Profundidade, passadas, intervalo e sessões: de onde saiu cada número do protocolo
“1,5 mm, 4 sessões a cada 30 dias” — todo protocolo de microagulhamento que circula por aí soa exato. Mas de onde vem cada um desses números? Nesta apostila, rastreamos a origem real: os estudos que testaram profundidade, região do rosto, intervalo e quantidade de sessões — e o que a comparação entre eles honestamente revela sobre a existência (ou não) de um protocolo único.
O microagulhamento facial é um procedimento estético minimamente invasivo — um ato de profissional biomédico habilitado, sempre precedido de avaliação individual da pele e do histórico de saúde. Este material é exclusivamente educativo: reúne e organiza os parâmetros de profundidade, intervalo e número de sessões usados em estudos científicos publicados — não é protocolo de autoaplicação, não é receita fechada e não substitui avaliação presencial. Profundidade da agulha, número de sessões e intervalo entre elas são decisão clínica, definida por quem avalia a pele, a queixa e o histórico de cada pessoa.
Quem já pesquisou sobre microagulhamento provavelmente já viu uma tabela de profundidades “oficiais” circulando — testa a tanto, bochecha a tanto, olhos a tanto. Parece um manual técnico único. Não é. Cada número desses saiu de um estudo específico, com seu próprio desenho, sua própria amostra e seu próprio objetivo.
E aqui vai a informação mais honesta desta apostila, antes de qualquer número: não existe hoje um protocolo-padrão-ouro de microagulhamento facial, validado por múltiplos ensaios clínicos independentes que testem profundidade, intervalo e número de sessões de forma unificada. O que existe é uma convergência aproximada entre um punhado de estudos isolados, cada um usando seu próprio protocolo. Isso não invalida os números — só muda o que eles significam. Vamos rastrear a origem de cada um.
Os números de profundidade, intervalo e sessões vêm majoritariamente de estudos abertos, com amostras pequenas (14 a 48 participantes) e sem padronização entre grupos de pesquisa. É evidência real e publicada — mas de força C: suficiente para orientar a lógica clínica, insuficiente para travar um número universal.
A pergunta mais direta que se pode fazer sobre profundidade — “mais fundo entrega mais resultado?” — tem uma resposta real, mas de uma fonte só. El-Domyati et al. (2024) conduziram um estudo split-face (o desenho mais rigoroso para essa comparação, porque usa o mesmo paciente como seu próprio controle): 14 pessoas com cicatriz atrófica de acne, tratadas com Dermapen em 6 sessões a cada 2 semanas, receberam 2,5 mm de profundidade de um lado do rosto e 1,5 mm do outro. O resultado: o lado tratado a 2,5 mm teve melhora significativamente maior que o lado tratado a 1,5 mm (p = 0,02). É a evidência mais direta disponível de que profundidade importa — mas note: é um único estudo, com 14 pessoas, olhando cicatriz de acne especificamente. Não é a mesma coisa que dizer “2,5 mm é o correto para qualquer indicação”.
Como ler este gráfico: El-Domyati et al., 2024 — split-face, N=14, 6 sessões a cada 2 semanas com Dermapen em cicatriz de acne. O resumo do estudo reporta significância estatística (p=0,02) da diferença entre os lados, mas não publica a magnitude numérica exata da melhora em cada hemiface — as barras acima ordenam o resultado qualitativo (maior × menor), não medem uma grandeza precisa.
Se profundidade importa, a pergunta seguinte é: profundidade igual em todo o rosto? Não, segundo o estudo mais citado sobre a distribuição regional. Ablon (2018) tratou 48 pessoas, em 4 sessões a cada 30 dias, com um dispositivo automatizado de microagulhamento, ajustando a profundidade conforme a região tratada: de 0,5 a 0,8 mm na região dos olhos (a pele mais fina do rosto), 0,7 a 1,0 mm no lábio superior, 0,7 a 1,3 mm em testa, queixo e mandíbula, e até 1,5 mm na bochecha (a área de pele mais espessa). A lógica por trás não é arbitrária: quanto mais espessa a derme da região, maior a profundidade usada no protocolo — mas, de novo, isto vem de um estudo aberto, sem grupo controle, então descreve “o que um grupo de pesquisa usou”, não “o que foi comparativamente provado como ideal” para cada região.
A literatura consultada para esta apostila descreve com mais consistência profundidade, intervalo e nº de sessões do que o número de passadas do aparelho sobre cada área — esse parâmetro aparece de forma menos padronizada entre os estudos, e costuma ser ajustado pelo profissional conforme o dispositivo, a resposta da pele durante o procedimento e o objetivo do tratamento, não por uma contagem fixa publicada como regra geral.
A profundidade também depende do tipo de cicatriz, não só da região. Tam et al. (2022), numa revisão sobre tratamentos não energéticos de cicatriz de acne, descrevem o uso de agulhas de até 2,0 mm — mais profundas que o padrão de 1,5 mm — especificamente para cicatrizes em “ice pick” (as mais estreitas e profundas). Mesmo com a agulha mais funda, a melhora relatada foi “levemente significativa” — muito aquém da resposta observada em cicatrizes do tipo “rolamento” (rolling), que respondem melhor ao agulhamento isolado. A leitura honesta: aumentar a profundidade não compensa totalmente uma cicatriz estruturalmente mais resistente à técnica.
Achar que existe UM número certo de profundidade e UM número certo de sessões para “o microagulhamento” — como se fosse uma receita fixa, igual para qualquer rosto e qualquer queixa.
Os próprios estudos usados nesta apostila mostram o oposto: a profundidade muda por região (0,5 a 1,5 mm, conforme Ablon 2018), muda por tipo de cicatriz (até 2,0 mm para “ice pick”, segundo Tam et al. 2022) e o intervalo entre sessões varia de 2 semanas (El-Domyati et al., 2024) a 30 dias (Ablon, 2018) ou mensal (Dogra et al., 2014) dependendo do desenho do estudo e do objetivo clínico. Tratar qualquer um desses números como universal é ignorar que cada um nasceu de um contexto de pesquisa específico.
O certo: tratar profundidade, intervalo e nº de sessões como parâmetros clínicos individualizados, ajustados por quem avalia a pele, a queixa e a resposta ao longo do tratamento — não como uma tabela fixa a ser seguida à risca.
Um dos protocolos mais citados na prática é “5 sessões, uma por mês”. Ele vem, em boa parte, de Dogra, Yadav e Sarangal (2014): 30 pacientes com cicatriz de acne e fototipo IV-V (pele mais pigmentada) completaram 5 sessões mensais com dermaroller, e o escore de cicatriz caiu de 11,73 para 6,5 ao final — “boa resposta” em 22 pacientes e “excelente resposta” em 4. É um resultado real e relevante, mas o resumo do estudo consultado não detalha uma profundidade única padronizada como o dado central do desenho — o achado que ele sustenta com mais força é o de intervalo mensal e 5 sessões, não um número exato de milímetros. Comparar isso ao protocolo de El-Domyati et al. (2024) — 6 sessões a cada 2 semanas — já mostra que “quantas sessões” e “com que intervalo” também variam conforme o objetivo e a população de cada estudo.
| Estudo | Amostra | Profundidade | Sessões / intervalo | O que sustenta |
|---|---|---|---|---|
| El-Domyati et al., 2024 | N=14, split-face | 2,5 mm x 1,5 mm (comparado) | 6 sessões / 2 semanas | 2,5 mm superou 1,5 mm (p=0,02) |
| Ablon, 2018 | N=48, sem controle | 0,5–1,5 mm, por região | 4 sessões / 30 dias | Base do protocolo “por zona do rosto” |
| Dogra et al., 2014 | N=30, fototipo IV-V | Não padronizada no resumo consultado | 5 sessões mensais | Base do protocolo “mensal, 5 sessões” |
| Tam et al., 2022 (revisão) | Revisão de múltiplos estudos | Até 2,0 mm em “ice pick” | Variável entre os estudos revisados | Cicatriz “ice pick” responde pouco mesmo com agulha mais funda |
Ela não diz “o protocolo certo é X”. Diz que quatro grupos de pesquisa, em quatro desenhos diferentes, chegaram a números próximos, mas não idênticos, de profundidade e intervalo. Essa convergência aproximada — não uma validação cruzada formal — é hoje o melhor nível de evidência disponível sobre parâmetros de protocolo em microagulhamento facial. Isso é força C, e é honesto dizer isso.
Se eu tivesse que resumir este tema numa frase, seria esta: os números de profundidade e sessão que circulam sobre microagulhamento facial são âncoras de estudos reais, não uma lei clínica única. O split-face de El-Domyati mostra que profundidade importa; Ablon mostra que ela muda por região; Tam mostra que o tipo de cicatriz também pesa; Dogra mostra que “mensal, 5 sessões” é um desenho válido, mas não o único. Juntar essas quatro peças com honestidade é mais útil do que fingir que existe uma tabela definitiva — porque é exatamente essa variação, olhada caso a caso, que orienta a decisão do profissional que avalia cada pele.
- Não existe protocolo-padrão-ouro validado por múltiplos RCTs independentes para profundidade, intervalo e sessões — existe convergência aproximada entre estudos isolados (força C).
- Profundidade importa: no único comparativo split-face direto, 2,5 mm superou 1,5 mm no mesmo rosto (p=0,02) (El-Domyati et al., 2024).
- Profundidade muda por região: 0,5–0,8 mm nos olhos até 1,5 mm na bochecha, num único estudo aberto (Ablon, 2018).
- Tipo de cicatriz também pesa: até 2,0 mm em “ice pick” trouxe melhora só “levemente significativa” (Tam et al., 2022).
- “5 sessões mensais” vem de um estudo real (Dogra et al., 2014, N=30, fototipo IV-V), não de um consenso formal.
- Intervalo entre sessões variou de 2 semanas a 30 dias/mensal entre os estudos citados — não é um número fixo.
- Quem decide o protocolo do seu caso é o profissional biomédico habilitado, após avaliação individual — não uma tabela genérica.
Profundidade e sessões variam — mas será que também variam com segurança conforme o tom de pele? A próxima apostila desta série examina o que a evidência mostra sobre microagulhamento em pele parda e negra (Fitzpatrick IV a VI), e por que essa é uma das indicações mais bem sustentadas da técnica. Leve estas informações à avaliação individual: quem define profundidade, intervalo e número de sessões para o seu caso é o profissional biomédico habilitado.
- El-Domyati M, Moftah NH, Ahmed AM, Ibrahim MR. Evaluation of microneedling depth of penetration in management of atrophic acne scars: a split-face comparative study. Int J Dermatol, 2024;63(5):632–638 — split-face, N=14, 6 sessões/2 semanas; 2,5 mm superou 1,5 mm (p=0,02).
- Ablon G. Safety and Effectiveness of an Automated Microneedling Device in Improving the Signs of Aging Skin. J Clin Aesthet Dermatol, 2018;11(8):29–34 — N=48, sem controle, 4 sessões/30 dias; profundidade por região: 0,5–1,5 mm.
- Dogra S, Yadav S, Sarangal R. Microneedling for acne scars in Asian skin type: an effective low cost treatment modality. J Cosmet Dermatol, 2014;13(3):180–187 — N=30, fototipo IV-V, 5 sessões mensais; escore de cicatriz de 11,73 para 6,5.
- Tam C, Khong J, Tam K, Vasilev R, Wu W, Hazany S. A Comprehensive Review of Non-Energy-Based Treatments for Atrophic Acne Scarring. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2022;15:455–469 — agulhas de até 2,0 mm em cicatriz “ice pick”; melhora levemente significativa.
- Li H, Jia B, Zhang X. Comparing the efficacy and safety of microneedling and its combination with other treatments in patients with acne scars: a network meta-analysis of randomized controlled trials. Arch Dermatol Res, 2024;316(8):505 — 24 RCTs, 1.546 pacientes; monoterapia eficaz, com teto de resultado frente a combinações.
- Sitohang IBS, Sirait SAP, Suryanegara J. Microneedling in the treatment of atrophic scars: A systematic review of randomised controlled trials. Int Wound J, 2021;18(5):577–585 — 9 RCTs; os próprios autores pedem amostras maiores e seguimento mais longo para validar protocolos.
