Dói mais na hora — mas quem machuca mais a pele é o CO2
Quem tem medo de “downtime” costuma imaginar crosta visível, dias trancado em casa, pele em carne viva. Os estudos mostram uma curva bem diferente para agulha e para laser — e ela não é a que o marketing sugere. Vamos separar o que dói na hora do que realmente machuca a pele depois.
Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve o que os estudos clínicos mediram sobre dor, eventos adversos e tempo de recuperação do microagulhamento e do laser de CO2 fracionado. Não é indicação individual, nem substitui avaliação presencial. A resposta à pele varia por espessura, fototipo, técnica e protocolo — quem avalia o seu caso e indica a conduta é o profissional habilitado, após avaliação individual.
Uma dúvida recorrente de quem pensa em tratar estria é sobre o “durante” e o “depois”: vai doer? Vou sair andando por aí com a cara vermelha? Quanto tempo até poder me olhar no espelho sem me incomodar?
A resposta interessante não é um número só — é uma troca. Os estudos que comparam microagulhamento (ou sua versão com radiofrequência, a FMR) contra o laser de CO2 fracionado mostram, de forma consistente, que a agulha costuma doer mais na hora — mas a pele do CO2 fica mais agredida e demora mais para “sarar visualmente” depois. Dor no ato e dano à pele são dois eixos diferentes, e esta apostila mede os dois com números, não com impressão.
A referência mais completa sobre segurança é uma revisão sistemática que reuniu 51 artigos e 1.029 pacientes submetidos a microagulhamento em diferentes indicações de pele (Gowda, 2021). O achado central: o eritema — a vermelhidão pós-procedimento — é, disparado, o efeito mais comum, aparecendo em horas e regredindo em até 7 dias. A dor durante o procedimento foi registrada em escala de 0 a 10, com média entre 5,4 e 5,56 nos estudos reunidos — moderada, não desprezível. O edema (inchaço) também é comum, mas de resolução rápida: entre 24 horas e 3 dias.
Esses três — eritema, dor e edema — são os eventos que praticamente todo mundo que faz o procedimento vai sentir em algum grau. É por isso que a força de evidência para eles é categoria B: vêm de uma amostra grande (1.029 pacientes) e aparecem de forma consistente entre os estudos reunidos — dá para falar deles com razoável confiança de frequência.
horas a 7 dias
24h a 3 dias
escala 0–10
A mesma revisão de Gowda (2021) documenta três eventos bem mais raros, e é importante tratá-los com o rigor estatístico certo: infecção foi registrada em apenas 2 casos em toda a base de 1.029 pacientes; o chamado “tram-track” — marcas lineares duplas, associadas a técnica com pressão excessiva do dispositivo — apareceu em 2 casos; e o granuloma alérgico, o mais grave dos três, foi relatado em apenas 3 pacientes, que desenvolveram também sintomas sistêmicos.
Um achado complementar de contexto: num estudo com fototipos IV e V especificamente (pele mais pigmentada), a hiperpigmentação pós-inflamatória apareceu em 5 de 30 pacientes e o tram-track em 2 de 30 (Dogra, 2014) — uma taxa bem maior que os 2 casos em 1.029 de Gowda, o que reforça que técnica e pressão de aplicação, não a agulha em si, são o fator que mais pesa nesses eventos.
Quando um evento aparece só 2 ou 3 vezes numa amostra, ele não tem poder estatístico para virar uma taxa de incidência confiável — pode ser sub ou superestimado por puro acaso da amostra estudada. É por isso que classificamos esses eventos como força C: reais, documentados, mas raros o bastante para exigir cautela na leitura do número, não para serem ignorados.
A peça mais interessante desta apostila vem de um desenho de estudo que remove viés entre pacientes: o split-face, em que metade do rosto recebe um tratamento e a outra metade recebe o outro, no mesmo paciente. Um ensaio comparou radiofrequência microagulhada (FMR) e CO2 fracionado em 15 pacientes com cicatriz de acne — não é estria, mas é o comparativo direto de dor e pele mais bem controlado que existe entre as duas tecnologias, por isso o trazemos aqui com essa ressalva clara.
O resultado foi um trade-off nítido: a dor durante o procedimento foi maior no lado tratado com FMR — VAS 7,0 contra 5,5 do lado com CO2 (p = 0,009, diferença estatisticamente significativa) — mas o eritema e a perda de integridade da pele foram maiores no lado tratado com CO2 nos primeiros 2 a 4 dias (Hendel, 2023). Ou seja: no consultório, a agulha incomoda mais; em casa, nos dias seguintes, é a pele tratada com laser que fica mais visivelmente agredida.
Um segundo split-face, também em cicatriz de acne (novamente a ressalva: não é estudo em estria), comparou os mesmos dois procedimentos em 30 pacientes. Aqui o achado sobre recuperação foi consistente com o estudo anterior — a favor da agulha: o lado tratado com radiofrequência microagulhada teve menos hiperpigmentação pós-inflamatória e recuperação mais rápida, com menos eritema, menos edema e menor tempo de descamação, além de maior satisfação em quase todos os parâmetros avaliados (Li, 2026).
Mas há um ponto que uma apostila honesta não pode esconder: neste mesmo estudo de Li (2026), a dor também foi relatada como menor no lado da agulha — o que diverge do resultado de dor maior encontrado por Hendel (2023). Duas amostras pequenas, dois resultados diferentes sobre o mesmo eixo (dor). Isso não anula nenhum dos dois: mostra que a intensidade da dor pode variar por energia do aparelho, protocolo de anestesia tópica e população estudada — e que, num campo com estudos de N=15 e N=30, uma única pesquisa não fecha a questão. O que se repete nos dois estudos, sem divergência, é o eixo da pele: o CO2 machuca e demora mais para clarear visualmente do que o microagulhamento/FMR.
| Comparativo (split-face, cicatriz de acne) | Dor no procedimento | Eritema / edema / descamação |
|---|---|---|
| Hendel, 2023 (N=15) | Maior na agulha (VAS 7,0 x 5,5; p=0,009) | Menor na agulha |
| Li, 2026 (N=30) | Menor na agulha | Menor na agulha — recuperação mais rápida |
| O que se repete nos dois | Pele agredida e tempo de “sarar visualmente” — sempre pior no CO2 | |
Achar que “dói mais” significa “é mais perigoso” — e que “dói menos” significa “a pele sofreu menos”.
Os próprios estudos mostram o contrário do senso comum: no comparativo de Hendel (2023), o procedimento que doeu mais na hora (o microagulhamento) foi exatamente o que deixou a pele menos agredida nos dias seguintes. Dor durante o ato e dano tecidual/tempo de recuperação são eixos diferentes, medidos por instrumentos diferentes (escala VAS de dor x avaliação clínica de eritema/integridade da pele) — um não prevê o outro.
O certo: perguntar separadamente “quanto vai doer no consultório?” e “quantos dias minha pele vai ficar visivelmente machucada?” — são duas respostas diferentes, e o procedimento mais desconfortável na hora pode ser o de recuperação mais rápida.
Quem evita o microagulhamento por medo de crosta visível ou de “não poder sair de casa” está, na maioria das vezes, projetando a curva de recuperação do laser ablativo sobre um procedimento diferente. O eritema do microagulhamento é comum, mas regride em até 7 dias (Gowda, 2021); nos comparativos diretos, é justamente o CO2 que demora mais para a pele “acalmar” visualmente (Hendel, 2023; Li, 2026). Isso não elimina o desconforto do procedimento em si — só reorganiza onde ele realmente pesa.
Não existe aqui um vencedor absoluto, e seria desonesto apresentar como se existisse. O microagulhamento tende a doer mais na hora do procedimento — isso está documentado com significância estatística (Hendel, 2023). Em compensação, ele agride menos a pele e, num dos dois comparativos diretos, também recupera mais rápido (Li, 2026). O que a evidência ainda não resolve, com apenas duas amostras pequenas e resultados divergentes sobre dor, é qual dos dois “dói mais” de forma definitiva — e uma apostila séria diz isso em vez de escolher o número que combina com a conclusão que quer vender. O que pesa mais para você — o desconforto do dia do procedimento ou os dias seguintes de pele visivelmente alterada — é uma pergunta pessoal, que vale levar à avaliação individual.
- Eritema, edema e dor são os eventos mais comuns do microagulhamento — 1.029 pacientes, 51 estudos (Gowda, 2021).
- Dor média de 5,4–5,56/10, edema resolvendo em 24h–3 dias, eritema em até 7 dias.
- Infecção (2 casos), tram-track (2 casos) e granuloma alérgico (3 pacientes) são raros — força C, não dá para calcular taxa a partir de tão poucos casos.
- Tram-track está associado a pressão excessiva na aplicação — é questão de técnica, não do método em si (Gowda, 2021; Dogra, 2014).
- No comparativo direto com CO2 (cicatriz de acne, split-face): a agulha dói mais na hora (VAS 7,0 x 5,5, p=0,009) — mas o CO2 agride mais a pele nos dias seguintes (Hendel, 2023).
- Um segundo estudo (Li, 2026) reforça recuperação mais rápida e mais satisfação com a agulha/FMR — mas diverge de Hendel sobre qual dói mais, o que exige cautela na leitura de dor isolada.
- Dor no ato ≠ dano à pele. São eixos diferentes; avalie os dois separadamente antes de decidir.
Se dor e recuperação já são mais claras, a próxima pergunta é sobre a narrativa em volta do procedimento: quanto do que se vende como “estimula colágeno” é ciência e quanto é exagero de marketing? É o que a apostila 8 desta série destrincha. Leve estas informações à avaliação individual com um profissional habilitado.
- Gowda A, Healey B, Ezaldein H, Merati M. A Systematic Review Examining the Potential Adverse Effects of Microneedling. J Clin Aesthet Dermatol, 2021;14(1):45-54 — 51 artigos, 1.029 pacientes; eritema mais comum (horas–7 dias), dor 5,4–5,56/10, edema 24h–3 dias, infecção rara (2 casos), tram-track raro (2 casos), granuloma alérgico raríssimo (3 pacientes, com sintomas sistêmicos).
- Hendel K, et al. Fractional CO2-laser versus microneedle radiofrequency for acne scars. Lasers Surg Med, 2023;55(4):335-343 — split-face, N=15, cicatriz de acne (não estria); dor maior na agulha/FMR (VAS 7,0 x 5,5, p=0,009); eritema e perda de integridade da pele maiores no CO2 nos primeiros 2–4 dias.
- Li W, et al. Comparative efficacy, recovery, and pigmentary safety of radiofrequency microneedling and fractional carbon dioxide laser. J Dermatolog Treat, 2026;37(1) — split-face, N=30, cicatriz de acne (não estria); FMR com menos hiperpigmentação pós-inflamatória e recuperação mais rápida — menos eritema, dor, edema e tempo de descamação; maior satisfação em quase todos os pontos.
- Dogra S, Yadav S, Sarangal R. Microneedling for acne scars in Asian skin type: an effective low cost treatment modality. J Cosmet Dermatol, 2014;13(3):180-187 — N=30, fototipo IV-V, cicatriz de acne; hiperpigmentação pós-inflamatória em 5/30, tram-track em 2/30 — contexto de técnica e pele mais pigmentada.
- Mikes BW, et al. Striae Distensae. StatPearls, 2025 — histologia da estria rubra (inflamatória/vascular) x alba (atrófica/avascular); base para a ressalva de que estudos em cicatriz de acne podem não se comportar de forma idêntica ao tecido da estria.