Apostila 6 · Bioestimuladores no pescoço · Estudo

CaHA × PLLA × PDLLA: qual tem mais evidência para pescoço

Essa pergunta não é a mesma coisa que “qual funciona melhor”. Não existe, até esta busca, um único estudo que tenha colocado os três produtos lado a lado no pescoço e medido qual venceu. O que existe é uma quantidade e uma qualidade de pesquisa dedicada bem diferentes entre os três — e é isso, só isso, que esta apostila compara.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Bioestimuladores de colágeno injetáveis (hidroxiapatita de cálcio, ácido poli-L-lático e ácido poli-D,L-lático) são procedimentos realizados por profissional habilitado, mediante avaliação individual. Este material é exclusivamente informativo e educativo — compara quantidade e qualidade de estudo científico dedicado ao pescoço, não é ranking de eficácia, protocolo nem indicação para o seu caso. A escolha do produto depende de avaliação presencial, não desta leitura.

Toda vez que alguém pergunta “qual bioestimulador de colágeno é melhor para o pescoço”, a pergunta honesta de volta é: melhor segundo qual estudo? Porque nenhum ensaio, até hoje, testou hidroxiapatita de cálcio (CaHA), ácido poli-L-lático (PLLA) e ácido poli-D,L-lático (PDLLA) ao mesmo tempo, no mesmo grupo de pacientes, no pescoço, medindo qual produziu mais colágeno ou mais satisfação. Essa comparação simplesmente não existe na literatura ainda.

O que existe — e é isso que esta apostila organiza — é uma diferença bem real na quantidade de estudos dedicados a cada produto, no tipo de desenho de pesquisa usado e em quem já tem um achado histológico (biópsia) a favor. Isso não diz qual produto “ganha”. Diz onde a ciência já olhou com mais atenção — e onde ela praticamente ainda não olhou.

1. Duas perguntas diferentes — e por que a literatura só responde uma delas

“Qual tem mais evidência” pergunta sobre volume e desenho de pesquisa: quantos estudos existem, com quantos pacientes, com que rigor metodológico. “Qual é melhor” pergunta sobre resultado clínico comparado: qual produto, testado contra o outro no mesmo paciente ou no mesmo grupo, produziu mais melhora. A primeira pergunta a literatura de bioestimulador no pescoço responde — com limitações, mas responde. A segunda, ela simplesmente não responde: não existe nenhum ensaio comparativo direto (head-to-head) entre CaHA, PLLA e PDLLA especificamente no pescoço.

Essa distinção parece sutil, mas muda tudo o que pode ser dito com honestidade. É possível — e é isso que este texto faz — dizer “CaHA tem mais estudos dedicados ao pescoço que PLLA, que por sua vez tem mais que PDLLA”. Não é possível dizer “CaHA funciona melhor que PLLA no pescoço”, porque nenhum estudo mediu essa comparação diretamente.

2. CaHA: o produto com mais estudos dedicados ao pescoço — 6 no total

Dentro dos três produtos, a hidroxiapatita de cálcio hiperdiluída é a que acumula o maior número de trabalhos com dado específico de pescoço nesta busca: 6 estudos, entre eficácia e segurança — de Almeida 2023 (N=22, avaliador cego + ultrassom), Guida 2021 (N=20), Park 2025 (N=10, sessão única), Yutskovskaya & Kogan 2017 (N=20, biópsia), Nipshagen 2020 (nódulo, texto bloqueado por paywall) e Kang, Fabi & Hoss 2025 (caso + revisão de anatomia). Nenhum desses é um ensaio controlado por placebo — mas é, dos três produtos, o conjunto mais numeroso.

O diferencial mais forte do CaHA não é só a quantidade: é ter o único achado histológico da série sobre pescoço. Yutskovskaya & Kogan (2017) biopsiaram tecido e mediram colágeno tipo I aumentando de forma estatisticamente significativa — p<0,05 aos 4 meses e p<0,00001 aos 7 meses (N=20) — a prova mais direta, entre os três produtos, de que a neocolagênese está mesmo acontecendo. A ressalva já detalhada na apostila 3 desta série continua valendo: a biópsia foi peri-auricular, não no tecido do pescoço efetivamente injetado.

3. PLLA: menos estudos dedicados — mas com o único desenho randomizado da classe

O ácido poli-L-lático tem uma base de pesquisa menor e mais fragmentada para pescoço especificamente. Quatro trabalhos aparecem citados nesse universo — Mazzuco & Hexsel 2009 (N=36, pescoço e decote juntos), Wilkerson & Goldberg 2018 (N=25, só decote), o registro NCT05538728 (N=30, só decote, randomizado entre duas diluições) e Amselem et al. 2024 (N=70, com um subconjunto de 31 sessões de pescoço). Só dois desses — Mazzuco 2009 e Amselem 2024 — reportam de fato um dado isolado do pescoço; os outros dois são de decote, uma área vizinha frequentemente tratada junto e citada em conjunto, o que dilui um pouco a leitura de “quantos estudos são realmente de pescoço”.

Mesmo com menos volume, o PLLA carrega duas peças de evidência que o CaHA não tem. A primeira é o único ensaio randomizado de toda a classe voltado a essa região: o NCT05538728 comparou duas diluições do produto (8mL × 17mL) em 30 participantes, com 93,8% e 78,6% melhorando pelo menos 1 grau na escala GDS de decote aos 9 meses — randomizado entre doses, não contra placebo, e no decote, não no pescoço propriamente dito. A segunda é o maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço da série toda: Amselem et al. 2024, N=70, com 31 sessões dedicadas ao pescoço e 87,9% de satisfação — maior em escala de uso real do que qualquer estudo de CaHA aqui reunido, ainda que sem grupo controle.

4. PDLLA: nenhum estudo de eficácia dedicado ao pescoço nesta busca

Para o ácido poli-D,L-lático, a honestidade exige uma frase curta: não foi encontrado, nesta busca, nenhum estudo clínico de eficácia dedicado especificamente ao pescoço. O que existe sobre PDLLA e a classe dos bioestimuladores injetáveis para essa região é, em grande parte, extrapolação de uso em outras áreas do corpo — face, tronco — descrita de forma genérica em textos de revisão e marketing, sem um ensaio próprio de pescoço para sustentar.

O único achado de PDLLA nesta busca com relevância direta não é de eficácia — é de segurança, e nem sequer é de pescoço: Perez Willis & Ramirez Galvez (2024) descrevem um caso de granuloma por PDLLA tratado com triancinolona, mas o caso é facial (mandíbula/bochecha). Ele é útil aqui só como nota de segurança geral da classe — o tipo de complicação que um bioestimulador pode gerar e como ela costuma ser manejada — nunca como evidência de que o PDLLA funciona (ou não) no pescoço.

Estudos com dado dedicado ao universo pescoço/decote, por produto
Contagem desta busca — ordena volume de pesquisa, não mede qualidade nem resultado clínico
CaHA
6 estudos
PLLA
4 estudos (2 de pescoço)
PDLLA
0 estudos de eficácia — 1 caso de segurança (facial)
Cada barra conta estudos com dado do pescoço ou do decote (área vizinha, frequentemente citada em conjunto na literatura de PLLA) — não é medida de peso científico nem de resultado clínico. Dos 4 trabalhos de PLLA, apenas Mazzuco 2009 e Amselem 2024 reportam dado isolado de pescoço; os outros 2 são de decote.
1

CaHA — hidroxiapatita de cálcio

Mais estudado no pescoço

6 estudos com dado dedicado, incluindo o único achado histológico da série (Yutskovskaya 2017). A base mais numerosa, mas ainda sem nenhum ensaio controlado por placebo.

2

PLLA — ácido poli-L-lático

Menos estudado, com 1 randomizado

4 estudos citados (2 de pescoço isolado), mas dono do único desenho randomizado da classe (NCT05538728) e do maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço (Amselem 2024, 31 sessões).

3

PDLLA — ácido poli-D,L-lático

Sem estudo de eficácia de pescoço

0 estudos de eficácia dedicados ao pescoço nesta busca. Único achado relacionado é um caso de granuloma — e é facial, não cervical. Uso no pescoço apoia-se em extrapolação de outras áreas.

O quadro para guardar: volume e tipo de evidência, lado a lado
ProdutoNº de estudos dedicados a pescoçoMaior N (dado de pescoço)Desenho mais forte encontradoAchado histológico?
CaHA622 — avaliador cego + ultrassom (de Almeida, 2023)Prospectivo aberto, avaliador cego + ultrassomSim — colágeno I, p<0,05→p<0,00001 (peri-auricular)
PLLA4 (2 de pescoço)31 sessões de pescoço, dentro de estudo pós-mercado N=70 (Amselem, 2024)Randomizado dose × dose, N=30 — mas é decote, não pescoço (NCT05538728)Não encontrado
PDLLA0 de eficácia1 relato de caso de granuloma — facial, não pescoçoNão
Comparação direta entre os 3, no pescoçoNenhum estudo encontrado — gap confirmado
O gap que precisa ficar explícito

Nenhum estudo, nesta busca, comparou CaHA, PLLA e PDLLA entre si dentro do mesmo desenho, no pescoço. Toda a comparação desta apostila é de volume e tipo de evidência já publicada — não é o resultado de um estudo que colocou os três produtos lado a lado e apurou um vencedor. Essa comparação, hoje, não existe na literatura.

Um erro muito comum

Confundir “mais estudado” com “melhor resultado clínico” — são perguntas diferentes.

CaHA ter 6 estudos dedicados ao pescoço e PLLA ter 4 (ou PDLLA ter 0) não significa que o primeiro produza um resultado clínico superior ao segundo. Significa que a comunidade científica já dedicou mais atenção de pesquisa a um produto do que a outro nessa região específica — o que pode refletir tempo de mercado, facilidade de acesso a uma técnica hiperdiluída documentada antes, interesse editorial ou simplesmente a ordem em que os grupos de pesquisa decidiram investigar. Nenhum desses fatores prova superioridade de eficácia.

O certo: usar “quem tem mais evidência” para saber o que já está mais bem documentado e o que ainda depende de extrapolação — não para eleger um produto “vencedor” sem que exista o estudo que provaria isso.

O que essa diferença de volume significa na prática

Significa, sobretudo, que quem decide sobre PDLLA no pescoço está decidindo com bem menos pesquisa dedicada por trás do que quem decide sobre CaHA ou PLLA — não porque o PDLLA seja necessariamente pior, mas porque a pergunta específica “isso funciona no pescoço” ainda não foi feita, em estudo próprio, para esse produto. É uma diferença de mapa de conhecimento, não de resultado medido.

A Sacada dos DoutoresComparar evidência disponível não é o mesmo que eleger um vencedor

Esta apostila é, de propósito, a mais cautelosa da série em uma coisa: ela não diz qual bioestimulador “é melhor” para pescoço, porque a literatura simplesmente não fez esse teste ainda. O que ela mostra é onde a ciência já olhou com mais cuidado — o CaHA, com o maior número de estudos e o único achado histológico; o PLLA, com menos volume, mas com o único desenho randomizado da classe; e o PDLLA, praticamente sem pesquisa própria de pescoço até este levantamento. Essa é uma informação real e útil — para calibrar expectativa de “quanto já se sabe” — mas é força C: compara quantidade e qualidade de estudo disponível, não resultado clínico comparado. Qual produto, diluição e técnica cabem no seu caso é decisão que se toma na avaliação individual, não numa tabela de contagem de estudos.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • CaHA tem a maior base de evidência dedicada ao pescoço: 6 estudos, incluindo o único achado histológico da série (colágeno I, p<0,05 aos 4 meses e p<0,00001 aos 7 meses — Yutskovskaya & Kogan, 2017).
  • PLLA tem menos estudos dedicados (4, sendo só 2 de pescoço isolado), mas é o único com um desenho randomizado (NCT05538728, dose × dose, decote) e o maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço (Amselem, 2024 — 31 sessões).
  • PDLLA não tem nenhum estudo de eficácia dedicado ao pescoço nesta busca — só um relato de segurança, e ele é facial, não cervical (Perez Willis & Ramirez Galvez, 2024).
  • Nenhum estudo comparou os três produtos entre si no pescoço — não existe base para afirmar superioridade clínica de nenhum deles sobre os outros.
  • “Mais estudado” mede volume de pesquisa, não resultado clínico — são perguntas diferentes, e essa é a confusão mais comum ao redor deste tema.
  • Esta comparação é força C: compara quantidade e qualidade de evidência disponível, não desfecho clínico medido cabeça a cabeça.
  • A escolha do produto é decisão da avaliação individual — depende do seu caso, não de qual produto “tem mais artigo publicado”.
O próximo passo

Depois de comparar quanto cada produto já foi estudado, a pergunta que fecha o ciclo de segurança é: o que acontece quando algo dá errado? A próxima apostila da série detalha nódulo e granuloma — o que a literatura mostra sobre frequência, tempo até aparecer e manejo, incluindo por que o pescoço é considerado a área tecnicamente mais sensível dentro da própria classe de bioestimuladores (Kang, Fabi & Hoss, 2025; Wang et al., 2025). Leve estas leituras à avaliação individual: quem examina o seu caso e decide sobre produto, técnica e indicação é o profissional habilitado.

Referências
  1. de Almeida ART, Figueredo V, da Cunha ALG, et al. Improvement in Skin Laxity and Rhytides of the Neck Following Treatment With Diluted Calcium Hydroxylapatite. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2023;16:1359–1367 — N=22, avaliador cego + ultrassom; maior N entre os estudos de CaHA dedicados ao pescoço.
  2. Yutskovskaya YA, Kogan EA. Improved Neocollagenesis and Skin Mechanical Properties After Injection of Diluted Calcium Hydroxylapatite. J Drugs Dermatol, 2017;16:68–74 — N=20, único achado histológico da série: colágeno I p<0,05 (4m) e p<0,00001 (7m), biópsia peri-auricular.
  3. Mazzuco R, Hexsel D. Poly-L-lactic acid for neck and chest rejuvenation. Dermatol Surg, 2009;35:1228–1237 — N=36, primeiro estudo relevante de PLLA com dado isolado de pescoço.
  4. [Autores não individualizados no registro]. Safety and Effectiveness of Two Reconstitution Volumes of Poly-L-Lactic Acid for Correction of Decolletage Wrinkles. J Drugs Dermatol — registro NCT05538728 — N=30, único ensaio randomizado da classe (dose × dose); área = decote.
  5. Amselem M, et al. Poly-L-Lactic Acid for Facial and Body Rejuvenation: A Postmarketing Study. J Cosmet Dermatol, 2024;23:3277–3286 — N=70 (31 sessões de pescoço), 87,9% de satisfação; maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço.
  6. Perez Willis KM, Ramirez Galvez R. Granuloma after the Injection of Poly-D,L-Lactic Acid (PDLLA) Treated with Triamcinolone. Case Rep Dermatol Med, 2024;2024:6544506 — único achado de PDLLA nesta busca; caso facial, não de pescoço — usado só como nota de segurança da classe.
  7. Wang H, et al. Foreign Body Granulomas Reaction Related to Collagen Stimulatory Cosmetic Fillers: A Systematic Review. J Cosmet Dermatol, 2025;24:e70459 — revisão de 40 estudos/117 pacientes; CaHA 27,35% e PLLA 30,77% dos casos relatados de granuloma; sem dado específico de pescoço.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de uso nem promessa de resultado. Bioestimuladores de colágeno injetáveis são procedimentos realizados por profissional habilitado. Esta apostila compara volume e tipo de evidência científica publicada — não é ranking de eficácia clínica nem substitui avaliação presencial. A indicação, o produto e a técnica dependem do seu caso individual.