Apostila 3 · HIFU × pálpebra caída · Procedimento

O protocolo do HIFU na pálpebra não é o do rosto inteiro

Existe um protocolo publicado que trata a pele da pálpebra diretamente — sonda, dose e disparos próprios — e um protocolo diferente, também publicado, que eleva a sobrancelha para aliviar a “cortina” de pele sobre o olho. São parâmetros distintos, para alvos distintos, e nenhum estudo colocou os dois lado a lado para dizer qual rende mais. Entender essa diferença evita a expectativa de que existe um único “protocolo de HIFU para os olhos”.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O HIFU (ultrassom microfocado) é um procedimento estético — um ato de profissional biomédico habilitado, sempre precedido de avaliação individual da pele, da queixa e do histórico de saúde. Este material é exclusivamente educativo: descreve os parâmetros e o desenho dos protocolos usados nos estudos publicados sobre a região periocular — não recomenda uma sonda, uma dose ou um número de disparos específico para você, e não substitui avaliação presencial. Esta apostila não trata de indicação nem de resultado esperado (temas de outras apostilas da série); o objetivo aqui é mostrar exatamente o que os estudos aplicaram, e onde um protocolo termina e outro começa.

É comum imaginar que “HIFU é HIFU” — que o mesmo aparelho e o mesmo ajuste usados no rosto inteiro são simplesmente aproximados alguns centímetros e aplicados na pálpebra, com o mesmo resultado. Os estudos publicados sobre a região dos olhos mostram outra coisa: a pele da pálpebra é a mais fina do corpo, e o globo ocular está a poucos milímetros dela. Isso muda a sonda, muda a dose, e muda uma etapa de proteção que não aparece com o mesmo peso no protocolo de rosto inteiro.

E há mais uma camada: a literatura periocular não descreve um protocolo, mas pelo menos dois — um que trata a pele da pálpebra em si, e outro que eleva a sobrancelha para aliviar indiretamente o excesso visível sobre o olho. São desenhos de estudo diferentes, com sondas e doses diferentes, e — até onde esta pesquisa localizou — nenhum ensaio comparou os dois de frente. Vamos aos números de cada um.

O protocolo periocular direto: sonda mais rasa, dose mais baixa, 120 disparos

O único estudo com desfecho objetivo medido em milímetros de pele palpebral (e não de sobrancelha) usou uma combinação de parâmetros diferente da que costuma ser aplicada no rosto inteiro: sonda de 2,0 mm de profundidade de foco e 4 MHz, entregando 0,2 joule por disparo — energia mais baixa que a de transdutores mais profundos — num total de 120 disparos por sessão, sendo 40 na pálpebra superior e 80 distribuídos entre a pálpebra inferior e a região dos pés de galinha, em 34 mulheres coreanas de 31 a 67 anos (Hwang, 2025).

Antes da aplicação, o protocolo prevê anestésico tópico por 40 minutos — um tempo de espera mais longo do que muitas aplicações faciais costumam usar — e inclui protetor de córnea bilateral em toda a sessão, sem exceção registrada na amostra do estudo. Esses três elementos juntos — sonda mais rasa, dose mais baixa, tempo de anestesia mais longo — não são um detalhe estético do protocolo: são a resposta direta ao fato de que a pele ali é fina demais, e o olho está perto demais, para repetir o ajuste usado em bochecha ou papada.

ParâmetroProtocolo periocular direto (Hwang, 2025)Protocolo de elevação de sobrancelha (Oh, 2019)Protocolo SMAS testa/têmpora (Chen, 2024)
Alvo tratadoPele da pálpebra superior e inferiorTesta, para elevar a sobrancelhaSMAS/subcutâneo de testa e têmpora
Sonda usada2,0 mm / 4 MHz3,0 mm / 7 MHzM3.0, D2.0 e D3.0 combinadas
Energia / disparos0,2 J por disparo · 120 disparos totais90 a 110 disparos, em 9-11 linhas verticaisNão detalhado por disparo no relato
Distribuição40 pálpebra superior + 80 inferior/pés de galinhaLinhas verticais na testaLinhas em testa e têmpora
Conforto / proteçãoAnestésico tópico 40 min + protetor de córnea bilateralSem detalhe de anestesia relatadoSem detalhe de anestesia relatado
Dor relatada (EVA 0-10)Não reportada de forma comparável7,57 ± 1,592,41 ± 0,70
Dois alvos, dois protocolos: tratar a pálpebra × elevar a sobrancelha

Além do protocolo periocular direto, a literatura descreve uma segunda estratégia — que não mira a pele da pálpebra em si, mas a sobrancelha acima dela, na lógica de que elevar o supercílio reduz a “cortina” de pele que parece cair sobre o olho. Num estudo com 30 pacientes asiáticos, a sonda usada foi de 3,0 mm/7 MHz — mais profunda e de frequência mais alta que a do protocolo periocular direto —, aplicada em 9 a 11 linhas verticais na testa, totalizando 90 a 110 disparos; a altura média da sobrancelha subiu 1,56±0,30 mm em 12 semanas (p<0,0001) (Oh, 2019).

Um estudo mais recente usou um conjunto diferente de sondas — M3.0, D2.0 e D3.0 — direcionadas ao SMAS e ao subcutâneo da testa e da têmpora, numa coorte de 40 participantes; a elevação de sobrancelha chegou a 2,16±0,63 mm aos 90 dias, com 87,5% (35 de 40 participantes) mantendo elevação clinicamente significativa aos 180 dias (Chen, 2024). É um terceiro conjunto de parâmetros — sondas, profundidade de alvo e desenho de linhas diferentes tanto do protocolo periocular direto quanto do estudo de sobrancelha anterior.

O que ainda não existe: um estudo comparando os dois de frente

Até onde esta pesquisa localizou, nenhum ensaio testou o protocolo periocular direto e o protocolo de elevação de sobrancelha na mesma amostra, para responder qual dos dois rende mais melhora em “pálpebra caída”. São linhas de pesquisa paralelas, com alvos diferentes — pele da pálpebra em si, no primeiro caso; elevação indireta via sobrancelha, no segundo. Escolher entre uma abordagem, outra, ou uma combinação das duas é decisão que depende do exame da queixa específica, feito por quem avalia presencialmente.

Alvo: pele da pálpebra
Protocolo periocular direto
Hwang, 2025 · 34 mulheres, 31-67 anos
Disparos totais por sessão120
Frequência da sonda4 MHz
Alvo: elevar a sobrancelha
Protocolo de elevação indireta
Oh, 2019 · 30 pacientes asiáticos
Disparos totais por sessão90 a 110
Frequência da sonda7 MHz

Ilustrativo — as barras ordenam os números publicados de cada estudo, não representam uma comparação direta de eficácia; são desenhos, amostras e alvos diferentes, e nenhum ensaio testou os dois protocolos lado a lado na mesma população.

Atenção — o protetor de córnea não é um item opcional do protocolo

No estudo do protocolo periocular direto, o protetor de córnea bilateral apareceu em toda a amostra — não é uma alternativa entre outras dentro do desenho, é parte dele (Hwang, 2025). A região dos olhos é a única, entre as áreas tratadas com HIFU, onde a distância entre a pele e uma estrutura tão sensível é medida em poucos milímetros. A apostila 6 desta série aprofunda o que a literatura de segurança documenta especificamente sobre essa etapa do protocolo.

A dor varia entre os protocolos — não é “quanto dói o HIFU”, é qual protocolo

A intensidade de dor relatada nos dois estudos de elevação de sobrancelha, medidos por escala visual analógica (EVA) de 0 a 10, não é a mesma. No estudo mais antigo, com a sonda de 3,0 mm/7 MHz em linhas na testa, a dor imediata foi alta — 7,57 ± 1,59 — e levou 4 semanas para se resolver por completo (Oh, 2019). No estudo mais recente, com um conjunto diferente de sondas (M3.0/D2.0/D3.0) mirando o SMAS e o subcutâneo, a dor relatada foi bem mais baixa — 2,41 ± 0,70 (Chen, 2024).

Uma diferença de mais de 5 pontos, na mesma escala de 0 a 10, entre dois estudos que tratam a mesma região (testa, para elevar a sobrancelha) não é sobre “o quanto o HIFU dói” de forma genérica — é sobre o aparelho, a sonda e o protocolo específico utilizados em cada estudo. O protocolo periocular direto (Hwang, 2025), por sua vez, não reporta uma nota EVA comparável às duas anteriores; usa, em vez disso, um tempo mais longo de anestésico tópico (40 minutos) como estratégia própria de conforto.

Dor relatada (EVA) nos dois estudos de elevação de sobrancelha — ilustrativo
Escala de 0 (sem dor) a 10 (pior dor imaginável); a barra representa a média relatada em cada estudo, não uma proporção matemática da escala inteira
Sonda 3,0mm/7MHz, testa (Oh, 2019)
7,57 ± 1,59
Sondas M3.0/D2.0/D3.0 (Chen, 2024)
2,41 ± 0,70
Fonte: dois estudos independentes de elevação de sobrancelha por HIFU, com aparelhos/sondas diferentes (Oh, 2019; Chen, 2024). Não é uma comparação direta entre os mesmos pacientes — são amostras e protocolos distintos; o protocolo periocular direto na pálpebra (Hwang, 2025) não reporta EVA comparável a estes dois. A diferença ilustra variação de protocolo, não uma medida única de “quanto dói o HIFU”.
Um erro muito comum

Achar que existe UM protocolo padrão de HIFU “para o olho” — como se todo aparelho, toda sonda e todo número de disparos usados na região periocular fossem intercambiáveis entre si.

A literatura descreve, no mínimo, duas abordagens estudadas com parâmetros distintos: uma que trata a pele da pálpebra diretamente, com sonda de 2,0 mm/4 MHz e 120 disparos (Hwang, 2025); e outra que eleva a sobrancelha, com sonda de 3,0 mm/7 MHz e 90-110 disparos (Oh, 2019), ou com um terceiro conjunto de sondas mirando o SMAS da testa e têmpora (Chen, 2024). Tratar qualquer uma delas como “o” protocolo de HIFU para os olhos ignora que são estudos de alvos, sondas e doses diferentes — e que nenhum comparou os dois de frente.

O certo: entender que sonda, dose, disparos e a escolha entre tratar a pálpebra diretamente ou elevar a sobrancelha são decisões clínicas individualizadas, tomadas pelo profissional habilitado após avaliar a queixa específica — não um protocolo único e universal.

A Sacada dos DoutoresDois protocolos, dois alvos, e uma dor que muda com o aparelho — não com “o HIFU”

Se eu tivesse que resumir esta apostila numa frase, seria esta: não existe “o” protocolo de HIFU para os olhos, existem pelo menos dois, medindo coisas diferentes. Um trata a pele da pálpebra em si, com sonda mais rasa, dose mais baixa e uma etapa de proteção ocular que aparece em toda a amostra do estudo (Hwang, 2025). O outro eleva a sobrancelha, com uma sonda mais profunda e de frequência mais alta, para aliviar indiretamente o que cai sobre o olho (Oh, 2019; Chen, 2024). E a dor relatada entre esses dois últimos estudos varia de 7,57 a 2,41 numa escala de 10 pontos — o que mostra que “quanto dói” depende do aparelho e do protocolo escolhido, não é uma propriedade fixa do ultrassom microfocado. Qual sonda, qual dose e qual dos dois caminhos se aplica ao seu caso é decisão de quem examina a sua pele e a sua queixa pessoalmente — não algo que se replica de um estudo para o outro sem essa avaliação.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • O protocolo periocular direto usa sonda mais rasa (2,0mm/4MHz) e dose mais baixa (0,2J por disparo) que costuma ser usado no rosto inteiro — 120 disparos por sessão (Hwang, 2025).
  • Desses 120 disparos, 40 vão na pálpebra superior e 80 na inferior/pés de galinha — distribuição específica, não uma “aplicação geral” na região dos olhos.
  • Existe uma segunda estratégia publicada, que não mira a pele da pálpebra, mas eleva a sobrancelha: sonda 3,0mm/7MHz, 90-110 disparos em 9-11 linhas na testa (Oh, 2019), ou sondas M3.0/D2.0/D3.0 no SMAS de testa/têmpora (Chen, 2024).
  • Nenhum estudo comparou os dois protocolos lado a lado para dizer qual rende mais melhora em “pálpebra caída” — são alvos diferentes (pele palpebral × elevação indireta via sobrancelha).
  • A dor relatada varia de 7,57±1,59 (Oh, 2019) a 2,41±0,70 (Chen, 2024) — mais de 5 pontos de diferença numa escala de 10, atribuível ao aparelho/protocolo, não a “quanto dói o HIFU” em geral.
  • O protetor de córnea bilateral apareceu em toda a amostra do protocolo periocular direto — parte obrigatória do protocolo estudado, não um item opcional.
  • Qual sonda, qual dose e qual protocolo se aplica ao seu caso é decisão do profissional habilitado, feita após avaliação individual — não uma escolha que se replica sozinho a partir de um número de estudo.
O próximo passo

Entendidos os dois protocolos e suas diferenças, a pergunta natural é: para quem essa evidência de fato se aplica — e para quem a expectativa deveria ser outra? A próxima apostila desta série mostra o perfil de laxidez que os estudos recrutaram, e por que “pálpebra caída” nem sempre significa a mesma coisa. Leve este entendimento à avaliação individual com um profissional biomédico habilitado: é ele quem define sonda, dose, disparos e a estratégia mais adequada para o seu caso.

Referências
  1. Hwang Y, Kim JH, Lee HE, Wong Kai Jie I, Song JK, Jalali A, Rosellini I, Thulesen J, Vitale M, Kim EJ, Yi KH. Efficacy of high-intensity focused ultrasound for treating upper and lower eyelid sagging. JPRAS Open. 2025;48:147-154. PMID: 41438879 (texto completo livre — PMC12719753) — protocolo periocular direto: sonda 2,0mm/4MHz, 0,2J/disparo, 120 disparos (40 pálpebra superior, 80 inferior/pés de galinha), anestésico tópico 40min, protetor de córnea bilateral.
  2. Oh WJ, Kwon HJ, Choi SY, Yoo KH, Park KY, Kim BJ. Effect of High-Intensity Focused Ultrasound on Eyebrow Lifting in Asians. Ann Dermatol. 2019;31(2):223-225. PMID: 33911575 — protocolo de elevação de sobrancelha: sonda 3,0mm/7MHz, 90-110 disparos em 9-11 linhas na testa; dor EVA 7,57±1,59, resolvida em 4 semanas.
  3. Chen W, Deng Y, Qiao G, Cai W. Ultrasound rejuvenation for upper facial skin: A randomized blinded prospective study. J Cosmet Dermatol. 2024;23(12):3942-3949. PMID: 39034504 (texto completo livre — PMC11626351) — protocolo com sondas M3.0/D2.0/D3.0 no SMAS/subcutâneo de testa e têmpora; dor EVA 2,41±0,70; elevação de sobrancelha 2,16±0,63mm aos 90 dias.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de tratamento. O HIFU é um procedimento estético de ultrassom microfocado, realizado por profissional biomédico habilitado, sempre precedido de avaliação individual da pele, da queixa e do histórico de saúde. Os parâmetros citados descrevem o que os estudos publicaram — não uma prescrição de protocolo nem uma promessa de resultado. Sonda, dose, disparos e a escolha entre as estratégias descritas são decisão clínica caso a caso — não um roteiro de autoaplicação.