Apostila 7 · HIFU × pescoço flácido / papada / pele caída · Procedimento

Marketing x ciência: “acaba com a papada” e “este aparelho é melhor” resistem ao estudo?

Duas frases vendem o HIFU de pescoço: uma promete resultado definitivo em pouco tempo, a outra sugere que um aparelho específico é tecnologicamente superior aos demais. Os números medem outra coisa — melhora relatada por só 52,9% dos pacientes num dos estudos dedicados ao pescoço, uma redução de área que se mede em milímetros quadrados, não em “sumiu”, e uma comparação direta entre HIFU e radiofrequência que não encontrou vencedor. Esta apostila calibra as duas promessas pelo número, sem inflar nem descontar.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O HIFU (ultrassom microfocado) é um procedimento estético baseado em energia — ato de profissional habilitado, sempre precedido de avaliação individual. Este material é exclusivamente educativo: compara frases de marketing usadas para vender HIFU de pescoço com o que os estudos publicados efetivamente mediram sobre eficácia e sobre a comparação com outras tecnologias — não é indicação de tratamento, não promete resultado equivalente ao de um lifting cirúrgico e não substitui avaliação presencial. Se o HIFU se aplica ao seu caso, e qual aparelho ou técnica é mais adequado, é decisão tomada com o profissional habilitado.

Duas frases carregam boa parte do marketing de HIFU para pescoço. A primeira promete resultado: “acaba com a papada”, “lifting de pescoço sem cirurgia”, “resolve o pescoço flácido”. A segunda vende diferenciação técnica: “este aparelho é mais potente”, “esta tecnologia é superior à radiofrequência”. Nenhuma das duas nasce do nada — a primeira parte de um efeito biológico real (neocolagênese térmica), a segunda de uma disputa comercial legítima entre fabricantes de equipamentos. O problema não é a origem da frase; é o tamanho do salto que ela dá a partir do dado real.

Esta apostila junta três números já levantados nesta série: o percentual de pacientes que relatou melhora num estudo dedicado ao pescoço (Friedman et al., 2020), a redução de área submentoniana medida em milímetros quadrados por foto (Contini et al., 2023), e o resultado da única comparação direta publicada entre HIFU e radiofrequência para pescoço (Modena et al., 2025). Colocados lado a lado, eles mostram que o maior exagero do marketing de HIFU para pescoço não é inventar um efeito inexistente — é inflar a magnitude de um efeito real e sugerir uma superioridade tecnológica que a comparação direta disponível não confirma.

Mito 1 — “Acaba com a papada”: o que Friedman et al. (2020) e Contini et al. (2023) mediram de fato

“Acaba com” sugere desaparecimento. O estudo prospectivo dedicado ao pescoço e ao terço inferior da face de Friedman et al. (2020) — 43 pacientes, avaliados por dermatologistas independentes numa escala de 0 a 5 — mediu outra coisa: apenas 52,9% relataram alguma melhora. Não “resolução completa”, não “papada eliminada” — alguma melhora, numa escala que também permitia nota zero. Os próprios autores concluíram que o método é indicado para flacidez leve, “sem discrepância de volume relevante” — ou seja, já nasce desenhado para não ser a resposta de quem tem muita gordura ou muito excesso de pele acumulado (Friedman et al., 2020).

A revisão sistemática de Contini et al. (2023), que reúne os dados objetivos mais concretos desta série, mediu a redução de área submentoniana por fotografia lateral padronizada: 45mm² aos 3 meses em pacientes caucasianos, e 26mm² aos 3 meses caindo para 14mm² aos 6 meses em pacientes asiáticos. São milímetros quadrados de uma área específica, mensuráveis e reais — mas é uma unidade de medida que não cabe na palavra “acaba”. Ninguém mostra ao paciente, antes da sessão, quantos milímetros quadrados de papada ele tem para calibrar o que “45mm² a menos” representa no espelho.

O que os estudos dedicados ao pescoço mediram — melhora relatada, por estudo e método
Cada barra vem de um estudo, uma amostra e um método de avaliação diferentes — não é o mesmo grupo de pacientes remedido quatro vezes. As barras ordenam a magnitude relatada; não comparam diretamente populações distintas.
Friedman et al., 2020 (n=43) — relatou alguma melhora
52,9%
Contini et al., 2023 (n=337) — melhora avaliada pelo investigador
92%
Contini et al., 2023 (subgrupo n=81) — paciente relatou melhora aos 90 dias
42%
Contini et al., 2023 (mesmo subgrupo) — paciente relatou melhora aos 360 dias
53%
Fontes: Friedman et al. (2020, J Cosmet Dermatol) — avaliação por dermatologistas independentes, escala 0-5; Contini et al. (2023, Int J Environ Res Public Health) — revisão sistemática, avaliação por investigador (n=337) e por autorrelato num subgrupo (n=81) aos 90 e 360 dias. A diferença entre “avaliado pelo investigador” (92%) e “relatado pelo próprio paciente aos 90 dias” (42%) no mesmo estudo já mostra que quem mede muda o número — mais um motivo para não resumir tudo isso em “acaba com a papada”.
Um detalhe que a maioria dos anúncios não menciona

Em Contini et al. (2023), o efeito objetivo medido por foto (a área submentoniana) diminui com o tempo — de 26mm² aos 3 meses para 14mm² aos 6 meses em pacientes asiáticos. Ao mesmo tempo, a satisfação relatada pelo próprio paciente sobe — de 42% aos 90 dias para 53% aos 360 dias, no mesmo subgrupo. A evidência aqui não é redonda: um número objetivo cai enquanto um número subjetivo sobe. É mais honesto mostrar essa tensão do que escolher só o número que sustenta a frase de venda.

Mito 2 — “Lifting de pescoço sem cirurgia, resultado em 1 sessão”: o que o tempo de resposta real mostra

A segunda variação do mesmo exagero troca a magnitude pela velocidade: a promessa de um resultado “de lifting” pronto logo após uma única sessão. O mecanismo por trás do HIFU é neocolagênese — o organismo constrói colágeno novo ao longo de semanas e meses depois do estímulo térmico, não durante o procedimento. Os próprios números de Contini et al. (2023) mostram essa curva temporal: o efeito medido evolui entre os 90 e os 360 dias, para melhor ou para pior a depender do que se mede (acima). O estudo de Azuelos et al. (2019) — 20 pacientes, avaliação por 5 avaliadores cegos aos 6 meses — reforça o mesmo padrão: a distribuição de satisfação (escala IGIAS) mostrou 11 pacientes com nota alta (11 a 15), 7 com nota intermediária (6 a 10) e 2 com nota baixa (1 a 5), sem nenhum paciente com nota negativa — uma melhora real, mas graduada e assimétrica, medida seis meses depois, não no dia seguinte.

Chamar isso de “lifting sem cirurgia” também empresta ao HIFU um vocabulário — e uma expectativa de magnitude — que pertence a outro procedimento. Um lifting cirúrgico remove tecido excedente fisicamente; o HIFU estimula uma resposta biológica proporcional ao tecido que já existe. São mecanismos diferentes, com magnitudes diferentes, e a palavra emprestada infla a expectativa do segundo com a régua do primeiro.

“Lifting de pescoço sem cirurgia” descreve o que o HIFU faz?Fato x debate — o mecanismo e o tempo de resposta documentados × a linguagem do anúncio
Fato (o que os estudos mediram)

O HIFU estimula neocolagênese que se desenvolve ao longo de meses; a melhora avaliada por Azuelos et al. (2019) foi medida aos 6 meses, não no dia da sessão, com distribuição de satisfação graduada (11 pacientes com nota alta, 7 com nota intermediária, 2 com nota baixa). Em Contini et al. (2023), o efeito objetivo medido por foto muda entre 90 e 360 dias — a resposta é um processo, não um evento único.

Mito/debate — o limite de marketing

“Lifting sem cirurgia” empresta ao HIFU o vocabulário e a magnitude de um procedimento cirúrgico que remove tecido fisicamente. O HIFU não remove nada — estimula uma resposta biológica graduada, que nenhum dos estudos aqui documentou como equivalente a um lifting nem como pronta em uma única sessão.

Mito 3 — “Este aparelho de HIFU é comprovadamente superior à radiofrequência”: o que a comparação direta mostra

Este é o mito mais anti-óbvio da série, porque não infla um número — infla uma comparação. Parte do marketing de HIFU se apoia em linguagem de superioridade tecnológica frente a outros aparelhos de energia usados no pescoço, sobretudo a radiofrequência. A meta-análise mais recente e mais direta sobre o tema, de Modena et al. (2025), reuniu os 2 únicos ensaios clínicos randomizados que compararam HIFU e radiofrequência especificamente para flacidez de pescoço — e não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os dois dispositivos, nem a curto, nem a médio, nem a longo prazo.

Isso não significa que HIFU e radiofrequência sejam idênticos em todo contexto, nem que a escolha entre eles seja irrelevante — variam parâmetros, protocolos, profundidade de ação e experiência do profissional com cada aparelho. Significa que a frase “este aparelho é melhor que aquele para o pescoço”, quando apoiada em comparação direta e controlada, não é o que a literatura atual sustenta. Reforçando o mesmo ponto sob outro ângulo, Vanaman et al. (2016), numa revisão de especialistas sobre rejuvenescimento de pescoço com múltiplas tecnologias, registram explicitamente que “pouca literatura existe sobre segurança e eficácia” mesmo ao combinar diferentes procedimentos — o que dirá para eleger um vencedor isolado entre dois deles.

HIFU
Resultado nos 2 RCTs comparativos
Modena et al., 2025 — meta-análise, flacidez de pescoço, curto/médio/longo prazo
Superioridade demonstradasem diferença
Radiofrequência
Resultado nos 2 RCTs comparativos
Mesma meta-análise, mesmos 2 ensaios, mesma comparação direta
Superioridade demonstradasem diferença

As duas barras têm o mesmo tamanho de propósito: é o próprio achado. Modena et al. (2025) não encontraram diferença estatística entre HIFU e radiofrequência nos 2 RCTs disponíveis para pescoço — nenhum dos dois “venceu” a comparação direta, ao contrário do que sugere o discurso de superioridade tecnológica de parte do marketing.

Por que “sem diferença” não é a mesma coisa que “não funciona”

É importante não trocar um exagero por outro: “os dois aparelhos empatam num teste direto” não quer dizer que nenhum deles funcione — os números da apostila 2 e da seção anterior mostram efeito real, ainda que parcial, para o HIFU isoladamente. O que a meta-análise de Modena et al. (2025) derruba é especificamente a alegação de que um dispositivo é comprovadamente melhor que o outro para o pescoço — essa é a parte da promessa que a comparação direta, com os dados disponíveis até agora, não sustenta.

Um erro muito comum

Achar que, porque um estudo isolado mostrou resultado bom com determinado aparelho, esse aparelho está “provado” superior aos concorrentes.

Não está. Um estudo prospectivo sem grupo comparativo — como a maioria dos estudos individuais de eficácia citados nesta série — mede se o próprio aparelho testado melhora o pescoço em relação ao início, não se ele é melhor que outra tecnologia. Só um desenho comparativo direto, como os 2 RCTs reunidos por Modena et al. (2025), pode responder à pergunta “qual é melhor” — e a resposta que esses 2 estudos deram, até agora, é “nenhum dos dois se mostrou superior”.

O certo: tratar a frase “este aparelho é comprovadamente superior” com o mesmo ceticismo que qualquer alegação de superioridade em saúde exige — perguntar se existe comparação direta e controlada, e não apenas um estudo isolado de um único dispositivo. Na avaliação individual, o critério de escolha do aparelho deve ser o protocolo e a experiência do profissional com aquele equipamento, não uma guerra de marketing entre marcas.

A Sacada dos DoutoresO maior exagero do marketing de HIFU não inventa efeito — infla magnitude e disfarça empate de vitória

O que essas três frases têm em comum é o mesmo movimento: pegar um dado real e esticá-lo até onde o estudo não vai. O HIFU melhora o pescoço em parte relevante dos casos — 52,9% em Friedman et al. (2020), até 92% pela avaliação do investigador em Contini et al. (2023) — mas “alguma melhora” não é “acaba com a papada”. A resposta se constrói em meses, por neocolagênese, não numa sessão — mas isso não é “lifting sem cirurgia”. E, quando a própria literatura testa diretamente se um aparelho de HIFU é melhor que a radiofrequência, o resultado dos 2 RCTs disponíveis é empate, não vitória de nenhum dos dois. Eu prefiro entregar o número real e a comparação real, mesmo sabendo que “sem diferença estatística” nunca vai virar um slogan de anúncio. Informação correta não é desvendar um segredo do procedimento — é o que permite decidir com expectativa calibrada, e isso sempre passa pela avaliação individual.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • “Acaba com a papada” mede melhora parcial, não eliminação: apenas 52,9% relataram alguma melhora num dos estudos dedicados ao pescoço (Friedman et al., 2020, n=43).
  • O dado objetivo mais concreto é medido em milímetros quadrados: redução submentoniana de 45mm² aos 3 meses (caucasianos) e 26mm²→14mm² aos 3-6 meses (asiáticos) — real, mas não “sumiu” (Contini et al., 2023).
  • A evidência não é redonda: a medida objetiva por foto diminui com o tempo enquanto a satisfação relatada pelo paciente sobe (42% aos 90 dias → 53% aos 360 dias, mesmo subgrupo) — vale mostrar as duas curvas, não só a que convém.
  • “Lifting sem cirurgia em 1 sessão” ignora o tempo do mecanismo: a neocolagênese se desenvolve ao longo de meses; Azuelos et al. (2019) mediu resultado aos 6 meses, com distribuição de satisfação graduada, não um evento único.
  • “Este aparelho é superior à radiofrequência” não é o que a comparação direta mostra: nos 2 únicos RCTs que compararam HIFU × radiofrequência para pescoço, nenhum se mostrou estatisticamente superior, a curto, médio ou longo prazo (Modena et al., 2025).
  • “Sem diferença” não é “não funciona”: o HIFU segue tendo efeito real e mensurável isoladamente — o que a meta-análise derruba é só a alegação de superioridade de um dispositivo sobre o outro.
  • Os três exageros nascem de um mecanismo e de dados reais — o problema nunca esteve no dado, está no salto de magnitude ou de comparação que o marketing dá a partir dele.
O próximo passo

Calibrados os exageros de magnitude e de comparação tecnológica, falta resolver uma confusão de origem: “pescoço flácido” é usado, no dia a dia, para descrever três problemas anatômicos diferentes — gordura submentoniana, pele que perdeu elasticidade e bandas do músculo platisma — e cada um responde de um jeito ao HIFU. A apostila 8 desta série destrincha essa diferenciação anatômica. Leve os números desta apostila à avaliação individual: é o profissional habilitado quem examina qual expectativa é realista para o seu pescoço, e qual protocolo faz sentido no seu caso.

Referências
  1. Friedman O, Isman G, Koren A, Shoshany H, Sprecher E, Artzi O. Intense focused ultrasound for neck and lower face skin tightening: a prospective study. J Cosmet Dermatol. 2020;19(4):850-854. PMID 32011076 — N=43; apenas 52,9% relataram alguma melhora por avaliação de dermatologistas independentes; indicado para flacidez leve, sem discrepância de volume relevante.
  2. Contini M, Hollander MHJ, Vissink A, Schepers RH, Jansma J, Schortinghuis J. A Systematic Review of the Efficacy of Microfocused Ultrasound for Facial Skin Tightening. Int J Environ Res Public Health. 2023;20(2):1522. DOI 10.3390/ijerph20021522 (texto completo livre — PMC) — redução submentoniana de 45mm² aos 3 meses (caucasianos) e 26mm²→14mm² aos 3-6 meses (asiáticos); melhora pelo investigador em 92% (n=337); melhora autorrelatada de 42% (90d) a 53% (360d) num subgrupo (n=81).
  3. Modena DAO, Ferro AP, Rangon FB, Guirro ECO. Systematic review and meta-analysis – microfocused ultrasound treatment for sagging skin. Lasers Med Sci. 2025;40(1):169. DOI 10.1007/s10103-025-04424-9. PMID 40167815 — meta-análise de 2 RCTs comparando HIFU × radiofrequência para flacidez de pescoço; sem diferença estatística a curto, médio ou longo prazo.
  4. Azuelos A, SidAhmed-Mezi M, La Padula S, Aboud C, Meningaud JP, Hersant B. High-Intensity Focused Ultrasound: A Satisfactory Noninvasive Procedure for Neck Rejuvenation. Aesthetic Surgery Journal. 2019;39(8):343-351. DOI 10.1093/asj/sjz093. PMID 30923813 — N=20, avaliação aos 6 meses por 5 avaliadores cegos; distribuição de satisfação (IGIAS): 11 pacientes com nota alta, 7 com nota intermediária, 2 com nota baixa, nenhum negativo.
  5. Vanaman M, Fabi SG, Cox SE. Neck Rejuvenation Using a Combination Approach: Our Experience and a Review of the Literature. Dermatologic Surgery. 2016;42 Suppl 2:S94-S100. PMID 27128251 — revisão de especialistas sobre tecnologias de rejuvenescimento de pescoço; afirma explicitamente que pouca literatura existe sobre segurança e eficácia mesmo ao combinar procedimentos, reforçando a cautela sobre alegações de superioridade isolada de um dispositivo.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de tratamento. O HIFU é um procedimento estético baseado em energia, realizado por profissional habilitado, sempre precedido de avaliação individual. Os números citados descrevem o que os estudos publicados mediram sobre eficácia e sobre comparação entre tecnologias, não uma promessa de resultado igual para qualquer pessoa nem uma recomendação de aparelho específico. Indicação, protocolo e escolha de tecnologia são decisão clínica individual, não um protocolo de autoaplicação.