Estudo · Lidocaína + Prilocaína Tópica (EMLA)

Preenchimento de lábio dói? O que a ciência mostra sobre as três anestesias envolvidas

“Preenchimento de lábio dói?” é a pergunta mais buscada antes desse procedimento — e a resposta comum (“usamos anestesia”) esconde um detalhe importante: existem três recursos diferentes, com tempos e alvos que não se substituem entre si. Veja o que os estudos mediram sobre o creme tópico, a lidocaína que já vem na seringa e o bloqueio nervoso regional — com número e fonte.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

A lidocaína + prilocaína tópica (EMLA) é um medicamento de prescrição e uso profissional — não é um cosmético de venda livre — e o bloqueio anestésico regional é uma técnica injetável. Este material descreve o que os estudos testaram (concentrações, tempos de oclusão, técnicas de bloqueio), como informação científica, para ajudar a entender as opções reais de controle da dor no procedimento labial — não é prescrição nem promessa de resultado individual. A indicação do anestésico, a técnica e a combinação corretas para o seu caso dependem de avaliação individual prévia.

Antes de “qual preenchedor escolher”, a primeira pergunta de quase toda paciente é outra: vai doer? É a barreira número um para quem considera preenchimento labial — e a resposta genérica de “usamos anestesia” mistura três recursos que fazem coisas diferentes, em momentos diferentes.

Há o creme anestésico tópico aplicado antes de qualquer agulha tocar a pele (como o EMLA); há a lidocaína que já vem misturada dentro da seringa do preenchedor, agindo durante a infiltração; e há o bloqueio anestésico regional — uma injeção à parte, usada por alguns profissionais, que anestesia o nervo de todo o lábio antes do preenchedor entrar. Esta apostila separa o que cada um faz, com o número e a fonte de cada estudo — inclusive o dado que mais surpreende: a lidocaína da seringa, sozinha, ainda dói.

O tempo de oclusão que decide se o creme funciona de verdade

O EMLA é uma emulsão eutética de lidocaína 2,5% + prilocaína 2,5%, formulada para liberar os dois anestésicos na epiderme e na derme quando aplicada sob oclusão. O detalhe que a maioria dos protocolos informais ignora é que a profundidade real da anestesia depende diretamente do tempo de contato. No estudo clássico que mediu isso com precisão, a profundidade de analgesia cutânea alcançada foi de aproximadamente 3 mm após 60 minutos de oclusão e de aproximadamente 5 mm após 120 minutos — com o efeito continuando a aumentar mesmo depois da remoção do creme (Bjerring & Arendt-Nielsen, 1990).

Isso importa porque a mucosa e a derme do lábio não são anestesiadas “no instante” em que o creme é passado: passar o produto e aguardar 5 ou 10 minutos — prática comum quando o tempo do atendimento aperta — entrega uma fração da profundidade de anestesia que o próprio estudo farmacológico documentou. A relação é tempo-dependente, não instantânea.

Profundidade da anestesia cutânea por tempo de oclusão
EMLA (lidocaína 2,5% + prilocaína 2,5%) sob curativo oclusivo — Bjerring & Arendt-Nielsen, 1990
30 min
oclusão parcial
superficial
60 min
mínimo p/ procedimentos
~3 mm
90–120 min
oclusão prolongada
~5 mm
As barras ordenam a relação tempo × profundidade relatada no estudo — não são uma régua física exata, mas a proporção crescente é a mesma medida pelos autores. Nenhum dado de profundidade em 30 min foi publicado com precisão milimétrica no estudo original; a barra ilustra apenas que o efeito é menor nesse ponto.
A lidocaína que já vem na seringa: o que ela anestesia (e o que não)

Grande parte dos preenchedores de ácido hialurônico modernos já vem com lidocaína 0,3% pré-misturada na própria seringa — uma inovação real, com evidência sólida de que reduz a dor durante a injeção. Num ensaio clínico randomizado, split-face, o lado do rosto injetado com o preenchedor contendo lidocaína apresentou mais de 50% menos dor do que o lado injetado com o mesmo produto sem lidocaína, em todos os pontos de tempo avaliados (Monheit et al., 2010). Outro estudo, com preenchedor específico para dobras nasolabiais, mediu escore de dor de 14,65 (±16,23) na escala visual analógica com lidocaína pré-misturada, contra 38,29 (±27,27) sem lidocaína (Choi et al., 2020).

O ponto anti-óbvio aparece quando se olha para um estudo desenhado especificamente para aumento labial: mesmo com lidocaína cloridrato 0,3% já presente na formulação, a dor relatada no momento da injeção continuou moderada — média de 4,2 (±1,69) numa escala numérica de 0 a 10, muito próxima da média de 4,5 (±1,91) do produto comparador (diferença não significativa, p=0,311) (Froget et al., 2024). Ou seja: a lidocaína da seringa reduz a dor em relação a não ter lidocaína nenhuma, mas não a zera — porque ela só está presente no tecido no exato momento em que a agulha e o produto avançam, não antes.

Aplicado ANTES
Creme tópico oclusivo (EMLA)
Lidocaína 2,5% + prilocaína 2,5% na pele/mucosa
Quando ageAntes da 1ª picada
AlvoTerminações nervosas superficiais
Presente DURANTE
Lidocaína pré-misturada na seringa
Lidocaína ~0,3% dentro do próprio preenchedor
Quando ageSó ao ser infiltrada
AlvoTecido no trajeto da agulha

As barras ilustram o contraste de timing entre os dois recursos — não são uma medida direta de intensidade de efeito, e sim de “quando” cada anestésico está presente no tecido em relação ao momento da picada.

Bloqueio anestésico regional: a ferramenta que antecipa a anestesia

Uma técnica usada por alguns profissionais é o bloqueio anestésico regional — uma injeção de lidocaína próxima ao nervo que serve todo o lábio, aplicada antes do preenchedor, e não no próprio lábio. Para o lábio superior, bloqueia-se o nervo infraorbitário (ramo do nervo maxilar, que sai pelo forame infraorbitário e inerva pálpebra inferior, lateral do nariz e lábio superior); para o lábio inferior, o nervo mentual (que sai pelo forame mentual e inerva lábio inferior e mento) (Yao & Sequeira Campos, 2024; Betz & Fane, 2023).

A vantagem descrita na literatura é o início de ação rápido da lidocaína nesse tipo de bloqueio — de aproximadamente 2 a 3 minutos (Yao & Sequeira Campos, 2024) — anestesiando uma área ampla do lábio de uma só vez, antes de qualquer agulha do preenchimento entrar em contato com o tecido. A técnica intraoral (pela mucosa da boca) é a mais usada; a literatura descreve que ela é subjetivamente menos dolorosa que a via percutânea (pela pele). O bloqueio é, ele mesmo, uma injeção — e tem um efeito colateral pouco discutido: ao anestesiar todo o lábio, o paciente perde a percepção de pressão e volume, o que pode dificultar para o profissional sentir, em tempo real, quando já injetou o suficiente.

O que a ciência mostra especificamente na região do lábio

A maior parte dos estudos de preenchedor com lidocaína foi feita em sulco nasogeniano, não no lábio — mas existe evidência de que o EMLA funciona, especificamente, na pele dessa região do rosto. Num ensaio duplo-cego controlado por placebo aplicado no lábio superior (contexto de depilação por eletrólise, não de preenchimento), o EMLA produziu dor significativamente menor do que o placebo, avaliada tanto pela paciente quanto pela profissional — 18 das 20 participantes preferiram o lado tratado com EMLA (p<0,0001) (Hjorth et al., 1991). É um estudo de outro procedimento, mas confirma que o efeito anestésico do EMLA é real e mensurável nessa pele específica, não só em antebraço ou dorso.

Para o preenchimento facial com ácido hialurônico especificamente, um ensaio controlado por placebo com 70 participantes testou um creme tópico de lidocaína/tetracaína (7%/7%) aplicado por 30 minutos antes da injeção: o escore médio de dor na escala visual analógica foi significativamente menor com o anestésico ativo do que com o creme veículo (p<0,0001) (Cohen & Gold, 2014). Honestidade necessária: não foi localizado, na pesquisa reunida para esta apostila, um ensaio clínico controlado testando o EMLA especificamente antes de preenchimento labial com medição de VAS publicada — a evidência mais direta soma um estudo de EMLA na pele do lábio (procedimento diferente) a estudos de anestésico tópico em preenchimento facial (região diferente). É a extrapolação mais honesta possível com o que existe publicado até aqui.

Um erro muito comum

Achar que a lidocaína que já vem na seringa do preenchedor dispensa o creme anestésico tópico aplicado antes.

São duas anestesias com timings diferentes, não uma substituindo a outra. A lidocaína pré-misturada só está presente no tecido no instante em que o produto é infiltrado — por isso, mesmo com ela, estudos de aumento labial registraram dor média de 4,2 em 10 no momento da injeção (Froget et al., 2024). Quem pula o creme tópico porque “o preenchedor já tem anestésico” está descartando a única camada de anestesia que age antes da primeira picada — justamente o momento que mais gera ansiedade e reflexo de dor no lábio, uma região com altíssima densidade de terminações nervosas.

O certo: tratar as duas anestesias como complementares e cumulativas — aplicar o tópico com o tempo de oclusão adequado antes da agulha entrar, sabendo que o preenchedor, ao ser infiltrado, ainda vai somar sua própria lidocaína durante o procedimento.

As três anestesias, lado a lado

Nenhuma das três é “a certa” — são recursos com propósitos e limitações diferentes, que podem ser combinados conforme a avaliação individual do caso e a preferência da paciente.

CritérioCreme tópico (EMLA)Lidocaína na seringaBloqueio regional
Quando ageAntes da agulha, se houver tempo de oclusãoSó durante a infiltraçãoAntes da agulha, minutos após aplicar
Início de efeitoProgressivo — depende do tempo (60–120 min p/ profundidade máxima)Imediato, mas parcial~2–3 min (lidocaína)
É uma injeção?NãoÉ o próprio preenchedorSim, injeção à parte
Melhor evidência citadaEMLA no lábio superior: 18/20 preferiram (Hjorth, 1991)>50% menos dor vs. sem lidocaína (Monheit, 2010)Onset 2–3 min (StatPearls, 2024)
Limite de usoExige tempo de espera que a rotina às vezes pulaAinda dói: ~4,2/10 na injeção (Froget, 2024)Reduz percepção de pressão/volume do lábio
O fato medido
O que ainda é debate
O bloqueio infraorbitário/mentual anestesia uma área ampla do lábio com início de ação rápido da lidocaína — cerca de 2 a 3 minutos (Yao & Sequeira Campos, 2024) — e é descrito como subjetivamente menos doloroso na via intraoral.
Não foi localizado, na pesquisa reunida aqui, um ensaio clínico controlado comparando diretamente bloqueio regional × creme tópico × lidocaína pré-misturada, medindo dor no preenchimento labial nas mesmas condições. Boa parte dos dados de eficácia do bloqueio vem de odontologia e cirurgia de lábio, extrapolados para o contexto estético — uma limitação real que vale reconhecer antes de tratar o bloqueio como “superior” aos outros dois recursos.
O que essa diferença de evidência significa na prática

Não significa que qualquer combinação sirva para qualquer paciente. Significa que “vamos usar anestesia” é uma frase incompleta — a pergunta que realmente importa é qual anestesia, aplicada em qual momento, com qual tempo de espera, é coerente com o limiar de dor e a expectativa de cada pessoa. Isso é avaliação individual, não protocolo padrão.

A Sacada dos DoutoresTrês anestesias, um cronograma — a diferença está no “quando”, não só no “qual”

Quando uma paciente pergunta “vai doer?”, a resposta honesta não é “não, porque tem anestesia” — é explicar que existem camadas de anestesia com tempos diferentes, e que a experiência de dor muda conforme essas camadas são bem usadas ou puladas por pressa. O creme tópico precisa do tempo de oclusão que a farmacologia exige — 60 minutos para cerca de 3 mm de profundidade, não 10. A lidocaína da seringa é um avanço real, mas atua durante a injeção, não antes — por isso ainda dói um pouco, mesmo nos melhores estudos. E o bloqueio regional, quando indicado, antecipa a anestesia para antes da agulha, ao custo de ser ele mesmo uma injeção e de reduzir a percepção que ajuda a dosar o volume certo. Não existe “a” resposta única — existe a combinação certa para o caso, decidida numa avaliação individual.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Dor é a barreira nº 1 buscada antes do preenchimento labial — e existem 3 recursos de controle diferentes, que não se substituem entre si.
  • O tempo de oclusão do EMLA muda a profundidade real da anestesia: cerca de 3 mm em 60 minutos, cerca de 5 mm em 120 minutos (Bjerring & Arendt-Nielsen, 1990).
  • A lidocaína pré-misturada (0,3%) reduz a dor — mais de 50% menos dor comparada a preenchedor sem lidocaína em um estudo (Monheit et al., 2010) — mas não elimina a dor da injeção: ainda ~4,2 em 10 mesmo com lidocaína, em estudo de aumento labial (Froget et al., 2024).
  • O bloqueio regional antecipa a anestesia para antes da agulha, com início de ação da lidocaína em cerca de 2–3 minutos (Yao & Sequeira Campos, 2024) — mas é, ele mesmo, uma injeção, com o efeito colateral de reduzir a percepção de pressão no lábio.
  • Existe evidência real de que o EMLA funciona na pele do lábio superior — 18 de 20 participantes preferiram o lado tratado com EMLA em estudo controlado (Hjorth et al., 1991).
  • Não existe, na pesquisa reunida aqui, comparação direta entre as três técnicas medindo dor de preenchimento labial nas mesmas condições — parte da evidência do bloqueio é extrapolada de outros procedimentos.
  • É medicamento de prescrição e técnica de uso profissional: a escolha e a combinação corretas para o seu caso dependem de avaliação individual.
O próximo passo

Se o medo da dor é o que está adiando sua decisão de fazer o preenchimento labial, vale conversar sobre qual combinação de anestesia — tópica, a que já vem no produto, bloqueio regional, ou mais de uma — faz sentido para o seu limiar de dor e o seu histórico, numa avaliação individual.

Referências
  1. Bjerring P, Arendt-Nielsen L. Depth and duration of skin analgesia to needle insertion after topical application of EMLA cream. Br J Anaesth, 1990;64(2):173–177 — profundidade de anestesia cutânea de ~3 mm em 60 min e ~5 mm em 120 min de oclusão.
  2. Hjorth N, Harring M, Hahn A. Epilation of upper lip hirsutism with a eutectic mixture of lidocaine and prilocaine used as a topical anesthetic. J Am Acad Dermatol, 1991;25(5 Pt 1):809–811 — EMLA no lábio superior, 18/20 preferiram o lado tratado (p<0,0001).
  3. Cohen JL, Gold MH. Evaluation of the Efficacy and Safety of a Lidocaine and Tetracaine (7%/7%) Cream for Induction of Local Dermal Anesthesia for Facial Soft Tissue Augmentation with Hyaluronic Acid. J Clin Aesthet Dermatol, 2014;7(10):32–37 — VAS significativamente menor com anestésico tópico vs. veículo (p<0,0001), n=70, aplicação de 30 min.
  4. Monheit GD, Campbell RM, Neugent H, et al. Reduced Pain with Use of Proprietary Hyaluronic Acid with Lidocaine for Correction of Nasolabial Folds: A Patient-Blinded, Prospective, Randomized Controlled Trial. Dermatol Surg, 2010;36(1):94–101 — mais de 50% menos dor com lidocaína pré-misturada vs. sem lidocaína, em todos os tempos avaliados.
  5. Choi SY, Han HS, Yoo KH, Lee JS, Kim BJ, Lee YW. Reduced pain with injection of hyaluronic acid with pre-incorporated lidocaine for nasolabial fold correction: a multicenter, double-blind, randomized, active-controlled, split-face designed, clinical study. J Cosmet Dermatol, 2020;19(12):3229–3233 — VAS 14,65±16,23 (com lidocaína 0,3%) vs. 38,29±27,27 (sem lidocaína).
  6. Froget N, Kobylińska I, Warszawik-Hendzel O, et al. Effectiveness and Safety of IPN-20-SENSE LIDOCAINE for Lip Volume Augmentation and/or Redefinition (SMILE Study): A Non-inferiority Randomized Double-Blinded Controlled Study. Aesthetic Plast Surg, 2024;49(4):1033–1045 — dor à injeção ~4,2±1,69 (0–10) mesmo com lidocaína 0,3% já na seringa, em aumento labial.
  7. Yao PY, Sequeira Campos MB. Infraorbital Nerve Block. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; atualizado em 2024 — anatomia, técnica e início de ação da lidocaína (~2–3 min) no bloqueio que anestesia o lábio superior.
  8. Betz D, Fane K. Mental Nerve Block. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; atualizado em 2023 — anatomia, técnica e uso do bloqueio mentual, que anestesia o lábio inferior.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo. A lidocaína + prilocaína tópica (EMLA) é medicamento de prescrição e uso profissional; o bloqueio anestésico regional é uma técnica injetável. Este material descreve o que os estudos testaram, sem prometer resultado individual. A indicação, a técnica e a combinação de anestésicos corretas para o seu caso dependem de avaliação individual antes do procedimento.