Preenchimento de lábio dói? O que a ciência mostra sobre as três anestesias envolvidas
“Preenchimento de lábio dói?” é a pergunta mais buscada antes desse procedimento — e a resposta comum (“usamos anestesia”) esconde um detalhe importante: existem três recursos diferentes, com tempos e alvos que não se substituem entre si. Veja o que os estudos mediram sobre o creme tópico, a lidocaína que já vem na seringa e o bloqueio nervoso regional — com número e fonte.
A lidocaína + prilocaína tópica (EMLA) é um medicamento de prescrição e uso profissional — não é um cosmético de venda livre — e o bloqueio anestésico regional é uma técnica injetável. Este material descreve o que os estudos testaram (concentrações, tempos de oclusão, técnicas de bloqueio), como informação científica, para ajudar a entender as opções reais de controle da dor no procedimento labial — não é prescrição nem promessa de resultado individual. A indicação do anestésico, a técnica e a combinação corretas para o seu caso dependem de avaliação individual prévia.
Antes de “qual preenchedor escolher”, a primeira pergunta de quase toda paciente é outra: vai doer? É a barreira número um para quem considera preenchimento labial — e a resposta genérica de “usamos anestesia” mistura três recursos que fazem coisas diferentes, em momentos diferentes.
Há o creme anestésico tópico aplicado antes de qualquer agulha tocar a pele (como o EMLA); há a lidocaína que já vem misturada dentro da seringa do preenchedor, agindo durante a infiltração; e há o bloqueio anestésico regional — uma injeção à parte, usada por alguns profissionais, que anestesia o nervo de todo o lábio antes do preenchedor entrar. Esta apostila separa o que cada um faz, com o número e a fonte de cada estudo — inclusive o dado que mais surpreende: a lidocaína da seringa, sozinha, ainda dói.
O EMLA é uma emulsão eutética de lidocaína 2,5% + prilocaína 2,5%, formulada para liberar os dois anestésicos na epiderme e na derme quando aplicada sob oclusão. O detalhe que a maioria dos protocolos informais ignora é que a profundidade real da anestesia depende diretamente do tempo de contato. No estudo clássico que mediu isso com precisão, a profundidade de analgesia cutânea alcançada foi de aproximadamente 3 mm após 60 minutos de oclusão e de aproximadamente 5 mm após 120 minutos — com o efeito continuando a aumentar mesmo depois da remoção do creme (Bjerring & Arendt-Nielsen, 1990).
Isso importa porque a mucosa e a derme do lábio não são anestesiadas “no instante” em que o creme é passado: passar o produto e aguardar 5 ou 10 minutos — prática comum quando o tempo do atendimento aperta — entrega uma fração da profundidade de anestesia que o próprio estudo farmacológico documentou. A relação é tempo-dependente, não instantânea.
oclusão parcial
mínimo p/ procedimentos
oclusão prolongada
Grande parte dos preenchedores de ácido hialurônico modernos já vem com lidocaína 0,3% pré-misturada na própria seringa — uma inovação real, com evidência sólida de que reduz a dor durante a injeção. Num ensaio clínico randomizado, split-face, o lado do rosto injetado com o preenchedor contendo lidocaína apresentou mais de 50% menos dor do que o lado injetado com o mesmo produto sem lidocaína, em todos os pontos de tempo avaliados (Monheit et al., 2010). Outro estudo, com preenchedor específico para dobras nasolabiais, mediu escore de dor de 14,65 (±16,23) na escala visual analógica com lidocaína pré-misturada, contra 38,29 (±27,27) sem lidocaína (Choi et al., 2020).
O ponto anti-óbvio aparece quando se olha para um estudo desenhado especificamente para aumento labial: mesmo com lidocaína cloridrato 0,3% já presente na formulação, a dor relatada no momento da injeção continuou moderada — média de 4,2 (±1,69) numa escala numérica de 0 a 10, muito próxima da média de 4,5 (±1,91) do produto comparador (diferença não significativa, p=0,311) (Froget et al., 2024). Ou seja: a lidocaína da seringa reduz a dor em relação a não ter lidocaína nenhuma, mas não a zera — porque ela só está presente no tecido no exato momento em que a agulha e o produto avançam, não antes.
As barras ilustram o contraste de timing entre os dois recursos — não são uma medida direta de intensidade de efeito, e sim de “quando” cada anestésico está presente no tecido em relação ao momento da picada.
Uma técnica usada por alguns profissionais é o bloqueio anestésico regional — uma injeção de lidocaína próxima ao nervo que serve todo o lábio, aplicada antes do preenchedor, e não no próprio lábio. Para o lábio superior, bloqueia-se o nervo infraorbitário (ramo do nervo maxilar, que sai pelo forame infraorbitário e inerva pálpebra inferior, lateral do nariz e lábio superior); para o lábio inferior, o nervo mentual (que sai pelo forame mentual e inerva lábio inferior e mento) (Yao & Sequeira Campos, 2024; Betz & Fane, 2023).
A vantagem descrita na literatura é o início de ação rápido da lidocaína nesse tipo de bloqueio — de aproximadamente 2 a 3 minutos (Yao & Sequeira Campos, 2024) — anestesiando uma área ampla do lábio de uma só vez, antes de qualquer agulha do preenchimento entrar em contato com o tecido. A técnica intraoral (pela mucosa da boca) é a mais usada; a literatura descreve que ela é subjetivamente menos dolorosa que a via percutânea (pela pele). O bloqueio é, ele mesmo, uma injeção — e tem um efeito colateral pouco discutido: ao anestesiar todo o lábio, o paciente perde a percepção de pressão e volume, o que pode dificultar para o profissional sentir, em tempo real, quando já injetou o suficiente.
A maior parte dos estudos de preenchedor com lidocaína foi feita em sulco nasogeniano, não no lábio — mas existe evidência de que o EMLA funciona, especificamente, na pele dessa região do rosto. Num ensaio duplo-cego controlado por placebo aplicado no lábio superior (contexto de depilação por eletrólise, não de preenchimento), o EMLA produziu dor significativamente menor do que o placebo, avaliada tanto pela paciente quanto pela profissional — 18 das 20 participantes preferiram o lado tratado com EMLA (p<0,0001) (Hjorth et al., 1991). É um estudo de outro procedimento, mas confirma que o efeito anestésico do EMLA é real e mensurável nessa pele específica, não só em antebraço ou dorso.
Para o preenchimento facial com ácido hialurônico especificamente, um ensaio controlado por placebo com 70 participantes testou um creme tópico de lidocaína/tetracaína (7%/7%) aplicado por 30 minutos antes da injeção: o escore médio de dor na escala visual analógica foi significativamente menor com o anestésico ativo do que com o creme veículo (p<0,0001) (Cohen & Gold, 2014). Honestidade necessária: não foi localizado, na pesquisa reunida para esta apostila, um ensaio clínico controlado testando o EMLA especificamente antes de preenchimento labial com medição de VAS publicada — a evidência mais direta soma um estudo de EMLA na pele do lábio (procedimento diferente) a estudos de anestésico tópico em preenchimento facial (região diferente). É a extrapolação mais honesta possível com o que existe publicado até aqui.
Achar que a lidocaína que já vem na seringa do preenchedor dispensa o creme anestésico tópico aplicado antes.
São duas anestesias com timings diferentes, não uma substituindo a outra. A lidocaína pré-misturada só está presente no tecido no instante em que o produto é infiltrado — por isso, mesmo com ela, estudos de aumento labial registraram dor média de 4,2 em 10 no momento da injeção (Froget et al., 2024). Quem pula o creme tópico porque “o preenchedor já tem anestésico” está descartando a única camada de anestesia que age antes da primeira picada — justamente o momento que mais gera ansiedade e reflexo de dor no lábio, uma região com altíssima densidade de terminações nervosas.
O certo: tratar as duas anestesias como complementares e cumulativas — aplicar o tópico com o tempo de oclusão adequado antes da agulha entrar, sabendo que o preenchedor, ao ser infiltrado, ainda vai somar sua própria lidocaína durante o procedimento.
Nenhuma das três é “a certa” — são recursos com propósitos e limitações diferentes, que podem ser combinados conforme a avaliação individual do caso e a preferência da paciente.
| Critério | Creme tópico (EMLA) | Lidocaína na seringa | Bloqueio regional |
|---|---|---|---|
| Quando age | Antes da agulha, se houver tempo de oclusão | Só durante a infiltração | Antes da agulha, minutos após aplicar |
| Início de efeito | Progressivo — depende do tempo (60–120 min p/ profundidade máxima) | Imediato, mas parcial | ~2–3 min (lidocaína) |
| É uma injeção? | Não | É o próprio preenchedor | Sim, injeção à parte |
| Melhor evidência citada | EMLA no lábio superior: 18/20 preferiram (Hjorth, 1991) | >50% menos dor vs. sem lidocaína (Monheit, 2010) | Onset 2–3 min (StatPearls, 2024) |
| Limite de uso | Exige tempo de espera que a rotina às vezes pula | Ainda dói: ~4,2/10 na injeção (Froget, 2024) | Reduz percepção de pressão/volume do lábio |
Não significa que qualquer combinação sirva para qualquer paciente. Significa que “vamos usar anestesia” é uma frase incompleta — a pergunta que realmente importa é qual anestesia, aplicada em qual momento, com qual tempo de espera, é coerente com o limiar de dor e a expectativa de cada pessoa. Isso é avaliação individual, não protocolo padrão.
Quando uma paciente pergunta “vai doer?”, a resposta honesta não é “não, porque tem anestesia” — é explicar que existem camadas de anestesia com tempos diferentes, e que a experiência de dor muda conforme essas camadas são bem usadas ou puladas por pressa. O creme tópico precisa do tempo de oclusão que a farmacologia exige — 60 minutos para cerca de 3 mm de profundidade, não 10. A lidocaína da seringa é um avanço real, mas atua durante a injeção, não antes — por isso ainda dói um pouco, mesmo nos melhores estudos. E o bloqueio regional, quando indicado, antecipa a anestesia para antes da agulha, ao custo de ser ele mesmo uma injeção e de reduzir a percepção que ajuda a dosar o volume certo. Não existe “a” resposta única — existe a combinação certa para o caso, decidida numa avaliação individual.
- Dor é a barreira nº 1 buscada antes do preenchimento labial — e existem 3 recursos de controle diferentes, que não se substituem entre si.
- O tempo de oclusão do EMLA muda a profundidade real da anestesia: cerca de 3 mm em 60 minutos, cerca de 5 mm em 120 minutos (Bjerring & Arendt-Nielsen, 1990).
- A lidocaína pré-misturada (0,3%) reduz a dor — mais de 50% menos dor comparada a preenchedor sem lidocaína em um estudo (Monheit et al., 2010) — mas não elimina a dor da injeção: ainda ~4,2 em 10 mesmo com lidocaína, em estudo de aumento labial (Froget et al., 2024).
- O bloqueio regional antecipa a anestesia para antes da agulha, com início de ação da lidocaína em cerca de 2–3 minutos (Yao & Sequeira Campos, 2024) — mas é, ele mesmo, uma injeção, com o efeito colateral de reduzir a percepção de pressão no lábio.
- Existe evidência real de que o EMLA funciona na pele do lábio superior — 18 de 20 participantes preferiram o lado tratado com EMLA em estudo controlado (Hjorth et al., 1991).
- Não existe, na pesquisa reunida aqui, comparação direta entre as três técnicas medindo dor de preenchimento labial nas mesmas condições — parte da evidência do bloqueio é extrapolada de outros procedimentos.
- É medicamento de prescrição e técnica de uso profissional: a escolha e a combinação corretas para o seu caso dependem de avaliação individual.
Se o medo da dor é o que está adiando sua decisão de fazer o preenchimento labial, vale conversar sobre qual combinação de anestesia — tópica, a que já vem no produto, bloqueio regional, ou mais de uma — faz sentido para o seu limiar de dor e o seu histórico, numa avaliação individual.
- Bjerring P, Arendt-Nielsen L. Depth and duration of skin analgesia to needle insertion after topical application of EMLA cream. Br J Anaesth, 1990;64(2):173–177 — profundidade de anestesia cutânea de ~3 mm em 60 min e ~5 mm em 120 min de oclusão.
- Hjorth N, Harring M, Hahn A. Epilation of upper lip hirsutism with a eutectic mixture of lidocaine and prilocaine used as a topical anesthetic. J Am Acad Dermatol, 1991;25(5 Pt 1):809–811 — EMLA no lábio superior, 18/20 preferiram o lado tratado (p<0,0001).
- Cohen JL, Gold MH. Evaluation of the Efficacy and Safety of a Lidocaine and Tetracaine (7%/7%) Cream for Induction of Local Dermal Anesthesia for Facial Soft Tissue Augmentation with Hyaluronic Acid. J Clin Aesthet Dermatol, 2014;7(10):32–37 — VAS significativamente menor com anestésico tópico vs. veículo (p<0,0001), n=70, aplicação de 30 min.
- Monheit GD, Campbell RM, Neugent H, et al. Reduced Pain with Use of Proprietary Hyaluronic Acid with Lidocaine for Correction of Nasolabial Folds: A Patient-Blinded, Prospective, Randomized Controlled Trial. Dermatol Surg, 2010;36(1):94–101 — mais de 50% menos dor com lidocaína pré-misturada vs. sem lidocaína, em todos os tempos avaliados.
- Choi SY, Han HS, Yoo KH, Lee JS, Kim BJ, Lee YW. Reduced pain with injection of hyaluronic acid with pre-incorporated lidocaine for nasolabial fold correction: a multicenter, double-blind, randomized, active-controlled, split-face designed, clinical study. J Cosmet Dermatol, 2020;19(12):3229–3233 — VAS 14,65±16,23 (com lidocaína 0,3%) vs. 38,29±27,27 (sem lidocaína).
- Froget N, Kobylińska I, Warszawik-Hendzel O, et al. Effectiveness and Safety of IPN-20-SENSE LIDOCAINE for Lip Volume Augmentation and/or Redefinition (SMILE Study): A Non-inferiority Randomized Double-Blinded Controlled Study. Aesthetic Plast Surg, 2024;49(4):1033–1045 — dor à injeção ~4,2±1,69 (0–10) mesmo com lidocaína 0,3% já na seringa, em aumento labial.
- Yao PY, Sequeira Campos MB. Infraorbital Nerve Block. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; atualizado em 2024 — anatomia, técnica e início de ação da lidocaína (~2–3 min) no bloqueio que anestesia o lábio superior.
- Betz D, Fane K. Mental Nerve Block. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; atualizado em 2023 — anatomia, técnica e uso do bloqueio mentual, que anestesia o lábio inferior.