O protocolo: a técnica de grade e o volume que os estudos usaram
Existe uma técnica bem descrita na literatura — batizada de “grade nasal” — e existe uma faixa de volume que se repete em séries de casos de clínicos experientes. O que não existe, e a própria literatura reconhece isso por escrito, é um “protocolo oficial” único, testado por ensaio clínico randomizado. Esta apostila mostra o que foi documentado, com os números de cada estudo, e é honesta sobre onde a padronização ainda não chegou.
A rinomodelação com ácido hialurônico é um PROCEDIMENTO INJETÁVEL — um ato biomédico, realizado por profissional habilitado, sempre precedido de avaliação individual do contorno nasal, da pele e do histórico de saúde. Este material é exclusivamente educativo: descreve o que a literatura científica documenta sobre técnica, mapa de pontos e volumes usados em estudos publicados — não é indicação de tratamento, não prescreve protocolo, volume ou marca para você ou para qualquer profissional replicar, e não substitui avaliação presencial. Os números citados aqui são os que os estudos relataram usar ou observar, nunca uma recomendação de conduta.
Se você pesquisar “protocolo de preenchimento nasal”, vai encontrar dezenas de vídeos e posts prometendo “o passo a passo certo”. A literatura científica conta uma história mais modesta — e mais honesta.
Existe, sim, uma técnica bem descrita: o mapeamento de pontos ao longo do dorso, rádix e supraponta, publicado por Bertossi e colegas em 2021. Existe também uma faixa de volume que se repete em séries de casos grandes. O que não existe — e um artigo da própria literatura especializada declara isso textualmente — é consenso sobre algoritmo, marca, volume ou zonas a evitar. Esta apostila separa o que foi documentado do que ainda é, na melhor das hipóteses, prática convergente entre clínicos muito experientes — não um padrão testado.
O estudo mais citado quando o assunto é técnica de aplicação é o de Bertossi e colaboradores, publicado em 2021 na Aesthetic Surgery Journal: uma série de 61 pacientes tratados com um protocolo batizado de “nasal grid approach” (abordagem de grade nasal) — um mapeamento sistemático de pontos de aplicação distribuídos ao longo do dorso, do rádix (raiz nasal) e da supraponta, em vez de uma injeção única e concentrada. Com seguimento de 6 a 9 meses, 97% dos pacientes (59 de 61) autoavaliaram a correção do contorno como “adequada” (Bertossi, 2021).
A reação mais comum não foi um evento grave: foi equimose (roxo/hematoma superficial), presente em 25% dos casos — autolimitada, ou seja, que se resolve sozinha. Assimetria residual apareceu em 3%, hematoma mais evidente em 2%; não houve infecção, nódulo ou necrose nesta série (Bertossi, 2021). Um ponto de honestidade que a apostila precisa registrar: o estudo utilizou um único produto de um único fabricante (VYC-25L, Galderma) — o que limita quanto o resultado pode ser generalizado para outras marcas de ácido hialurônico.
A pergunta mais comum de quem lê sobre o procedimento é “quanto de produto se usa?”. A literatura responde com uma faixa, não com um número fixo. Harb e Abdul-Razzak (2023), numa revisão retrospectiva de 487 pacientes, relatam volume mediano de 0,6 mL, com variação de 0,3 a 2,1 mL por tratamento — a falta de definição do dorso foi a indicação mais comum, em 63,9% dos casos (Harb, 2023). Nenhum caso de infecção, oclusão vascular ou necrose foi registrado nesta série específica, mas o próprio tamanho da amostra é insuficiente para descartar um evento raro.
O único ensaio clínico randomizado publicado sobre o tema mede algo relacionado, mas diferente: Wang e colaboradores (2022), com 132 participantes randomizados 3:1 entre tratamento e controle sem tratamento, mediram a diferença de volume do dorso e rádix aos 6 meses — 0,71 mL a favor do grupo tratado (IC95% 0,59–0,83; p<0,001), efeito mantido até 12 meses. É importante calibrar o que esse número mede: é o ganho de volume registrado pelo estudo, não a quantidade de produto aplicada nem uma medida de “correção de giba” — o estudo foi patrocinado pelo fabricante do produto testado (Restylane Lyft, Galderma), o que também deve ser declarado.
Quando esta apostila cita “0,6 mL” ou “2,1 mL”, está descrevendo o que os estudos relataram usar ou medir — informação de pesquisa, não uma prescrição para você ou para qualquer profissional replicar. O volume adequado para um contorno específico é decisão do profissional habilitado, feita após avaliação individual do dorso, da pele e da anatomia da pessoa.
Em 2021, uma força-tarefa multidisciplinar de 11 especialistas reunida pela American Society for Dermatologic Surgery (ASDS) publicou recomendações baseadas em evidência para prevenir e tratar eventos adversos de preenchedores injetáveis. O documento classifica nariz, glabela, testa e têmporas como zonas de risco extra-alto — e, para essas zonas, recomenda quatro práticas em conjunto: conhecimento anatômico rigoroso, aspiração antes de injetar, aplicação em pequenas alíquotas e hialuronidase disponível de prontidão (Jones, 2021 — consenso ASDS).
“Pequenas alíquotas” é citado como conceito de boa prática de técnica de injeção, não como um número fixo em mililitros — o próprio documento não padroniza esse valor. Já a escolha entre agulha e cânula, outro ponto frequentemente discutido na literatura de segurança para essa região, tem argumentos técnicos dos dois lados e será aprofundada com os dados de risco vascular na apostila 6 desta série, dedicada à segurança.
Este é o ponto mais importante desta apostila, e é desconfortável o suficiente para merecer ser dito sem rodeios: Singh, Vijayan e Nikkhah (2018), ao revisar sistematicamente a base Medline sobre rinomodelação injetável, recuperaram apenas 7 estudos retrospectivos e 8 relatos de caso — nenhum ensaio randomizado dedicado especificamente a algoritmo de técnica. A conclusão dos próprios autores, publicada na Aesthetic Surgery Journal, é direta: “não há consenso” sobre algoritmo, marca, volume ou zonas a evitar na rinomodelação (Singh, 2018).
Não é porque falta padronização que a técnica é “inventada” — a grade nasal de Bertossi (2021) e as faixas de volume de Harb (2023) são descrições consistentes, publicadas em periódicos revisados por pares. Mas são séries de caso de clínicos únicos muito experientes, força de evidência C — não um protocolo validado por ensaio clínico randomizado dedicado a esse desfecho. É essa distinção que separa uma leitura séria da literatura de uma promessa de “protocolo testado e aprovado”.
Achar que existe um “protocolo oficial” único e testado para a rinomodelação — como se houvesse um manual validado por ensaio clínico que qualquer profissional segue passo a passo.
Não existe. A técnica de grade nasal (Bertossi, 2021) e as faixas de volume relatadas (Harb, 2023) vêm de séries de caso de clínicos muito experientes, com bons resultados documentados — mas a própria revisão sistemática da área concluiu que não há consenso sobre algoritmo, marca, volume ou zonas a evitar (Singh, 2018). O único RCT do tema (Wang, 2022) mede ganho de volume do dorso, não “correção de giba” nem valida um protocolo de técnica.
O certo: entender a técnica e o volume como decisão individual do profissional habilitado, apoiada em anatomia, experiência clínica e nas boas práticas de segurança do consenso ASDS — não como um protocolo fixo, replicável por qualquer pessoa a partir de um artigo.
| Estudo | Desenho / N | Volume / técnica | Seguimento | Eventos relatados |
|---|---|---|---|---|
| Bertossi, 2021 | Série de casos · N=61 | Grade nasal (dorso, rádix, supraponta); volume não detalhado por paciente no artigo | 6–9 meses | Equimose 25%; assimetria residual 3%; hematoma 2%; zero infecção/nódulo/necrose |
| Harb, 2023 | Retrospectivo · N=487 | Mediana 0,6 mL (faixa 0,3–2,1 mL) | Revisão de prontuário 2018–2021 | Zero infecção/oclusão/necrose nesta série (N insuficiente p/ descartar risco raro) |
| Wang, 2022 | RCT (nível I) · N=132 | Ganho de volume: +0,71 mL vs. controle (IC95% 0,59–0,83; p<0,001) | Até 12 meses | Não extraído nesta síntese — endpoint do estudo é volume, não taxa de eventos |
| Harb, 2020 | Retrospectivo · N=5.000 | Giba dorsal = 44% das indicações (única clínica) | 2016–2019 | Edema/eritema autolimitado em ~metade; infecção em 2; necrose de pele localizada em 3; zero cegueira nesta série |
| DeVictor, 2021 | Meta-análise · 37 estudos, N=8.604 | Não aplicável (síntese agregada, não um único protocolo) | Não aplicável | Evento adverso geral 2,52%; oclusão vascular 0,35%; necrose 0,08%; perda de visão 0,09% |
Ela não diz que um estudo é “melhor” que o outro nem que os números são comparáveis entre si — cada linha mede algo diferente, com desenho, população e desfecho próprios. O que ela mostra, com honestidade, é o estado real da literatura: séries de caso consistentes e um único RCT de endpoint estreito, sem um padrão único validado. É exatamente esse retrato, sem inflar nem esconder nada, que esta apostila se propõe a entregar.
Se eu tivesse que resumir o que a literatura realmente mostra sobre “o protocolo” da rinomodelação com ácido hialurônico, diria isto: existe uma técnica bem descrita, a grade nasal de Bertossi, com resultados consistentes numa série de 61 pacientes; existe uma faixa de volume que se repete em centenas de casos documentados por Harb. Isso é real e é útil. O que não é real é a ideia de “protocolo oficial” — a própria literatura especializada, ao revisar sistematicamente o tema, concluiu que não há consenso sobre volume, marca ou algoritmo. Isso não desqualifica a técnica; qualifica a leitura que se faz dela. Cada aplicação é uma decisão clínica, tomada pelo profissional habilitado, caso a caso, com base em anatomia, experiência e nas boas práticas de segurança — não copiada de um artigo.
- A técnica mais descrita é a “grade nasal” de Bertossi (2021): mapeamento de pontos no dorso, rádix e supraponta, N=61, 97% de autoavaliação de correção “adequada” em 6–9 meses.
- A reação mais comum é equimose — 25% dos casos, autolimitada (Bertossi, 2021).
- O volume mediano relatado é 0,6 mL, variando de 0,3 a 2,1 mL, em 487 pacientes (Harb, 2023) — informação de estudo, não dose recomendada.
- O único RCT do tema mede ganho de volume: +0,71 mL aos 6 meses (Wang, 2022) — não mede “correção de giba”.
- A boa prática recomendada em zonas de alto risco é anatomia rigorosa + aspiração + pequenas alíquotas + hialuronidase pronta (Jones, 2021 — consenso ASDS de 11 especialistas).
- A própria literatura reconhece a lacuna: “não há consenso” sobre algoritmo, marca, volume ou zonas a evitar (Singh, 2018).
- Força de evidência C nesta apostila: séries de caso de clínicos experientes, não um protocolo testado por ensaio clínico dedicado.
Entendida a técnica e a ordem de grandeza dos volumes usados nos estudos, a pergunta que falta é a mais importante: para quem essa técnica é indicada — e para quem ela não é? A próxima apostila desta série reúne o que a literatura documenta sobre bom candidato, contraindicação e limite estrutural. Leve este entendimento à avaliação individual com um profissional biomédico habilitado — é ele quem define técnica, volume e conduta para o seu caso.
- Bertossi D, Giampaoli G, Verner I, et al. Nonsurgical Rhinoplasty With the Novel Hyaluronic Acid Filler VYC-25L: Results Using a Nasal Grid Approach. Aesthetic Surg J, 2021 — N=61, protocolo de grade nasal, 97% autoavaliação adequada, equimose 25% (evento mais comum, autolimitado).
- Harb A, Abdul-Razzak A. Nonsurgical Rhinoplasty in Patients of African Descent: A Retrospective Review. Plast Reconstr Surg, 2023 — N=487, volume mediano 0,6 mL (0,3–2,1 mL), zero eventos vasculares graves na série.
- Wang X, et al. Restylane Lyft for Aesthetic Shaping of the Nasal Dorsum and Radix: A Randomized, No-Treatment Control, Multicenter Study. Plast Reconstr Surg, 2022;150(6):1225-1235 — único RCT do tema; ganho de volume de 0,71 mL aos 6 meses (IC95% 0,59-0,83; p<0,001).
- Jones DH, et al., ASDS Multidisciplinary Task Force. Preventing and Treating Adverse Events of Injectable Fillers: Evidence-Based Recommendations. Dermatol Surg, 2021;47(2):214-226 — consenso de 11 especialistas; nariz como zona de risco extra-alto; recomenda pequenas alíquotas, aspiração e hialuronidase pronta.
- Singh P, Vijayan R, Nikkhah D. Filler Rhinoplasty: Evidence, Outcomes, and Complications. Aesthetic Surg J, 2018;38(11):NP165-NP167 — revisão sistemática Medline: apenas 7 retrospectivos + 8 relatos de caso; conclusão: “não há consenso” sobre algoritmo, marca, volume ou zonas a evitar.
- DeVictor S, Ong AA, Sherris DA. Complications Secondary to Nonsurgical Rhinoplasty: A Systematic Review and Meta-analysis. Otolaryngol Head Neck Surg, 2021;165(5):611-616 — meta-análise de 37 estudos, N agregado=8.604; taxa geral de evento adverso 2,52%.
- Harb A, Brewster CT. The Nonsurgical Rhinoplasty: A Retrospective Review of 5000 Treatments. Plast Reconstr Surg, 2020 — maior série já publicada; giba dorsal foi 44% das indicações; zero cegueira nesta série.