Funciona, sim — mas o efeito cai de um jeito previsível, e a marca importa menos do que parece
Não é opinião de quem aplica nem foto de “antes e depois”: existe uma escala validada (Lip Fullness Scale) usada em ensaios clínicos randomizados para medir se o lábio realmente encheu. Ela confirma que funciona — e também confirma que o efeito cai mês a mês, de um jeito que dá para prever, e que a marca do gel pesa menos na equação do que o marketing sugere.
O preenchimento labial é um procedimento injetável. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de tratamento, promessa de resultado nem substitui avaliação individual. Os números descritos aqui (taxas de resposta, escalas de plenitude labial, curvas de duração) vêm de ensaios clínicos randomizados publicados, medindo o que aconteceu em grupos de pacientes estudados — não uma previsão exata do que vai acontecer com você. Duração, volume e escolha do produto variam por anatomia, técnica e metabolismo individual, e são sempre decisão do profissional habilitado, após avaliação presencial.
Na apostila 1 desta série ficou claro que “ácido hialurônico” não é uma coisa só — o lábio, fino e extremamente móvel, exige um gel fisicamente diferente do resto do rosto. Resolvida a pergunta “que gel”, sobra a pergunta que todo paciente realmente quer responder: isso funciona de verdade, e por quanto tempo?
A resposta não precisa ficar no campo da opinião. Existe uma régua validada para medir plenitude labial — a Lip Fullness Scale (LFS) — usada em cinco ensaios clínicos randomizados independentes, somando mais de 900 pacientes. Ela confirma que o preenchimento labial funciona, de forma mensurável. Mas a mesma evidência que prova isso também prova algo que o discurso comercial costuma esconder: o efeito cai, de forma previsível, mês após mês — e a marca do gel, sozinha, decide muito menos do que parece.
Antes de qualquer número, vale entender o instrumento por trás dele. Os RCTs desta apostila não perguntam “o paciente gostou” de forma solta — usam a Lip Fullness Scale (LFS), uma escala validada de plenitude labial, aplicada tanto por avaliador cego (que não sabe qual produto foi injetado) quanto pelo próprio paciente, antes e depois do procedimento. “Responder ao tratamento”, nesse contexto, tem definição fechada: um ganho mínimo de grau na escala, sustentado ao longo do tempo — não uma sensação subjetiva de “ficou melhor”. É essa régua comum que permite comparar estudos diferentes, com produtos diferentes, e ainda assim falar a mesma língua.
Um ensaio randomizado, avaliador-cego e multicêntrico, com 281 pacientes, comparou dois géis de ácido hialurônico diretamente: aos 3 meses, o responder rate (avaliação do paciente, pela LFS) foi de 73,8% para o Volbella (VYC-15L com lidocaína) contra 59,8% para o Restylane-L — diferença estatisticamente significativa (p=0,010) (Raspaldo, 2015). Um segundo RCT, duplo-cego e multicêntrico, com 225 pacientes randomizados entre os mesmos dois produtos, confirmou que o efeito se sustenta além do curto prazo: responder rate acima de 60% ao final de 1 ano de acompanhamento, pela mesma LFS (Geronemus, 2017). São dois estudos independentes, com endpoint comum, confirmando a mesma direção: o ganho é real e mensurável, não um efeito de expectativa do paciente.
Raspaldo et al., 2015 — RCT avaliador-cego, N=281, diferença estatisticamente significativa (p=0,010). Isto compara dois produtos específicos entre si, num único ensaio — não é um veredito geral de “qual marca é melhor” (ver a seção sobre Steenen, 2022, adiante).
A dose necessária para chegar nesse resultado também varia entre produtos. Um terceiro RCT, controlado e avaliador-cego, com 270 pacientes randomizados 2:1, testou a não-inferioridade do Restylane Kysse frente ao Volbella: o endpoint primário (mudança na LFS na semana 8) foi atingido com um volume significativamente menor de Kysse — 1,82 mL contra 2,24 mL de Volbella para o mesmo ganho de plenitude (p<0,001) — e 60% dos pacientes ainda respondiam na semana 48 (Weiss, 2021). Ou seja: “quantos mL você precisa” também depende do gel, não só do lábio.
Se dois RCTs mostram um gel vencendo outro, por que dizer que marca “importa menos do que parece”? Porque o ensaio desenhado especificamente para responder essa pergunta chegou à conclusão oposta. Um RCT multicêntrico, randomizado e quádruplo-cego — o desenho mais rigoroso possível para reduzir viés — comparou de frente as 4 marcas de ácido hialurônico mais usadas (Belotero, Juvéderm, Restylane e Stylage) em 143 mulheres que buscavam aumento labial. Resultado: nenhuma das quatro se mostrou superior às outras em durabilidade do efeito, satisfação do paciente, qualidade de vida ou segurança (Steenen, 2022). É a evidência de maior rigor metodológico desta apostila sobre esse ponto específico — e ela desmonta a ideia de hierarquia fixa entre marcas.
Preenchimento labial produz ganho real e mensurável na LFS, confirmado por avaliador cego e por RCTs independentes com N somado acima de 900 pacientes. Isso não é efeito placebo nem impressão subjetiva de quem aplicou.
Que existe “a melhor marca” de forma universal. No único RCT quádruplo-cego desenhado para comparar 4 marcas líderes lado a lado, nenhuma foi estatisticamente superior às outras (Steenen, 2022) — a diferença Volbella×Restylane-L de Raspaldo (2015) foi um resultado específico daquele par, não uma regra geral.
Achar que, uma vez bem feito, o resultado do preenchimento labial é permanente — ou que basta escolher “a marca certa” para não precisar retocar.
Os dois RCTs de 1 ano de acompanhamento já mostram o efeito recuando com o tempo (responder rate caindo de curto para longo prazo), e o estudo mais detalhado da série confirma o padrão com uma janela ainda maior: mais de 90% de resposta em 6 semanas, 70% aos 12 meses e 40% aos 18 meses (Müller, 2024) — ver a curva completa na próxima seção. Nenhum RCT desta série testou um gel de ácido hialurônico com efeito estável além desse período.
O certo: entender o preenchimento labial como um efeito real, mas temporário e decrescente — o intervalo de retoque adequado é decisão do profissional habilitado, feita na avaliação individual, não uma falha do procedimento nem do produto escolhido.
O estudo com o acompanhamento mais longo e mais granular desta série é um RCT pós-mercado, prospectivo e aberto, com 114 pacientes, usando um gel de ácido hialurônico com lidocaína. Os resultados, medidos pela LFS em múltiplos pontos no tempo, desenham a curva de queda mais honesta disponível: mais de 90% de responder rate em 6 semanas, 70% ainda respondendo aos 12 meses, e mais de 40% com efeito visível aos 18 meses (Müller, 2024). Os efeitos adversos relatados foram majoritariamente procedimentais, leves e transitórios, e a satisfação estética permaneceu alta em todos os pontos de avaliação — o que cai não é a segurança, é a magnitude do volume percebido.
Nem todo o resultado visível é volume puro. Um RCT com imagem 3D, em 36 pacientes coreanas, randomizou dois grupos por grau de reticulação do gel (leve x intermediária) e mediu volume, projeção labial e o ângulo columela-lábio antes e depois da injeção. Os dois grupos tiveram aumento estatisticamente significativo de volume e projeção às 4 e 12 semanas, sem diferença relevante entre eles nesses dois parâmetros — mas o gel de reticulação intermediária projetou mais o vermelhão e resultou num ângulo columela-lábio mais agudo que o de reticulação leve, ou seja, um efeito “lift” mensurável por imagem, além do simples ganho de volume (Rho, 2022). É evidência real, mas de escala pequena — o próprio desenho do estudo (N=36, população coreana, um único par de produtos) limita quanto essa diferença específica se generaliza.
Rho et al., 2022 — RCT com imagem 3D, N=36 (18 por grupo). As barras ilustram a diferença relatada no ângulo columela-lábio entre os grupos — ordenam a direção do achado, não uma métrica em grau; volume e projeção labial não diferiram entre os dois géis.
| Estudo | Desenho / N | O que mediu | Resultado |
|---|---|---|---|
| Raspaldo, 2015 | RCT avaliador-cego, N=281 | LFS aos 3 meses | 73,8% x 59,8% |
| Geronemus, 2017 | RCT duplo-cego, N=225 | LFS a 1 ano | >60% responder |
| Weiss, 2021 | RCT não-inferioridade, N=270 | LFS na semana 48 | 60% responder |
| Steenen, 2022 | RCT quádruplo-cego, N=143 | 4 marcas, comparação direta | Sem superioridade entre elas |
| Müller, 2024 | RCT pós-mercado, N=114 | LFS em 6 sem., 12 e 18 meses | >90% → 70% → 40% |
| Rho, 2022 | RCT com imagem 3D, N=36 | Volume, projeção e ângulo | Efeito “lift” mensurável |
O que a soma destes seis estudos mostra, com uma segurança rara em estética injetável, é que o preenchimento labial funciona de verdade — a resposta é real, mensurável por escala validada, replicada em RCTs independentes com mais de 900 pacientes somados. Isso não é o discurso de quem vende; é o que o desenho experimental mostrou. Mas a mesma régua honesta que prova o “funciona” também prova o “por quanto tempo” — e a resposta é: menos do que o senso comum espera. A curva mais detalhada da série vai de mais de 90% para 40% em 18 meses; nenhum estudo aqui sustenta a ideia de resultado estável indefinidamente. E o ensaio de maior rigor metodológico sobre comparação entre marcas — quádruplo-cego, desenhado exatamente para isso — não encontrou uma vencedora fixa entre as quatro líderes do mercado. Isso muda o que vale a pena perguntar na avaliação: menos “qual é a melhor marca” e mais “qual protocolo e qual intervalo de manutenção fazem sentido para o seu lábio, na sua anatomia”.
- O preenchimento labial funciona, de forma mensurável: ganho real na Lip Fullness Scale (LFS), confirmado por RCTs independentes com N somado acima de 900 pacientes (Raspaldo, 2015; Geronemus, 2017; Weiss, 2021; Steenen, 2022; Müller, 2024).
- Num RCT direto, Volbella teve responder rate maior que Restylane-L aos 3 meses: 73,8% x 59,8%, N=281, p=0,010 (Raspaldo, 2015) — resultado de um par específico, não uma regra geral.
- O efeito se sustenta bem no primeiro ano: >60% ainda responder aos 12 meses (Geronemus, 2017) e 60% na semana 48 com um volume menor de gel (Weiss, 2021) — mas cai depois disso.
- A curva mais detalhada disponível mostra queda previsível: >90% em 6 semanas, 70% em 12 meses, 40% em 18 meses (Müller, 2024) — “resultado permanente” não é o que a evidência mostra.
- Nenhuma das 4 marcas líderes provou ser superior às outras em durabilidade, satisfação ou segurança, no RCT quádruplo-cego desenhado exatamente para essa comparação (Steenen, 2022).
- Parte do resultado não é só volume: reticulação intermediária projetou mais o vermelhão e tornou o ângulo columela-lábio mais agudo que a reticulação leve, medido por imagem 3D — efeito “lift” real, mas de estudo pequeno, N=36 (Rho, 2022).
- Esta é a evidência de maior força da série (RCT em quase todos os pontos) — mas a curva de queda ao longo do tempo depende, sobretudo, de um único estudo detalhado; o intervalo de retoque certo é decisão da avaliação individual.
Agora que ficou claro que o preenchimento labial funciona, é mensurável e tem uma curva de duração previsível, a pergunta natural é: onde exatamente aplicar, com que técnica e com que volume por ponto? É o que a próxima apostila da série detalha, com o mapa anatômico por subsítio do lábio. Confira em Preenchimento labial: protocolo e mapa anatômico. E leve as leituras desta apostila à avaliação individual — o protocolo e o intervalo de retoque certos para o seu caso são decisão do profissional habilitado.
- Raspaldo H, Chantrey J, Belhaouari L, Saleh R. Juvéderm Volbella with Lidocaine for Lip and Perioral Enhancement: A Prospective, Randomized, Controlled Trial. Plast Reconstr Surg Glob Open, 2015;3(4):e321 — N=281, responder rate 73,8% (Volbella) x 59,8% (Restylane-L) aos 3 meses, p=0,010.
- Geronemus RG, Bank DE, Hardas B, Shamban A, Weichman BM, Murphy DK. Safety and Effectiveness of VYC-15L, a Hyaluronic Acid Filler for Lip and Perioral Enhancement: One-Year Results From a Randomized, Controlled Study. Dermatol Surg, 2017;43(3):396-404 — N=225, responder rate >60% ao final de 1 ano.
- Weiss RA, et al. A Randomized, Controlled, Evaluator-Blinded, Multi-Center Study of Hyaluronic Acid Filler Effectiveness and Safety in Lip Fullness Augmentation. Dermatol Surg, 2021 — texto completo livre — N=270, não-inferioridade Kysse x Volbella; 60% ainda responder na semana 48; menos volume necessário de Kysse (1,82 mL x 2,24 mL, p<0,001).
- Steenen SA, et al. Head-to-Head Comparison of 4 Hyaluronic Acid Dermal Fillers for Lip Augmentation: A Multicenter Randomized, Quadruple-Blind, Controlled Clinical Trial. J Am Acad Dermatol, 2023;88(4):932-935 — texto completo livre (CC) — N=143, nenhuma das 4 marcas (Belotero, Juvéderm, Restylane, Stylage) superior às outras.
- Müller DS, Grablowitz D, Krames-Juerss A, Worseg A. Lip Augmentation With Saypha LIPS Lidocaine: A Postmarket, Prospective, Open-Label, Randomized Clinical Study to Evaluate Its Efficacy and Short- and Long-Term Safety. Aesthet Surg J, 2025;45(1):84 — texto completo livre — N=114, >90% responder em 6 semanas, 70% em 12 meses, 40% em 18 meses.
- Rho NK, et al. Lip Lifting Efficacy of Hyaluronic Acid Filler Injections: A Quantitative Assessment Using 3-Dimensional Photography. J Clin Med, 2022;11(15):4554 — texto completo livre (MDPI) — N=36, ganho de volume/projeção em ambos os grupos; reticulação intermediária com ângulo columela-lábio mais agudo.
