O protocolo que os estudos usaram: profundidade, sessões — e em que momento a subcisão entra
Um ensaio testou 2,5mm contra 1,5mm no mesmo rosto, em 14 pessoas. Outros dois testaram subcisão associada ao microagulhamento, em 45 e 49 pacientes. Nenhum dos três usou o mesmo número de milímetros, de sessões ou de semanas. Não existe “o” protocolo padrão-ouro — existe uma faixa testada, e um detalhe que muda a expectativa de quem imagina a subcisão repetida a cada visita: ela entra, nos estudos, uma única vez.
O microagulhamento é um procedimento estético, ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve o que os estudos testaram, não é indicação de protocolo, de profundidade de agulha nem de número de sessões para você aplicar em si mesmo ou em terceiros. A subcisão, quando mencionada, é um procedimento mais invasivo ainda — sua indicação, técnica e execução são decisão exclusiva do profissional habilitado que a realiza, após avaliação individual. Profundidade, sessões e intervalo nunca devem ser copiados isoladamente de um material educativo.
Na apostila anterior desta série, o que ficou estabelecido é que o microagulhamento tem eficácia real em rolling — a dúvida que resta não é mais “funciona”, é “com o quê, exatamente”. E aqui a resposta honesta incomoda quem espera uma receita fechada: os três estudos que mais isolam profundidade e sessões nessa indicação usam três combinações diferentes de números, sem que nenhum deles compare as combinações entre si para eleger uma vencedora.
Tem, porém, um padrão que atravessa os dois estudos que somam a subcisão ao microagulhamento — e é ele que costura esta apostila: em nenhum dos dois a subcisão se repete. Ela entra uma vez, no início, para cortar a banda fibrótica; o que se repete depois, sessão após sessão, é o microagulhamento. Isso derruba uma expectativa comum — a de um “pacote” onde tudo se repete igual a cada visita.
El-Domyati et al. (2024, Int J Dermatol) desenharam o teste mais direto de profundidade que existe nesta linha de pesquisa: 14 pacientes, split-face — uma metade do rosto recebeu agulha de 2,5mm, a outra metade, 1,5mm, na mesma pessoa, ao longo de 6 sessões quinzenais. O resultado favoreceu a agulha mais profunda, com significância estatística (p=0,02), confirmada tanto na avaliação clínica quanto na biópsia — ou seja, não é só impressão de quem avaliou a foto, é tecido examinado ao microscópio.
As barras ordenam a direção do achado — 2,5mm superou 1,5mm, com diferença estatisticamente significativa — e não medem uma magnitude percentual exata: o resumo do estudo relata o valor de p, não o tamanho numérico do efeito. Amostra pequena, N=14, desenho split-face; e um ponto que esta apostila não vai esconder: o abstract não discrimina o resultado por subtipo de cicatriz — não há, nesse achado, um número isolado só para rolling, separado de box car ou ice pick.
Não é essa a leitura correta. Um único ensaio, com 14 pacientes, sem replicação independente até o momento desta apostila e sem separar o resultado por subtipo de cicatriz, é um dado real — mas isolado. Profundidade maior também tende a somar desconforto e tempo de recuperação, variável que o resumo do estudo não quantifica. Quanto mais fundo faz sentido para aquele caso é pergunta que pesa tudo isso junto, respondida na avaliação individual — não uma regra de “quanto mais, melhor” para copiar.
Dois estudos documentam protocolos onde a subcisão é somada ao microagulhamento — e os dois seguem a mesma lógica de sequência, mesmo com números diferentes entre si. Bhargava et al. (2019, J Clin Aesthet Dermatol), com 45 pacientes, descrevem o desenho de forma direta: subcisão seguida de sessões de microagulhamento — a subcisão como etapa que abre o protocolo, o microagulhamento como a fase que se repete depois dela. Garg & Baveja (2014, J Cutan Aesthet Surg), com 49 pacientes, detalham ainda mais o instrumento: subcisão única, seguida por dermaroller de 1,5mm com 192 agulhas, alternado — não somado — com peeling de TCA 15% a cada 2 semanas, completando 6 sessões ao todo depois da subcisão inicial.
Vale registrar: Bhargava (2019) e Garg & Baveja (2014) concordam na ordem das etapas, mas não usam os mesmos parâmetros. Garg especifica o instrumento — 1,5mm, 192 agulhas — e intercala com um ácido em concentração definida a cada 2 semanas; Bhargava descreve a sequência sem esse mesmo nível de detalhe técnico do instrumento usado no microagulhamento. Isso não é uma falha de nenhum dos dois — é o retrato de como esta linha de pesquisa está organizada hoje: convergência na lógica, variação nos números.
Uma revisão de 2023 sobre subcisão resume a situação sem meias palavras: faltam estudos controlados que sustentem, de forma isolada, o ganho adicional específico de somar subcisão ao microagulhamento — e, na prática, essas combinações costumam ser montadas “com base na preferência pessoal do profissional” (tradução livre), não a partir de um protocolo único validado por consenso (Vempati et al., 2023). Isso não anula os números de Bhargava e Garg citados acima — mas explica, com honestidade, por que você não vai encontrar “o” protocolo padronizado da combinação, e sim relatos de série de casos com boa resposta.
Achar que “mais sessões de subcisão” é sinônimo de mais resultado — como se o procedimento fosse repetido, igual, a cada sessão do pacote de tratamento.
Nos dois protocolos combinados desta apostila — Bhargava et al. (2019, N=45) e Garg & Baveja (2014, N=49) — a subcisão aparece uma única vez, geralmente na etapa inicial, para romper mecanicamente a banda fibrótica que ancora a cicatriz de acne do tipo rolling à camada abaixo dela. O que se repete depois, sessão após sessão, é o microagulhamento (e, no desenho de Garg, o TCA 15% alternado, a cada 2 semanas, até completar 6 sessões). “Fazer subcisão de novo a cada retorno” não é o padrão que a literatura usada aqui descreve.
O certo: entender a subcisão como uma etapa pontual, mecânica, e o microagulhamento como a fase seriada que a segue. Se há razão clínica para repetir a subcisão em algum caso específico, essa é uma decisão do profissional que a executa — não um padrão a se esperar por default.
A subcisão é um procedimento mais invasivo que o microagulhamento isolado — rompe mecanicamente uma banda de tecido sob a pele, geralmente com agulha calibrosa ou cânula. Os números apresentados aqui descrevem o que os estudos testaram, não uma indicação para o seu caso. Se a subcisão é necessária, quando ela entra e com qual técnica são decisões exclusivas do profissional que a executa, após avaliar a profundidade real da tração naquela pele — a lógica completa da subcisão é o tema que a apostila 8 desta série aprofunda.
| Estudo | N | Desenho | Parâmetro central | Onde entra a subcisão |
|---|---|---|---|---|
| El-Domyati, 2024 | 14 | Split-face, 6 sessões quinzenais | 2,5mm x 1,5mm (p=0,02) | Não se aplica — sem subcisão |
| Bhargava, 2019 | 45 | Série combinada | Subcisão + sessões de microagulhamento | 1x, no início |
| Garg & Baveja, 2014 | 49 | Série combinada | Dermaroller 1,5mm/192 agulhas alternado com TCA 15%, 6 sessões | 1x (única), antes das sessões |
Tabela de faixas de estudo, não prescrição de protocolo. Nenhum dos três ensaios comparou suas combinações diretamente contra as outras duas.
Não ter um número único não é sinal de fraqueza da evidência — é o retrato honesto de como esta linha de pesquisa avançou até aqui: grupos diferentes testando combinações diferentes, cada um respondendo a uma pergunta específica (a profundidade importa? a subcisão soma quando há tração? qual instrumento e qual intervalo funcionam numa série de casos?). O que os três estudos citados aqui convergem, apesar de tudo, é numa lógica de sequência: quando a subcisão participa, ela é a etapa pontual que abre o protocolo — não a que se repete.
O que eu quero que fique desta apostila não é um milímetro ou um número de sessões para decorar — é a régua certa para avaliar qualquer promessa de “o protocolo” que você encontrar por aí. A literatura mostra uma faixa: profundidade entre 1,5mm e 2,5mm testada cabeça a cabeça em apenas 14 pacientes, e dois desenhos combinados, com 45 e 49 pacientes, que não usam o mesmo instrumento nem o mesmo intervalo entre si. O ponto que atravessa todos: quando a subcisão participa, ela entra uma vez, no início — o microagulhamento é que segue em sessões. A decisão sobre profundidade, número de sessões e se a subcisão é indicada no seu caso — e, se for, como e quando ela é executada — é sempre do profissional habilitado, na avaliação individual.
- Não existe um protocolo padrão único — existe uma faixa: profundidade entre 1,5mm e 2,5mm, sessões e intervalos variando conforme o desenho do estudo.
- O único ensaio que comparou profundidade cabeça a cabeça (El-Domyati, 2024, N=14, split-face): 2,5mm foi superior a 1,5mm, clínica e histologicamente (p=0,02) — mas o abstract não discrimina por subtipo de cicatriz.
- Quando a subcisão participa de um protocolo combinado, ela entra 1 única vez, no início — não a cada sessão (Bhargava, 2019, N=45; Garg & Baveja, 2014, N=49).
- Garg & Baveja (2014) detalham o instrumento: dermaroller 1,5mm/192 agulhas, alternado com TCA 15% a cada 2 semanas, 6 sessões, em 49 pacientes.
- A própria literatura de revisão admite a lacuna: faltam estudos controlados específicos para a combinação subcisão + microagulhamento; hoje ela reflete a preferência do profissional, não um consenso fechado (Vempati, 2023).
- A subcisão é procedimento mais invasivo; se, quando e como ela entra é decisão exclusiva do profissional que a executa, caso a caso.
- É procedimento estético: os números desta apostila descrevem o que os estudos usaram, não uma prescrição fechada para você aplicar.
Agora que você sabe que não existe “o” protocolo, mas uma faixa testada com uma lógica de sequência clara, a próxima pergunta é para quem cada intensidade faz sentido — é o que a apostila 4 desta série mostra, ao tratar a gravidade da cicatriz como o fator que realmente decide a conduta. E se a sua dúvida é especificamente sobre a subcisão — o que ela rompe, quando entra, o que a diferencia de “só agulhar” — a apostila 8 desta série aprofunda essa lógica.
- El-Domyati M, Moftah NH, Ahmed AM, Ibrahim MR. Evaluation of microneedling depth of penetration in the treatment of atrophic acne scars: a split-face study. Int J Dermatol, 2024;63(5):632-638 — N=14, split-face, 6 sessões quinzenais; agulha 2,5mm superior a 1,5mm (p=0,02), clínica e histologicamente; resumo não discrimina por subtipo de cicatriz.
- Bhargava S, Kumar U, Varma K. Subcision and Microneedling as an Inexpensive and Safe Combination to Treat Atrophic Facial Acne Scars. J Clin Aesthet Dermatol, 2019;12(8):18-22 — N=45; protocolo: subcisão seguida de sessões de microagulhamento.
- Garg S, Baveja S. Combination Therapy in the Management of Atrophic Acne Scars. J Cutan Aesthet Surg, 2014;7(1):18-23 — N=49; subcisão única + dermaroller 1,5mm/192 agulhas alternado com TCA 15% a cada 2 semanas, 6 sessões.
- Vempati A, Zhou C, Tam C, et al. Subcision for Atrophic Acne Scarring: A Comprehensive Review. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2023;16:125-134 — revisão: combinações de subcisão com microagulhamento carecem de estudos controlados e costumam refletir a preferência pessoal do profissional.
- Kravvas G, Al-Niaimi F. A systematic review of treatments for acne scarring, Part 1: non-energy-based techniques. Scars Burns Heal, 2017;3:2059513117695312 — descreve a subcisão como o procedimento que rompe as bandas fibróticas características do rolling.