Apostila 2 · Laser CO2 × Rolling · Par

Laser CO2 em cicatriz Rolling: funciona mesmo? O achado que muda a pergunta

Sozinho, o CO2 fracionado já ajuda o rolling — numa posição do meio da tabela, nem a melhor nem a pior. Mas o dado mais interessante desta apostila não é “quanto o laser sozinho melhora”: é que, entre os três subtipos de cicatriz atrófica, o rolling é justamente aquele que MAIS ganha quando um segundo procedimento — a subcisão — entra na equação.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O laser CO2 fracionado/ablativo e a subcisão são procedimentos de profissional habilitado — atos técnicos, não produtos de prateleira. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne o que os estudos publicados mostram sobre a eficácia do CO2 fracionado no subtipo rolling, isolado e combinado à subcisão. Não substitui avaliação individual: profundidade da cicatriz, grau de aderência do tecido, fototipo e histórico mudam o que é indicado e o resultado esperado — e isso só uma consulta avalia caso a caso.

Na apostila 1 você viu que o rolling não é a cicatriz “mais rasa” nem a “mais funda”: em profundidade histológica, ela mede 1.357,14±578,3 µm — estatisticamente igual ao boxcar (1.327,88±571,34 µm; p=0,90) e sem diferença estatística também frente ao icepick (1.933,4±1.117,8 µm; p=0,23) (Bansal et al., 2026). O que a diferencia não é a régua, é a arquitetura: uma derme presa ao plano muscular por baixo, puxada por bandas fibrosas — e é essa característica, não a profundidade, que muda tudo nesta apostila.

A pergunta óbvia seria “o CO2 fracionado isolado funciona no rolling?” — e a resposta é sim, numa posição intermediária, sempre a mesma nos estudos. Mas a pergunta que realmente importa, e que a maioria do material sobre este laser não faz, é outra: o rolling responde igual quando o laser trabalha sozinho ou quando ele soma um segundo procedimento? É aqui que mora o achado mais anti-óbvio desta série inteira.

Primeiro, o CO2 isolado: o rolling sempre no meio da tabela, em três lasers diferentes

Um estudo retrospectivo de 2022, com 121 pacientes, tratados com CO2 fracionado ablativo, mediu fatores associados à resposta por subtipo de cicatriz e achou algo que já colocava o rolling em vantagem sobre o icepick: OR=7,3 (IC95% 1,2–43,4; p=0,029) — ou seja, o rolling teve chance muito maior de responder bem ao laser isolado do que o icepick (Li B et al., 2022).

Esse padrão se repete em duas tecnologias de laser fracionado não-ablativas, diferentes do CO2, mas usadas como comparação histórica de hierarquia entre subtipos: um estudo prospectivo de 2014, com 35 pacientes e laser de 1540nm, mediu 43,1% de melhora no rolling — atrás do boxcar (52,9%) e à frente do icepick (25,9%) (Sardana et al., 2014). Um segundo, retrospectivo, de 2023, com 31 pacientes e laser de 1550nm érbio, mediu a escala ASRE e achou 40,6% no rolling — de novo entre boxcar (59,2%) e icepick (19,1%) (Lee & Cho, 2023). E no CO2 fracionado ultra-pulse propriamente dito — o mesmo tipo de laser desta série —, um estudo retrospectivo de 2023 com 103 pacientes mediu o GAS (escala de 0 a 4, maior é melhor) e achou rolling 2,3±0,8, entre boxcar (2,7±0,8) e icepick (1,7±0,8), diferença estatisticamente significativa entre os três (p<0,001) (Pan Z et al., 2023).

A escada do rolling: sempre no meio, em três tecnologias de laser fracionado isolado
Cada barra é o resultado do rolling no próprio estudo — o texto ao lado mostra onde boxcar e icepick ficaram no mesmo estudo, para dar o contexto da posição
Sardana 2014 (1540nm)
43,1%
Lee & Cho 2023 (1550nm érbio, ASRE)
40,6%
Pan 2023 (CO2 ultra-pulse, GAS/4)
2,3/4
Contexto de cada estudo: Sardana 2014 — boxcar 52,9% / icepick 25,9%; Lee & Cho 2023 — boxcar 59,2% / icepick 19,1%; Pan 2023 (GAS 0–4) — boxcar 2,7±0,8 / icepick 1,7±0,8 (p<0,001 entre os três). No CO2 ablativo isolado (Li B et al., 2022, n=121), o rolling já superava o icepick de forma significativa (OR=7,3; p=0,029) — métrica diferente (odds ratio), por isso não entra como barra na mesma escala, mas confirma a mesma direção. Barras ilustram a posição relativa do rolling em cada escala própria — não são comparáveis ponto a ponto entre estudos com desenhos e escalas diferentes.
Isolado já é uma resposta boa — só não é a melhor da fila

Um GAS de 2,3 numa escala de 0 a 4, ou 40–43% de melhora nas outras duas escalas, não é pouco: é uma resposta clínica real ao CO2 fracionado usado sozinho. O ponto desta apostila não é dizer que o laser isolado “não funciona” no rolling — é mostrar que existe uma segunda pergunta, mais importante para quem decide o protocolo: o rolling responde igual ao adicionar subcisão, ou responde diferente dos outros dois subtipos?

O achado central: o rolling é o subtipo que MAIS ganha ao somar subcisão ao CO2

Aqui está o dado-âncora desta apostila. Um estudo retrospectivo de 2023, o maior desta série, com 413 pacientes, comparou dois grupos — CO2 fracionado combinado com subcisão versus CO2 fracionado isolado — e, diferente da maioria dos estudos de laser em acne, estratificou o resultado por subtipo de cicatriz (Li X et al., 2023). O achado central: entre os três subtipos, foi o rolling que apresentou o ganho mais forte ao somar a subcisão ao laser — uma diferença estatisticamente robusta (p<0,001), maior do que a observada no boxcar (p=0,041, significativa, porém mais fraca) e sem diferença estatística detectável no icepick (p=0,062, não significativo).

Em outras palavras: dos três subtipos, o rolling foi aquele em que “somar subcisão” separou mais claramente os dois grupos de tratamento — e o icepick foi aquele em que essa soma não mostrou, neste estudo, diferença estatística confirmada. O estudo também mostrou eficácia geral maior no grupo combinado (p<0,001), com eventos adversos sem diferença entre os dois grupos (p=0,361) — ou seja, o ganho de resultado não veio à custa de mais efeitos indesejados relatados.

Força estatística do ganho ao somar subcisão, por subtipo (Li X et al., 2023, n=413)
As barras ordenam a força da evidência estatística (quanto menor o valor de p, mais forte) — não medem o tamanho do ganho clínico em pontos de escala, que este estudo não decompôs por subtipo
Rolling
p<0,001
Boxcar
p=0,041
Icepick
p=0,062 (n.s.)
n.s. = não estatisticamente significativo. Barras ilustrativas: ordenam a força estatística do ganho ao somar subcisão em cada subtipo — não representam magnitude clínica absoluta, que o estudo (retrospectivo, n=413, estratificado por subtipo) não publicou decomposta por subtipo. Eficácia geral do grupo combinado maior que o isolado (p<0,001); eventos adversos sem diferença entre grupos (p=0,361) (Li X et al., 2023).
Por que isso faz sentido: o mecanismo explica o achado

Este resultado não é coincidência estatística — ele é coerente com o que a apostila 1 já havia descrito sobre o rolling. Diferente do boxcar (borda vertical rasa, uma “marca” mais de superfície) e, em parte, do icepick (canal estreito e profundo, mas linear), o rolling nasce de bandas de tração fibrosa que ancoram a derme ao tecido subcutâneo por baixo, puxando a superfície para dentro e criando a ondulação característica. O laser fracionado — seja CO2, seja qualquer outra tecnologia — atua remodelando o colágeno da derme superficial e média. Ele não corta a banda de tração que puxa por baixo.

A subcisão, por definição, é o procedimento desenhado justamente para romper essa banda de tração — o instrumento percorre o plano subdérmico e libera a aderência que prende a cicatriz. Faz sentido, então, que o subtipo cujo mecanismo central é a tração fibrosa (o rolling) seja também aquele que mais ganha quando esse mecanismo é diretamente endereçado por um segundo procedimento — enquanto o icepick, cujo problema é mais a profundidade e o formato do canal do que a tração horizontal, mostre um ganho estatístico mais discreto ao somar a mesma técnica.

É um achado sólido ou ainda precisa de mais prova? As duas colunas, lado a lado
O que já sustenta o achado
  • É o maior estudo desta série: 413 pacientes, muito acima dos outros (31 a 121).
  • Foi desenhado para comparar exatamente essa pergunta — CO2 isolado × CO2+subcisão — e estratificou por subtipo, o que a maioria dos estudos de laser em acne não faz.
  • A direção do achado é coerente com o mecanismo do rolling descrito na apostila 1 (tração fibrosa) — não é um resultado isolado sem explicação biológica.
O que ainda falta
  • É um estudo retrospectivo, não um ensaio clínico randomizado (RCT) — a alocação ao grupo combinado ou isolado não foi por sorteio controlado.
  • É um único estudo com este desenho estratificado; ainda não foi replicado por outro grupo de pesquisa independente.
  • Não publicou o tamanho do ganho clínico (em pontos de escala) decomposto por subtipo — só a força estatística (o valor de p) da diferença entre grupos.
Força B, não força A — e isso é dito de propósito

Um estudo retrospectivo, mesmo com 413 pacientes e estratificação por subtipo, não tem o mesmo peso metodológico de um ensaio clínico randomizado controlado dedicado a essa pergunta. Classificamos este achado como força B: consistente, coerente com o mecanismo, vindo do maior estudo da série — mas ainda sem o RCT específico que fecharia a questão de vez. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo: é o dado mais interessante desta série, e ainda não é “prova máxima”.

Um erro muito comum

Achar que “fazer mais sessões de laser sozinho” resolve, no rolling, o que a subcisão resolveria melhor.

É uma armadilha fácil porque o CO2 fracionado isolado realmente melhora o rolling (GAS 2,3 de um máximo de 4 — Pan Z et al., 2023) e é tentador simplesmente “insistir” em mais sessões da mesma tecnologia quando o resultado platô. Mas o achado desta apostila é justamente o oposto disso: no rolling, o dado com maior força estatística (p<0,001) não veio de mais laser isolado — veio de somar um procedimento que age no mecanismo diferente (a tração fibrosa) que o laser, sozinho, não alcança (Li X et al., 2023).

O certo: no rolling, avaliar com o profissional se o platô de resposta ao laser isolado é o momento de somar subcisão — não necessariamente de multiplicar sessões da mesma tecnologia. É uma decisão de protocolo, individual, não uma regra fixa para todo caso.

As evidências desta apostila, lado a lado
EstudoTecnologia / desenhoO que mostrou no rollingForça
Li X et al., 2023CO2 fracionado + subcisão × CO2 isolado, estratificado; retrospectivo, n=413Rolling: ganho mais forte ao somar subcisão (p<0,001) — mais forte que boxcar (p=0,041); sem diferença significativa no icepick (p=0,062)Força B — âncora
Pan Z et al., 2023CO2 fracionado ultra-pulse ablativo, isolado; retrospectivo, n=103GAS (0–4): rolling 2,3±0,8, entre boxcar 2,7±0,8 e icepick 1,7±0,8 (p<0,001)Força B
Sardana et al., 2014Laser fracionado não-ablativo 1540nm, isolado; prospectivo comparativo, n=35Rolling 43,1%, entre boxcar 52,9% e icepick 25,9%Força B
Lee & Cho, 20231550nm érbio fracionado não-ablativo, isolado; retrospectivo, n=31ASRE: rolling 40,6%, entre boxcar 59,2% e icepick 19,1%Força B
Li B et al., 2022CO2 fracionado ablativo, isolado; retrospectivo, n=121Rolling responde melhor que icepick: OR=7,3 (IC95% 1,2–43,4; p=0,029)Força B — contexto
A Sacada dos DoutoresA pergunta certa não é “o laser funciona no rolling?” — é “o rolling funciona melhor sozinho ou acompanhado?”

O dado que eu mais quero que fique desta apostila é este: isolado, o CO2 fracionado já ajuda o rolling — numa posição consistentemente intermediária, em quatro estudos e três tecnologias diferentes. Mas o achado mais interessante é outro: entre os três subtipos de cicatriz atrófica de acne, é justamente o rolling que mais ganha, estatisticamente, ao somar a subcisão ao laser (Li X et al., 2023, n=413 — o maior estudo desta série: p<0,001 no rolling, contra p=0,041 no boxcar e p=0,062, sem significância, no icepick). Isso faz sentido biológico: o rolling nasce de tração fibrosa, e a subcisão é o procedimento que corta exatamente essa tração — por isso, quando ela entra no protocolo, o rolling responde mais do que os outros subtipos respondem à mesma soma.

Sou honesta sobre o degrau que falta: é um estudo retrospectivo, não um RCT dedicado, e ainda não foi replicado por outro grupo. Isso não diminui o interesse do achado — só o coloca no lugar certo: força B, não prova máxima. E isso não significa que o laser sozinho não funcione no rolling — significa que, neste subtipo específico, ele tende a ser mais forte quando não trabalha sozinho. É esse raciocínio que a apostila 5 (combinações) e o capítulo dedicado da apostila 8 (subcisão) desta série desenvolvem em detalhe.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • O CO2 fracionado isolado já funciona no rolling — numa posição consistentemente intermediária: GAS 2,3±0,8 (Pan Z et al., 2023), 43,1% (Sardana, 2014), 40,6% ASRE (Lee & Cho, 2023), sempre entre boxcar e icepick.
  • O achado central desta apostila: ao somar subcisão ao CO2, o rolling é o subtipo com o ganho estatístico mais forte — p<0,001 (Li X et al., 2023, n=413), contra p=0,041 no boxcar e p=0,062 (não significativo) no icepick.
  • Faz sentido pelo mecanismo: rolling nasce de tração fibrosa dérmica-subcutânea; a subcisão é o procedimento que rompe essa tração — o laser sozinho não a alcança.
  • É força B, não força A: o estudo-âncora é retrospectivo, ainda sem RCT dedicado nem replicação independente — o achado é promissor, não definitivo.
  • Eventos adversos não pioraram ao somar subcisão (p=0,361) — o ganho de resultado não veio às custas de mais efeitos indesejados relatados no estudo-âncora.
  • Isso não anula o laser sozinho — anula a ideia de que “mais sessões da mesma tecnologia” é sempre o próximo passo lógico no rolling.
  • A decisão de protocolo é individual, do profissional habilitado, caso a caso.
O próximo passo

Se o rolling é o subtipo que mais ganha ao somar subcisão, a pergunta prática seguinte é: como essa combinação é feita, em que ordem e com que evidência de suporte? A apostila 5 desta série aprofunda as combinações que a literatura sustenta, e a apostila 8 dedica um capítulo inteiro à subcisão — o procedimento que corta o que puxa por baixo. Leve estas leituras à sua avaliação individual.

Referências
  1. Li B, Ren K, Yin X, She H, Liu H, Zhou B. Efficacy and adverse reactions of fractional CO2 laser for atrophic acne scars and related clinical factors: a retrospective study on 121 patients. J Cosmet Dermatol, 2022;21(5):1989-1997 — CO2 ablativo isolado; rolling melhor que icepick: OR=7,3 (IC95% 1,2–43,4; p=0,029).
  2. Sardana K, Manjhi M, Garg VK, Sagar V. Which type of atrophic acne scar (ice-pick, boxcar, or rolling) responds to nonablative fractional laser therapy? Dermatol Surg, 2014;40(3):288-300 — prospectivo comparativo, n=35, 1540nm; rolling 43,1%, entre boxcar 52,9% e icepick 25,9%.
  3. Lee SR, Cho S. Clinical Factors Affecting the Effectiveness of 1550-nm Erbium-Doped Fractional Photothermolysis Laser for Individual Atrophic Acne Scar Types. Dermatol Ther (Heidelb), 2023;13(2):609-616 — retrospectivo, n=31; ASRE rolling 40,6%, entre boxcar 59,2% e icepick 19,1%.
  4. Pan Z, et al. “Multiple Mode Procedures” of Ultra-Pulse Fractional CO2 Laser: A Novel Treatment Modality of Facial Atrophic Acne Scars. J Clin Med, 2023;12(13):4388 — retrospectivo, n=103, CO2 ultra-pulse isolado; GAS rolling 2,3±0,8, entre boxcar 2,7±0,8 e icepick 1,7±0,8 (p<0,001).
  5. Li X, Fan H, Wang Y, et al. Fractional carbon dioxide laser combined with subcision for the treatment of three subtypes of atrophic acne scars: a retrospective analysis. Lasers Med Sci, 2023;38(1):195 — retrospectivo, n=413 (maior estudo da série); rolling com ganho mais forte ao somar subcisão (p<0,001) vs. boxcar (p=0,041) e icepick sem diferença significativa (p=0,062); eventos adversos sem diferença entre grupos (p=0,361). Dado-âncora desta apostila.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo. O laser CO2 fracionado/ablativo e a subcisão são procedimentos realizados por profissional habilitado. Os dados aqui apresentados descrevem o que os estudos citados mediram no subtipo rolling, isolado e combinado à subcisão — não são garantia de resultado individual. Profundidade e grau de aderência da cicatriz, fototipo e histórico mudam o protocolo e o desfecho esperado; a avaliação individual é o que define se e como cada procedimento se aplica ao seu caso.