O material com o estudo mais forte para cicatriz de acne não é o ácido hialurônico
O maior e mais rigoroso ensaio clínico randomizado já publicado para cicatriz rolling não testou ácido hialurônico. Testou PMMA-colágeno, multicêntrico, duplo-cego, 147 pacientes — dez vezes o tamanho do melhor RCT de AH puro. Esta é a oitava de nove apostilas desta série, o capítulo mais anti-óbvio de todos, e ela existe para comparar dois corpos de evidência publicados separadamente com o mesmo rigor.
Preenchimento em cicatriz de acne — seja com ácido hialurônico ou com PMMA-colágeno — é PROCEDIMENTO ESTÉTICO INJETÁVEL, ato biomédico, sempre realizado por profissional habilitado. O PMMA-colágeno (nome comercial Bellafill, anteriormente Artefill) é outro produto e outro procedimento, com composição, mecanismo de permanência e perfil de risco diferentes do ácido hialurônico — não é uma variação do mesmo material “em versão mais forte”. Esta apostila relata o que os estudos publicados sobre cada um mostraram, com neutralidade científica: não promove nem desqualifica nenhum dos dois. Qual material é indicado, se algum, depende de avaliação individual presencial, que examina a cicatriz, o histórico e o que a pessoa valoriza entre reversibilidade e durabilidade.
As sete apostilas anteriores desta série mostraram o mecanismo do rolling, a evidência de eficácia do ácido hialurônico, o protocolo, os critérios de seleção, as combinações, a segurança e os exageros de marketing mais comuns. Em nenhum momento até aqui apareceu uma pergunta que muda o quadro inteiro: existe um material testado nesta mesma indicação, com um ensaio clínico maior, mais rigoroso e mais replicado do que qualquer estudo de AH puro — e ele não é o ácido hialurônico.
Esse material é o PMMA-colágeno (polimetilmetacrilato suspenso em colágeno bovino, base do produto registrado nos EUA como Bellafill/Artefill). Este capítulo existe para colocar os dois corpos de evidência lado a lado, com os números reais de cada um — sem transformar isso em “o AH não presta” nem em “os dois têm evidência igual”. Nenhuma das duas frases é verdadeira, e este é o único capítulo da série dedicado inteiramente a essa comparação.
Karnik et al. (2014, J Am Acad Dermatol 71(1):77-83) é o ensaio clínico pivotal de PMMA-colágeno para cicatriz atrófica de acne — o mesmo estudo que serviu de base para o registro de aprovação do produto pela FDA nessa indicação. O desenho é o mais robusto localizado nesta série inteira, para qualquer material: multicêntrico, duplo-cego, com 147 participantes. O critério de inclusão exigia pelo menos 4 cicatrizes rolling atróficas moderadas a graves por paciente — o mesmo subtipo de cicatriz que esta série trata do início ao fim. Os pacientes receberam PMMA-colágeno ou solução salina (controle), em até 2 sessões de aplicação, com avaliação por escala validada de gravidade de cicatriz e seguimento de 6 meses.
O resultado: 64% de sucesso no grupo PMMA-colágeno contra 33% no grupo controle (p=0,0005) — uma diferença estatisticamente robusta, num ensaio grande o bastante para detectá-la com segurança. Karnik e colaboradores também relataram ausência de diferença de eficácia ou segurança por sexo, fototipo mais escuro de pele ou idade avançada, e um perfil de segurança descrito como “excelente”, com eventos adversos leves e reversíveis (não confundir com reversibilidade do próprio material, tratada mais adiante).
Para ser justo com o AH, é preciso dizer isto primeiro: existe sim um ensaio clínico randomizado controlado por placebo testando ácido hialurônico isolado em cicatriz atrófica — a suposição de que “AH não tem RCT nenhum” nesta indicação é falsa. O estudo é Siperstein et al. (2022, Journal of Cosmetic Dermatology): desenho split-face, cego, controlado por solução salina, com VYC-17.5L (marca comercial Vollure, tecnologia VYCROSS) aplicado em 2 sessões (dia 0 e dia 30). O desfecho primário, medido pela escala QGSGS (Quantitative Global Scarring Grading System), mostrou redução de -6,6 no lado tratado com AH contra -1,7 no lado com salina (p=0,0008) aos 90 dias — 93% dos participantes preferiram o lado ativo, e 71% relataram melhora “muita ou muitíssima” na escala GAIS avaliada por eles mesmos.
É um RCT de verdade, com desfecho estatisticamente significativo. Mas o tamanho conta a história que falta: N=15 pacientes (30 bochechas), sendo que 14 completaram o desfecho primário — cerca de dez vezes menor do que os 147 pacientes de Karnik 2014. O estudo foi conduzido em centro único (não multicêntrico) e financiado pela Allergan, a fabricante do próprio produto testado. Nenhum desses três fatos — N pequeno, centro único, financiamento do fabricante — invalida o resultado. Mas nenhum RCT posterior, maior ou multicêntrico, replicou esse achado com uma amostra do porte da de Karnik 2014.
As barras ilustram a ordem de grandeza de cada métrica lado a lado (amostra, rigor de desenho, força estatística do resultado) — não uma comparação estatística direta entre os dois estudos, que usaram escalas e populações diferentes. Os dois resultados (p=0,0005 e p=0,0008) são, cada um dentro do seu próprio desenho, estatisticamente sólidos.
A revisão sistemática de Albargawi (2025, Journal of Cosmetic Dermatology), a mesma já citada nas apostilas 04 e 06 desta série, reuniu 26 estudos e 1.121 participantes sobre preenchedores em cicatriz de acne — e tabulou os dois corpos de evidência separadamente. O resultado é o dado mais anti-óbvio de toda esta série: em número de estudos, o AH aparece mais vezes (14 estudos) do que o PMMA-colágeno (5 estudos). Mas o número de participantes conta uma história diferente da simples contagem de estudos.
| Métrica (Albargawi, 2025) | Ácido hialurônico | PMMA-colágeno |
|---|---|---|
| Estudos incluídos na revisão | 14 | 5 |
| Participantes totais | 372 | 305 |
| Maior RCT isolado localizado | Siperstein 2022 — N=15, centro único | Karnik 2014 — N=147, multicêntrico, duplo-cego |
| Peso do maior RCT no total do material | ~4% dos 372 participantes de AH | ~48% dos 305 participantes de PMMA — quase metade |
| Padrão do corpo de evidência | fragmentado em muitos estudos pequenos (séries de casos, RCTs pequenos) | concentrado em 1 RCT grande, com extensão de 12 meses da mesma coorte |
Em outras palavras: o AH tem mais estudos, mas cada um contribui com poucos pacientes — o corpo de evidência é largo e raso. O PMMA-colágeno tem menos estudos, mas quase metade de todos os pacientes de PMMA já estudados nesta indicação vêm de um único ensaio grande, multicêntrico e duplo-cego. É essa concentração num RCT robusto — não o número de estudos — que faz da evidência de PMMA-colágeno a mais forte do campo inteiro para cicatriz rolling de acne.
Almukhadeb e colaboradores (2023, Annals of Dermatology) descrevem o mecanismo que ajuda a explicar por que os dois materiais não são “a mesma coisa, um mais testado que o outro”: o PMMA-colágeno estimula a substituição do colágeno bovino carreador por colágeno autólogo (produzido pelo próprio corpo do paciente) ao longo do tempo. Esse processo de bioestimulação é um mecanismo biológico adicional, que soma-se — e não substitui — ao efeito mecânico de preenchimento de volume que o ácido hialurônico também produz.
É esse racional biológico, e não apenas “mais produto injetado”, que sustenta por que o PMMA-colágeno tem resultado descrito como permanente: as microesferas de PMMA permanecem no tecido de forma definitiva, encapsuladas por colágeno que o próprio organismo passou a produzir ao redor delas. O AH, por sua natureza físico-química, é gradualmente degradado por hialuronidase endógena — daí a janela de 6 a 18 meses descrita nas mesmas revisões (Albargawi 2025; Almukhadeb 2023), já detalhada na apostila 06 desta série.
Permanente, sem reversibilidade química
PMMA-colágenoMais de 3 anos de duração documentada, sustentado por bioestimulação de colágeno autólogo. Mas não existe uma enzima equivalente à hialuronidase para desfazer o material quimicamente: um nódulo tardio ou um resultado indesejado exige acompanhamento clínico prolongado, corticoide ou remoção cirúrgica — nunca uma reversão em minutos.
Temporário, reversível com hialuronidase
Ácido hialurônicoDura de 6 a 18 meses e pode ser desfeito quimicamente se necessário — uma margem de correção real que o PMMA-colágeno não tem. O custo dessa reversibilidade é a própria duração: o efeito se dissolve com o tempo e pede reaplicação para se manter, algo que o RCT mais robusto de AH (Siperstein) só sustentou com retoque opcional pelo caminho.
Os dois cartões acima descrevem uma troca (trade-off), não um ranking: nenhum dos dois materiais é objetivamente “melhor” nesta dimensão — cada um resolve um problema diferente (durabilidade sem manutenção vs. correção sem cirurgia).
Juntando os quatro blocos anteriores, a conclusão que esta apostila sustenta não é nenhuma das duas frases fáceis que o marketing costuma usar. Não é “o ácido hialurônico não tem evidência” — tem: existe um RCT controlado por placebo real (Siperstein 2022), com resultado estatisticamente significativo. E não é “os dois materiais têm evidência equivalente” — não têm: o corpo de evidência de PMMA-colágeno é concentrado num RCT multicêntrico duplo-cego de 147 pacientes, com extensão de 12 meses da mesma coorte; o corpo de evidência de AH puro é real, mas modesto e fragmentado, sem nenhum estudo posterior que tenha replicado o achado de Siperstein 2022 numa escala comparável.
A frase honesta é mais específica que as duas anteriores: o ácido hialurônico tem evidência real, mas modesta e pouco replicada; o PMMA-colágeno tem a evidência mais robusta de todo o campo de preenchimento em cicatriz de acne — ao custo de ser permanente e sem reversibilidade química. Permanência sem antídoto não é só uma vantagem de durabilidade: é também um risco que o AH não carrega da mesma forma — se algo não sair como esperado, não há correção química disponível, apenas manejo clínico ao longo do tempo. A escolha entre os dois materiais depende do que a pessoa valoriza mais — reversibilidade e ajustabilidade (AH) ou durabilidade e robustez de evidência (PMMA-colágeno) — não de um ser “cientificamente comprovado” e o outro não.
Um ponto final de honestidade metodológica, que esta busca não encontrou em nenhum lugar: não existe, até onde esta revisão localizou, nenhum ensaio clínico comparando os dois materiais diretamente, cabeça-a-cabeça, dentro do mesmo estudo. Tudo o que este capítulo comparou são dois corpos de evidência publicados separadamente, com desenhos, escalas e populações diferentes — uma comparação indireta, declarada como tal, não um RCT comparativo direto entre AH e PMMA-colágeno.
Esta apostila relata o que os estudos publicados mostraram sobre cada material — não decide qual é indicado para uma cicatriz específica. Profundidade da lesão, grau de fibrose, expectativa de durabilidade, tolerância a um procedimento permanente e histórico de cada pessoa mudam essa equação caso a caso. Essa decisão pertence à avaliação individual presencial com profissional habilitado.
Achar que “ter o estudo mais forte” significa “ser a escolha certa para todo mundo”.
É tentador ler o dado desta apostila — RCT maior, multicêntrico, duplo-cego, com extensão de 12 meses — e concluir que o PMMA-colágeno é automaticamente a melhor opção para qualquer pessoa com cicatriz rolling. Essa leitura ignora que robustez de evidência e adequação clínica individual são perguntas diferentes. Um material permanente, sem correção química se algo sair diferente do esperado, pode ser exatamente o que uma pessoa não quer assumir como risco — mesmo sabendo que a evidência por trás dele é mais forte. E o inverso também é verdade: preferir o AH pela reversibilidade não é “escolher a opção com menos ciência por trás”, é escolher com base numa evidência real, ainda que menor.
O certo: tratar “qual material tem o RCT mais forte” e “qual material é indicado para esta pessoa” como duas perguntas separadas. A primeira é uma leitura honesta da literatura, que esta apostila responde. A segunda depende do que a pessoa valoriza — reversibilidade ou durabilidade — e da avaliação presencial de sua cicatriz e histórico, que só o profissional habilitado faz.
Este é o capítulo que eu mais gosto de explicar com calma, porque ele desmonta uma suposição que praticamente ninguém questiona: a de que “o material mais usado no consultório” e “o material com o estudo mais forte” são sempre o mesmo. Não são. O ácido hialurônico é o que eu mais utilizo nesta indicação — é reversível, ajustável, e a evidência real por trás dele (Siperstein 2022) me dá segurança para recomendá-lo. Mas seria desonesto da minha parte não dizer, quando perguntada, que o ensaio clínico mais robusto já publicado para cicatriz rolling testou outro material, o PMMA-colágeno, com uma amostra dez vezes maior e um desenho multicêntrico duplo-cego que o AH ainda não teve.
Isso não muda minha prática por si só — porque durabilidade permanente sem reversibilidade química é um tipo de risco que boa parte das pessoas prefere não assumir, mesmo sabendo da força do estudo por trás dele. A decisão certa não nasce de “qual tem mais paper”, nasce de conversar com a pessoa sobre o que ela valoriza: ajustar e reverter se algo mudar, ou aceitar permanência em troca de um resultado sustentado por mais tempo, com o RCT mais forte do campo por trás. As duas escolhas são cientificamente informadas. Nenhuma das duas é a “errada”.
- O RCT mais robusto para cicatriz rolling é de PMMA-colágeno, não de AH: Karnik et al. 2014, multicêntrico, duplo-cego, N=147, sucesso de 64% vs. 33% controle (p=0,0005); extensão de 12 meses (Cohen 2016, força B) chegou a 70,7% de respondedores.
- O AH tem, sim, um RCT real: Siperstein 2022, N=15, split-face, controlado por placebo, redução QGSGS -6,6 vs. -1,7 (p=0,0008) — mas dez vezes menor, de centro único e financiado pelo fabricante do produto testado.
- Albargawi 2025 tabula os dois corpos de evidência: AH tem mais estudos (14 estudos/372 participantes, fragmentados), PMMA tem menos estudos mas mais concentrados (5 estudos/305 participantes, quase metade vindo só de Karnik 2014).
- O mecanismo difere: PMMA-colágeno estimula bioestimulação de colágeno autólogo (Almukhadeb 2023), somando-se ao preenchimento mecânico — não é “o mesmo mecanismo do AH, só que mais forte”.
- A troca real não é hierarquia, é trade-off: permanência sem reversibilidade química (PMMA) contra reabsorção temporária com correção disponível (AH) — cada material resolve um problema diferente.
- Não existe comparação direta cabeça-a-cabeça entre os dois materiais no mesmo ensaio — a comparação feita aqui é entre dois corpos de evidência publicados separadamente, e isso precisa ser dito com clareza.
- “Mais estudado” não é sinônimo de “certo para todo mundo”: a escolha depende do que a pessoa valoriza (reversibilidade ou durabilidade) e da avaliação presencial da cicatriz e do histórico de cada paciente.
Com os dois corpos de evidência comparados com o mesmo rigor, falta a pergunta mais prática de todas: diante de tudo isso, o que é razoável esperar de um resultado real, e onde está o limite? A última apostila da série fecha o arco com expectativa realista — o que a evidência sustenta e o que ela não sustenta, para nenhum dos dois materiais. Leve estas informações à avaliação individual: é o profissional habilitado, presencialmente, quem examina a cicatriz e ajuda a decidir entre reversibilidade e durabilidade no seu caso.
- Karnik J, Baumann L, Bruce S, Callender V, Cohen S, Grimes P, Joseph J, Shamban A, Spencer J, Tedaldi R, Werschler WP, Smith SR. A double-blind, randomized, multicenter, controlled trial of suspended polymethylmethacrylate microspheres for the correction of atrophic facial acne scars. J Am Acad Dermatol 71(1):77-83, 2014 — RCT pivotal de PMMA-colágeno, N=147, multicêntrico, duplo-cego; sucesso 64% vs. 33% controle (p=0,0005); base do registro de aprovação FDA.
- Cohen JL, et al. Long-term safety and patient satisfaction with polymethylmethacrylate-collagen for the treatment of atrophic acne scars: a 12-month follow-up. Plast Reconstr Surg Glob Open, 2016 — extensão de 12 meses da mesma coorte de Karnik 2014; 70,7% dos tratados atingiram critério de respondedor; formato de resumo de congresso ASPS, força B.
- Siperstein M, Nestor M, Meran S, Grunebaum L. A Randomized, Split-Face, Placebo-Controlled Study Evaluating the Safety and Efficacy of a Hyaluronic Acid Filler for the Correction of Atrophic Acne Scars. J Cosmet Dermatol, 2022 — RCT split-face de AH puro (VYC-17.5L), N=15 (30 bochechas), redução QGSGS -6,6 vs. -1,7 (p=0,0008); centro único, financiado pela Allergan.
- Albargawi S. Comparative efficacy and safety of synthetic fillers for atrophic acne scars: A systematic review. J Cosmet Dermatol, 2025 — revisão sistemática, 26 estudos/N=1.121; tabula AH (14 estudos/372 participantes) vs. PMMA-colágeno (5 estudos/305 participantes).
- Almukhadeb E, Binkhonain F, Alkahtani A, Alhunaif S, Altukhaim F, Alekrish K. Filler Injections for Acne Scars: A Systematic Review. Ann Dermatol, 2023 — descreve o mecanismo de bioestimulação do PMMA-colágeno (substituição do colágeno bovino carreador por colágeno autólogo) e as janelas de duração de AH (até 18 meses) vs. PMMA-colágeno (permanente, mais de 3 anos).