Apostila 5 · Preenchimento com Ácido Hialurônico × Olheiras · Estudo

Combinar com toxina ou tratamento de pigmento: o que a evidência sustenta (e o que é raciocínio clínico)

Quando a olheira tem causa mista, faz sentido tratar cada componente com uma ferramenta diferente. Mas “faz sentido” não é o mesmo que “foi testado em ensaio clínico” — e este é, dentro da série, o capítulo em que a honestidade sobre o limite da prova pesa mais do que a vontade de prometer um combo perfeito.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Preenchimento com ácido hialurônico na região dos olhos, toxina botulínica e tratamentos direcionados a pigmento são PROCEDIMENTOS ESTÉTICOS — atos de profissional habilitado, inclusive biomédico(a), conforme regulamentação do Conselho Federal de Biomedicina. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve o que a literatura científica mostra (e o que ainda não mostra) sobre combinar ferramentas diferentes para tratar a olheira, nunca uma indicação fechada, um protocolo pronto ou uma promessa de resultado. A decisão de combinar (ou não) procedimentos, e em qual sequência, depende de avaliação individual por profissional habilitado.

Se você já pesquisou sobre tratar olheira, provavelmente leu que “o ideal é combinar preenchimento com outro procedimento” — toxina para os pés de galinha, algo para o pigmento, às vezes os dois juntos. Essas frases circulam como se fossem conclusão de um estudo. Não são.

Esta apostila existe justamente para nomear essa lacuna. Na pesquisa desta rodada, não localizamos um ensaio clínico randomizado que tenha testado, especificamente, “preenchimento de olheira + outro procedimento” contra o preenchimento isolado. O que existe é uma lógica clínica razoável, construída a partir de duas fontes indiretas — e é isso, e não um RCT inventado, que este capítulo vai mostrar com transparência.

O ponto de partida: a olheira raramente tem uma causa só

A apostila 1 desta série já apresentou o mnemônico OCULAR (Osseous / Color / Underlying muscle-fat / Laxity / Adipose / Rhytides), proposto por Lipp e Weiss numa revisão de 2019 sobre rejuvenescimento infraorbital. O ponto central do OCULAR é justamente este: a olheira raramente é um problema isolado — o mais comum é uma combinação de causas, por exemplo perda de volume (Osseous/Underlying) somada a excesso de pigmento (Color) ou a rugas finas de superfície (Rhytides).

O preenchimento com ácido hialurônico, sustentado pelos RCTs apresentados na apostila 2 desta série (87,4% e 94,6% de resposta em 3 meses para os componentes de volume), trata o componente volumétrico. Ele não some com pigmento nem com a contração muscular que aprofunda uma ruga estática ao redor do olho. Se a causa é mista, a lógica clínica diz que tratar só o volume deixa os outros componentes intocados — e essa é a base racional para pensar em combinar abordagens. Mas atenção: essa lógica vem de uma revisão de literatura que descreve o problema, não de um estudo que testou a combinação de tratamentos e mediu o resultado.

Fato

O mnemônico OCULAR (Lipp & Weiss, Dermatol Surg, 2019) reconhece que a olheira é frequentemente de causa mista — por exemplo, volume perdido e pigmento aumentado convivendo na mesma região, no mesmo paciente.

Debate / extrapolação

Daí não se segue automaticamente que “combinar preenchimento com tratamento de pigmento é a conduta comprovada”. É uma inferência lógica razoável a partir de uma revisão — não um ensaio clínico que tenha testado a combinação e medido desfecho comparado à monoterapia.

A segunda fonte: consenso de especialistas em harmonização, não ensaio clínico

A segunda peça que sustenta a ideia de combinar vem de um documento de consenso global de especialistas em estética, publicado em 2016 na Plastic and Reconstructive Surgery, sobre o uso conjunto de preenchedores de ácido hialurônico e toxina botulínica tipo A na harmonização facial (Sundaram H, Liew S, Signorini M, et al., 2016). O painel descreve que tratar volume e dinâmica muscular ao mesmo tempo — em vez de isolar cada ferramenta — tende a produzir um resultado mais completo em regiões onde as duas causas coexistem, como a área ao redor dos olhos, onde a contração repetida do orbicular contribui para rugas finas (pés de galinha) associadas à sombra da olheira.

É preciso nomear exatamente o que esse documento é: consenso de opinião de especialistas experientes, sistematizando prática clínica acumulada — não um ensaio clínico randomizado com grupo controle testando a combinação preenchimento de olheira + toxina periorbital. Consenso de especialistas ocupa um degrau mais baixo na escada da evidência do que um RCT, mesmo quando é amplamente citado e clinicamente sensato. Tratá-lo como “está provado” seria emprestar rigor científico a algo que ainda não o tem.

Por que isso importa na prática

Nenhum dos RCTs pivotais de preenchimento de olheira apresentados na apostila 2 desta série (Biesman et al., 2024, N=333; Fabi et al., 2021, N=138; Yu et al., 2026, N=160) testou um braço combinado com toxina botulínica ou tratamento de pigmento. Todos mediram o preenchimento isolado contra controle não tratado. A ideia de combinar vem de fora desses estudos — do raciocínio sobre causa mista (OCULAR) e do consenso de harmonização facial (Sundaram et al., 2016), não de um braço experimental dedicado.

Da causa mista à combinação: onde termina o dado e começa a lógica

O fluxo abaixo resume o raciocínio desta apostila em três passos — e é importante ler o terceiro passo como o que ele é: uma conduta plausível, não uma conclusão de pesquisa.

De causa mista a combinação de abordagens
Cada seta é um passo de raciocínio clínico — não um resultado medido em conjunto num único estudo
Causa mistaVolume + pigmento e/ou rugas dinâmicas (OCULAR)
Cada causa, uma ferramentaPreenchimento para volume; toxina para dinâmica; abordagem própria para pigmento
Combinação lógicaExtrapolação clínica razoável — não RCT de combinação
Onde a seta é mais fina: a distância entre “causa mista, reconhecida em revisão” e “combinação testada, comprovada em ensaio” é justamente o espaço da força C. Cada seta acima é inferência — coerente, mas inferência.
Exemplos de combinação citados na prática — e o grau de prova de cada um

Dois exemplos ilustram bem essa distância entre lógica e comprovação. O primeiro é preenchimento de olheira + toxina botulínica na região periorbital (pés de galinha): a lógica é que suavizar a contração do orbicular reduz o aprofundamento dinâmico do sulco e a formação de rugas finas que também contribuem para a sombra da olheira — mas essa combinação especificamente aplicada ao tear trough não tem RCT dedicado na literatura levantada para esta série; o que existe é o consenso de harmonização facial já citado (Sundaram et al., 2016), pensado de forma geral, não específico da olheira.

O segundo é preenchimento + abordagem de pigmento (quando o componente Color do OCULAR é relevante): a lógica é que o gel não clareia pele escurecida — só ocupa volume — então, se a causa for mista, tratar apenas o volume deixa o componente de cor sem resposta. Isso é leitura direta do próprio racional do OCULAR (Lipp & Weiss, 2019), mas, de novo, não é um estudo que tenha testado a combinação e comparado o resultado com o preenchimento isolado.

Combinação citadaNível de evidênciaO que sustentaO que ainda falta
Preenchimento de olheira isolado (causa volumétrica)RCT (A/B)Múltiplos RCTs multicêntricos, N=138–333, resposta >80% em 3 meses (apostila 2)
Preenchimento + toxina periorbital (pés de galinha)Consenso (C)Lógica de causa mista (OCULAR) + consenso geral de harmonização (Sundaram, 2016)RCT dedicado testando a combinação no tear trough
Preenchimento + abordagem de pigmento (componente Color)Extrapolação (C)Racional direto do próprio framework OCULAR (Lipp & Weiss, 2019)Nenhum estudo comparando combinado × preenchimento isolado
Preenchimento + tratamento de bolsa de gordura/frouxidãoExtrapolação (C)Reconhecimento de que preenchimento não trata excesso de gordura herniada nem frouxidão (apostila 4)Nenhum RCT de combinação identificado
Um erro muito comum

Achar que “combinar preenchimento com outro procedimento para olheira” é uma regra testada em estudo — e não uma extrapolação lógica a partir de raciocínio clínico e consenso.

O preenchimento de olheira isolado tem, nesta série, alguns dos RCTs mais robustos de todo o injetável facial (apostila 2). Já a combinação com toxina periorbital ou com tratamento de pigmento se apoia em duas fontes indiretas: uma revisão que descreve causa mista (OCULAR) e um consenso de especialistas sobre harmonização geral — nenhuma delas é um ensaio comparando a combinação específica ao preenchimento isolado no tear trough. “Faz sentido combinar” não é o mesmo que “está comprovado que combinar é melhor”.

O certo: reconhecer a combinação como raciocínio clínico plausível, de força C — e deixar a decisão de combinar (ou não), quais ferramentas e em qual sequência, para a avaliação individual com o profissional habilitado.

A Sacada dos DoutoresO capítulo onde dizer “não sabemos ao certo” pesa mais do que prometer um combo perfeito

Esta é, de propósito, a apostila mais desconfortável de escrever nesta série. Eu poderia simplesmente dizer “combine preenchimento com toxina e com tratamento de pigmento, é o que se faz” — e não estaria mentindo sobre a prática clínica corrente. Mas estaria escondendo uma informação importante: não existe, na pesquisa que fizemos para esta série, um ensaio clínico que tenha testado essa combinação especificamente para olheira e comparado o resultado ao preenchimento isolado. O que existe é uma revisão que descreve muito bem que a olheira tem causas diferentes (OCULAR) e um consenso de especialistas em harmonização facial que recomenda tratar volume e dinâmica muscular juntos. As duas coisas, somadas, formam uma lógica clínica sólida — mas lógica não é a mesma coisa que prova direta. Eu prefiro te dizer isso com todas as letras do que vestir uma extrapolação razoável com a roupa de “cientificamente comprovado”. A decisão de combinar procedimentos — quais, quando, em que sequência — é sempre do profissional habilitado, caso a caso, olhando o rosto à sua frente.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • A olheira raramente tem uma causa só — o mnemônico OCULAR (Lipp & Weiss, 2019) mostra que volume, pigmento, frouxidão, gordura herniada e rugas podem coexistir no mesmo paciente.
  • O preenchimento de ácido hialurônico trata o componente volumétrico — não some com pigmento nem com contração muscular repetida.
  • Não existe, na pesquisa desta rodada, um RCT dedicado testando “preenchimento de olheira + outro procedimento” contra o preenchimento isolado.
  • A lógica de combinar vem de duas fontes indiretas: a revisão sobre causa mista (OCULAR) e um consenso de especialistas em harmonização facial (Sundaram et al., 2016) — nenhuma é ensaio clínico de combinação.
  • Consenso de especialistas tem valor prático, mas ocupa degrau mais baixo na escada da evidência do que um ensaio clínico randomizado — força C, não A ou B.
  • “Faz sentido combinar” não é sinônimo de “está comprovado” — essa distinção precisa ser nomeada, não escondida atrás da palavra “harmonização”.
  • A escolha de combinar ferramentas — quais, quando e em que ordem — é sempre uma decisão do profissional habilitado, caso a caso, após avaliação individual.
O próximo passo

Depois de entender onde a lógica de combinação é razoável e onde ainda falta prova direta, a pergunta seguinte é sobre segurança: o que pode dar errado num preenchimento na região dos olhos, e o que os dados dizem sobre o risco raro, porém grave, de oclusão vascular? A próxima apostila desta série nomeia esse risco com números reais. Leve estas informações à avaliação individual: quem indica o procedimento, a técnica e a eventual combinação certos para o seu caso é o profissional habilitado.

Referências
  1. Lipp M, Weiss E. Nonsurgical Treatments for Infraorbital Rejuvenation: A Review. Dermatol Surg, 2019;45(5):700-710 — propõe o mnemônico OCULAR; reconhece causa frequentemente mista da olheira, base do raciocínio de combinação desta apostila.
  2. Sundaram H, Liew S, Signorini M, et al. Global Aesthetics Consensus: Hyaluronic Acid Fillers and Botulinum Toxin Type A—Recommendations for Combined Treatment. Plast Reconstr Surg, 2016;137(5):1410-1423 — consenso de especialistas (força C) recomendando tratar volume e dinâmica muscular juntos em harmonização facial; não é ensaio clínico de combinação específico para olheira.
  3. Biesman BS, et al. A Multicenter, Randomized, Evaluator-Blinded Study to Examine the Safety and Effectiveness of Hyaluronic Acid Filler in the Correction of Infraorbital Hollows. Aesthetic Surg J, 2024;44(9):1001-1013 — RCT N=333 do preenchimento isolado (87,4% resposta em 3 meses), sem braço combinado; referência de contraste do grau de evidência.
  4. Fabi SG, et al. Prospective, Multicenter, Single-Blind, Randomized, Controlled Study of VYC-15L, a Hyaluronic Acid Filler, in Adults for Correction of Infraorbital Hollowing. Aesthetic Surg J, 2021;41(11):NP1675-NP1685 — RCT N=138 do preenchimento isolado (83,1% resposta em 3 meses), sem braço combinado.
  5. Gorbea E, Kidwai S, Rosenberg J. Nonsurgical Tear Trough Volumization: A Systematic Review of Patient Satisfaction. Aesthetic Surg J, 2021;41(8):NP1053-NP1060 — revisão sistemática (N=1956) sobre satisfação com volumização isolada; usada aqui como contexto de que a monoterapia já tem literatura extensa, ao contrário da combinação.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação fechada nem promessa de resultado. Preenchimento com ácido hialurônico, toxina botulínica e tratamentos de pigmento são procedimentos estéticos realizados por profissional habilitado. A indicação, a técnica e a eventual combinação entre esses procedimentos dependem de avaliação individual por profissional habilitado.