O protocolo do PRP: por que não existe um só
“Quantas sessões? De quanto em quanto tempo?” A resposta honesta é que a ciência não fixou um número. Os estudos que provaram o PRP usaram esquemas diferentes entre si — de 3 sessões mensais a 3 sessões a cada 21 dias com reforço meio ano depois. Esta apostila mostra esse leque e explica por que não existe “o” protocolo — só o que cada estudo testou, e o que o profissional decide para cada caso.
O PRP capilar é um PROCEDIMENTO realizado por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é protocolo de tratamento, passo a passo de sessões nem recomendação para você seguir. O número de sessões, os intervalos, o preparo e a concentração citados aqui descrevem o que os estudos usaram, como informação científica — nunca como orientação de aplicação. Quem define e ajusta quantas sessões, com que intervalo e com que preparo é o profissional, após avaliação individual. A queda de cabelo tem várias causas — não faça procedimento por conta própria.
Talvez você tenha procurado “o protocolo do PRP para cabelo” esperando uma receita fechada: tantas sessões, tantos dias de intervalo, pronto. É a pergunta certa — mas a resposta que a literatura dá é desconfortável para quem gosta de fórmula: não existe um protocolo padrão-ouro.
Que o PRP tenha efeito é assunto de outra apostila desta série (a apostila 2, “funciona mesmo?”). Aqui a pergunta é a seguinte: com qual esquema? E é justamente aí que os estudos se separam — cada bom ensaio usou um desenho de sessões diferente, e nenhum deles é “o oficial”. Vamos abrir esse leque com os números de cada estudo, sem esconder a bagunça.
O ponto de partida honesto é este: os dois estudos mais citados sobre “como aplicar” chegaram a resultados positivos com calendários diferentes. Alves & Grimalt (2016) usou 3 sessões, uma por mês, e avaliou o resultado aos 6 meses. Já Gkini (2014) usou 3 sessões a cada 21 dias e ainda acrescentou 1 reforço aos 6 meses. Mesmo alvo, mesma técnica geral — e dois cronogramas que não batem. Quando dois estudos sérios divergem no calendário e ambos funcionam, é sinal de que “o número certo de sessões” ainda não foi estabelecido pela ciência.
O desenho que mais aparece como referência é o de Alves & Grimalt (2016): um ensaio randomizado, duplo-cego e half-head com 25 pacientes, em que cada pessoa recebeu PRP de um lado da cabeça e controle do outro. O protocolo foi 3 sessões mensais, com avaliação aos 6 meses. O lado tratado teve densidade e proporção de fios em anágeno maiores que o lado controle (p<0,05), e os próprios autores classificaram o PRP como “terapia adjuvante”. É o esquema que muita gente chama de “clássico” — mas repare: ele é um dos protocolos da literatura, não “o protocolo”.
Do outro lado do leque está Gkini (2014), uma coorte prospectiva de 1 ano com 20 pacientes. O esquema foi 3 sessões a cada 21 dias (preparo por centrifugação única, com ativação) seguidas de 1 sessão de reforço aos 6 meses. A densidade capilar teve pico aos 3 meses (170,7 fios/cm²) e se manteve elevada aos 6 e aos 12 meses. Ou seja: intervalo mais curto entre as sessões iniciais, um reforço planejado no meio do caminho — e resultado sustentado ao longo do ano. Um cronograma legítimo, e completamente diferente do “mensal ×3”.
Quando esta apostila diz “3 sessões mensais” ou “a cada 21 dias”, está descrevendo o que cada ensaio fez — informação de estudo, não um roteiro para você seguir. O preparo em si (centrifugação única ou dupla, com ou sem ativação) varia tanto que ganhou uma apostila só para ele nesta série (a apostila 8, sobre os preparos e a heterogeneidade). Aqui o foco é sessões e intervalo.
Aqui está o dado mais interessante — e mais inconveniente para o marketing. Rodrigues (2019), um RCT duplo-cego com 26 pacientes, encontrou benefício real do PRP (aumento de contagem de fios, p=0,0016; densidade, p=0,012; e percentual de anágenos, p=0,007) — mas sem nenhuma correlação entre esse resultado e o número de plaquetas ou o nível de fatores de crescimento medidos no preparo. Traduzindo: naquele estudo, “mais plaqueta” e “mais fator de crescimento” não significaram “mais resultado”. Isso mina a lógica de que existiria uma “concentração ideal” a ser perseguida — e ajuda a explicar por que não há consenso sobre dose, intervalo ou preparo. Se nem a concentração prevê o efeito, dificilmente haveria uma fórmula única para copiar.
A “manutenção” não é invenção comercial — ela aparece nos estudos por um motivo concreto: o efeito tende a decair. No RCT de Gentile (2015), com acompanhamento de 12 meses, 4 de 20 pacientes recidivaram no período e precisaram ser retratados. É por isso que esquemas como o de Gkini já embutem um reforço aos 6 meses, e por que o PRP é descrito como tratamento de manutenção, não de “uma vez e resolveu”. A necessidade de reforços é uma característica do procedimento, documentada — não um upsell.
| Estudo | Sessões de indução | Intervalo | Detalhe do protocolo |
|---|---|---|---|
| Alves & Grimalt, 2016 | 3 sessões | mensal (30 dias) | RCT duplo-cego, half-head, 25 pacientes; avaliação aos 6 meses; sem reforço no protocolo |
| Gkini, 2014 | 3 sessões | a cada 21 dias | Coorte, 20 pacientes; centrifugação única + ativação; + 1 reforço aos 6 meses; pico aos 3 meses (170,7 fios/cm²) |
| Rodrigues, 2019 | protocolo próprio — o foco foi outro | RCT duplo-cego, 26 pacientes; benefício sem correlação com nº de plaquetas nem fatores de crescimento | |
| O que isso mostra | Dois esquemas diferentes, ambos funcionando — e nenhum é “o oficial”. Quem escolhe é o profissional. | ||
Pegar o número de sessões de um estudo (ou de um vídeo na internet) e tratá-lo como “o protocolo certo” para qualquer pessoa.
Como os próprios ensaios mostram, o mesmo objetivo foi atingido com calendários diferentes — e o preparo, a concentração e a ativação também mudam de estudo para estudo (a apostila 8 abre isso). Copiar “3 sessões mensais” como regra fixa ignora que aquele número veio de um estudo, num grupo específico, com um preparo específico — e que a resposta de cada folículo é individual.
O certo: tratar número de sessões, intervalo e preparo como decisão clínica individual, definida pelo profissional que avaliou o seu caso — não como receita pronta.
Não é desorganização da clínica: é o estado da ciência. A meta-análise só de RCTs mais recente (Kieling, 2024), com 13 estudos e 431 pacientes, mediu uma heterogeneidade de protocolo altíssima — I² = 95,99% para densidade — e classificou a qualidade geral da evidência como baixa. Ou seja: os estudos divergem tanto no “como fazer” que a própria estatística grita que não dá para cravar um esquema único. Admitir isso é mais sério do que inventar um “protocolo oficial da casa”.
Quando alguém te promete “o protocolo do PRP”, desconfie do singular. O que a literatura oferece é um leque de esquemas testados — 3 sessões mensais aqui, a cada 21 dias com reforço ali — todos com resultado, nenhum coroado como padrão-ouro. Some a isso o achado de Rodrigues (2019), de que nem a concentração de plaquetas previu o resultado, e fica claro por que não existe uma fórmula fechada. O que define quantas sessões, com que intervalo e com que preparo o seu caso pede é o profissional que avaliou o seu couro cabeludo — a partir dessas evidências, não de um número copiado.
- Não existe protocolo padrão-ouro: os estudos vão de 3 sessões mensais (Alves & Grimalt, 2016) a 3 a cada 21 dias + reforço aos 6 meses (Gkini, 2014).
- Ambos os esquemas funcionaram — e são diferentes; isso, por si, mostra que “o número certo de sessões” não foi fixado pela ciência.
- “Concentração ideal” não tem base: Rodrigues (2019) achou benefício sem correlação com nº de plaquetas nem com fatores de crescimento.
- O padrão que se repete é indução + manutenção — reforços aparecem porque o efeito decai (4 de 20 recidivaram em 12 meses; Gentile, 2015).
- A bagunça é medida: I² = 95,99% entre protocolos e qualidade de evidência baixa (Kieling, 2024) — por isso não há consenso.
- Quem define número, intervalo e preparo é o profissional, caso a caso — este material informa, não é protocolo para seguir.
Se a dúvida ainda for “mas funciona mesmo?“, essa é a apostila 2 desta série. Se for “por que os preparos e kits variam tanto?“, vá para a apostila 8, sobre os preparos e a heterogeneidade. E como a evidência mais forte é do PRP somado a outros tratamentos (sobretudo o minoxidil), as combinações são o tema da apostila 5. Leve estas leituras à consulta: quem monta o esquema para o seu caso é o profissional.
- Alves R, Grimalt R. Randomized Placebo-Controlled, Double-Blind, Half-Head Study to Assess the Efficacy of Platelet-Rich Plasma on the Treatment of Androgenetic Alopecia. Dermatol Surg, 2016;42(4):491–497 — protocolo de 3 sessões mensais, avaliação aos 6 meses; lado PRP superior ao controle (p<0,05); conclui “terapia adjuvante”.
- Gkini MA, Kouskoukis AE, Tripsianis G, Rigopoulos D, Kouskoukis K. Study of Platelet-Rich Plasma Injections in the Treatment of Androgenetic Alopecia Through an One-Year Period. J Cutan Aesthet Surg, 2014;7(4):213–219 — 3 sessões a cada 21 dias + reforço aos 6 meses; pico de densidade aos 3 meses (170,7 fios/cm²), mantido aos 6 e 12 meses.
- Rodrigues BL, Montalvão SAL, Cancela RBB, et al. Treatment of male pattern alopecia with platelet-rich plasma: A double-blind controlled study with analysis of platelet number and growth factor levels. J Am Acad Dermatol, 2019;80(3):694–700 — benefício significativo (contagem de fios p=0,0016; densidade p=0,012; anágenos p=0,007) sem correlação com nº de plaquetas nem fatores de crescimento.
- Alexander S, Horo I, Johnson S, Daniel S. Platelet-rich plasma in hair loss—Mechanism, preparation, and classification. J Cosmet Dermatol, 2022;21(3):970–978 — sistematiza os métodos de preparo (centrifugação única/dupla, ativação) e a classificação do PRP: a raiz da variação de protocolo.
- Gentile P, Garcovich S, Bielli A, Scioli MG, Orlandi A, Cervelli V. The Effect of Platelet-Rich Plasma in Hair Regrowth: A Randomized Placebo-Controlled Trial. Stem Cells Transl Med, 2015;4(11):1317–1323 — acompanhamento de 12 meses; 4 de 20 pacientes recidivaram e precisaram retratar (base do argumento de manutenção/reforço).
- Kieling L, Konzen AT, Zanella RK, Valente DS. Is autologous platelet-rich plasma capable of increasing hair density in patients with androgenic alopecia? A systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. An Bras Dermatol, 2024;99(6):847–862 — 13 RCTs, 431 pacientes; heterogeneidade I²=95,99% para densidade e qualidade da evidência classificada como baixa.