrão observado em Liao et al.: resposta alta e clara contra o controle no primeiro semestre, seguida de queda real — não catastrófica, mas mensurável — antes de completar um ano.
O RCT pivotal americano do Restylane Defyne (2022), publicado em Plastic and Reconstructive Surgery, randomizou N=140 participantes (107 tratados, 33 controle). Na semana 12, a resposta foi de 81% contra 6% no controle; na semana 48 (quase 1 ano), 74% contra 11%. Entre os sete RCTs desta apostila, é o que documenta a queda proporcionalmente mais suave — de 81% para 74%, uma perda de 7 pontos percentuais, contra os 15 pontos de Liao et al. e os 20 pontos de Xie et al. (2024). Um ponto de honestidade: o texto completo deste estudo está atrás de paywall; os números aqui vêm da convergência entre o resumo publicado e citações posteriores da mesma equipe, não da leitura direta de todas as tabelas do artigo.
Nem todos os RCTs desta apostila comparam produto contra controle sem produto — Nikolis A et al. (2025/26), em Aesthetic Surgery Journal, comparou dois géis de AH diretamente entre si: Shaype contra Volux, num desenho head-to-head com N=40 participantes. O achado central não é uma taxa de resposta, mas um dado de eficiência: o grupo Shaype atingiu resultado equivalente usando 15,27% menos volume de produto, e obteve um ângulo nasomental estatisticamente melhor (p=0,02) que o Volux. É o único dos sete estudos que muda a pergunta de “responde ou não” para “quanto produto é necessário para o mesmo resultado” — uma pergunta prática direta para o planejamento do procedimento, que a apostila 3 desta série (protocolo e volumes) retoma.
Barras representam o volume de produto necessário para resultado equivalente, com Volux como base de referência (100%). Shaype também obteve ângulo nasomental estatisticamente superior (p=0,02). Fonte: Nikolis A et al., Aesthetic Surgery Journal, 2025/26.
O RCT de Xie Y et al. (2025), publicado em Aesthetic Surgery Journal, é fase 3, com N=148 participantes randomizados 2:1, testando o VYC-25L. É o desenho mais rigoroso entre os sete para responder à pergunta anti-óbvio desta apostila: quanto o preenchimento muda, em graus reais, o ângulo do perfil. A mudança no ângulo G-Sn-Pog foi de 2,97° no grupo tratado contra apenas 0,09° no controle (p<0,0001) — uma diferença de quase 3 graus atribuível ao produto, não ao acaso ou à variação natural da medição repetida. Na escala CACRS, a taxa de resposta foi de 78,7% contra 18,8% no controle.
Barras de ângulo redimensionadas para leitura visual (2,97° e 0,09° em escala de 0–3°); as barras de “respondedores” seguem a % real da escala CACRS. É o único par desta apostila com desfecho objetivo em graus E escala clínica, no mesmo estudo. Fonte: Xie Y et al., Aesthetic Surgery Journal, 2025.
O RCT de Xie Y et al. (2025), publicado em Aesthetic Plastic Surgery, testou o MaiLi-E em N=159 participantes (106 tratados, 53 controle). A resposta na escala CACRS foi de 64,2% contra 20,8% no controle (p<0,0001) — eficácia clara, ainda que a menor taxa de resposta absoluta entre os sete estudos desta apostila. O dado que merece destaque, e que este estudo declara com transparência incomum, é outro: 36,8% dos pacientes tratados precisaram de uma sessão de retoque para manter o resultado dentro do período avaliado. É um número que nenhuma peça de marketing tende a repetir — mas que muda a expectativa real de quem considera o procedimento: mais de 1 em cada 3 pessoas, neste estudo, não chegou ao resultado final apenas com a primeira sessão.
No RCT de Xie et al. (2025) com o MaiLi-E, mais de 1 em cada 3 pacientes tratados (36,8%) precisou de uma sessão adicional para manter o resultado. Isso não invalida a eficácia — a diferença contra o controle continua estatisticamente sólida (64,2% vs. 20,8%) — mas redefine o que “um procedimento” significa na prática: para uma fração relevante das pessoas, o plano realista inclui mais de uma sessão, não uma intervenção única.
O RCT de Nikolis A et al. (2024), publicado em Journal of Drugs in Dermatology, randomizou N=140 participantes (103 tratados, 37 controle) testando o Shaype. A resposta aos 3 meses foi de 83,3% — a maior taxa de resposta em qualquer prazo entre os sete estudos revisados — e o próprio estudo relata que essa resposta se sustentou até os 12 meses, sem a queda proporcional vista em Liao et al. ou Xie et al. (2024). É o contraponto que evita uma generalização apressada: nem todo RCT de mento mostra queda de resposta dentro do primeiro ano — mas a maioria dos estudos revisados aqui, sim, mostra.
Achar que “preenchimento de mento” é sinônimo de “harmonização facial” ou “perfil grego” — termos que nenhum dos sete RCTs pivotais usa como desfecho.
Nos sete estudos revisados nesta apostila, o resultado nunca é descrito como “harmonizado” ou “ideal” — é descrito em graus de ângulo craniofacial (G-Sn-Pog) ou em pontuação numa escala clínica validada (CACRS, Galderma CRS), sempre comparada contra um grupo controle sem produto ativo. “Harmonização” é um termo de mercado, útil para conversa, mas não é uma unidade de medida — e não aparece em nenhuma tabela de resultado dos ensaios aqui citados.
O certo: entender “funciona” como “muda um ângulo mensurável ou cruza um corte numa escala validada, com significância estatística contra controle” — e discutir a expectativa estética específica (o quanto, qual formato) na avaliação individual com o profissional habilitado.
| Estudo | N | Produto | Resultado principal |
|---|---|---|---|
| Liao et al., 2024/25 | 200 (150/50) | Hyamax | Galderma CRS 70% vs 0% (6m); 54,67% vs 0% (12m) |
| Xie et al., 2024 | N/D (pop. chinesa) | Restylane Defyne | 81% vs 5% (6m, p<0,001); 61% mantido (12m) |
| RCT pivotal EUA, 2022 | 140 (107/33) | Restylane Defyne | 81% vs 6% (sem.12); 74% vs 11% (sem.48) |
| Nikolis et al., 2025/26 | 40 | Shaype × Volux | Shaype: 15,27% menos produto; ângulo melhor (p=0,02) |
| Xie et al., 2025 (VYC-25L) | 148 (2:1) | VYC-25L | Δ ângulo 2,97° vs 0,09°; CACRS 78,7% vs 18,8% |
| Xie et al., 2025 (MaiLi-E) | 159 (106/53) | MaiLi-E | CACRS 64,2% vs 20,8%; 36,8% precisou de retoque |
| Nikolis et al., 2024 | 140 (103/37) | Shaype | 83,3% (3m), sustentado até 12m |
Sete RCTs, com sete produtos e populações diferentes, e nenhum deles precisou da palavra “harmonização” para provar eficácia. Todos usaram um número: um ângulo craniofacial em graus ou uma pontuação numa escala clínica validada, sempre comparados contra um grupo controle. É evidência de força A — consistente o bastante para eu confiar nela ao conversar com uma paciente sobre o que esperar. Mas a mesma evidência que prova eficácia também mostra o outro lado, que prefiro dizer em vez de esconder: em pelo menos três dos sete estudos, a resposta já cai de forma mensurável antes de completar 12 meses, e num deles mais de 1 em cada 3 pessoas precisou de uma sessão de retoque. Isso não é motivo para desconfiar do procedimento — é o material bruto para calibrar a expectativa antes de decidir, que é exatamente o papel de uma avaliação individual bem-feita.
- Sete RCTs pivotais, força A: cerca de 875 pacientes tratados ao todo, produtos e populações diferentes (americana, chinesa, canadense), resultados consistentes.
- “Funciona” é um número, não uma palavra de marketing: ângulo craniofacial em graus (G-Sn-Pog) ou escala clínica validada (CACRS/Galderma CRS) — nenhum estudo mede “harmonização”.
- A resposta cai já dentro do primeiro ano em vários estudos: Hyamax 70%→54,67% (6→12 meses); Defyne asiáticos 81%→61%; Defyne pivotal EUA 81%→74%.
- O estudo mais rigoroso em ângulo: VYC-25L mudou o perfil em 2,97° contra 0,09° do controle (p<0,0001) — quase 3 graus atribuíveis ao produto.
- Retoque é realidade documentada, não exceção: 36,8% dos tratados com MaiLi-E precisaram de sessão adicional para manter o resultado.
- Nem todo estudo mostra queda: Nikolis et al. (2024) relatou resposta de 83,3% aos 3 meses sustentada até 12 meses — a variação entre produtos existe e deve ser respeitada.
- É procedimento injetável: ato biomédico, realizado por profissional habilitado; a leitura destes RCTs não substitui a avaliação individual do mento e do perfil.
Com a eficácia documentada por sete RCTs, número e fonte, a pergunta muda de “funciona?” para “quanto produto, em qual plano e com qual técnica?” A próxima apostila da série detalha os volumes e a técnica usados nos próprios estudos citados aqui — incluindo o achado de Nikolis et al. sobre volume necessário. Leve estas informações à avaliação individual: quem examina o seu perfil e decide o protocolo é o profissional habilitado.
- Liao Z et al. RCT randomizado de aumento de mento com Hyamax. Aesthet Plast Surg, 2024/25 — N=200 (150 tratados/50 controle), 3:1. Resposta (Galderma CRS): 70% vs 0% (6 meses, p<0,0001); 54,67% vs 0% (12 meses).
- Xie Y et al. RCT de aumento de mento com Restylane Defyne em população chinesa. Aesthet Plast Surg, 2024 — 81% vs 5% respondedores (6 meses, p<0,001); 61% mantido em 12 meses.
- RCT pivotal do Restylane Defyne (EUA). Ensaio de registro para aumento de mento. Plast Reconstr Surg 150(6):1240e-1248e, 2022 — N=140 (107/33). 81% vs 6% (semana 12); 74% vs 11% (semana 48). Texto completo com acesso restrito (paywall); números verificados por convergência de resumo e citações posteriores.
- Nikolis A et al. Estudo comparativo direto Shaype × Volux para aumento de mento. Aesthetic Surg J 46(5):503, 2025/26 — N=40, head-to-head. Shaype usa 15,27% menos produto para resultado equivalente; melhor ângulo nasomental (p=0,02).
- Xie Y et al. RCT fase 3 do VYC-25L para aumento de mento. Aesthetic Surg J, 2025 — texto completo aberto. N=148 (2:1). Δ ângulo G-Sn-Pog: 2,97° vs 0,09° (p<0,0001); CACRS 78,7% vs 18,8%.
- Xie Y et al. RCT do MaiLi-E para aumento de mento. Aesthet Plast Surg, 2025 — texto completo aberto. N=159 (106/53). CACRS 64,2% vs 20,8% (p<0,0001); 36,8% precisou de retoque.
- Nikolis A et al. RCT do Shaype (HASHA) para aumento de mento. J Drugs Dermatol, 2024 — N=140 (103/37). Resposta 83,3% (3 meses), sustentada até 12 meses.