Apostila avulsa · Comparativo · Cicatrizes de acne

Qual o melhor tratamento para Box Car — bordas retas, mais rasas?

Comparando os 5 tratamentos do núcleo: Laser CO2 fracionado, Peeling de Fenol Atenuado, Laser Ablativo (Er:YAG), Radiofrequência Microagulhada e Preenchimento com Ácido Hialurônico. Não existe “o melhor” isolado — existe o melhor para aquela cicatriz, naquele fototipo, com aquele downtime disponível. Vamos separar o que cada estudo mediu do que o marketing promete.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Este material é exclusivamente educativo e informativo — NÃO é indicação de uso, prescrição nem protocolo pronto para você aplicar em si mesmo. Os cinco procedimentos comparados aqui (Laser CO2, Peeling de Fenol Atenuado, Laser Ablativo, Radiofrequência Microagulhada e Preenchimento com Ácido Hialurônico) são atos de estética avançada realizados por profissional habilitado, dentro de sua área de atuação, após avaliação individual presencial da pele, do fototipo e da profundidade real da cicatriz. Concentrações, energias e números de sessão citados descrevem o que os estudos usaram — nunca uma recomendação de autoaplicação. Quem define a técnica, a profundidade de ataque e o protocolo para o seu caso é o profissional que examina você.

Box car é a cicatriz de bordas retas e bem definidas, como uma cratera de vulcão com paredes verticais — mais rasa que a ice pick (que é funda e estreita, “em furo de agulha”) e sem o fundo arredondado da rolling (que ondula a pele). Essa geometria específica muda a resposta a cada tecnologia: uma parede vertical reta reage diferente de um funil estreito ou de uma onda suave.

Existem cinco caminhos com evidência publicada para esse tipo de cicatriz, e cada um tem um estudo mostrando onde ele ganha — não existe um “campeão” único. Esta apostila organiza o que cada tratamento mediu especificamente (ou o mais perto disso que a literatura permite), para que a decisão final seja feita com dado, na consulta.

Laser CO2 fracionado — o mais estudado, mas não o campeão isolado em box car

O laser de CO2 fracionado é a tecnologia com mais volume de publicação em cicatriz de acne. Um estudo retrospectivo com 413 pacientes comparou o CO2 fracionado isolado contra o CO2 combinado com subcisão nos três subtipos de cicatriz atrófica: nas cicatrizes box car, o grupo combinado teve escore ECCA (índice de gravidade cicatricial) significativamente menor que o CO2 isolado (p = 0,041) — ou seja, sozinho o CO2 fracionado já ajuda, mas em box car ele rende mais quando soma a subcisão para romper a aderência da base (Li et al., 2023). Uma meta-análise de 8 estudos, por outro lado, encontrou que o CO2 fracionado não teve diferença estatística de eficácia frente a lasers não-CO2 na avaliação geral de cicatrizes (p = 0,19 pelo avaliador, p = 0,91 pelo paciente) — um dado que calibra a expectativa: “mais estudado” não é sinônimo de “comprovadamente superior” (Zhang et al., 2021).

Peeling de Fenol Atenuado — profundidade química para box car mais estabelecido

O peeling profundo com fenol ataca a derme por via química, não térmica, e é historicamente indicado para cicatrizes com paredes mais rígidas e fibrosadas — o perfil típico de uma box car já estabelecida. No único ensaio clínico randomizado que localizamos comparando essa abordagem cara a cara com outra técnica, 24 pacientes com cicatrizes atróficas pós-acne foram divididos entre uma sessão de peeling profundo de fenol e quatro sessões de indução percutânea de colágeno associada a TCA 20%: o escore de gravidade da cicatriz melhorou em média 75,12% no grupo do fenol contra 69,43% no grupo comparador, ambos estatisticamente significativos (p < 0,001) (Leheta et al., 2014). É um resultado forte, mas vem de uma amostra pequena (12 por braço) — a base de evidência ainda é mais estreita que a do laser CO2.

Peeling de fenol pede monitoramento clínico

O fenol tem absorção sistêmica documentada na literatura e, em áreas extensas, exige protocolo de aplicação segmentada, hidratação e monitoramento cardíaco — é uma técnica de maior complexidade que um peeling superficial de ácido glicólico. Isso não invalida o procedimento; reforça por que a decisão de “quanta área tratar de uma vez” é clínica, feita por quem examina o paciente, e não uma escolha estética isolada.

Laser Ablativo (Er:YAG) — ganha em box car rasa, perde força na profunda sem ajuste

O laser ablativo de Érbio:YAG remove a camada superficial com menos calor residual que o CO2, o que historicamente significa recuperação mais curta. Um estudo comparando três modos do aparelho (pulso curto, pulso variável e modo duplo) em 158 pacientes mostrou que cicatrizes box car rasas respondem bem a qualquer um dos três modos (“bom a excelente”), mas box car profundas só alcançaram resultado consistentemente bom com o modo duplo, que soma um componente térmico de coagulação ao corte ablativo — no pulso curto isolado, o resultado em box car profunda caiu para “razoável a bom” (Woo et al., 2004). O recado é direto: para box car rasa, o Er:YAG entrega; para a profunda, o parâmetro do aparelho precisa ser escalonado, não é “um ajuste só” para todo o espectro da lesão.

Downtime médio comparado entre os 5 tratamentos
Ilustrativo — ordena a tendência relatada nos estudos, não mede um valor fixo por paciente; downtime real varia com energia/profundidade usada, área tratada e cicatrização individual.
Peeling de Fenol Atenuado
7–14 dias
Laser CO2 fracionado
5–7 dias
Laser Ablativo (Er:YAG)
3–5 dias
Radiofrequência Microagulhada
1–2 dias
Preenchimento com AH
0–2 dias
Faixas aproximadas com base nos protocolos descritos nos estudos citados nesta apostila; downtime individual deve ser confirmado na consulta, conforme energia e extensão da área tratada.
Radiofrequência Microagulhada — o dado que mais mencionou box car nominalmente

A radiofrequência microagulhada (fractional microneedling radiofrequency, FMR) combina o microtrauma da agulha com energia térmica liberada na profundidade da derme, sem passar pela epiderme — por isso o downtime costuma ser mais curto que o dos lasers ablativos. Num ensaio randomizado split-face com 20 pacientes, comparando FMR contra radiofrequência bipolar de superfície, os autores relataram explicitamente que a FMR foi mais eficaz para cicatriz de acne, especialmente nos subtipos icepick e box car, frente à radiofrequência bipolar (Min et al., 2015). É a citação mais direta ao subtipo box car entre os cinco tratamentos, embora o artigo não tenha detalhado o percentual de melhora exclusivo desse subtipo no resumo disponível — uma limitação que vale registrar.

Preenchimento com Ácido Hialurônico — resultado imediato, evidência mais indireta para box car especificamente

O preenchimento devolve volume à base da cicatriz por via mecânica — faz mais sentido físico numa cratera de paredes retas (box car) do que numa cicatriz em funil estreito (ice pick), onde a agulha tem menos “poço” para preencher. Dois ensaios com o mesmo desenho split-face testaram um gel de ácido hialurônico (VYC-17,5L) contra solução salina em cicatrizes atróficas faciais: aos 90 dias, o lado tratado teve redução de 6,6 pontos na escala de gravidade contra 1,7 ponto do lado salina (p = 0,008), com 93% dos pacientes preferindo o lado ativo (Siperstein et al., 2022). No seguimento de 2 anos do mesmo grupo de pacientes, a redução de gravidade se manteve em -7,2 pontos frente ao início (p = 0,00009), sem efeitos colaterais tardios (Siperstein et al., 2024). O ponto de honestidade aqui: os dois estudos descrevem cicatrizes atróficas faciais de forma mais ampla (com destaque para o subtipo rolling), sem estratificar o resultado exclusivamente por box car — a lógica mecânica favorece o preenchimento em box car, mas o dado quantitativo específico desse subtipo ainda é mais indireto que o da radiofrequência microagulhada ou do laser CO2 combinado com subcisão.

O que pesa na escolha, além do “qual funciona”
Fatores que mudam a resposta e o risco de cada tecnologia nesse subtipo de cicatriz
Profundidade e númerobox car rasa × profunda; cicatriz única × múltiplas, área extensa
Fototipo e risco de PIHlasers e peelings profundos elevam risco de hiperpigmentação pós-inflamatória em pele mais pigmentada
Downtime aceitável e custodo preenchimento (quase zero) ao peeling de fenol (até 2 semanas)
Por que isso importa: os cinco tratamentos citados nesta apostila testaram populações e protocolos diferentes entre si — nenhum ensaio comparou os cinco lado a lado na mesma cicatriz. A escolha real cruza esses três fatores com o que a evidência mostrou para cada tecnologia.
O quadro para guardar
TratamentoProfundidade idealDowntimeNº de sessõesForça da evidência p/ box car
Laser CO2 fracionadoModerada a profunda (melhor com subcisão associada)5–7 dias3–5B — retrospectivo grande (n=413) + meta-análise
Peeling de Fenol AtenuadoModerada a profunda, cicatriz fibrosada7–14 dias1 sessão profunda (ou seriado superficial)B/C — 1 RCT pequeno (n=24)
Laser Ablativo (Er:YAG)Rasa (qualquer modo); profunda só com modo térmico/duplo3–5 dias1–4C — estudo observacional grande, sem grupo controle
Radiofrequência MicroagulhadaRasa a moderada1–2 dias3–4B — RCT split-face (n=20), cita box car nominalmente
Preenchimento com Ácido HialurônicoRasa a moderada (paredes retas favorecem o preenchimento)0–2 dias1 sessão (repique conforme reabsorção)B geral / C específico para box car — 2 RCTs (n=15), sem estratificação por subtipo
Um erro muito comum

Escolher um único tratamento para o rosto inteiro quando a maioria dos pacientes reais tem cicatrizes mistas — box car ao lado de ice pick e rolling na mesma área.

Isso acontece com frequência: um paciente que trata só com preenchimento pode ver a box car melhorar e a ice pick ao lado continuar intocada (o preenchimento tem pouco “poço” físico para agir numa cicatriz estreita e funda); um paciente que trata só com laser ablativo em modo raso pode ver a box car profunda responder pouco, exatamente como descreveu o estudo de Woo et al. (2004) para o modo de pulso curto isolado.

O certo: mapear cada cicatriz individualmente na avaliação (tipo, profundidade, aderência de base) e combinar ou escalonar tecnologias por subtipo — não tratar “a acne inteira” com uma tecnologia única esperando resultado uniforme.

A Sacada dos DoutoresNão existe vencedor absoluto — existe escalonamento por caso

Os cinco tratamentos comparados aqui não competem pelo mesmo prêmio: cada um tem um cenário onde a evidência publicada o favorece. Box car rasa e superficial responde bem a radiofrequência microagulhada ou Er:YAG em modo simples, com downtime curto. Box car moderada a profunda, principalmente com mais de uma cicatriz próxima e base aderida, ganha mais quando o laser CO2 soma subcisão — foi exatamente essa combinação que superou o CO2 isolado no estudo de maior amostra desta apostila. O peeling de fenol tem lugar em cicatrizes mais fibrosadas e extensas, mas pede estrutura clínica para monitorar a absorção sistêmica. E o preenchimento com ácido hialurônico é a opção de resultado mais imediato e menor downtime, especialmente útil quando o fototipo eleva o risco de hiperpigmentação pós-inflamatória com laser ou peeling profundo — mesmo que a evidência específica para box car ainda seja mais indireta que a dos outros quatro. Quem decide qual caminho — ou qual combinação — cabe ao caso é sempre o profissional que examina a cicatriz de perto.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Laser CO2 fracionado: em box car, rende mais combinado com subcisão que sozinho (ECCA menor, p=0,041, n=413) (Li et al., 2023).
  • Peeling de Fenol Atenuado: melhora de 75,12% em cicatriz atrófica num RCT pequeno (n=24) — forte, mas amostra limitada e exige monitoramento clínico pela absorção sistêmica do fenol (Leheta et al., 2014).
  • Laser Ablativo (Er:YAG): excelente em box car rasa em qualquer modo; em box car profunda, só o modo com componente térmico manteve resultado bom (Woo et al., 2004).
  • Radiofrequência Microagulhada: foi o único tratamento com menção nominal direta a “mais eficaz em box car” num RCT split-face (n=20) (Min et al., 2015).
  • Preenchimento com Ácido Hialurônico: resultado sustentado por 2 anos em cicatriz atrófica (p=0,00009), mas sem estratificação específica por box car nos ensaios disponíveis (Siperstein et al., 2022; 2024).
  • Downtime varia de quase zero (preenchimento) a até 2 semanas (peeling de fenol) — é um dos critérios de decisão, não só a eficácia isolada.
  • Nenhum dos cinco venceu “no geral”: a escolha certa depende da profundidade da cicatriz, do fototipo e de quantas cicatrizes de quais subtipos coexistem — avaliação individual decide.
O próximo passo

Cicatriz de acne raramente é “só box car” — o mapeamento completo (tipo, profundidade, número e área) é o que define se o caso pede um tratamento único, uma combinação ou um escalonamento em etapas. Leve estes dados à avaliação individual: é lá que a técnica, a energia e o número de sessões se ajustam ao seu rosto especificamente.

Referências
  1. Li X, Fan H, Wang Y, et al. Fractional carbon dioxide laser combined with subcision for the treatment of three subtypes of atrophic acne scars: a retrospective analysis. Lasers Med Sci, 2023;38:195 — em box car, CO2 + subcisão teve ECCA menor que CO2 isolado (p=0,041; n=413).
  2. Zhang DD, Zhao WY, Fang QQ, et al. The efficacy of fractional CO2 laser in acne scar treatment: A meta-analysis. Dermatol Ther, 2021;34(1):e14539 — sem diferença estatística entre CO2 fracionado e lasers não-CO2 (8 estudos).
  3. Leheta TM, Abdel Hay RM, El Garem YF. Deep peeling using phenol versus percutaneous collagen induction combined with trichloroacetic acid 20% in atrophic post-acne scars; a randomized controlled trial. J Dermatolog Treat, 2014;25(2):130-6 — melhora de 75,12% (fenol) vs 69,43% (PCI+TCA), p<0,001, n=24.
  4. Woo SH, Park JH, Kye YC. Resurfacing of different types of facial acne scar with short-pulsed, variable-pulsed, and dual-mode Er:YAG laser. Dermatol Surg, 2004;30(4 Pt 1):488-93 — box car rasa responde bem a qualquer modo; box car profunda só com modo térmico/duplo (n=158).
  5. Min S, Park SY, Yoon JY, Suh DH. Comparison of fractional microneedling radiofrequency and bipolar radiofrequency on acne and acne scar and investigation of mechanism: comparative randomized controlled clinical trial. Arch Dermatol Res, 2015;307(10):897-904 — FMR mais eficaz especialmente em icepick e box car vs radiofrequência bipolar (RCT split-face, n=20).
  6. Siperstein R, Nestor E, Meran S, Grunebaum L. A split-face, blind, randomized placebo-controlled clinical trial investigating the efficacy and safety of hyaluronic acid filler for the correction of atrophic facial scars. J Cosmet Dermatol, 2022;21(9):3768-3778 — redução de 6,6 pontos (AH) vs 1,7 (salina) na gravidade cicatricial aos 90 dias (p=0,008), n=15.
  7. Siperstein R, Nestor E, Meran S. Prospective Clinical Trial Demonstrating the Efficacy of Hyaluronic Acid Filler for the Improvement of Atrophic Facial Scars up to 2 years. Dermatol Surg, 2024;50(12):1143-1148 — melhora sustentada por 2 anos, redução de gravidade -7,2 pontos (p=0,00009), n=12 completaram.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é prescrição nem indicação de tratamento à distância. Laser CO2, Peeling de Fenol Atenuado, Laser Ablativo, Radiofrequência Microagulhada e Preenchimento com Ácido Hialurônico são procedimentos de estética avançada realizados por profissional habilitado, após avaliação individual presencial. Energias, concentrações e números de sessão citados descrevem o que os estudos usaram, não uma recomendação de autoaplicação. Não inicie nenhum procedimento por conta própria — procure avaliação profissional.