Apostila 4 · Preenchimento com Ácido Hialurônico × Olheiras · Estudo

Para quem é indicado o preenchimento nas olheiras — e quando a causa é outra

“Ter olheira” não foi o critério que nenhum RCT usou. Os ensaios pivotais desta série recrutaram um perfil bem mais estreito: hollowing infraorbital MODERADO A GRAVE, medido por escala validada, com causa reconhecida de perda de volume. A olheira que você vê no espelho pode ter uma entre seis origens diferentes — e só uma delas é a que o preenchimento, de fato, testou.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Preenchimento com ácido hialurônico na região infraorbital (tear trough/olheira) é um PROCEDIMENTO INJETÁVEL — ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve as causas anatômicas de olheira e o perfil que os estudos clínicos usaram como critério de entrada, nunca um diagnóstico, uma indicação fechada ou uma promessa de resultado para o seu caso específico. Qual é a causa real da sua olheira, e qual conduta é adequada, é decisão da avaliação individual com profissional habilitado.

Na apostila 1 desta série, apresentamos o mnemônico OCULAR (Lipp & Weiss, 2019): seis letras, seis causas anatômicas diferentes para o que a maioria das pessoas chama, genericamente, de “olheira”. Essa distinção não é só um detalhe acadêmico — ela é o que separa quem vai se beneficiar de um preenchimento de quem vai investir num procedimento que não resolve, e às vezes até piora, o que incomoda no espelho.

Quando fui olhar os critérios de entrada dos ensaios clínicos que sustentam a eficácia desta série (apostila 2), o achado foi mais estreito do que qualquer lista de “quem pode fazer”: os RCTs pivotais recrutaram especificamente hollowing infraorbital moderado a grave, avaliado por escala validada — não “qualquer olheira”. Esta apostila retoma o OCULAR, cruza com o perfil real dos estudos e separa quem é bom candidato de quem tem uma causa que o preenchimento, isoladamente, não resolve.

OCULAR: seis causas, uma resposta possível

O mnemônico proposto por Lipp & Weiss (2019) organiza a olheira em seis componentes que podem existir isolados ou, mais comumente, combinados no mesmo rosto. Só um deles — o componente ósseo/volumétrico — é o que os RCTs pivotais desta série (Biesman 2024; Fabi 2021; Yu 2026) mediram diretamente como respondendo ao preenchimento.

OCULARO que é, na práticaResponde a preenchimento?
O — Osseous (óssea) Retração do rebordo orbital e perda de suporte da maxila/gordura profunda com a idade — o sulco aparece por deficiência estrutural, não por excesso de nada. Sim — alvo primário testado nos RCTs
C — Color (pigmento) Hipercromia por melanina, vasos superficiais visíveis através de pele fina e translúcida sobre o músculo orbicular. Não — preenchimento não clareia pigmento
U — Underlying muscle-fat (músculo-gordura subjacente) Hipertrofia do músculo orbicular do olho, “malar mound” ou deslocamento do coxim gorduroso pré-septal. Parcial — depende de qual componente predomina
L — Laxity (frouxidão) Frouxidão e redundância de pele/tecido conjuntivo da pálpebra inferior, típica do envelhecimento cutâneo avançado. Não — preenchimento não estica pele frouxa
A — Adipose (bolsa adiposa) Herniação do coxim gorduroso orbital — a “bolsa” que se projeta para frente, criando contraste com o sulco ao lado. Não — pode acentuar o contraste (tema da apostila 9)
R — Rhytides (rugas finas) Rugas finas estáticas ou dinâmicas na pele periorbital, superficiais à camada que o preenchimento profundo trata. Parcial — resposta limitada; tratamento primário costuma ser outro
O perfil que os RCTs pivotais realmente recrutaram

Os dois maiores ensaios desta série não testaram “olheira” de forma genérica. Biesman et al. (2024, N=333, multicêntrico, avaliador-cego) selecionou participantes com hollowing infraorbital classificado pela Global Aesthetic Improvement Scale para hollow (GIHS), com resposta de 87,4% em 3 meses versus 17,7% no grupo controle não tratado. Fabi et al. (2021, N=138) usou a Allergan Infraorbital Hollow Scale (AIHS), com 83,1% de resposta em 3 meses. Yu et al. (2026, N=160, adultos chineses) replicou o desenho com a mesma escala AIHS e obteve 94,6% de resposta — reforçando que o efeito é consistente quando o critério de entrada é hollowing volumétrico moderado a grave, não quando o critério é “a pessoa se acha com olheira”.

Bom candidato
Predomínio do componente Osseous
Hollowing por perda de volume/suporte ósseo, moderado a grave em escala validada (GIHS/AIHS), sulco simétrico, sem grande componente de pigmento, bolsa ou frouxidão associado.
Perfil testado diretamente nos RCTs pivotaisBiesman 2024 · Fabi 2021 · Yu 2026
Candidato duvidoso
Predomínio de Color, Adipose ou Laxity
Pigmento escuro marcante, bolsa de gordura herniada visível ou frouxidão de pele acentuada como causa principal — o componente que mais incomoda não é o que o preenchimento trata.
Resposta ao preenchimento medida nos mesmos RCTsNão avaliada isoladamente
Como um critério de gravidade validado virou, no imaginário comum, “toda olheira responde a preenchimento”
Nenhuma das três etapas abaixo é um estudo comparando quem se beneficia mais ou menos
Critério de entrada do RCThollowing moderado a grave por GIHS/AIHS, causa volumétrica reconhecida (Biesman 2024; Fabi 2021; Yu 2026)
Leitura comum“tenho olheira” é lido como “tenho indicação comprovada de preenchimento”
A lacuna realpigmento, bolsa herniada e frouxidão: causas não testadas nesses RCTs, resposta não comprovada ou pode piorar
Por que isso importa: o critério de entrada de um RCT serve para medir eficácia num grupo bem definido — não para provar que o mesmo efeito ocorre em qualquer olheira, seja qual for a causa por trás dela.
Um erro muito comum

Achar que “ter olheira” já é, por si só, indicação de preenchimento — sem diagnosticar qual das seis causas do OCULAR está por trás dela.

A indicação que a evidência sustenta com solidez não é “eu tenho olheira”: é ter hollowing por perda de volume/suporte ósseo, moderado a grave numa escala validada, o mesmo perfil recrutado pelos RCTs que mostraram melhora consistente e sustentada por meses (apostila 2). Quando a causa predominante é pigmento, bolsa herniada ou frouxidão de pele, o preenchimento isolado não resolve o que incomoda — e em alguns casos pode até acentuar o contraste visual.

O certo: tratar o diagnóstico da causa como o primeiro passo da conversa sobre indicação — não “eu tenho a olheira, então é pra mim”. Quem identifica qual componente do OCULAR predomina no seu caso e decide a conduta é o profissional habilitado, em avaliação individual.

Fato × debate — o que a evidência realmente sustenta sobre “para quem”
Fato — bem estabelecido
Hollowing moderado a grave, causa volumétrica

É o critério de entrada convergente entre múltiplos RCTs multicêntricos (Biesman 2024, N=333; Fabi 2021, N=138; Yu 2026, N=160) e é onde a eficácia (apostila 2) foi medida diretamente por escalas validadas (GIHS/AIHS). Força de evidência A/B.

Debate / lacuna real
Casos mistos e componentes não-Osseous

Nenhum RCT pivotal desta série isolou a resposta em rostos com hollowing leve, ou com Osseous combinado a bolsa/pigmento/frouxidão significativos. A expectativa nesses perfis é inferência a partir do framework OCULAR (Lipp & Weiss, 2019), não medição direta. Força de evidência C.

Mesmo no bom candidato, calibre a expectativa

Uma revisão sistemática de 28 estudos e quase 2 mil pacientes (Gorbea et al., 2021) mostrou que a satisfação com preenchimento de tear trough é alta no curto prazo (84,4%), mas cai para 76,7% no longo prazo — mesmo entre bons candidatos. Ser o perfil certo aumenta a chance de resposta; não elimina a variação natural de durabilidade e percepção ao longo do tempo.

A Sacada dos Doutores“Para quem” não é uma pergunta sobre ter olheira — é uma pergunta sobre qual causa está por trás dela

Quando cruzei o mnemônico OCULAR com os critérios de entrada dos RCTs pivotais desta série, o retrato ficou bem mais específico do que “quem tem olheira pode fazer”: é quem tem hollowing por perda de volume ou suporte ósseo, classificado como moderado a grave numa escala validada — o mesmo perfil de Biesman (2024), Fabi (2021) e Yu (2026). Um ponto que considero central nesta apostila: para as outras cinco causas do OCULAR — pigmento, hipertrofia muscular, frouxidão, bolsa herniada e rugas finas — o preenchimento isolado não é a resposta testada, e em alguns casos (bolsa herniada, especialmente) pode até acentuar o que incomoda, tema que aprofundamos na apostila 9. Diagnosticar a causa antes de decidir a conduta não é burocracia — é o que separa um resultado bem-sucedido de uma expectativa frustrada. Quem faz esse diagnóstico e decide o que é adequado para o seu caso é sempre o profissional habilitado, em avaliação individual.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Olheira não é um diagnóstico único: o mnemônico OCULAR (Lipp & Weiss, 2019) descreve seis causas anatômicas diferentes.
  • Só o componente Osseous/volumétrico é o alvo direto testado pelos RCTs pivotais de preenchimento (Biesman 2024; Fabi 2021; Yu 2026).
  • Os RCTs recrutaram hollowing moderado a grave avaliado por escala validada (GIHS/AIHS) — não “qualquer olheira”.
  • Pigmento (Color) não responde a preenchimento — a coloração escura tem outra origem e outro tratamento.
  • Frouxidão de pele (Laxity) não é resolvida por volume — preenchimento não estica pele frouxa.
  • Bolsa de gordura herniada (Adipose) pode piorar visualmente com preenchimento mal-indicado, ao aumentar o contraste com o sulco.
  • Diagnosticar a causa predominante, não só notar que “tem olheira”, é o primeiro passo — e cabe ao profissional habilitado, em avaliação individual.
O próximo passo

Se a indicação depende de identificar a causa certa, a pergunta seguinte que mais aparece em consultório é sobre combinar ferramentas: o preenchimento na região infraorbital combina com outros procedimentos para tratar as causas que ele sozinho não resolve? A próxima apostila da série detalha o que a evidência apoia — e o que ainda é extrapolação. Leve estas informações à avaliação individual: quem diagnostica a causa do seu caso e indica a conduta certa é o profissional habilitado.

Referências
  1. Lipp M, Weiss E. Nonsurgical Treatments for Infraorbital Rejuvenation: A Review. Dermatol Surg, 2019;45(5):700-710 — propõe o mnemônico OCULAR (Osseous/Color/Underlying muscle-fat/Laxity/Adipose/Rhytides) usado como estrutura central desta apostila.
  2. Biesman BS, et al. A Multicenter, Randomized, Evaluator-Blinded Study to Examine the Safety and Effectiveness of Hyaluronic Acid Filler in the Correction of Infraorbital Hollows. Aesthetic Surg J, 2024;44(9):1001-1013 — RCT N=333, critério de entrada por escala GIHS, hollowing moderado a grave, 87,4% de resposta em 3 meses.
  3. Fabi SG, et al. Prospective, Multicenter, Single-Blind, Randomized, Controlled Study of VYC-15L, a Hyaluronic Acid Filler, in Adults for Correction of Infraorbital Hollowing. Aesthetic Surg J, 2021;41(11):NP1675-NP1685 — RCT N=138, critério de entrada por escala AIHS, 83,1% de resposta em 3 meses.
  4. Yu N, et al. Improved Infraorbital Hollowing in Chinese Adults Following Hyaluronic Acid-based Filler With Lidocaine (VYC-15L) Treatment. Aesthetic Surg J, 2026;46(5):555- — RCT N=160, mesma escala AIHS, 94,6% de resposta, reforça a especificidade do critério de gravidade em outra população.
  5. Gorbea E, Kidwai S, Rosenberg J. Nonsurgical Tear Trough Volumization: A Systematic Review of Patient Satisfaction. Aesthetic Surg J, 2021;41(8):NP1053-NP1060 — revisão de 28 estudos, N=1956, satisfação de 84,4% no curto prazo caindo para 76,7% no longo prazo, mesmo entre bons candidatos.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação fechada nem promessa de resultado. Preenchimento com ácido hialurônico na região infraorbital é procedimento injetável, realizado por profissional habilitado. As causas anatômicas e os critérios de gravidade citados descrevem o desenho dos estudos, não uma recomendação individual. A causa da sua olheira e a conduta adequada dependem de avaliação individual do caso.