O protocolo do HIFU na pálpebra não é o do rosto inteiro
Existe um protocolo publicado que trata a pele da pálpebra diretamente — sonda, dose e disparos próprios — e um protocolo diferente, também publicado, que eleva a sobrancelha para aliviar a “cortina” de pele sobre o olho. São parâmetros distintos, para alvos distintos, e nenhum estudo colocou os dois lado a lado para dizer qual rende mais. Entender essa diferença evita a expectativa de que existe um único “protocolo de HIFU para os olhos”.
O HIFU (ultrassom microfocado) é um procedimento estético — um ato de profissional biomédico habilitado, sempre precedido de avaliação individual da pele, da queixa e do histórico de saúde. Este material é exclusivamente educativo: descreve os parâmetros e o desenho dos protocolos usados nos estudos publicados sobre a região periocular — não recomenda uma sonda, uma dose ou um número de disparos específico para você, e não substitui avaliação presencial. Esta apostila não trata de indicação nem de resultado esperado (temas de outras apostilas da série); o objetivo aqui é mostrar exatamente o que os estudos aplicaram, e onde um protocolo termina e outro começa.
É comum imaginar que “HIFU é HIFU” — que o mesmo aparelho e o mesmo ajuste usados no rosto inteiro são simplesmente aproximados alguns centímetros e aplicados na pálpebra, com o mesmo resultado. Os estudos publicados sobre a região dos olhos mostram outra coisa: a pele da pálpebra é a mais fina do corpo, e o globo ocular está a poucos milímetros dela. Isso muda a sonda, muda a dose, e muda uma etapa de proteção que não aparece com o mesmo peso no protocolo de rosto inteiro.
E há mais uma camada: a literatura periocular não descreve um protocolo, mas pelo menos dois — um que trata a pele da pálpebra em si, e outro que eleva a sobrancelha para aliviar indiretamente o excesso visível sobre o olho. São desenhos de estudo diferentes, com sondas e doses diferentes, e — até onde esta pesquisa localizou — nenhum ensaio comparou os dois de frente. Vamos aos números de cada um.
O único estudo com desfecho objetivo medido em milímetros de pele palpebral (e não de sobrancelha) usou uma combinação de parâmetros diferente da que costuma ser aplicada no rosto inteiro: sonda de 2,0 mm de profundidade de foco e 4 MHz, entregando 0,2 joule por disparo — energia mais baixa que a de transdutores mais profundos — num total de 120 disparos por sessão, sendo 40 na pálpebra superior e 80 distribuídos entre a pálpebra inferior e a região dos pés de galinha, em 34 mulheres coreanas de 31 a 67 anos (Hwang, 2025).
Antes da aplicação, o protocolo prevê anestésico tópico por 40 minutos — um tempo de espera mais longo do que muitas aplicações faciais costumam usar — e inclui protetor de córnea bilateral em toda a sessão, sem exceção registrada na amostra do estudo. Esses três elementos juntos — sonda mais rasa, dose mais baixa, tempo de anestesia mais longo — não são um detalhe estético do protocolo: são a resposta direta ao fato de que a pele ali é fina demais, e o olho está perto demais, para repetir o ajuste usado em bochecha ou papada.
| Parâmetro | Protocolo periocular direto (Hwang, 2025) | Protocolo de elevação de sobrancelha (Oh, 2019) | Protocolo SMAS testa/têmpora (Chen, 2024) |
|---|---|---|---|
| Alvo tratado | Pele da pálpebra superior e inferior | Testa, para elevar a sobrancelha | SMAS/subcutâneo de testa e têmpora |
| Sonda usada | 2,0 mm / 4 MHz | 3,0 mm / 7 MHz | M3.0, D2.0 e D3.0 combinadas |
| Energia / disparos | 0,2 J por disparo · 120 disparos totais | 90 a 110 disparos, em 9-11 linhas verticais | Não detalhado por disparo no relato |
| Distribuição | 40 pálpebra superior + 80 inferior/pés de galinha | Linhas verticais na testa | Linhas em testa e têmpora |
| Conforto / proteção | Anestésico tópico 40 min + protetor de córnea bilateral | Sem detalhe de anestesia relatado | Sem detalhe de anestesia relatado |
| Dor relatada (EVA 0-10) | Não reportada de forma comparável | 7,57 ± 1,59 | 2,41 ± 0,70 |
Além do protocolo periocular direto, a literatura descreve uma segunda estratégia — que não mira a pele da pálpebra em si, mas a sobrancelha acima dela, na lógica de que elevar o supercílio reduz a “cortina” de pele que parece cair sobre o olho. Num estudo com 30 pacientes asiáticos, a sonda usada foi de 3,0 mm/7 MHz — mais profunda e de frequência mais alta que a do protocolo periocular direto —, aplicada em 9 a 11 linhas verticais na testa, totalizando 90 a 110 disparos; a altura média da sobrancelha subiu 1,56±0,30 mm em 12 semanas (p<0,0001) (Oh, 2019).
Um estudo mais recente usou um conjunto diferente de sondas — M3.0, D2.0 e D3.0 — direcionadas ao SMAS e ao subcutâneo da testa e da têmpora, numa coorte de 40 participantes; a elevação de sobrancelha chegou a 2,16±0,63 mm aos 90 dias, com 87,5% (35 de 40 participantes) mantendo elevação clinicamente significativa aos 180 dias (Chen, 2024). É um terceiro conjunto de parâmetros — sondas, profundidade de alvo e desenho de linhas diferentes tanto do protocolo periocular direto quanto do estudo de sobrancelha anterior.
Até onde esta pesquisa localizou, nenhum ensaio testou o protocolo periocular direto e o protocolo de elevação de sobrancelha na mesma amostra, para responder qual dos dois rende mais melhora em “pálpebra caída”. São linhas de pesquisa paralelas, com alvos diferentes — pele da pálpebra em si, no primeiro caso; elevação indireta via sobrancelha, no segundo. Escolher entre uma abordagem, outra, ou uma combinação das duas é decisão que depende do exame da queixa específica, feito por quem avalia presencialmente.
Ilustrativo — as barras ordenam os números publicados de cada estudo, não representam uma comparação direta de eficácia; são desenhos, amostras e alvos diferentes, e nenhum ensaio testou os dois protocolos lado a lado na mesma população.
No estudo do protocolo periocular direto, o protetor de córnea bilateral apareceu em toda a amostra — não é uma alternativa entre outras dentro do desenho, é parte dele (Hwang, 2025). A região dos olhos é a única, entre as áreas tratadas com HIFU, onde a distância entre a pele e uma estrutura tão sensível é medida em poucos milímetros. A apostila 6 desta série aprofunda o que a literatura de segurança documenta especificamente sobre essa etapa do protocolo.
A intensidade de dor relatada nos dois estudos de elevação de sobrancelha, medidos por escala visual analógica (EVA) de 0 a 10, não é a mesma. No estudo mais antigo, com a sonda de 3,0 mm/7 MHz em linhas na testa, a dor imediata foi alta — 7,57 ± 1,59 — e levou 4 semanas para se resolver por completo (Oh, 2019). No estudo mais recente, com um conjunto diferente de sondas (M3.0/D2.0/D3.0) mirando o SMAS e o subcutâneo, a dor relatada foi bem mais baixa — 2,41 ± 0,70 (Chen, 2024).
Uma diferença de mais de 5 pontos, na mesma escala de 0 a 10, entre dois estudos que tratam a mesma região (testa, para elevar a sobrancelha) não é sobre “o quanto o HIFU dói” de forma genérica — é sobre o aparelho, a sonda e o protocolo específico utilizados em cada estudo. O protocolo periocular direto (Hwang, 2025), por sua vez, não reporta uma nota EVA comparável às duas anteriores; usa, em vez disso, um tempo mais longo de anestésico tópico (40 minutos) como estratégia própria de conforto.
Achar que existe UM protocolo padrão de HIFU “para o olho” — como se todo aparelho, toda sonda e todo número de disparos usados na região periocular fossem intercambiáveis entre si.
A literatura descreve, no mínimo, duas abordagens estudadas com parâmetros distintos: uma que trata a pele da pálpebra diretamente, com sonda de 2,0 mm/4 MHz e 120 disparos (Hwang, 2025); e outra que eleva a sobrancelha, com sonda de 3,0 mm/7 MHz e 90-110 disparos (Oh, 2019), ou com um terceiro conjunto de sondas mirando o SMAS da testa e têmpora (Chen, 2024). Tratar qualquer uma delas como “o” protocolo de HIFU para os olhos ignora que são estudos de alvos, sondas e doses diferentes — e que nenhum comparou os dois de frente.
O certo: entender que sonda, dose, disparos e a escolha entre tratar a pálpebra diretamente ou elevar a sobrancelha são decisões clínicas individualizadas, tomadas pelo profissional habilitado após avaliar a queixa específica — não um protocolo único e universal.
Se eu tivesse que resumir esta apostila numa frase, seria esta: não existe “o” protocolo de HIFU para os olhos, existem pelo menos dois, medindo coisas diferentes. Um trata a pele da pálpebra em si, com sonda mais rasa, dose mais baixa e uma etapa de proteção ocular que aparece em toda a amostra do estudo (Hwang, 2025). O outro eleva a sobrancelha, com uma sonda mais profunda e de frequência mais alta, para aliviar indiretamente o que cai sobre o olho (Oh, 2019; Chen, 2024). E a dor relatada entre esses dois últimos estudos varia de 7,57 a 2,41 numa escala de 10 pontos — o que mostra que “quanto dói” depende do aparelho e do protocolo escolhido, não é uma propriedade fixa do ultrassom microfocado. Qual sonda, qual dose e qual dos dois caminhos se aplica ao seu caso é decisão de quem examina a sua pele e a sua queixa pessoalmente — não algo que se replica de um estudo para o outro sem essa avaliação.
- O protocolo periocular direto usa sonda mais rasa (2,0mm/4MHz) e dose mais baixa (0,2J por disparo) que costuma ser usado no rosto inteiro — 120 disparos por sessão (Hwang, 2025).
- Desses 120 disparos, 40 vão na pálpebra superior e 80 na inferior/pés de galinha — distribuição específica, não uma “aplicação geral” na região dos olhos.
- Existe uma segunda estratégia publicada, que não mira a pele da pálpebra, mas eleva a sobrancelha: sonda 3,0mm/7MHz, 90-110 disparos em 9-11 linhas na testa (Oh, 2019), ou sondas M3.0/D2.0/D3.0 no SMAS de testa/têmpora (Chen, 2024).
- Nenhum estudo comparou os dois protocolos lado a lado para dizer qual rende mais melhora em “pálpebra caída” — são alvos diferentes (pele palpebral × elevação indireta via sobrancelha).
- A dor relatada varia de 7,57±1,59 (Oh, 2019) a 2,41±0,70 (Chen, 2024) — mais de 5 pontos de diferença numa escala de 10, atribuível ao aparelho/protocolo, não a “quanto dói o HIFU” em geral.
- O protetor de córnea bilateral apareceu em toda a amostra do protocolo periocular direto — parte obrigatória do protocolo estudado, não um item opcional.
- Qual sonda, qual dose e qual protocolo se aplica ao seu caso é decisão do profissional habilitado, feita após avaliação individual — não uma escolha que se replica sozinho a partir de um número de estudo.
Entendidos os dois protocolos e suas diferenças, a pergunta natural é: para quem essa evidência de fato se aplica — e para quem a expectativa deveria ser outra? A próxima apostila desta série mostra o perfil de laxidez que os estudos recrutaram, e por que “pálpebra caída” nem sempre significa a mesma coisa. Leve este entendimento à avaliação individual com um profissional biomédico habilitado: é ele quem define sonda, dose, disparos e a estratégia mais adequada para o seu caso.
- Hwang Y, Kim JH, Lee HE, Wong Kai Jie I, Song JK, Jalali A, Rosellini I, Thulesen J, Vitale M, Kim EJ, Yi KH. Efficacy of high-intensity focused ultrasound for treating upper and lower eyelid sagging. JPRAS Open. 2025;48:147-154. PMID: 41438879 (texto completo livre — PMC12719753) — protocolo periocular direto: sonda 2,0mm/4MHz, 0,2J/disparo, 120 disparos (40 pálpebra superior, 80 inferior/pés de galinha), anestésico tópico 40min, protetor de córnea bilateral.
- Oh WJ, Kwon HJ, Choi SY, Yoo KH, Park KY, Kim BJ. Effect of High-Intensity Focused Ultrasound on Eyebrow Lifting in Asians. Ann Dermatol. 2019;31(2):223-225. PMID: 33911575 — protocolo de elevação de sobrancelha: sonda 3,0mm/7MHz, 90-110 disparos em 9-11 linhas na testa; dor EVA 7,57±1,59, resolvida em 4 semanas.
- Chen W, Deng Y, Qiao G, Cai W. Ultrasound rejuvenation for upper facial skin: A randomized blinded prospective study. J Cosmet Dermatol. 2024;23(12):3942-3949. PMID: 39034504 (texto completo livre — PMC11626351) — protocolo com sondas M3.0/D2.0/D3.0 no SMAS/subcutâneo de testa e têmpora; dor EVA 2,41±0,70; elevação de sobrancelha 2,16±0,63mm aos 90 dias.