Apostila 3 · Laser CO2 × Estrias · Par

O número no rótulo: os parâmetros que cada estudo de laser de CO2 usou — e por que eles não são iguais

“Fiz laser de CO2 para estria” é uma frase que parece completa e não é. Energia por pulso, densidade de cobertura e número de sessões variam de estudo para estudo — às vezes de forma enorme — e essa variação explica boa parte da diferença de resultado que aparece entre um paciente e outro, e entre um estudo e outro.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O laser de CO2 fracionado é um procedimento estético a laser — um ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne os parâmetros técnicos (energia, densidade, número de sessões) que os próprios estudos científicos relataram ter usado. Nenhum número citado aqui é uma recomendação de protocolo. O parâmetro adequado para cada pele, cada estria e cada objetivo é definido em avaliação individual com profissional habilitado — não numa apostila.

Esta é a apostila 3 da série laser de CO2 fracionado × estrias. Nas duas primeiras, vimos por que estria rubra e alba não são a mesma cicatriz e o que os comparativos gerais mostram sobre a eficácia do laser de CO2. Agora entra uma variável que quase nunca aparece na conversa entre clínica e paciente, mas que separa um estudo do outro de forma dramática: o parâmetro usado.

Não existe “o” laser de CO2 fracionado com uma dose única. Existe um leque de combinações de energia por pulso (mJ), densidade de cobertura da pele (%, ou pontos por cm²) e número de sessões — e os quatro estudos que esta apostila detalha usaram quatro combinações visivelmente diferentes entre si. Entender essa variação é o que permite ler um resultado de estudo (ou a experiência relatada por outra pessoa) com o contexto certo, em vez de tratá-lo como se fosse universal.

40 a 50 mJ contra 10 mJ: a primeira variável que muda tudo

Energia por pulso (medida em milijoules, mJ) é, em termos simples, a quantidade de energia que cada microcoluna de laser entrega à pele antes de o laser avançar para o próximo ponto. Mais energia por pulso tende a significar uma coluna de dano térmico mais profunda — e, associada a ela, mais estímulo de remodelação de colágeno, mas também mais tempo de recuperação e mais risco de efeito colateral.

O RCT split-scar de Yang & Lee (2011, Annals of Dermatology), com 22 pacientes de fototipo IV, usou 40 a 50 mJ, com densidade de 75 a 100 pontos por cm² e spot de 8×8mm — uma dose relativamente alta e uma cobertura densa da área tratada, repetida em 3 sessões, a cada 4 semanas. É, dos quatro estudos desta apostila, o protocolo de maior energia e maior densidade combinadas.

Já o estudo retrospectivo de Lee et al. (2010, Dermatologic Surgery), com 27 pacientes, usou o modo Deep FX do laser de CO2 fracionado com apenas 10 mJ de energia e 2% de densidade de cobertura — uma fração da dose do estudo de Yang — e, além disso, uma sessão única. Dois estudos, o mesmo tipo de aparelho (laser de CO2 fracionado), duas doses que praticamente não se encostam.

EstudoLaserEnergiaDensidade / spotSessõesAmostra
Yang & Lee, 2011 CO2 fracionado ablativo 40-50 mJ 75-100 pontos/cm² · spot 8×8mm 3, a cada 4 semanas 22 pac. (split-scar, fototipo IV)
Lee et al., 2010 CO2 fracionado ablativo (Deep FX) 10 mJ 2% de densidade 1 (sessão única) 27 pac. (retrospectivo)
Lakshmipathi, 2026 CO2 fracionado, pulso progressivo 40 mJ · 12W spot 1cm² 3, a cada 4 semanas 60 estrias (30 rubra + 30 alba)
Gungor et al., 2014 Er:YAG VSP ablativo (outro laser, não CO2) não detalhado no estudo não detalhado no estudo 3, mensais 20 pac. (17 alba + 3 rubra, split-body)

Gungor et al. (2014) está na tabela como contraste de desenho de protocolo (3 sessões mensais), não como um quarto estudo de laser de CO2 — o aparelho usado foi Er:YAG (e Nd:YAG), uma tecnologia ablativa diferente, com parâmetros de energia não detalhados no artigo original.

A terceira dose: Lakshmipathi 2026 e o pulso progressivo

O comparativo direto de Lakshmipathi et al. (2026, Journal of Cutaneous and Aesthetic Surgery), com 60 estrias (30 rubra e 30 alba tratadas lado a lado), usou 40 mJ — a mesma energia por pulso do limite inferior de Yang — mas com potência de 12W, spot de 1cm² e um recurso de pulso progressivo (a energia entregue muda ao longo da passada do laser, em vez de ser fixa). O número de sessões, 3 a cada 4 semanas, replica o desenho de Yang — mas a área do spot e a lógica de entrega de energia são diferentes o suficiente para não tratar os dois estudos como “o mesmo protocolo com resultado comparável”.

Isso ilustra um ponto que a própria tabela acima deixa visível: mesmo quando dois estudos compartilham um número (os 40 mJ de Yang e de Lakshmipathi, ou as 3 sessões de Yang, Lakshmipathi e Gungor), os outros parâmetros ao redor mudam o suficiente para que “mesma energia” não signifique “mesmo protocolo”.

Energia por pulso nos 3 estudos de laser de CO2 (mJ)
Apenas os estudos que usaram laser de CO2 fracionado — Gungor (Er:YAG) fica fora por ser outra tecnologia, não comparável em mJ.
Yang & Lee, 2011
40-50 mJ
Lakshmipathi, 2026
40 mJ
Lee et al., 2010
10 mJ
Barras proporcionais ao valor de energia por pulso relatado em cada estudo (mJ). Energia isolada não define o protocolo inteiro — densidade de cobertura e número de sessões, mostrados na tabela acima, entram na mesma conta.
Por que sessão única e sessões múltiplas não são comparáveis direto

Lee et al. (2010) relataram 59,3% de melhora moderada a acentuada com uma única sessão de 10 mJ. Yang & Lee (2011) relataram hiperpigmentação pós-inflamatória em 81,8% dos casos tratados com um protocolo de energia mais alta e 3 sessões. Colocar esses dois números lado a lado como se fossem dois “graus de sucesso” do mesmo tratamento é um erro de leitura: dose cumulativa (mais sessões, mais energia por sessão) tende a aumentar tanto o efeito estético buscado quanto a chance de efeito colateral. Comparar sessão única com sessões múltiplas sem essa ressalva é comparar tratamentos diferentes com a mesma etiqueta.

O contraste de fora: outro laser, mesma lógica de sessões

Gungor et al. (2014, Indian Journal of Dermatology, Venereology and Leprology) não testaram laser de CO2 — testaram Er:YAG e Nd:YAG em 20 pacientes (17 com estria alba, 3 com estria rubra), num desenho split-body, com 3 sessões mensais. Ele entra nesta apostila não como um quinto dado de eficácia de CO2, mas como contraste de desenho: mesmo trocando a tecnologia de laser, o padrão de “múltiplas sessões espaçadas por semanas” se repete entre os grupos que buscam efeito cumulativo — reforçando que o número de sessões, sozinho, já é uma decisão de protocolo, independente de qual aparelho está sendo usado.

O resultado de Gungor também ilustra outro ponto relevante para esta apostila: com uma amostra pequena e desbalanceada por subtipo (17 alba, apenas 3 rubra), a resposta foi relatada como pobre em alba e moderada em rubra — mas o próprio tamanho do subgrupo rubra (3 pacientes) limita o quanto esse número pode ser generalizado. Um protocolo, por si só, não compensa uma amostra pequena.

Um erro muito comum

Achar que “fazer laser de CO2” é sempre o mesmo procedimento — como se fosse um item de cardápio fixo, igual de uma clínica para outra.

Os quatro protocolos desta apostila mostram o oposto: energia por pulso variando de 10 a 50 mJ (uma diferença de até 5 vezes), densidade de 2% a 100 pontos/cm², e número de sessões indo de 1 a 3. “Fiz laser de CO2 e não funcionou” ou “fiz laser de CO2 e ficou marcado” são frases que, sem o parâmetro usado, não dizem quase nada sobre o que de fato foi aplicado na pele — nem permitem prever se um protocolo diferente teria outro resultado.

O certo: perguntar, na avaliação individual, qual energia, densidade e número de sessões estão sendo propostos — e por quê, para o seu tipo de estria e sua pele — em vez de aceitar “laser de CO2” como uma resposta completa.

A Sacada dos DoutoresO nome do laser é só metade da informação. A outra metade é o número que ninguém pergunta.

O que eu quero que fique desta apostila é bem prático: quando alguém me pergunta “o laser de CO2 é bom para estria?”, a resposta honesta não pode ignorar que existe mais de um “laser de CO2” na literatura — dose baixa em sessão única, dose alta em três sessões, e variações de spot e potência entre elas. Isso não é tecnicismo para complicar a conversa; é a diferença entre um protocolo pensado para o seu tipo de estria e um protocolo genérico aplicado sem essa pergunta. Na minha visão, um material que promete “resultado do laser de CO2” sem citar o parâmetro está prometendo menos informação do que os próprios estudos relatam. A avaliação individual é o momento certo para transformar esse número — energia, densidade, sessões — na decisão certa para o seu caso.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Não existe um protocolo único de laser de CO2 para estria: os estudos usaram energias de 10 a 50 mJ, densidades de 2% a 100 pontos/cm² e de 1 a 3 sessões.
  • Yang & Lee (2011) usaram o protocolo de maior dose combinada: 40-50 mJ, 75-100 pontos/cm², 3 sessões — e relataram HPI em 81,8% dos casos.
  • Lee et al. (2010) usaram o protocolo de menor dose: 10 mJ, 2% de densidade, sessão única — e relataram 59,3% de melhora moderada a acentuada.
  • Lakshmipathi (2026) combinou 40 mJ com spot de 1cm² e pulso progressivo, em 3 sessões — parâmetro parcialmente parecido com Yang, mas não idêntico.
  • Gungor et al. (2014) usou outro laser (Er:YAG/Nd:YAG, não CO2) em 3 sessões mensais — citado aqui só como contraste de desenho de protocolo, não como dado de eficácia de CO2.
  • Sessão única e sessões múltiplas não são comparáveis sem ressalva: dose cumulativa tende a mudar tanto o resultado estético quanto o risco de efeito colateral.
  • “Fiz laser de CO2” não é uma frase completa sem o parâmetro usado — e o parâmetro certo para você só se define numa avaliação individual.
O próximo passo

Agora que você sabe que o parâmetro muda o protocolo, a pergunta natural é: parâmetro à parte, existe um fator que pesa mais do que os outros na hora de prever se o laser de CO2 vai funcionar bem? A próxima apostila desta série mostra o dado que se repete entre os estudos: a cor da estria — rubra ou alba — pesa mais do que a maioria imagina. Leve os parâmetros desta apostila para a sua avaliação individual, junto com a pergunta certa sobre o seu tipo de estria.

Referências
  1. Yang YJ, Lee GY. Treatment of Striae Distensae with Nonablative Fractional Laser versus Ablative CO2 Fractional Laser: A Randomized Controlled Trial. Ann Dermatol, 2011;23(4):481-9 — RCT split-scar, 22 pacientes fototipo IV; CO2 40-50mJ, 75-100 pontos/cm², spot 8×8mm, 3 sessões/4 semanas; HPI em 81,8% dos casos com CO2.
  2. Lee SE, Kim JH, Lee SJ, et al. Treatment of striae distensae using an ablative 10,600-nm carbon dioxide fractional laser: a retrospective review of 27 participants. Dermatol Surg, 2010;36(11):1683-90 — retrospectivo, 27 pacientes; Deep FX, 10mJ, 2% de densidade, sessão única; 59,3% de melhora moderada-acentuada.
  3. Lakshmipathi, et al. Fractional CO2 Laser in Striae Rubra versus Striae Alba. J Cutan Aesthet Surg, 2026;19(1) — comparativo direto, 60 estrias (30 rubra + 30 alba); 12W, 40mJ, spot 1cm², 3 sessões/4 semanas, pulso progressivo. Referência do dossiê científico interno da clínica — sem link público verificado até o fechamento desta apostila.
  4. Gungor S, Sayilgan T, Gökdemir G, Ozcan D. Evaluation of Er:YAG and Nd:YAG lasers in the treatment of striae distensae. Indian J Dermatol Venereol Leprol, 2014;80(5):409-13 — RCT split-body, 20 pacientes (17 alba + 3 rubra); 3 sessões mensais; resposta pobre em alba, moderada em rubra (amostra pequena por subgrupo). Usado aqui como contraste de protocolo — não é laser de CO2.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo. O laser de CO2 fracionado é um procedimento estético a laser realizado por profissional habilitado. Os parâmetros (energia, densidade, número de sessões) citados aqui são os que os estudos científicos relataram ter usado — não são recomendação de protocolo nem garantia de resultado individual. A pele, o tipo de estria e o histórico de cada pessoa mudam o parâmetro adequado; isso é definido em avaliação individual.