O limite do HIFU no pescoço: a expectativa realista que fecha a série
Depois de oito apostilas sobre mecanismo, eficácia, protocolo, quem responde melhor, combinações, segurança, marketing×ciência e a diferença entre gordura, pele e platisma, esta última mostra onde a evidência para: um efeito que diminui com o tempo, uma taxa de resposta que fica em torno da metade num estudo dedicado ao pescoço, um empate entre HIFU e radiofrequência nos únicos dois ensaios comparativos, e um subtipo anatômico que tende a precisar de cirurgia.
HIFU (ultrassom microfocado) é um procedimento estético baseado em energia — ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo. Ele descreve os limites do que os estudos mediram sobre o uso de HIFU no pescoço — não é indicação de uso, não substitui avaliação presencial e não promete resultado, magnitude ou duração para o seu caso específico. A decisão sobre indicar (ou não) o procedimento, e sobre qual alternativa é mais adequada, é sempre individual, feita por profissional habilitado após avaliação.
Chegamos à última apostila desta série, e ela cumpre um papel diferente das outras oito. Não é para apresentar mais um mecanismo nem revelar mais um número isolado — é para colocar, lado a lado, tudo o que a evidência sobre HIFU e pescoço ainda não resolve. Isso não é desistir do tema. É o oposto: é o que separa uma apostila de autoridade de uma peça de venda.
Ao longo desta pesquisa, ficou claro que “pescoço flácido” nunca foi um problema só — é gordura, é pele, é banda de platisma, às vezes os três juntos — e que a resposta ao HIFU, mesmo no cenário mais favorável já estudado especificamente para o pescoço, fica bem longe de ser garantida ou permanente. Vamos mostrar exatamente onde o efeito medido diminui, o que acontece quando se compara o HIFU com o outro grande concorrente de mercado (a radiofrequência), e por que uma fatia relevante de quem procura resolver o “papo” tem um mecanismo estrutural que o HIFU não foi desenhado para tratar. Fechamos com a única frase que resume honestamente toda a série: o efeito existe, é mensurável, mas é modesto, decai com o tempo e depende de quem responde — e a expectativa correta nasce da avaliação individual, não da promessa do anúncio.
A apostila 8 desta série já detalhou, a partir de Hong et al. (2025), que o que se chama popularmente de “papo” ou “pescoço flácido” é, na verdade, a combinação variável de três mecanismos distintos: gordura submentoniana/cervical acumulada, afrouxamento de pele por perda de elasticidade, e bandas do músculo platisma que se projetam para frente do pescoço com a idade. O HIFU age sobre o segundo mecanismo — reconstrução de colágeno na derme e no plano fascial superficial — e não sobre os outros dois isoladamente.
As bandas do platisma, especificamente, foram classificadas por Hong et al. (2025) em três tipos conforme o grau de cruzamento das fibras musculares na linha média: Tipo I, com menos de 2cm de decussação (40% da população coreana estudada); Tipo II, com 2cm ou mais de decussação (45%); e Tipo III, sem decussação alguma — o chamado “pescoço de peru” (15%). O Tipo III é o subtipo que mais predispõe a uma deformidade visível e, segundo os próprios autores, tende a exigir correção cirúrgica — nenhum procedimento à base de energia, HIFU incluído, foi desenhado para reposicionar um músculo com essa configuração.
O estudo mais diretamente comparável a “flacidez de pescoço, sem outra queixa associada” é o de Friedman et al. (2020): 43 pacientes com flacidez de pescoço e terço inferior da face, avaliados por dermatologistas independentes numa escala de 0 a 5. O resultado: apenas 52,9% relataram alguma melhora. Não é zero — é bem menos da metade de “sucesso” no sentido de “resultado visível para a maioria absoluta”, e é um contraste importante com números de outros estudos de HIFU que chegam a 80% ou mais de melhora relatada em regiões e desenhos de estudo diferentes.
A própria conclusão dos autores calibra a indicação: o método mostrou-se seguro em pacientes com flacidez leve e sem discrepância de volume relevante — ou seja, o estudo já nasce recomendando o HIFU para quem tem pouca gordura acumulada e pouco excesso de pele, não para quadros mais avançados. Isso combina diretamente com o que a apostila 4 desta série já mostrou sobre gravidade de partida: quanto mais avançado o quadro, menor a chance de resposta.
Azuelos et al. (2019), o estudo prospectivo com avaliação por 5 revisores cegos, encontrou uma proporção maior de satisfação alta — mas com apenas 20 pacientes, sem grupo controle e sem comparação com placebo. Contini et al. (2023), a maior revisão do tema, relatou melhora avaliada pelo investigador em 92% de 337 pacientes agregados de múltiplos estudos — um número mais alto porque mistura desenhos e critérios diferentes de “melhora”. Friedman et al. (2020), com 43 pacientes e critério mais rigoroso, achou 52,9%. Não existe um número único e definitivo — existe uma faixa, e quanto mais rigoroso o desenho, mais modesto tende a ser o resultado relatado.
A revisão sistemática de Contini et al. (2023) trouxe o dado objetivo mais concreto desta série: a redução de área submentoniana medida por fotografia lateral padronizada. Em pacientes caucasianos, a redução foi de 45mm² aos 3 meses. Em pacientes asiáticos, o efeito já nasce menor e cai mais rápido: 26mm² aos 3 meses, reduzindo para 14mm² aos 6 meses — quase metade do efeito perdido entre um trimestre e o outro, na mesma população.
Do lado da percepção do próprio paciente, um subgrupo de 81 pessoas relatou melhora subindo de 42% (90 dias) para 53% (360 dias) — um dado que parece contradizer a queda objetiva medida por foto, e essa aparente contradição é, em si, uma lição: percepção subjetiva e medição objetiva de área não caminham necessariamente juntas, e nenhuma delas sozinha conta a história inteira. O que os estudos de fato sustentam é que o efeito medido diminui com o tempo pelo menos em pele asiática — a duração além de 6 meses, na literatura reunida por Contini et al. (2023), simplesmente não tem dado consistente o suficiente para uma promessa fechada.
O IMC entra na mesma direção. A apostila 4 já mostrou, a partir de Oni et al. (2014) — estudo do terço inferior da face/mandíbula, região contígua ao pescoço e tratada nos mesmos protocolos — que 54,5% dos pacientes com IMC acima de 30 kg/m² não tiveram melhora, contra apenas 12,2% de “sem melhora” entre os pacientes com IMC até 30. Vale repetir a ressalva de honestidade: esse número não foi medido num estudo pescoço-isolado, é extrapolado de uma região vizinha e citado como preditor relevante pela própria revisão de Contini et al. (2023), que também usou “flacidez excessiva” como critério de exclusão em vários dos 16 estudos analisados.
Um dos argumentos de venda mais comuns no mercado de estética é a superioridade de uma tecnologia sobre a outra — “o HIFU é melhor que a radiofrequência” ou o inverso. A meta-análise de Modena et al. (2025), reunindo especificamente os 2 ensaios clínicos randomizados disponíveis que compararam HIFU × radiofrequência para flacidez de pescoço, não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os dois dispositivos, em nenhum dos prazos avaliados — curto, médio ou longo.
Isso não quer dizer que as duas tecnologias sejam idênticas na prática clínica — quer dizer que, com apenas 2 RCTs publicados até 2025 comparando os dois métodos diretamente no pescoço, a evidência disponível não sustenta a afirmação de que um aparelho é comprovadamente superior ao outro para essa indicação específica. Qualquer alegação de superioridade categórica, nesse ponto, está à frente do que os estudos comparativos mostraram até aqui.
Reunindo as nove apostilas num único painel: cada afirmação central desta série tem uma força de evidência diferente. Ler esse placar é, na prática, aprender a diferença entre “consistente entre estudos”, “sustentado por um estudo robusto, mas único” e “extrapolação lógica ainda não testada” — a habilidade mais importante para quem avalia qualquer procedimento estético com espírito crítico.
| Apostila | O que ela estabeleceu | Fonte central | Força |
|---|---|---|---|
| 1 · Mecanismo | O “papo” é gordura + pele + platisma em combinações variáveis; o HIFU cria lesão térmica seletiva no plano fascial superficial | Hong et al., 2025; White et al., 2007 (cadavérico) | B — anatomia recente, mecanismo cadavérico |
| 2 · Funciona mesmo | Melhora relatada entre 52,9% e 92%, conforme o rigor do desenho do estudo | Azuelos et al., 2019; Contini et al., 2023; Friedman et al., 2020 | B — nenhum é RCT contra placebo |
| 3 · Protocolo | Profundidade de sonda (3,0–6,0mm) e modo de disparo variam por protocolo/aparelho, sem padrão único | Serdar et al., 2020; Goo et al., 2025 | B — prospectivos, sem controle |
| 4 · Para quem (Pilar 2) | Resposta cai de 87,8% para 45,5% quando o IMC passa de ≤30 para >30 kg/m² (extrapolado de região vizinha) | Oni et al., 2014; Contini et al., 2023 | B — extrapolação assumida |
| 5 · Combinações | HIFU + laser Nd:YAG mostrou melhora mensurável num único estudo pequeno; literatura de combinação é escassa | Nam et al., 2017; Vanaman et al., 2016 | C — estudo único, sem braço isolado |
| 6 · Segurança | Eventos transitórios comuns e bem documentados; eventos neurológicos raros, ligados a variação anatômica do nervo | Humphrey et al., 2025; Marcuzzo et al., 2020 | A/B — grande N agregado |
| 7 · Marketing × ciência | Promessas de “eliminar a papada” não correspondem aos números medidos (redução em mm², não desaparecimento) | Recalibra os dados já citados (Contini 2023; Friedman 2020) | B — honestidade sobre dado real |
| 8 · Pescoço não é uma coisa só (Pilar 1) | Três mecanismos anatômicos (gordura, pele, platisma) por trás do mesmo apelido popular; Tipo III de platisma tende a pedir cirurgia | Hong et al., 2025 | B — classificação robusta, população específica |
| 9 · O limite (esta apostila) | Efeito diminui com o tempo; só 52,9% respondeu no estudo dedicado; HIFU × radiofrequência empatados nos 2 RCTs disponíveis | Friedman et al., 2020; Contini et al., 2023; Modena et al., 2025 | B — dados quantitativos reais |
Classificação qualitativa própria desta apostila, baseada no desenho e no número de estudos disponíveis para cada afirmação — não é uma escala publicada, é um resumo didático do que foi encontrado ao longo da série.
Juntando os dois pilares desta série (apostila 8 — o pescoço não é uma coisa só; apostila 4 — quem responde de fato) com os limites levantados aqui, dá para desenhar um painel prático — não uma régua rígida, mas um resumo do que a evidência disponível sustenta melhor e pior.
- IMC até 30 kg/m² (Oni et al., 2014; extrapolado)
- Flacidez leve, sem excesso de gordura ou de pele relevante (Friedman et al., 2020)
- Banda do platisma Tipo I ou II — ainda com algum cruzamento de fibras (Hong et al., 2025)
- Expectativa calibrada: redução em milímetros quadrados, mais evidente até os 3 meses
- IMC acima de 30 kg/m²: resposta cai significativamente (Oni et al., 2014)
- Gordura submentoniana difusa como causa dominante — outro mecanismo, outra conduta (Hong et al., 2025)
- Banda do platisma Tipo III, “pescoço de peru” — tende a exigir correção cirúrgica (Hong et al., 2025)
- Expectativa de resultado permanente ou equivalente a cirurgia, sem dado de longo prazo que sustente isso
Existem dois erros opostos ao redor dos limites desta série — e ambos afastam do que a evidência realmente diz.
O primeiro erro é tratar o número mais alto encontrado em qualquer estudo (92% de melhora avaliada pelo investigador, em Contini et al., 2023) como se fosse a expectativa padrão — ignorando que o estudo dedicado ao pescoço, com critério mais rigoroso, achou 52,9% (Friedman et al., 2020). O segundo erro é insistir no HIFU quando a causa dominante do “papo” é gordura acumulada ou uma banda de platisma Tipo III — nesses casos, o mecanismo de neocolagênese do HIFU não ataca a origem do problema, por melhor que seja a técnica de aplicação.
O certo: ancorar a expectativa no estudo mais rigoroso disponível para o pescoço (cerca de metade dos pacientes com melhora perceptível), tratar a duração como “efeito documentado até onde foi medido” (3 a 6 meses, conforme o estudo), e usar a avaliação individual para diferenciar gordura, pele e platisma antes de decidir qualquer conduta.
Percorremos, nesta série, o mecanismo do HIFU no pescoço (neocolagênese no plano fascial superficial), os números reais de eficácia — que variam de 52,9% a 92% conforme o rigor do desenho —, o protocolo com suas variações de profundidade e modo, o perfil de quem responde melhor (IMC e gravidade da flacidez), o que a evidência apoia e não apoia em combinações, os riscos raros mas documentados, o duelo entre a promessa comercial e o que o estudo mede, e a distinção crucial entre gordura, pele e platisma escondidas sob o mesmo apelido popular de “papo” ou “pescoço flácido”. O fio que costura tudo isso é simples de dizer e difícil de vender: o efeito do HIFU no pescoço é real, mas é modesto, decai com o tempo e depende de qual dos três mecanismos está por trás do seu quadro — e, nos dois únicos ensaios que compararam HIFU com radiofrequência diretamente, nenhuma das duas tecnologias se mostrou superior. Isso não desqualifica a tecnologia. Qualifica a conversa que se deve ter antes de indicá-la. Essa conversa, com a anatomia, o histórico e a expectativa de cada pessoa em cima da mesa, só acontece numa avaliação individual com profissional habilitado — e é para lá que esta série sempre apontou.
- No estudo mais rigoroso dedicado ao pescoço, só 52,9% relatou alguma melhora — o método é indicado para flacidez leve, sem excesso de gordura ou pele relevante (Friedman et al., 2020).
- O efeito submentoniano medido diminui com o tempo: de 26mm² para 14mm² entre 3 e 6 meses em pele asiática (Contini et al., 2023).
- A resposta cai com o IMC: 54,5% sem melhora acima de 30 kg/m², extrapolado de estudo de região vizinha (Oni et al., 2014).
- Nos 2 RCTs que compararam HIFU × radiofrequência no pescoço, nenhum dispositivo se mostrou superior (Modena et al., 2025).
- 15% da população tem banda do platisma Tipo III (“pescoço de peru”), que tende a exigir correção cirúrgica — não HIFU (Hong et al., 2025).
- “Pescoço flácido” não é uma coisa só — gordura, pele e platisma pedem condutas diferentes, e essa foi a tese que costurou as nove apostilas.
- A decisão final é sempre da avaliação individual com profissional habilitado — é ela que traduz esses limites de evidência para o seu caso específico.
Esta é a última apostila da série. As oito anteriores cobriram, nesta ordem, o mecanismo do HIFU no pescoço e a anatomia por trás do “papo”, se o HIFU funciona mesmo (com a faixa de 52,9% a 92% de melhora conforme o estudo), o protocolo e suas variações de profundidade, o perfil de quem responde melhor (IMC e gravidade da flacidez), o que a evidência apoia em combinações, os riscos e cuidados, o duelo entre marketing e ciência, e a diferenciação entre gordura, pele e platisma por trás do mesmo apelido popular de pescoço flácido. O passo que resta agora não é ler mais uma apostila — é levar essas informações para uma avaliação individual com um profissional habilitado, que vai examinar sua anatomia, sua pele e seu histórico, e dizer, com essa evidência em mãos, se o HIFU é (ou não) a indicação certa para o seu caso.
- Friedman O, Isman G, Koren A, Shoshany H, Sprecher E, Artzi O. Intense focused ultrasound for neck and lower face skin tightening: a prospective study. J Cosmet Dermatol, 2020;19(4):850-854. PMID 32011076 — o estudo dedicado ao pescoço com o critério mais rigoroso desta série; fonte dos 52,9% de melhora relatada e da indicação para flacidez leve, sem discrepância de volume.
- Contini M, Hollander MHJ, Vissink A, Schepers RH, Jansma J, Schortinghuis J. A Systematic Review of the Efficacy of Microfocused Ultrasound for Facial Skin Tightening. Int J Environ Res Public Health, 2023;20(2):1522. DOI 10.3390/ijerph20021522 — revisão sistemática de 16 estudos; fonte da redução submentoniana em mm² e da diminuição do efeito ao longo do tempo.
- Modena DAO, Ferro AP, Rangon FB, Guirro ECO. Systematic review and meta-analysis — microfocused ultrasound treatment for sagging skin. Lasers Med Sci, 2025;40(1):169. DOI 10.1007/s10103-025-04424-9 — meta-análise dos 2 RCTs que compararam HIFU × radiofrequência no pescoço; fonte da ausência de diferença estatística entre os dois dispositivos.
- Hong GW, Wan J, Yoon SE, Wong S, Yi KH. Anatomical Consideration for Double Chin Thread Lifting. J Cosmet Dermatol, 2025;24(6):e70238. DOI 10.1111/jocd.70238 — classificação dos tipos de banda do platisma; fonte da distinção anatômica entre gordura, pele e platisma que costura toda a série.
- Oni G, Hoxworth R, Teotia S, Brown S, Kenkel JM. Evaluation of a microfocused ultrasound system for improving skin laxity and tightening in the lower face. Aesthetic Surg J, 2014;34(7):1099-1110. PMID 24990884 — estudo de região vizinha (terço inferior da face/mandíbula); fonte, por extrapolação assumida no texto, do contraste 87,8% × 45,5% de resposta por faixa de IMC.
- Azuelos A, SidAhmed-Mezi M, La Padula S, Aboud C, Meningaud JP, Hersant B. High-Intensity Focused Ultrasound: A Satisfactory Noninvasive Procedure for Neck Rejuvenation. Aesthetic Surg J, 2019;39(8):343-351. DOI 10.1093/asj/sjz093 — estudo prospectivo com 5 avaliadores cegos (N=20); citado no placar da série e no contraste entre taxas de melhora conforme o rigor do desenho.