Estudo · Cicatriz hipertrófica leve e grave · Poros dilatados

Toxina botulínica intralesional e intradérmica: dois protocolos, um único frasco

É a mesma molécula, saída do mesmo frasco — mas duas técnicas que quase nada têm em comum. Injetada dentro da cicatriz, ela busca relaxar a tração que alimenta o queloide. Injetada em microgotas na pele, ela busca reduzir a oleosidade e o aspecto do poro dilatado. Tratar os dois como “a mesma aplicação” é o erro mais comum sobre esse uso da toxina — e é o que esta apostila desfaz, protocolo por protocolo, com o número de cada estudo.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

A toxina botulínica aplicada em cicatriz ou em pele é um procedimento injetável — ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de uso, protocolo de aplicação nem promessa de resultado. As doses, diluições e técnicas citadas aqui descrevem o que os estudos testaram, como informação científica — nunca como orientação para você aplicar ou solicitar uma dose específica. A escolha do protocolo, da diluição e do número de sessões depende de avaliação individual da cicatriz ou da pele, feita por quem vai realizar o procedimento.

Se você já pesquisou “toxina botulínica para cicatriz” ou “botox para poro”, provavelmente encontrou os dois assuntos tratados como se fossem a mesma coisa — só “mais uma aplicação de botox”. Não são.

São dois protocolos com objetivo, profundidade, dose e mecanismo diferentes, que compartilham apenas a molécula de origem. Um entra dentro do tecido cicatricial, na tentativa de reduzir a tensão mecânica que mantém a cicatriz espessada. O outro fica na camada mais superficial da pele, na tentativa de reduzir a atividade das glândulas responsáveis pelo poro oleoso e dilatado. Confundir os dois leva a expectativa errada nos dois sentidos — e é exatamente essa confusão que separamos aqui, com os números de cada linha de evidência.

A mesma toxina, dois alvos biológicos diferentes

A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina no ponto onde é injetada — isso é comum aos dois protocolos. O que muda completamente é onde essa liberação é bloqueada. Dentro da cicatriz, o alvo são as fibras musculares e miofibroblastos que geram tração mecânica sobre a ferida em cicatrização; bloquear essa tração é a hipótese central por trás do uso intralesional, descrita pela primeira vez em queloides por Xiao Zhibo & Zhang, 2009, num relato de série de casos com “bons resultados terapêuticos” após injeção direta na lesão. Na pele, o alvo é o músculo eretor do pelo e a inervação que estimula a secreção das glândulas sebáceas — bloquear essa via é o que reduz a produção de sebo na técnica intradérmica em microgotas.

Mesma molécula, caminhos biológicos diferentes
O que muda entre o protocolo intralesional e o intradérmico
Mesma toxinabloqueia a liberação de acetilcolina no ponto injetado
Alvo diferenteintralesional = fibras/miofibroblastos da cicatriz · intradérmico = músculo eretor e glândula sebácea
Efeito buscadomenos tração sobre a ferida · ou menos secreção de sebo
Por que isso importa: a profundidade da injeção não é detalhe técnico — é o que decide qual dos dois efeitos a toxina vai produzir. Aprofundamos cada protocolo a seguir.
Protocolo 1 — intralesional: menos tração, cicatriz mais estreita

Uma meta-análise de 9 ensaios randomizados controlados, somando 539 pacientes com cicatrizes hipertróficas na região maxilofacial e no pescoço, encontrou largura de cicatriz significativamente menor no grupo tratado com toxina botulínica em comparação ao grupo controle (diferença média ponderada de -0,41mm, IC 95% -0,68 a -0,14, p=0,003), além de satisfação do paciente muito maior (razão de chances de 25,76, IC 95% 2,58–256,67, p=0,006) (Zhang et al., 2016). Uma segunda meta-análise, reunindo 21 RCTs, confirmou cicatrizes mais estreitas com toxina botulínica frente a controle (diferença padronizada de -1,11, IC 95% -1,38 a -0,83, p<0,00001) (Li et al., 2022). É esse conjunto de evidência que sustenta o uso intralesional como estratégia real — não anedótica — para cicatriz hipertrófica.

Como ler “cicatriz hipertrófica leve e grave”

Os estudos citados aqui incluem cicatrizes hipertróficas de diferentes graus e, em parte deles, queloides — que são um subtipo mais grave e de crescimento além dos limites da ferida original. A resposta ao tratamento intralesional tende a variar com a gravidade, o tempo de existência da cicatriz e a região do corpo; por isso a decisão de tratar, e com qual protocolo, é sempre caso a caso, feita por quem examina a cicatriz.

Onde a toxina intralesional perde para o corticoide — e onde ela ganha

Uma apostila honesta não escolhe só os números favoráveis. Num ensaio randomizado com 63 pacientes com queloide, divididos em 3 grupos e tratados por 4 sessões mensais, a redução percentual do volume da cicatriz foi de 75% com corticoide intralesional, 66,6% com insulina intralesional e apenas 25,3% com toxina botulínica intralesional — insulina e corticoide foram estatisticamente superiores à toxina na redução de espessura, pigmentação e alívio de sintomas (Elradi et al., 2025). A meta-análise de Li et al. (2022) reforça esse padrão: comparada ao corticoide, a toxina teve escore de cicatriz (Vancouver) pior, não melhor (diferença padronizada de 0,85, IC 95% 0,27–1,43, p=0,004). Onde a toxina se destaca é em outro desfecho: dor, com escore significativamente menor que o do corticoide (diferença padronizada de -2,57, IC 95% -4,40 a -0,74, p=0,006) (Li et al., 2022), e em maleabilidade da cicatriz, superior à do corticoide isolado (diferença padronizada de 1,99, IC 95% 0,98–3,00) (Zhuang et al., 2021).

Redução percentual do volume da cicatriz — 4 sessões mensais, queloide
Elradi et al., 2025 · RCT, N=63 (21 por grupo) · patient and observer scar assessment scale
Corticoide intralesional
75%
Insulina intralesional
66,6%
Toxina botulínica intralesional
25,3%
Barras proporcionais à redução percentual de volume relatada no estudo. A toxina reduziu o volume de forma estatisticamente significativa frente à linha de base — mas em magnitude menor que insulina e corticoide neste desfecho específico. Em dor e maleabilidade, o resultado se inverte a favor da toxina (ver texto).
Protocolo 2 — intradérmico: microgotas para oleosidade e aspecto do poro

O segundo protocolo não entra na cicatriz: fica a 1–2mm de profundidade, distribuído em microgotas regularmente espaçadas sobre a pele. Num estudo com 25 pacientes tratados na região da testa com toxina botulínica intradérmica, a produção de sebo caiu de forma estatisticamente significativa em 1 semana, 1, 2 e 3 meses após a aplicação (p<0,001), com 91% dos pacientes satisfeitos — relatando entre 50% e 75% de melhora na oleosidade percebida (Rose & Goldberg, 2013). Num estudo separado, com técnica de microbotulinum em grade regular de 1cm cobrindo testa, bochecha e mandíbula, avaliação quantitativa por scanner de pele em 60 pacientes mostrou melhora significativa (p<0,0001) tanto na textura da pele quanto no diâmetro do poro, aos 90 dias de acompanhamento (Diaspro et al., 2020).

Dentro da cicatriz
Protocolo intralesional
Zhang et al., 2016 · meta-análise, 9 RCTs, 539 pacientes
Satisfação vs. controleOR 25,76×
Estreitamento médio da cicatriz-0,41mm
Na pele, superficial
Protocolo intradérmico
Rose & Goldberg, 2013 · Diaspro et al., 2020
Pacientes satisfeitos com a oleosidade91%
Melhora no diâmetro do poro (p<0,0001)significativa

Os dois protocolos medem desfechos diferentes — largura de cicatriz e volume de um lado, sebo e diâmetro de poro do outro. As barras ilustram a magnitude relatada em cada estudo, não comparam a mesma escala nem o mesmo desfecho.

Quanto tempo dura cada efeito

Essa é outra diferença que raramente aparece explicada: o protocolo intradérmico busca um efeito temporário e repetível sobre a glândula, enquanto o intralesional busca uma mudança mais estrutural no próprio tecido da cicatriz. Um ensaio dose-comparativo, com 42 mulheres recebendo 10 ou 20 unidades de toxina na testa, mostrou que a produção de sebo caiu de forma significativa junto ao ponto de injeção — mas retornou ao nível basal em 16 semanas em ambos os grupos, sem diferença relevante entre a dose maior e a menor (Min et al., 2015). Vale um adendo técnico: esse estudo específico usou injeção intramuscular, não a microgota intradérmica — mas confirma, por outra via, que o efeito sobre a glândula sebácea é dose-independente acima de certo ponto e sempre temporário, reforçando por que o protocolo de poro/oleosidade pede retoque periódico. Já para o protocolo intralesional, os dados de recidiva ainda são limitados: uma revisão em rede recente aponta que a toxina “ficou no topo” em resposta ao tratamento, mas não reduziu significativamente o risco de recidiva da cicatriz em comparação a outras terapias intralesionais (Lai et al., 2025) — ou seja, o ganho inicial não garante, sozinho, que a cicatriz não volte a espessar.

“Ficou no topo” não é sinônimo de “não recidiva”

A revisão em rede de Lai et al. (2025), que comparou 24 ensaios de diferentes terapias intralesionais, apontou a toxina botulínica como a que mais respondeu em melhora de escore — mas destacou que a combinação de corticoide com 5-fluorouracil segue oferecendo o melhor equilíbrio entre eficácia e controle de recidiva. São perguntas diferentes: “melhora agora” e “não volta depois” nem sempre têm a mesma resposta.

Um erro muito comum

Achar que “toxina botulínica pra cicatriz” e “toxina botulínica pra poro” são a mesma aplicação — só uma questão de aplicar em outro lugar do rosto ou do corpo.

Os estudos usam profundidade, diluição, espaçamento entre pontos e número de sessões completamente diferentes para cada objetivo: uma agulha dentro da cicatriz, com poucos pontos concentrados, busca relaxar a tração de um tecido já espessado; microgotas de 1–2mm em grade regular sobre a pele saudável buscam modular a glândula sebácea, sem tocar estrutura cicatricial nenhuma. Aplicar o protocolo de um objetivo esperando o resultado do outro é a origem da maior parte das expectativas frustradas com esse tratamento.

O certo: tratar cada protocolo como uma decisão clínica separada — com objetivo, técnica e retorno esperado próprios — definida por quem examina a cicatriz ou a pele, não por “é o mesmo botox”.

O quadro para guardar: dois protocolos, lado a lado
CaracterísticaIntralesional (cicatriz)Intradérmico (poro/oleosidade)
TécnicaAgulha diretamente na cicatriz, poucos pontos concentradosMicrogotas em grade regular, agulha fina (ex.: 32G)
ProfundidadeDentro da lesão — tecido cicatricial espessado1–2mm, derme superficial da pele saudável
Objetivo biológicoReduzir tração mecânica e atividade fibroblásticaReduzir atividade da glândula sebácea e do músculo eretor
Desfecho mais estudadoLargura/volume da cicatrizProdução de sebo e diâmetro do poro
Duração do efeitoBusca mudança estrutural; dado de recidiva ainda limitado~12–16 semanas; efeito temporário, pede retoque
Quem decide protocolo e doseAvaliação individual, por quem realiza o procedimento
O que essa diferença significa na prática

Não significa que um protocolo seja “melhor” que o outro — significa que eles respondem a perguntas diferentes. Para cicatriz hipertrófica e queloide, a toxina intralesional tem evidência real de redução de largura e ganho em dor e maleabilidade, mas ainda perde em magnitude de redução de volume para corticoide e insulina — força de evidência ainda emergente, não consolidada como primeira escolha isolada. Para poro dilatado e oleosidade, a técnica intradérmica tem evidência consistente de redução de sebo e melhora quantitativa no diâmetro do poro, mas o efeito é temporário e pede repetição. Nenhuma das duas é “milagre” — as duas são ferramentas com indicação, técnica e limite próprios.

A Sacada dos DoutoresMesmo frasco, duas perguntas diferentes — e nenhuma delas é bala de prata

O que mais chama atenção nesses dois usos da toxina botulínica não é a semelhança — é a diferença. No queloide e na cicatriz hipertrófica, a lógica de reduzir a tração mecânica é biologicamente coerente e sustentada por meta-análises com centenas de pacientes, mas a própria literatura mostra que, em redução de volume, ela ainda perde para corticoide e insulina; seu papel mais consistente aparece em aliviar dor e devolver maleabilidade ao tecido, o que já é um ganho clínico real, mesmo sem ser a solução isolada. Na pele, o protocolo intradérmico em microgotas tem evidência mais direta de que reduz a oleosidade e o aspecto do poro dilatado — mas é um efeito temporário, que exige retoque e boa técnica de aplicação, não uma correção definitiva. Qual protocolo cabe em qual caso, com qual dose e quantas sessões, é decisão de quem examina a cicatriz ou a pele pessoalmente.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • São dois protocolos, não um: intralesional (dentro da cicatriz) e intradérmico (microgotas na pele) diferem em profundidade, técnica e objetivo biológico.
  • Intralesional tem evidência real em cicatriz hipertrófica: largura de cicatriz menor (WMD -0,41mm, 9 RCTs, 539 pacientes) e satisfação muito maior que o controle (Zhang et al., 2016).
  • Mas perde em volume para corticoide e insulina: 25,3% de redução vs. 75% e 66,6%, respectivamente, no mesmo ensaio (Elradi et al., 2025).
  • Ganha em dor e maleabilidade frente ao corticoide isolado (Li et al., 2022; Zhuang et al., 2021) — o papel mais consolidado da toxina pode ser adjuvante, não isolado.
  • Intradérmico reduz sebo e diâmetro de poro de forma mensurável (91% de satisfação; melhora significativa no poro, p<0,0001) (Rose & Goldberg, 2013; Diaspro et al., 2020).
  • O efeito na pele é temporário — retorna ao basal em cerca de 16 semanas, pedindo retoque (Min et al., 2015).
  • É procedimento injetável: técnica, diluição e número de sessões pedem avaliação individual de quem examina a cicatriz ou a pele — este material informa, não prescreve protocolo.
O próximo passo

Se a sua questão é uma cicatriz hipertrófica ou um queloide, ou se é oleosidade e poro dilatado, o primeiro passo é o mesmo: uma avaliação individual que examine a lesão ou a pele e decida se algum dos dois protocolos se aplica, com qual técnica e quantas sessões. Leve estes números à consulta — eles ajudam a calibrar a expectativa antes de decidir por qualquer um dos dois caminhos.

Referências
  1. Xiao Z, Zhang M. Intralesional botulinum toxin type A injection as a new treatment measure for keloids. Plast Reconstr Surg, 2009;124(5):275e-277e — primeiro relato publicado de toxina botulínica intralesional em queloides.
  2. Zhang DZ, Liu XY, Xiao WL, Xu YX. Botulinum Toxin Type A and the Prevention of Hypertrophic Scars on the Maxillofacial Area and Neck: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. PLoS ONE, 2016;11(3):e0151627 — 9 RCTs, 539 pacientes: largura de cicatriz menor (WMD -0,41mm) e satisfação maior (OR 25,76) vs. controle.
  3. Li MY, et al. Effectiveness of Botulinum Toxin Type A Injection on Scars: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Plast Reconstr Surg, 2022;150(6):1249e-1258e — 21 RCTs: cicatriz mais estreita e menos dor vs. corticoide, porém escore Vancouver pior que o corticoide.
  4. Zhuang Z, Li Y, Wei X. The safety and efficacy of intralesional triamcinolone acetonide for keloids and hypertrophic scars: A systematic review and meta-analysis. Burns, 2021;47(5):987-998 — toxina botulínica com maleabilidade significativamente melhor que triancinolona (SMD 1,99).
  5. Elradi M, et al. Intralesional Insulin Is Superior to Intralesional Botulinum Toxin-A in the Treatment of Keloids. Dermatol Surg, 2025;51(6):593-598 — RCT, N=63: redução de volume de 75% (corticoide), 66,6% (insulina) e 25,3% (toxina botulínica) após 4 sessões mensais.
  6. Rose AE, Goldberg DJ. Safety and Efficacy of Intradermal Injection of Botulinum Toxin for the Treatment of Oily Skin. Dermatol Surg, 2013;39(3):443-448 — N=25: sebo significativamente menor até 3 meses (p<0,001); 91% de satisfação.
  7. Min P, et al. Sebum Production Alteration after Botulinum Toxin Type A Injections for the Treatment of Forehead Rhytides: A Prospective Randomized Double-Blind Dose-Comparative Clinical Investigation. Aesthet Surg J, 2015;35(5):600-610 — N=42: sebo retorna ao basal em 16 semanas, sem diferença entre dose maior e menor.
  8. Diaspro A, et al. Microbotulinum: A Quantitative Evaluation of Aesthetic Skin Improvement in 62 Patients. Plast Reconstr Surg, 2020;146(5):987-994 — N=60: melhora significativa (p<0,0001) em textura e diâmetro do poro aos 90 dias, técnica intradérmica em grade.
  9. Lai IC, Huang GL, Lee KC, Wu PY. Comparative Efficacy and Recurrence Risk of Intralesional Therapies for Hypertrophic Scars and Keloids: A Network Meta-Analysis. Aesthet Surg J, 2025;sjaf182 — 24 RCTs: toxina botulínica com melhor resposta de tratamento, mas sem redução significativa do risco de recidiva vs. outras terapias intralesionais.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é prescrição nem protocolo de aplicação. A toxina botulínica intralesional e intradérmica é um procedimento injetável — ato de profissional habilitado. As doses, diluições e técnicas citadas descrevem o que os estudos usaram, não uma recomendação de uso. A escolha do protocolo, a indicação e o número de sessões dependem de avaliação individual, presencial, da cicatriz ou da pele.