Apostila 6 · HIFU × rugas entre os seios · Procedimento

Segurança do HIFU no decote: o que os estudos mostram e onde os dados acabam

“Não dói e não corta” não é o mesmo que “não tem nenhum efeito colateral”. Os dois estudos dedicados ao decote e a maior meta-análise sobre HIFU concordam num ponto: o perfil de eventos é, majoritariamente, leve e passageiro — e existe dor, moderada, que faz parte da experiência. O que nenhum dos dois tem é acompanhamento além de 6 meses. Esta apostila mostra os dois lados sem inflar nem escamotear nenhum.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

HIFU (ultrassom microfocado) é um procedimento estético à base de energia — ato de profissional habilitado, nunca um produto de prateleira. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne o que os estudos publicados mediram sobre eventos adversos e tolerabilidade, não é indicação de tratamento e não substitui avaliação presencial. A segurança de qualquer sessão depende diretamente do histórico de saúde de cada pessoa (medicamentos em uso, cicatrização, condições de pele e demais fatores clínicos) e da avaliação individual feita por profissional habilitado antes de qualquer decisão sobre indicar, ajustar ou não realizar o procedimento.

Um argumento comum de venda é “HIFU não tem contraindicação, é só energia”. É uma meia verdade que esconde justamente a parte que interessa: energia entregue na pele gera resposta térmica, e resposta térmica tem efeitos colaterais — a maioria leve, alguns nem tanto, e um recorte específico sobre o qual a ciência do decote simplesmente ainda não tem resposta.

Esta apostila separa três coisas que costumam se misturar: o que a literatura já documentou como perfil de eventos adversos, o quanto dói — porque tolerabilidade também é segurança —, e o que simplesmente não foi estudado ainda nessa área específica, sem transformar essa lacuna em alarme nem em garantia.

O que a maior meta-análise sobre HIFU mostra sobre eventos adversos

A referência mais ampla disponível hoje é a meta-análise de Amiri et al. (2025), que reuniu 42 estudos de HIFU em várias áreas do corpo — rosto, pescoço, decote, braços, abdome — não apenas o decote isoladamente. O achado central sobre eventos adversos é tranquilizador na direção certa: os eventos relatados foram predominantemente leves a moderados — eritema, edema, equimose e sensibilidade — e, na maioria dos casos, transitórios, ou seja, resolvem-se em dias sem intervenção adicional. Não é um procedimento “sem efeito nenhum”; é um procedimento cujo efeito colateral típico é reação de pele passageira, não lesão duradoura.

É importante registrar o que essa meta-análise não é: não é um estudo desenhado especificamente para o decote, e sim uma síntese de estudos de todo o corpo. Isso a torna útil para descrever o tipo de evento que o mecanismo do HIFU costuma gerar de forma geral — mas ela não substitui, e não pode substituir, um dado de segurança específico da área entre os seios.

Os dois estudos do decote: nenhum evento adverso grave relatado

Quando o recorte é só o colo envelhecido, área que interessa a esta série, existem exatamente dois estudos: o piloto de centro único de Fabi et al. (2013), com 24 mulheres, e o multicêntrico confirmatório de Fabi et al. (2015), com cerca de 116 participantes em vários centros. Em nenhum dos dois os autores relataram eventos adversos graves. É um dado real, e é bom — mas também é um dado com um tamanho de amostra que precisa ser dito em voz alta: um evento raro que ocorresse, por hipótese, em 1 a cada 300 procedimentos simplesmente não teria chance estatística de aparecer numa soma de ~140 participantes. Ausência de evento grave numa amostra pequena não é o mesmo que “evento grave não acontece” — é “evento grave não apareceu nesta amostra”, e a diferença entre essas duas frases é o que esta apostila existe para deixar claro.

Perfil relativo dos eventos adversos leves a moderados
Amiri et al., 2025 (meta-análise de 42 estudos) — frequência relativa entre os próprios eventos, não incidência absoluta em número de pacientes
Eritema
Mais frequente
Edema
Frequente
Sensibilidade / dor local
Comum
Equimose
Menos frequente
Ilustrativo — heterogêneo entre estudos. As barras representam a ordem relativa em que esses eventos aparecem descritos na literatura reunida por Amiri et al. (2025), não uma percentagem medida de pacientes afetados; os estudos incluídos usam critérios e escalas diferentes para registrar cada evento.
A dor faz parte do perfil de segurança — não é um detalhe à parte

Um ponto que o marketing tende a omitir: o HIFU dói, e não é pouco. Na meta-análise de Amiri et al. (2025), a dor relatada durante o procedimento teve mediana de 4,85 em uma escala de 0 a 10 — classificada pelos próprios autores como moderada. Isso não é um evento adverso no sentido clássico (não é uma complicação), mas é parte do perfil de tolerabilidade que qualquer avaliação honesta de segurança precisa incluir, não esconder atrás da palavra “não invasivo”. Um procedimento pode ser de baixo risco de complicação e, ainda assim, desconfortável o suficiente para exigir anestésico tópico ou outra forma de controle da dor — essa é uma conversa que cabe à avaliação individual com o profissional, não a uma promessa genérica de conforto.

O que não existe: dado de segurança além de 180 dias no decote

Nem o piloto de Fabi et al. (2013), nem o multicêntrico de Fabi et al. (2015) acompanharam as participantes por mais de 180 dias (6 meses). Isso significa que, especificamente para a área entre os seios, não existe hoje um dado de segurança dedicado de longo prazo — nenhum estudo dessa área voltou a examinar as pacientes 1 ano, 2 anos ou mais depois para checar se algo tardio apareceu.

Isso não quer dizer que o HIFU seja inseguro no longo prazo no decote. Também não quer dizer que seja seguro no longo prazo. Quer dizer, com precisão, que essa pergunta específica ainda não foi feita por um estudo dedicado a essa área — é uma lacuna de dado, não uma conclusão de risco em nenhuma das duas direções. Tratar silêncio de dado como “prova de segurança” e tratar o mesmo silêncio como “prova de perigo” são os dois erros simétricos que esta apostila evita cometer.

EstudoParticipantesSeguimento máximoEvento adverso grave relatado
Fabi et al., 2013 (piloto)24 mulheres, 1 centro180 diasNenhum relatado
Fabi et al., 2015 (multicêntrico)~116 participantes, vários centros180 diasNenhum relatado
Amiri et al., 2025 (meta-análise)42 estudos, todas as áreas do corpo (não só decote)Variável entre estudos incluídosPredominantemente leves/moderados — eritema, edema, equimose, sensibilidade
Nenhum dos três acompanhou eventos além de 180 dias no decote especificamente
Um erro muito comum

Confundir “os estudos não relataram evento grave” com “está garantidamente seguro no longo prazo”.

São afirmações diferentes, e a segunda não decorre da primeira. “Não relatado” descreve o que aconteceu numa amostra específica (24 e ~116 pacientes), por um tempo específico (até 180 dias). “Garantidamente seguro no longo prazo” seria uma afirmação sobre um período (além de 6 meses) que nenhum desses estudos observou. Pular de uma frase para a outra é o mesmo erro lógico de dizer “ninguém me contou que ia chover, logo não vai chover” — a ausência de aviso não é a mesma coisa que a garantia do contrário.

O certo: tratar o perfil de segurança de curto prazo (até 180 dias) como bem descrito e, majoritariamente, favorável — e tratar o longo prazo, nessa área específica, como uma pergunta em aberto, a ser levada à avaliação individual, não como um “sim” ou “não” decidido de antemão.

A Sacada dos DoutoresAusência de dado não é evidência de ausência de risco — nem evidência de risco

Se eu tivesse que resumir a segurança do HIFU no decote numa frase, seria esta: o que já foi medido é, na maior parte, favorável — eventos leves e passageiros, dor moderada e honestamente reconhecida como tal, e nenhum evento grave nos dois estudos dedicados à área. O que não foi medido é o longo prazo, e essa é uma lacuna que existe porque nenhum estudo de decote específico acompanhou além de 180 dias — não porque algo tenha sido escondido, e não porque haja um sinal de alerta silenciado. É a diferença entre “não sei” e “sei que não” — e um bom material educativo tem a obrigação de dizer qual das duas frases é a verdadeira em cada ponto. Quem decide se o perfil de segurança conhecido, e a lacuna de longo prazo reconhecida, são compatíveis com o histórico de saúde de cada pessoa é sempre o profissional habilitado, na avaliação individual.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Na maior meta-análise de HIFU (42 estudos, todas as áreas), os eventos adversos foram predominantemente leves a moderados — eritema, edema, equimose, sensibilidade — e majoritariamente transitórios (Amiri et al., 2025).
  • Nos dois estudos dedicados ao decote, nenhum evento adverso grave foi relatado — 24 mulheres no piloto (Fabi, 2013) e ~116 no multicêntrico (Fabi, 2015).
  • A dor faz parte do perfil de segurança: mediana de 4,85/10 — moderada, não desprezível (Amiri et al., 2025).
  • Nenhum estudo de decote acompanhou além de 180 dias — não existe dado de segurança de longo prazo dedicado a essa área.
  • Ausência de dado ≠ ausência de risco, e ≠ presença de risco: as duas leituras são erros simétricos que esta apostila evita.
  • Amostra pequena (~140 participantes somadas) tem limite estatístico — não é grande o bastante para descartar eventos raros, só para descrever o que apareceu nela.
  • A avaliação do histórico de saúde individual é o que efetivamente calibra o risco de cada pessoa — não uma média de estudo.
O próximo passo

Com o perfil de segurança nas mãos — o que foi medido, o que dói, e onde o dado acaba — a pergunta natural é sobre o discurso ao redor do HIFU: o que é achado de estudo e o que é frase de marketing sem lastro? A próxima apostila desta série confronta promessas comuns com a magnitude real medida nos estudos do decote. Se você ainda não leu, a apostila 5 traz o que a literatura mostra sobre combinar HIFU com bioestimuladores e preenchimento no decote. Leve este entendimento de segurança à avaliação individual com um profissional habilitado — é ele quem examina o seu histórico de saúde e decide, caso a caso, sobre o procedimento.

Referências
  1. Fabi SG, Massaki A, Eimpunth S, Pogoda J, Goldman MP. Evaluation of microfocused ultrasound with visualization for lifting, tightening, and wrinkle reduction of the décolletage. J Am Acad Dermatol, 2013;69(6):965-971. PMID 24054759 — estudo-piloto, 1 centro, 24 mulheres; nenhum evento adverso grave relatado; seguimento até 180 dias.
  2. Fabi SG, Goldman MP, Dayan SH, Gold MH, Kilmer SL, Hornfeldt CS. A Prospective Multicenter Pilot Study of the Safety and Efficacy of Microfocused Ultrasound With Visualization for Improving Lines and Wrinkles of the Décolleté. Dermatol Surg, 2015;41(3):327-335. PMID 25705947 — confirmação multicêntrica; nenhum evento adverso grave relatado; seguimento até 180 dias.
  3. Amiri M, Ajasllari G, Llane A, et al. Microfocused Ultrasound With Visualization (MFU-V) Effectiveness and Safety: A Systematic Review and Meta-Analysis. Aesthetic Surg J, 2025;45(3):NP86-NP94. PMID 39540440 — texto completo livre em PMC11834976; meta-análise de 42 estudos (todas as áreas do corpo); eventos adversos predominantemente leves a moderados (eritema, edema, equimose); dor com mediana de 4,85/10.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de tratamento. HIFU (ultrassom microfocado) é procedimento estético à base de energia, realizado por profissional habilitado após avaliação individual da anatomia, do histórico de saúde e das expectativas de cada pessoa. Os dados citados descrevem eventos adversos e tolerabilidade documentados na literatura científica publicada sobre a área do decote e sobre o HIFU em geral — não uma promessa de ausência de risco nem uma conclusão sobre segurança de longo prazo, que a literatura desta área específica ainda não estabeleceu.