Toxina botulínica intralesional e intradérmica: dois protocolos, um único frasco
É a mesma molécula, saída do mesmo frasco — mas duas técnicas que quase nada têm em comum. Injetada dentro da cicatriz, ela busca relaxar a tração que alimenta o queloide. Injetada em microgotas na pele, ela busca reduzir a oleosidade e o aspecto do poro dilatado. Tratar os dois como “a mesma aplicação” é o erro mais comum sobre esse uso da toxina — e é o que esta apostila desfaz, protocolo por protocolo, com o número de cada estudo.
A toxina botulínica aplicada em cicatriz ou em pele é um procedimento injetável — ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de uso, protocolo de aplicação nem promessa de resultado. As doses, diluições e técnicas citadas aqui descrevem o que os estudos testaram, como informação científica — nunca como orientação para você aplicar ou solicitar uma dose específica. A escolha do protocolo, da diluição e do número de sessões depende de avaliação individual da cicatriz ou da pele, feita por quem vai realizar o procedimento.
Se você já pesquisou “toxina botulínica para cicatriz” ou “botox para poro”, provavelmente encontrou os dois assuntos tratados como se fossem a mesma coisa — só “mais uma aplicação de botox”. Não são.
São dois protocolos com objetivo, profundidade, dose e mecanismo diferentes, que compartilham apenas a molécula de origem. Um entra dentro do tecido cicatricial, na tentativa de reduzir a tensão mecânica que mantém a cicatriz espessada. O outro fica na camada mais superficial da pele, na tentativa de reduzir a atividade das glândulas responsáveis pelo poro oleoso e dilatado. Confundir os dois leva a expectativa errada nos dois sentidos — e é exatamente essa confusão que separamos aqui, com os números de cada linha de evidência.
A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina no ponto onde é injetada — isso é comum aos dois protocolos. O que muda completamente é onde essa liberação é bloqueada. Dentro da cicatriz, o alvo são as fibras musculares e miofibroblastos que geram tração mecânica sobre a ferida em cicatrização; bloquear essa tração é a hipótese central por trás do uso intralesional, descrita pela primeira vez em queloides por Xiao Zhibo & Zhang, 2009, num relato de série de casos com “bons resultados terapêuticos” após injeção direta na lesão. Na pele, o alvo é o músculo eretor do pelo e a inervação que estimula a secreção das glândulas sebáceas — bloquear essa via é o que reduz a produção de sebo na técnica intradérmica em microgotas.
Uma meta-análise de 9 ensaios randomizados controlados, somando 539 pacientes com cicatrizes hipertróficas na região maxilofacial e no pescoço, encontrou largura de cicatriz significativamente menor no grupo tratado com toxina botulínica em comparação ao grupo controle (diferença média ponderada de -0,41mm, IC 95% -0,68 a -0,14, p=0,003), além de satisfação do paciente muito maior (razão de chances de 25,76, IC 95% 2,58–256,67, p=0,006) (Zhang et al., 2016). Uma segunda meta-análise, reunindo 21 RCTs, confirmou cicatrizes mais estreitas com toxina botulínica frente a controle (diferença padronizada de -1,11, IC 95% -1,38 a -0,83, p<0,00001) (Li et al., 2022). É esse conjunto de evidência que sustenta o uso intralesional como estratégia real — não anedótica — para cicatriz hipertrófica.
Os estudos citados aqui incluem cicatrizes hipertróficas de diferentes graus e, em parte deles, queloides — que são um subtipo mais grave e de crescimento além dos limites da ferida original. A resposta ao tratamento intralesional tende a variar com a gravidade, o tempo de existência da cicatriz e a região do corpo; por isso a decisão de tratar, e com qual protocolo, é sempre caso a caso, feita por quem examina a cicatriz.
Uma apostila honesta não escolhe só os números favoráveis. Num ensaio randomizado com 63 pacientes com queloide, divididos em 3 grupos e tratados por 4 sessões mensais, a redução percentual do volume da cicatriz foi de 75% com corticoide intralesional, 66,6% com insulina intralesional e apenas 25,3% com toxina botulínica intralesional — insulina e corticoide foram estatisticamente superiores à toxina na redução de espessura, pigmentação e alívio de sintomas (Elradi et al., 2025). A meta-análise de Li et al. (2022) reforça esse padrão: comparada ao corticoide, a toxina teve escore de cicatriz (Vancouver) pior, não melhor (diferença padronizada de 0,85, IC 95% 0,27–1,43, p=0,004). Onde a toxina se destaca é em outro desfecho: dor, com escore significativamente menor que o do corticoide (diferença padronizada de -2,57, IC 95% -4,40 a -0,74, p=0,006) (Li et al., 2022), e em maleabilidade da cicatriz, superior à do corticoide isolado (diferença padronizada de 1,99, IC 95% 0,98–3,00) (Zhuang et al., 2021).
O segundo protocolo não entra na cicatriz: fica a 1–2mm de profundidade, distribuído em microgotas regularmente espaçadas sobre a pele. Num estudo com 25 pacientes tratados na região da testa com toxina botulínica intradérmica, a produção de sebo caiu de forma estatisticamente significativa em 1 semana, 1, 2 e 3 meses após a aplicação (p<0,001), com 91% dos pacientes satisfeitos — relatando entre 50% e 75% de melhora na oleosidade percebida (Rose & Goldberg, 2013). Num estudo separado, com técnica de microbotulinum em grade regular de 1cm cobrindo testa, bochecha e mandíbula, avaliação quantitativa por scanner de pele em 60 pacientes mostrou melhora significativa (p<0,0001) tanto na textura da pele quanto no diâmetro do poro, aos 90 dias de acompanhamento (Diaspro et al., 2020).
Os dois protocolos medem desfechos diferentes — largura de cicatriz e volume de um lado, sebo e diâmetro de poro do outro. As barras ilustram a magnitude relatada em cada estudo, não comparam a mesma escala nem o mesmo desfecho.
Essa é outra diferença que raramente aparece explicada: o protocolo intradérmico busca um efeito temporário e repetível sobre a glândula, enquanto o intralesional busca uma mudança mais estrutural no próprio tecido da cicatriz. Um ensaio dose-comparativo, com 42 mulheres recebendo 10 ou 20 unidades de toxina na testa, mostrou que a produção de sebo caiu de forma significativa junto ao ponto de injeção — mas retornou ao nível basal em 16 semanas em ambos os grupos, sem diferença relevante entre a dose maior e a menor (Min et al., 2015). Vale um adendo técnico: esse estudo específico usou injeção intramuscular, não a microgota intradérmica — mas confirma, por outra via, que o efeito sobre a glândula sebácea é dose-independente acima de certo ponto e sempre temporário, reforçando por que o protocolo de poro/oleosidade pede retoque periódico. Já para o protocolo intralesional, os dados de recidiva ainda são limitados: uma revisão em rede recente aponta que a toxina “ficou no topo” em resposta ao tratamento, mas não reduziu significativamente o risco de recidiva da cicatriz em comparação a outras terapias intralesionais (Lai et al., 2025) — ou seja, o ganho inicial não garante, sozinho, que a cicatriz não volte a espessar.
A revisão em rede de Lai et al. (2025), que comparou 24 ensaios de diferentes terapias intralesionais, apontou a toxina botulínica como a que mais respondeu em melhora de escore — mas destacou que a combinação de corticoide com 5-fluorouracil segue oferecendo o melhor equilíbrio entre eficácia e controle de recidiva. São perguntas diferentes: “melhora agora” e “não volta depois” nem sempre têm a mesma resposta.
Achar que “toxina botulínica pra cicatriz” e “toxina botulínica pra poro” são a mesma aplicação — só uma questão de aplicar em outro lugar do rosto ou do corpo.
Os estudos usam profundidade, diluição, espaçamento entre pontos e número de sessões completamente diferentes para cada objetivo: uma agulha dentro da cicatriz, com poucos pontos concentrados, busca relaxar a tração de um tecido já espessado; microgotas de 1–2mm em grade regular sobre a pele saudável buscam modular a glândula sebácea, sem tocar estrutura cicatricial nenhuma. Aplicar o protocolo de um objetivo esperando o resultado do outro é a origem da maior parte das expectativas frustradas com esse tratamento.
O certo: tratar cada protocolo como uma decisão clínica separada — com objetivo, técnica e retorno esperado próprios — definida por quem examina a cicatriz ou a pele, não por “é o mesmo botox”.
| Característica | Intralesional (cicatriz) | Intradérmico (poro/oleosidade) |
|---|---|---|
| Técnica | Agulha diretamente na cicatriz, poucos pontos concentrados | Microgotas em grade regular, agulha fina (ex.: 32G) |
| Profundidade | Dentro da lesão — tecido cicatricial espessado | 1–2mm, derme superficial da pele saudável |
| Objetivo biológico | Reduzir tração mecânica e atividade fibroblástica | Reduzir atividade da glândula sebácea e do músculo eretor |
| Desfecho mais estudado | Largura/volume da cicatriz | Produção de sebo e diâmetro do poro |
| Duração do efeito | Busca mudança estrutural; dado de recidiva ainda limitado | ~12–16 semanas; efeito temporário, pede retoque |
| Quem decide protocolo e dose | Avaliação individual, por quem realiza o procedimento | |
Não significa que um protocolo seja “melhor” que o outro — significa que eles respondem a perguntas diferentes. Para cicatriz hipertrófica e queloide, a toxina intralesional tem evidência real de redução de largura e ganho em dor e maleabilidade, mas ainda perde em magnitude de redução de volume para corticoide e insulina — força de evidência ainda emergente, não consolidada como primeira escolha isolada. Para poro dilatado e oleosidade, a técnica intradérmica tem evidência consistente de redução de sebo e melhora quantitativa no diâmetro do poro, mas o efeito é temporário e pede repetição. Nenhuma das duas é “milagre” — as duas são ferramentas com indicação, técnica e limite próprios.
O que mais chama atenção nesses dois usos da toxina botulínica não é a semelhança — é a diferença. No queloide e na cicatriz hipertrófica, a lógica de reduzir a tração mecânica é biologicamente coerente e sustentada por meta-análises com centenas de pacientes, mas a própria literatura mostra que, em redução de volume, ela ainda perde para corticoide e insulina; seu papel mais consistente aparece em aliviar dor e devolver maleabilidade ao tecido, o que já é um ganho clínico real, mesmo sem ser a solução isolada. Na pele, o protocolo intradérmico em microgotas tem evidência mais direta de que reduz a oleosidade e o aspecto do poro dilatado — mas é um efeito temporário, que exige retoque e boa técnica de aplicação, não uma correção definitiva. Qual protocolo cabe em qual caso, com qual dose e quantas sessões, é decisão de quem examina a cicatriz ou a pele pessoalmente.
- São dois protocolos, não um: intralesional (dentro da cicatriz) e intradérmico (microgotas na pele) diferem em profundidade, técnica e objetivo biológico.
- Intralesional tem evidência real em cicatriz hipertrófica: largura de cicatriz menor (WMD -0,41mm, 9 RCTs, 539 pacientes) e satisfação muito maior que o controle (Zhang et al., 2016).
- Mas perde em volume para corticoide e insulina: 25,3% de redução vs. 75% e 66,6%, respectivamente, no mesmo ensaio (Elradi et al., 2025).
- Ganha em dor e maleabilidade frente ao corticoide isolado (Li et al., 2022; Zhuang et al., 2021) — o papel mais consolidado da toxina pode ser adjuvante, não isolado.
- Intradérmico reduz sebo e diâmetro de poro de forma mensurável (91% de satisfação; melhora significativa no poro, p<0,0001) (Rose & Goldberg, 2013; Diaspro et al., 2020).
- O efeito na pele é temporário — retorna ao basal em cerca de 16 semanas, pedindo retoque (Min et al., 2015).
- É procedimento injetável: técnica, diluição e número de sessões pedem avaliação individual de quem examina a cicatriz ou a pele — este material informa, não prescreve protocolo.
Se a sua questão é uma cicatriz hipertrófica ou um queloide, ou se é oleosidade e poro dilatado, o primeiro passo é o mesmo: uma avaliação individual que examine a lesão ou a pele e decida se algum dos dois protocolos se aplica, com qual técnica e quantas sessões. Leve estes números à consulta — eles ajudam a calibrar a expectativa antes de decidir por qualquer um dos dois caminhos.
- Xiao Z, Zhang M. Intralesional botulinum toxin type A injection as a new treatment measure for keloids. Plast Reconstr Surg, 2009;124(5):275e-277e — primeiro relato publicado de toxina botulínica intralesional em queloides.
- Zhang DZ, Liu XY, Xiao WL, Xu YX. Botulinum Toxin Type A and the Prevention of Hypertrophic Scars on the Maxillofacial Area and Neck: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. PLoS ONE, 2016;11(3):e0151627 — 9 RCTs, 539 pacientes: largura de cicatriz menor (WMD -0,41mm) e satisfação maior (OR 25,76) vs. controle.
- Li MY, et al. Effectiveness of Botulinum Toxin Type A Injection on Scars: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Plast Reconstr Surg, 2022;150(6):1249e-1258e — 21 RCTs: cicatriz mais estreita e menos dor vs. corticoide, porém escore Vancouver pior que o corticoide.
- Zhuang Z, Li Y, Wei X. The safety and efficacy of intralesional triamcinolone acetonide for keloids and hypertrophic scars: A systematic review and meta-analysis. Burns, 2021;47(5):987-998 — toxina botulínica com maleabilidade significativamente melhor que triancinolona (SMD 1,99).
- Elradi M, et al. Intralesional Insulin Is Superior to Intralesional Botulinum Toxin-A in the Treatment of Keloids. Dermatol Surg, 2025;51(6):593-598 — RCT, N=63: redução de volume de 75% (corticoide), 66,6% (insulina) e 25,3% (toxina botulínica) após 4 sessões mensais.
- Rose AE, Goldberg DJ. Safety and Efficacy of Intradermal Injection of Botulinum Toxin for the Treatment of Oily Skin. Dermatol Surg, 2013;39(3):443-448 — N=25: sebo significativamente menor até 3 meses (p<0,001); 91% de satisfação.
- Min P, et al. Sebum Production Alteration after Botulinum Toxin Type A Injections for the Treatment of Forehead Rhytides: A Prospective Randomized Double-Blind Dose-Comparative Clinical Investigation. Aesthet Surg J, 2015;35(5):600-610 — N=42: sebo retorna ao basal em 16 semanas, sem diferença entre dose maior e menor.
- Diaspro A, et al. Microbotulinum: A Quantitative Evaluation of Aesthetic Skin Improvement in 62 Patients. Plast Reconstr Surg, 2020;146(5):987-994 — N=60: melhora significativa (p<0,0001) em textura e diâmetro do poro aos 90 dias, técnica intradérmica em grade.
- Lai IC, Huang GL, Lee KC, Wu PY. Comparative Efficacy and Recurrence Risk of Intralesional Therapies for Hypertrophic Scars and Keloids: A Network Meta-Analysis. Aesthet Surg J, 2025;sjaf182 — 24 RCTs: toxina botulínica com melhor resposta de tratamento, mas sem redução significativa do risco de recidiva vs. outras terapias intralesionais.