Apostila 3 · HIFU × pescoço flácido · Procedimento

Profundidade do HIFU no pescoço: por que não existe um número único certo

“Qual a profundidade ideal para o pescoço — 3,0mm, 4,5mm, 6,0mm?” É a pergunta mais comum sobre parâmetro de HIFU, e a resposta mais honesta é desconfortável: dois estudos prospectivos sérios usaram combinações diferentes de profundidade e modo de disparo, com resultados parecidos. O “número mágico” não existe — quem decide profundidade e energia por ponto é a anatomia individual, avaliada presencialmente.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

HIFU (ultrassom microfocado) é um procedimento estético baseado em energia — ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo. Ele descreve as profundidades, sondas e modos que os estudos citados usaram e mediram — não é indicação de parâmetro, não é receita, e não recomenda profundidade, energia ou número de passadas para o seu caso. O pescoço reúne pele mais fina que a da face, espessura de gordura variável e estruturas nervosas superficiais (nervo grande auricular, plexo cervical, ramo marginal do nervo mandibular) — por isso profundidade e energia por ponto só podem ser decididas depois de avaliação presencial por profissional habilitado, nunca escolhidas pelo leitor a partir de um artigo.

Se você já pesquisou sobre HIFU no pescoço, provavelmente esbarrou em alguma clínica prometendo “o protocolo certo” ou “a profundidade ideal” como se fosse uma fórmula fechada, igual para todo mundo. Faz sentido buscar um número — números parecem objetivos, parecem seguros. Mas quando se olha para a literatura publicada de verdade, a primeira coisa que aparece é justamente o contrário de um número único.

Dois estudos prospectivos, publicados com poucos anos de diferença, trataram pescoço e submento com combinações de profundidade diferentes — um foi de 3,0mm e 4,5mm; o outro, de 4,5mm e 6,0mm num modo de disparo distinto — e ambos relataram melhora relevante, com perfis de efeito diferentes entre si. Essa apostila não vai te dizer qual profundidade é “a certa”. Vai te mostrar por que essa pergunta, do jeito que costuma ser feita, já parte de uma premissa errada.

Dois estudos sérios, duas escolhas de profundidade diferentes

Serdar e colaboradores acompanharam 75 pacientes tratados no terço inferior da face e no pescoço com sondas de 3,0mm e 4,5mm combinadas na mesma sessão — a primeira mirando a derme mais superficial, a segunda alcançando a fáscia muscular superficial (SMAS). O resultado relatado foi melhora acima de 80% em submento, mandíbula e pescoço, mas o preço técnico dessa combinação apareceu nos efeitos: dor em 25,3% dos pacientes durante o procedimento, eritema transitório em 6,7%, e um caso de dormência mandibular transitória, resolvido em 10 dias (Serdar et al., 2020).

Goo e colaboradores, em estudo publicado em 2025 com 30 pacientes asiáticos tratados especificamente para gordura submentoniana indesejada, escolheram outro caminho: transdutores de 4,5mm e 6,0mm, disparados em modo Micro-Pulsado — uma forma de entregar a energia em pulsos, não de forma contínua. O relato foi de eficácia comparável, sem eventos adversos relevantes, com os efeitos transitórios (os esperados, como sensibilidade leve) resolvidos em até duas semanas (Goo et al., 2025). Duas equipes, duas combinações de profundidade, dois modos de disparo — e nenhuma delas alcançou o pescoço com o mesmo “manual”.

Serdar et al., 2020 · n=75
Sondas de 3,0mm + 4,5mm
Disparo convencional, terço inferior da face e pescoço
Melhora relatada>80%
Dor durante o procedimento25,3%
Dormência transitória1/75 (10 dias)
Goo et al., 2025 · n=30
Transdutores de 4,5mm + 6,0mm
Modo Micro-Pulsado, submento em pacientes asiáticos
Eficácia relatadaComparável
Eventos adversos relevantesNenhum
Resolução de efeitos transitóriosAté 2 semanas

Barras ilustrativas — comparam a ordem de grandeza relatada em cada estudo, não medem o mesmo desfecho com o mesmo instrumento; os dois estudos têm desenho, população e critério de melhora diferentes entre si.

Por que a profundidade muda: a energia precisa alcançar planos de tecido diferentes

A razão técnica por trás dessas escolhas diferentes está no próprio mecanismo do ultrassom microfocado. Um estudo cadavérico de referência mostrou que o HIFU cria zonas de lesão térmica seletivas e reprodutíveis na profundidade para a qual o transdutor é calibrado, poupando as camadas acima dela — ou seja, cada sonda “escuta” um plano específico de tecido, não uma faixa aproximada (White et al., 2007). Isso significa que a escolha de 3,0mm, 4,5mm ou 6,0mm não é estética nem arbitrária: é uma decisão sobre qual estrutura anatômica — derme mais superficial, derme profunda, fáscia muscular (SMAS) ou o teto do compartimento de gordura — a energia deve atingir naquele ponto específico do pescoço daquele paciente.

E o pescoço não é uma face em miniatura: a pele ali costuma ser mais fina, a espessura de gordura submentoniana varia muito de pessoa para pessoa, e a distância até estruturas de risco muda ponto a ponto. É por isso que um protocolo pensado para bochecha ou mandíbula não se transporta automaticamente para o pescoço sem reavaliação — e é por isso que dois estudos, tratando regiões próximas com objetivos parecidos, chegaram a combinações de profundidade diferentes e, ainda assim, a resultados na mesma faixa de melhora.

Profundidades usadas nos dois estudos — a régua não é uma escolha, é o retrato do que já foi publicado
Faixas de 3,0mm a 6,0mm citadas por Serdar et al. (2020) e Goo et al. (2025); ilustra o que os estudos usaram, não é receita nem indicação de profundidade para qualquer leitor aplicar.
3,0mm — derme superficial
Serdar, 2020
4,5mm — derme profunda / SMAS
Serdar + Goo
6,0mm — plano mais profundo
Goo, 2025
A largura da barra ordena a posição de cada profundidade na régua usada pelos dois estudos — não representa intensidade de efeito nem indica qual é “melhor”. A profundidade de 4,5mm aparece nos dois estudos, mas combinada com sondas diferentes e em modos de disparo diferentes; isso reforça que profundidade isolada não define o protocolo.
O efeito colateral também é parte da decisão de parâmetro — não é sorte

Um detalhe que costuma passar batido: a diferença de perfil de efeitos entre os dois estudos não é aleatória. Serdar et al. (2020) combinaram uma sonda mais superficial (3,0mm) com outra mais profunda (4,5mm) em disparo convencional, e relataram dor em quase 1 a cada 4 pacientes e um caso de dormência mandibular transitória. Goo et al. (2025) usaram sondas mais profundas (4,5mm e 6,0mm), mas em modo Micro-Pulsado — entrega da energia fracionada em pulsos — e não relataram nenhum evento adverso relevante. Modo de disparo, não só profundidade, parece pesar no perfil de conforto e segurança — o que é mais um argumento contra a ideia de “profundidade certa” isolada de todo o resto da configuração do aparelho.

Essa variabilidade de efeitos por combinação de parâmetro é coerente com o que uma revisão sistemática recente encontrou ao cruzar 19 estudos e 506 pacientes com registros do banco de eventos adversos da FDA (MAUDE): eventos sérios existem, mas são dominados por sequelas neurológicas — dano, dormência ou disestesia de nervo — quando a energia é entregue perto demais de estruturas nervosas mal mapeadas para aquele paciente específico (Humphrey et al., 2025). No pescoço, essas estruturas incluem o nervo grande auricular, ramos do plexo cervical e, na transição para a mandíbula, o ramo marginal do nervo mandibular — cuja posição, segundo uma meta-análise de 511 hemifaces, é altamente variável de pessoa para pessoa (Marcuzzo et al., 2020). Não existe tabela de profundidade que substitua esse mapeamento individual.

O pescoço tem nervos superficiais que mudam de lugar entre pacientes

Protocolos de HIFU voltados ao pescoço costumam incluir, como etapa técnica, o mapeamento do nervo grande auricular e de ramos do plexo cervical antes de qualquer disparo — inclusive em estudos que testam bloqueio anestésico local justamente nessas estruturas (Polacco et al., 2020). Somado à variabilidade de posição do ramo marginal do nervo mandibular (Marcuzzo et al., 2020), isso explica por que a escolha de profundidade e energia por ponto é uma decisão que só se faz depois de examinar o pescoço da pessoa à frente — nunca antes, e nunca por um número lido num artigo.

Um erro muito comum

Achar que existe uma profundidade “certa” universal para o pescoço — tipo “todo protocolo sério usa 4,5mm” — e julgar um atendimento pela distância entre o que foi feito e esse número decorado.

Essa ideia nasce de uma vontade legítima de ter um critério objetivo para avaliar qualidade. Mas os dois estudos prospectivos mais citados sobre parâmetro no pescoço e no terço inferior da face usaram combinações de profundidade diferentes — 3,0mm/4,5mm num, 4,5mm/6,0mm no outro, em modos de disparo distintos — e ambos relataram melhora relevante (Serdar et al., 2020; Goo et al., 2025). Se houvesse um número universal “certo”, não haveria dois protocolos publicados e bem-sucedidos tão diferentes entre si.

O certo: entender profundidade e energia como parte de uma decisão técnica composta — espessura da pele, gordura submentoniana, proximidade de nervos mapeados individualmente e objetivo daquele ponto específico — tomada pelo profissional habilitado durante a avaliação presencial, não copiada de um número visto num artigo ou numa clínica concorrente.

O que a apostila 4 vai trazer

Se a profundidade certa depende da anatomia individual, a pergunta seguinte é ainda mais prática: para quem o HIFU tende a funcionar melhor no pescoço, e para quem os estudos mostram resposta mais discreta? A próxima apostila desta série traz os dados sobre IMC e gravidade inicial da flacidez do pescoço como preditores de resposta — outro fator que reforça por que avaliação individual não é formalidade, é o que define o resultado.

A Sacada dos Doutores“Parâmetro certo” não é um número — é o resultado de uma anatomia examinada

O que mais chama atenção comparando Serdar et al. (2020) e Goo et al. (2025) lado a lado não é qual profundidade “ganhou” — é que nenhuma das duas precisou ganhar. Duas equipes, com sondas e modos de disparo diferentes, entregaram melhora relevante no submento e no pescoço, com perfis de efeito colateral também diferentes entre si. Isso não é inconsistência da ciência; é a confirmação de que profundidade, energia por ponto e modo de disparo formam, juntos, uma decisão técnica — não uma receita de bolo com medida fixa. No pescoço, essa decisão pesa ainda mais porque a pele é mais fina, a gordura varia de pessoa para pessoa, e nervos superficiais como o grande auricular e ramos do plexo cervical mudam de posição entre pacientes (Marcuzzo et al., 2020; Polacco et al., 2020). Por isso esta apostila não termina com uma tabela de “use tal profundidade para tal caso” — termina com o convite mais honesto que a evidência permite: leve a régua de possibilidades que os estudos publicaram para a avaliação presencial, e deixe que o profissional habilitado, examinando o seu pescoço, decida o resto.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Não existe uma profundidade “oficial” para o pescoço: Serdar et al. (2020, n=75) usaram sondas de 3,0mm e 4,5mm; Goo et al. (2025, n=30) usaram 4,5mm e 6,0mm em modo Micro-Pulsado — protocolos diferentes, resultados na mesma faixa de melhora.
  • Melhora relatada acima de 80% no estudo de Serdar (submento/mandíbula/pescoço) e eficácia descrita como comparável no de Goo, mesmo com combinações de parâmetro distintas.
  • O perfil de efeitos varia junto com o parâmetro: dor em 25,3% e um caso de dormência transitória (10 dias) no protocolo de Serdar; nenhum evento adverso relevante no protocolo em modo Micro-Pulsado de Goo.
  • A profundidade tem lógica anatômica, não estética: cada sonda mira um plano de tecido específico — derme superficial, derme profunda, SMAS — de forma seletiva e reprodutível (White et al., 2007).
  • O pescoço tem estruturas nervosas superficiais e variáveis — nervo grande auricular, plexo cervical e ramo marginal do nervo mandibular (posição altamente variável entre pessoas, Marcuzzo et al., 2020) — que exigem mapeamento individual antes de qualquer disparo.
  • Eventos sérios, quando ocorrem, tendem a ser neurológicos e ligados a energia mal direcionada para a anatomia daquele paciente, não a um “número errado” isolado (Humphrey et al., 2025).
  • Este material não recomenda parâmetro: descreve o que os estudos usaram; quem examina o pescoço e decide profundidade, energia e modo de disparo é sempre o profissional habilitado, após avaliação presencial.
O próximo passo

Se parâmetro é decisão individual, a próxima pergunta lógica é: quem tende a responder melhor ao HIFU no pescoço, e quem tende a ter resultado mais modesto? É o que a apostila 4 desta série mostra, com os dados de IMC e gravidade de flacidez basal como preditores. Leve estas leituras à avaliação individual: é lá que a anatomia do seu pescoço vira decisão de parâmetro, não um número copiado de um artigo.

Referências
  1. Serdar ZA, Karabay EA, Tatlıparmak A, Aksoy B. Efficacy of high-intensity focused ultrasound in facial and neck rejuvenation. J Cosmet Dermatol, 2020;19(2):353-358. PMID 31141286 — 75 pacientes, sondas de 3,0mm e 4,5mm; melhora >80% relatada; dor em 25,3%, eritema em 6,7%, dormência mandibular transitória em 1 caso (10 dias).
  2. Goo B, et al. Efficacy and Safety of High-Intensity Focused Ultrasound (HIFU) on Reduction of Unwanted Submental Fat in Asian Patients. Aesthetic Plast Surg, 2025;49(13):3750-3755. PMID 40355620 — 30 pacientes, transdutores de 4,5mm e 6,0mm em modo Micro-Pulsado; sem eventos adversos relevantes.
  3. White WM, Makin IR, Barthe PG, Slayton MH, Gliklich RE. Selective creation of thermal injury zones in the superficial musculoaponeurotic system using intense ultrasound therapy: a new target for noninvasive facial rejuvenation. Arch Facial Plast Surg, 2007;9(1):22-29. PMID 17224484 — base cadavérica: o HIFU cria zonas de lesão térmica seletivas e reprodutíveis conforme a profundidade calibrada no transdutor.
  4. Marcuzzo AV, Šuran-Brunelli AN, Dal Cin E, et al. Surgical Anatomy of the Marginal Mandibular Nerve: A Systematic Review and Meta-Analysis. Clin Anat, 2020;33(5):739-750. PMID 31591743 — meta-análise de 511 hemifaces: posição do ramo marginal do nervo mandibular é altamente variável entre pessoas.
  5. Polacco MA, et al. Nerve Blocks Prior to Microfocused Ultrasound Treatment are Safe and Reduce Patient Discomfort. Aesthetic Surg J, 2020;40(8):887-891. PMID 31996891 — confirma o mapeamento rotineiro do nervo grande auricular e do plexo cervical como estruturas de risco em protocolos de pescoço.
  6. Humphrey VS, Rambhia PH, Gmyrek R, Chapas A. Microfocused Ultrasound With Visualization: A Systematic Review of Adverse Events and Risk of Subsequent Facelift Compromise. Dermatol Surg, 2025;51(4):424-429. PMID 39625163 — 19 estudos/506 pacientes + registros MAUDE (FDA); eventos sérios dominados por sequelas neurológicas ligadas a energia mal direcionada.
  7. Contini M, Hollander MHJ, Vissink A, Schepers RH, Jansma J, Schortinghuis J. A Systematic Review of the Efficacy of Microfocused Ultrasound for Facial Skin Tightening. Int J Environ Res Public Health, 2023;20(2):1522. PMID 36674277 — revisão sistemática que contextualiza a heterogeneidade de protocolo entre estudos de MFU-V na face e no pescoço.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é prescrição nem indicação de procedimento ou parâmetro. HIFU (ultrassom microfocado) é procedimento estético à base de energia, realizado por profissional habilitado após avaliação individual. As profundidades, sondas e modos citados aqui descrevem o que os estudos referenciados usaram e mediram; não substituem exame físico presencial nem a decisão técnica sobre profundidade, energia e número de sessões adequados a cada pescoço — sobretudo numa região com estruturas nervosas superficiais e de posição variável entre pessoas.