Fio liso funciona mesmo no pescoço? O que os estudos mostram
Na apostila 1 desta série vimos como o fio liso estimula colágeno. Aqui a pergunta muda de figura: esse mesmo estímulo funciona igual numa pele mais fina, com menos glândulas sebáceas e que nunca para de se mover? A resposta direta da literatura é desconfortável — e é exatamente por isso que vale a pena mostrá-la com números, não com adjetivo.
Fio liso é um procedimento estético minimamente invasivo, realizado por profissional habilitado, após avaliação individual da pele e do caso. Este material é exclusivamente informativo e educativo — apresenta o que os estudos científicos mostram sobre a resposta do pescoço a esse tipo de fio. Não é promessa de resultado, não substitui uma avaliação presencial e não define, sozinho, se o procedimento é indicado para você. Resultado varia conforme técnica, número de fios, número de sessões e características individuais da pele.
Todo mundo que já viu uma foto de “antes e depois” de fio no rosto se pergunta a mesma coisa sobre o pescoço: “se funcionou ali, funciona aqui do mesmo jeito?” É uma pergunta justa — e a literatura científica, por acaso, tem uma resposta direta para ela. Não é a resposta que o marketing de fio costuma repetir.
Na apostila 1 desta série expliquei o mecanismo: o fio liso de PDO não tem farpa nem tração mecânica — ele age só pela hidrólise do polímero, que estimula fibroblastos a produzir colágeno. Esta é a apostila mais importante das nove. Ela reúne a única comparação direta já publicada entre a resposta do pescoço e a resposta de outras zonas do rosto ao mesmo tipo de fio — e o resultado específico de fio liso no pescoço, medido em estudo próprio. Vou mostrar os dois lados com honestidade, inclusive onde a evidência ainda é fina.
Antes de chegar aos números, vale registrar por que o pescoço costuma responder diferente. É uma região com menos glândulas sebáceas, derme mais fina que a da face e que está em movimento constante — flexiona e estica centenas de vezes por dia, ao falar, engolir, olhar para baixo. Isso não é um dado de um estudo específico: é conhecimento anatômico básico, e ajuda a explicar por que o envelhecimento costuma aparecer cedo ali, e por que era esperado — mesmo antes de qualquer ensaio clínico — que a resposta a um procedimento de bioestímulo pudesse ser mais modesta do que na face. A pergunta que interessa é: quanto mais modesta, exatamente? É aí que entra o estudo mais direto que a literatura de fio já produziu.
Kaminer, Bogart, Choi e Wee (2008) acompanharam 20 pacientes tratados com fio farpado ancorado tanto na face quanto no pescoço, e avaliaram o resultado por fotos pré e pós-procedimento, julgadas por médicos independentes que não participaram do tratamento — em média 11,5 meses depois. Os próprios pacientes deram nota 6,9 de 10 para a satisfação com o resultado. Os avaliadores independentes, olhando só a foto, deram uma nota bem mais contida: 4,6 de 10.
O dado que interessa a esta apostila está um nível abaixo dessa média geral: os autores dividiram a avaliação em 3 zonas, e a Zona 3 — bandas platismais e contorno do pescoço — recebeu a nota mais baixa das três, atrás da Zona 1 (olheiras, região malar, sulco nasogeniano) e da Zona 2 (linha da mandíbula e jowls). Entre todas as áreas de face e pescoço tratadas com fio nesse estudo, o pescoço foi, na avaliação de quem não tinha interesse em agradar o paciente, a que mais decepcionou.
O estudo de Kaminer (2008) foi feito com fio farpado (“cog”), não com fio liso — que é o tema desta série. É a única comparação direta entre zonas que a literatura de fio já produziu, e por isso ela é o dado mais valioso que temos sobre “o pescoço responde pior que a face”. Mas ela não pode ser lida como se fosse sobre fio liso especificamente. Explico a diferença — e por que o dado ainda importa — mais abaixo.
Para fio liso no pescoço, a literatura tem um estudo dedicado — pequeno, mas real. Liao et al. (2022) trataram 10 pacientes com rugas horizontais do pescoço usando fio PPDO liso combinado a ácido hialurônico não reticulado, em até 4 sessões mensais. Aos 6 meses de acompanhamento, a melhora foi medida pela escala GAIS (Global Aesthetic Improvement Scale, de 1 a 5 pontos, quanto maior melhor): 4,3±0,8 na avaliação dos cirurgiões e 4,1±0,7 na avaliação dos próprios pacientes. Sem eventos adversos graves relatados.
Em termos de concordância: 50% dos avaliadores “concordaram fortemente” e 30% “concordaram” que as rugas horizontais haviam melhorado — juntos, 80% relataram melhora perceptível. É um resultado positivo e consistente com o mecanismo de bioestímulo descrito na apostila 1 — mas construído sobre uma base de apenas 10 pacientes, sem grupo placebo para comparação.
Achar que o resultado que você viu numa foto de rosto se repete do mesmo jeito no pescoço.
É o erro de expectativa mais caro dessa categoria. A única comparação direta entre zonas já publicada (Kaminer, 2008) mostra o contrário: entre as três áreas avaliadas no mesmo grupo de pacientes, com a mesma técnica de fio, o pescoço foi a que teve a nota mais baixa na avaliação de médicos independentes olhando as fotos. Uma foto de “antes e depois” impressionante do rosto não é uma promessa equivalente para o pescoço — são tecidos com resposta documentadamente diferente.
O certo: calibrar a expectativa por área tratada, com base no que os estudos dessa área específica mostram — não pela foto de outra pessoa, de outra zona, de outra técnica.
A diferença entre fio farpado (usado por Kaminer, 2008) e fio liso (tema desta série) não está na capacidade de estimular colágeno — está na tração mecânica. O fio farpado tem cogs que ancoram no tecido e produzem um efeito de sustentação imediata, além do bioestímulo. O fio liso não tem essa ancoragem: age só pela hidrólise que estimula fibroblastos, como vimos na apostila 1. Kim et al. (2017), em estudo com fio farpado, demonstraram que esse tipo de fio também estimula colágeno tipo I e TGF-β1 de forma mensurável — ou seja, farpado e liso compartilham a mesma via biológica de fundo, e não é a via biológica que os diferencia.
Isso é o que torna o dado de Kaminer (2008) ainda relevante, mesmo sendo de fio farpado: se o tecido do pescoço responde pior mesmo quando o fio tem o reforço extra de tração mecânica, é razoável esperar que a resposta ao fio liso — que não tem esse reforço — não seja melhor que isso. Não é prova direta; é extrapolação plausível, e esta apostila trata como tal.
Uma revisão sistemática de Contreras, Ariza-Donado e Ariza-Fontalvo (2023) descreve o fio de PDO, de forma geral, como uma “técnica escassamente estudada” na literatura científica. É uma frase útil para calibrar o tamanho real do corpo de evidência por trás de tudo o que foi mostrado acima: força de evidência C — estudos pequenos, sem grupo placebo dedicado à combinação fio liso + pescoço, e uma única comparação direta entre zonas (Kaminer, 2008) que, vale repetir, nem sequer usou fio liso.
Juntando as duas pontas com honestidade: a evidência específica de fio liso no pescoço é pequena — um único estudo dedicado, 10 pacientes, sem ensaio clínico randomizado controlado por placebo (Liao et al., 2022). Já a evidência de que o pescoço responde pior que a face a fio, de um modo geral, é a mais robusta disponível na literatura de fio para essa comparação — mesmo vindo de um estudo com fio farpado (Kaminer et al., 2008). As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é assim que esta apostila prefere apresentá-las: sem inflar a primeira, sem esconder a segunda.
Se eu tivesse que resumir esta apostila numa frase, seria esta: o pescoço é, na literatura de fio, a zona onde a régua de expectativa precisa ser mais curta. Isso não é um chute nem um “achismo de clínica” — é o que a única comparação direta já publicada entre zonas mostrou, numa avaliação feita por quem não tinha interesse nenhum em agradar o paciente (Kaminer, 2008). E quando olhamos o estudo dedicado a fio liso especificamente no pescoço (Liao, 2022), o resultado é positivo, mas construído sobre 10 pacientes — nem de longe a base de prova que outras zonas acumulam. As duas leituras juntas não desqualificam o procedimento: elas pedem que a conversa sobre expectativa, técnica e número de sessões aconteça antes de qualquer agulha, na avaliação individual com o profissional.
- O estudo mais direto que existe (Kaminer et al., 2008; n=20) mostra o pescoço com a nota mais baixa das 3 zonas avaliadas por médicos independentes.
- Fio liso, especificamente, no pescoço: GAIS 4,3±0,8 (cirurgiões) e 4,1±0,7 (pacientes) aos 6 meses, escala 1–5 (Liao et al., 2022; n=10).
- 80% relataram melhora perceptível das rugas horizontais do pescoço (50% concordou fortemente + 30% concordou) — Liao et al., 2022.
- Sem eventos adversos graves reportados no estudo de Liao et al. (2022).
- Kaminer (2008) usou fio farpado, não liso — é uma limitação real; mas os dois tipos estimulam colágeno pela mesma via biológica (Kim et al., 2017), o que sustenta a extrapolação com ressalva.
- Contreras et al. (2023): fio de PDO é técnica “escassamente estudada” — força de evidência C para toda esta categoria.
- Não existe, até esta pesquisa, um ensaio clínico randomizado controlado por placebo dedicado a fio liso no pescoço.
Se o pescoço já responde de forma mais modesta, a pergunta natural é: colocar mais fios compensa a diferença? A próxima apostila da série mostra o que um ensaio clínico randomizado — o único desse tipo publicado para fio — descobriu ao comparar 6 fios contra 12 fios no mesmo procedimento. Spoiler honesto: a quantidade não foi a variável que mudou o resultado. Leve estas leituras à avaliação individual: é ali que técnica, número de fios e expectativa se ajustam ao seu caso.
- Kaminer MS, Bogart M, Choi C, Wee SA. Long-term efficacy of anchored barbed sutures in the face and neck. Dermatol Surg, 2008;34(8):1041–1047 — 20 pacientes, fio farpado em face e pescoço, avaliação independente aos 11,5 meses em média; pescoço com a nota mais baixa das 3 zonas avaliadas.
- Liao YH et al. A Case Study: Comprehensive Approach for Treating Horizontal Neck Wrinkles Using Hyaluronic Acid Injections and Thread-Lifting. Aesthetic Plast Surg, 2022 — 10 pacientes, fio PPDO liso + AH não reticulado; GAIS 4,3±0,8 (cirurgiões) e 4,1±0,7 (pacientes) aos 6 meses; 80% relataram melhora.
- Contreras C, Ariza-Donado A, Ariza-Fontalvo A. Using PDO threads: A scarcely studied rejuvenation technique. Case report and systematic review. J Cosmet Dermatol, 2023;22:2158–2165 — descreve o fio de PDO como técnica escassamente estudada na literatura.
- Kim J, Zheng Z, Kim H, Nam KA, Chung KY. Investigation on the Cutaneous Change Induced by Face-Lifting Monodirectional Barbed Polydioxanone Thread. Dermatol Surg, 2017;43(1):74–80 — estudo animal; fio farpado também estimula colágeno tipo I e TGF-β1, mantido por 7 meses.