Quanto dura de verdade: o número do estudo x o número do anúncio
“Dura seis meses.” Você já ouviu isso sobre a toxina, sobre o preenchimento e sobre o bioestimulador — três coisas com durações completamente diferentes. Esta apostila abre os números que foram efetivamente medidos em ensaio clínico, e mostra de onde vem a distância entre eles e o que se promete no balcão.
A toxina botulínica é um MEDICAMENTO, e os demais procedimentos citados exigem avaliação profissional. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de uso, prescrição, receita nem passo a passo de aplicação. As doses citadas aqui aparecem porque os estudos as usaram e porque a duração depende delas — nunca como recomendação de dose para você. Dose maior não é “melhor”: é outra relação entre duração, custo e efeito na expressão. Quem indica, prescreve e aplica é o profissional habilitado.
Repare numa coisa estranha que acontece toda vez que se fala de duração em estética: o mesmo número — seis meses — é usado para descrever procedimentos que, medidos em ensaio clínico, não têm nada a ver um com o outro. Um deles dura cerca de quatro meses. O outro ainda estava fazendo efeito no mês doze. O terceiro seguia medindo melhora depois de dois anos.
Não é que alguém esteja necessariamente mentindo. É que “quanto dura” é uma pergunta com pelo menos três respostas diferentes, dependendo de como se mede: até o efeito sumir por completo, até voltar ao estado inicial, ou até o paciente achar que já está na hora de repetir. Estudos sérios escolhem um critério e declaram qual é. Anúncio, não.
Comecemos pelo mais comum. Na dose padrão de 20 unidades na glabela, a meta-análise que reuniu quatro ensaios e 621 pacientes encontrou duração mediana de 120 dias avaliando a linha em contração máxima e 131 dias avaliando em repouso (Glogau e colaboradores, 2012). Cerca de quatro meses, portanto — não seis.
Agora o dado que quase nunca chega ao paciente. Um ensaio randomizado com 226 participantes comparou 20, 40, 60 e 80 unidades na mesma região. A duração mediana de resposta foi de 19,7 semanas com 20 unidades e de pelo menos 24 semanas com 40, 60 e 80 unidades, com diferença estatisticamente significativa em relação à dose padrão (Joseph e colaboradores, 2022). Traduzindo: cerca de quatro meses e meio contra cinco meses e meio ou mais.
Ou seja: o “seis meses” do anúncio não é invenção pura — existe faixa de dose em que a duração se aproxima disso. O que o anúncio omite é que esse ganho de tempo vem com mais produto, mais custo e mais risco de expressão apagada. Não é o mesmo procedimento por mais tempo; é um procedimento diferente. A série “Quantas unidades é demais” trata desse outro lado da conta.
No preenchimento, a variável que mais muda o resultado não é o tempo — é onde foi aplicado e com qual produto. Um estudo prospectivo de face dividida com 40 participantes acompanhou três formulações de ácido hialurônico em sulco nasogeniano por doze meses. A gravidade média do sulco partiu de 2,3 antes do tratamento e estava em 1,5 e 1,6 no mês 12, dependendo do par comparado — e as três formulações entregaram resultados essencialmente equivalentes entre si (Prager e colaboradores, 2012).
Duas leituras honestas saem daí. A primeira: aos doze meses ainda havia correção mensurável — o preenchimento realmente atravessa o ano, ao contrário da toxina. A segunda: ele não voltou ao zero da escala. Correção mantida não é o mesmo que resultado intacto, e essa distinção é exatamente onde nasce a frustração de quem esperava que o mês 12 fosse igual ao mês 1.
Aqui a confusão é de outro tipo. Uma revisão sistemática sobre ácido poli-L-láctico em estética facial descreve melhora sustentada por pelo menos 25 meses em parte dos estudos analisados (revisão sistemática, 2024). É, de longe, a maior duração das três categorias.
Só que “durar 25 meses” e “aparecer rápido” são coisas opostas nesse caso. O bioestimulador não entrega volume no dia da aplicação — ele depende de o seu próprio corpo produzir colágeno novo, o que leva semanas a meses e costuma exigir mais de uma sessão. Quem aplica esperando ver diferença na saída da clínica vai achar que não funcionou, exatamente no momento em que ele ainda nem começou a trabalhar. É o procedimento que mais precisa de calendário e o que mais é vendido sem calendário nenhum.
Comparar a duração de dois procedimentos como se os dois números tivessem sido medidos da mesma forma.
Um estudo mede “tempo até a ruga voltar ao valor inicial em contração máxima”. Outro mede “proporção de pacientes que ainda apresenta melhora em relação ao basal”. Um terceiro mede satisfação relatada. Os três podem falar do mesmo procedimento e produzir números bem diferentes — sem que nenhum esteja errado.
Quando alguém coloca lado a lado “toxina: 4 meses” e “preenchedor: 12 meses” como se fosse uma corrida entre os dois, está comparando régua com balança. São medidas de coisas diferentes, em tecidos diferentes, com desfechos diferentes.
O certo: usar a duração para montar o calendário — quando cada coisa precisa ser reavaliada — e não como critério de qual procedimento é “melhor”. Eles não competem entre si; ocupam funções diferentes no ano.
| Procedimento | O que foi medido | Fonte |
|---|---|---|
| Toxina · 20 U | Mediana de 120 dias (contração máxima) e 131 dias (repouso) | Glogau, 2012 — 4 ensaios, 621 pacientes |
| Toxina · 20 U (outro ensaio) | Mediana de resposta de 19,7 semanas | Joseph, 2022 — n=226 |
| Toxina · 40–80 U | ≥24,0 semanas; diferença significativa vs 20 U | Joseph, 2022 — n=226 |
| Ácido hialurônico | Gravidade do sulco de 2,3 para 1,5–1,6 aos 12 meses | Prager, 2012 — n=40, face dividida |
| Bioestimulador (PLLA) | Melhora sustentada ≥25 meses em parte dos estudos | Revisão sistemática, 2024 |
| Quem define dose e produto | O profissional habilitado, após avaliação individual | |
As unidades aparecem nesta apostila por um motivo específico: sem elas, o número de duração não significa nada. Dizer “a toxina dura X” sem dizer com qual dose é uma frase incompleta. Isso não é, e não deve ser lido como, uma sugestão de dose para o seu caso — a decisão sobre quantidade envolve a sua anatomia, o seu objetivo de expressão e o seu orçamento, e é do profissional que avalia você.
Existe uma suposição silenciosa em toda essa conversa: a de que mais duração é sempre melhor. Nem sempre é. Na primeira aplicação de toxina, por exemplo, uma duração mais curta é uma proteção — se o resultado não agradar, ele passa mais rápido. Quem escolhe a opção mais duradoura logo de saída está também escolhendo conviver mais tempo com um resultado que ainda não sabe se vai gostar. Duração é uma variável a ser escolhida, não um placar a ser vencido.
Duração, sozinha, é um número solto. O que muda a sua vida é a data de reavaliação — e ela nem sempre coincide com o fim do efeito. Na toxina, reavaliar um pouco antes do efeito acabar por completo costuma manter o resultado mais uniforme do que deixar voltar ao zero e recomeçar. No bioestimulador, a reavaliação existe para checar se o colágeno respondeu, e ela acontece meses depois, não semanas. Sair da consulta com uma data em vez de um adjetivo é o que separa um plano de uma expectativa. Essa data, no seu caso, é definida pelo profissional habilitado que avalia você presencialmente.
- “Quanto dura” tem mais de uma resposta — depende do critério de medida que o estudo escolheu.
- Toxina 20 U: mediana de 120 dias em contração máxima e 131 dias em repouso (Glogau, 2012); 19,7 semanas em outro ensaio (Joseph, 2022).
- Toxina 40–80 U: pelo menos 24 semanas, com diferença significativa em relação a 20 U — ao custo de mais produto e mais risco de expressão apagada (Joseph, 2022).
- Ácido hialurônico: gravidade do sulco de 2,3 para 1,5–1,6 aos 12 meses — correção mantida não é resultado intacto (Prager, 2012).
- Bioestimulador: o mais longo (≥25 meses em parte dos estudos) e o mais lento a aparecer — depende do seu colágeno.
- Não compare durações entre procedimentos como se fossem uma corrida: são medidas diferentes, de tecidos diferentes.
- Durar mais nem sempre é melhor — principalmente na primeira aplicação.
- É procedimento profissional: dose, produto e data de retorno são decisão de quem avalia você.
Com as durações na mão, falta a decisão que realmente monta o calendário: o que entra primeiro. Existe uma lógica para isso — e ela não é “o mais barato” nem “o mais rápido”. É o tema da apostila 3 desta série. Leve estas leituras à consulta: quem monta o plano do seu rosto é o profissional habilitado.
- Glogau R, Kane M, Beddingfield F, Somogyi C, Lei X, Caulkins C, Gallagher C. OnabotulinumtoxinA: a meta-analysis of duration of effect in the treatment of glabellar lines. Dermatol Surg, 2012;38(11):1794–1803 — 4 ensaios, 621 pacientes com 20 U; mediana de 120 dias em contração máxima e 131 dias em repouso.
- Joseph JH, Maas C, Palm MD, Lain E, Glaser DA, Bruce S, Yoelin S, Cox SE, Fagien S, Sangha S, Maltman J, Lei X, Brin MF. Safety, Pharmacodynamic Response, and Treatment Satisfaction With OnabotulinumtoxinA 40 U, 60 U, and 80 U in Subjects With Moderate to Severe Dynamic Glabellar Lines. Aesthet Surg J, 2022;42(11):1318–1327 — n=226; mediana de 19,7 semanas com 20 U e ≥24,0 semanas com 40, 60 e 80 U (P<0,05 vs 20 U).
- Prager W, Wissmueller E, Havermann I, Bee EK, Howell DJ, Zschocke I, Simon J. A prospective, split-face, randomized, comparative study of safety and 12-month longevity of three formulations of hyaluronic acid dermal filler for treatment of nasolabial folds. Dermatol Surg, 2012;38(7 Pt 2):1143–1150 — 40 participantes; gravidade do sulco de 2,3 para 1,5 e 1,6 aos 12 meses; três formulações essencialmente equivalentes.
- Efficacy and Safety of Poly-l-Lactic Acid in Facial Aesthetics: A Systematic Review. 2024 — melhora sustentada por pelo menos 25 meses em parte dos estudos analisados.