PDRN e polinucleotídeos para rugas finas, região periorbital, qualidade de pele e colo: o que a ciência mostra
Poucos insumos da estética injetável carregam um apelido tão eficiente quanto “DNA de salmão”. O nome vende sozinho — mas o mecanismo real é bem menos cinematográfico e, ao mesmo tempo, mais interessante: fragmentos de DNA que nunca entram no núcleo de nenhuma célula humana e que agem como sinal químico, não como material genético. Reunimos o que a literatura — em boa parte coreana, ainda concentrada em estudos abertos e amostras pequenas — já mediu sobre isso na região dos olhos, na pele em geral e no colo.
PDRN e polinucleotídeos (PN) são administrados por via injetável — um procedimento de prática clínica realizado por profissional habilitado, mediante avaliação individual da pele, do histórico de saúde e da expectativa de resultado. Este material é educativo: reúne o que os estudos publicados mostram sobre mecanismo de ação, desenho dos ensaios e força de evidência. Ele não substitui a avaliação profissional, não é indicação de marca, protocolo ou número de sessões específicos, e não esgota os critérios clínicos de elegibilidade para o procedimento. A força de evidência aqui é classificada como C — emergente: promissora, mas ainda não estabelecida em ensaios grandes e de longo prazo.
Todo ano surge um ativo que promete ser “a virada” da bioestimulação injetável. Nos últimos anos, foi a vez do PDRN — e o apelido popular, “DNA de salmão”, fez a fama correr rápido demais na frente do que a ciência já tinha, de fato, medido. O problema não é o ativo: é o hiato entre o nome, o marketing e o mecanismo real.
Este material tenta fechar esse hiato. Primeiro, explicando por que um fragmento de DNA injetado não funciona como “seu DNA” nem como terapia genética — o próprio processo de fabricação existe para impedir isso. Depois, mostrando com números o que os estudos sobre rugas finas, região periorbital, qualidade de pele e colo efetivamente encontraram, e com que grau de rigor cada um chegou lá.
PDRN é a sigla de polideoxirribonucleotídeo: uma mistura de fragmentos curtos de DNA, hoje extraídos majoritariamente do sêmen de salmão-chum (Oncorhynchus keta), purificados e submetidos a um processo de despurinação — a remoção de bases púricas da cadeia (Marques et al., 2025). Uma revisão recente propõe inclusive um corte técnico entre os dois termos que o mercado usa quase como sinônimos: PDRN seriam as cadeias menores, com peso molecular abaixo de 1.500 kDa, e PN (polinucleotídeo) as cadeias mais longas, de 1.500 kDa para cima — a faixa tradicional vai de 50 a 1.500 kDa, com formulações mais novas chegando a 10.000 kDa (Marques et al., 2025). O ponto central dessa revisão é direto: a despurinação “elimina a capacidade informacional do polímero” — ou seja, o processo de fabricação retira exatamente a propriedade que permitiria a uma sequência de DNA funcionar como instrução genética.
A via de ação do PDRN/PN mais estudada e mais bem descrita na literatura não tem nada de “genética”: é a ativação do receptor de adenosina A2A (A2AR), presente na superfície de fibroblastos, macrófagos e células endoteliais (Veronesi et al., 2016; Marques et al., 2025). Em contato com o tecido, os fragmentos de PDRN se degradam em nucleosídeos que se ligam a esse receptor de membrana — do lado de fora da célula — disparando uma cascata que envolve adenilato ciclase, AMP cíclico (AMPc) e proteína quinase A (PKA). O resultado final, medido em modelos experimentais e humanos, é aumento de síntese de colágeno, elevação de VEGF (fator de crescimento vascular, ligado a angiogênese) e sinalização anti-inflamatória, incluindo polarização de macrófagos para o perfil M2, associado a reparo tecidual (Marques et al., 2025). Uma revisão de 29 estudos pré-clínicos e clínicos publicados entre 1990 e 2016 já descrevia esse mecanismo como o denominador comum entre os efeitos do PDRN na pele, no osso, na cartilagem e no tendão — todos mediados pelo mesmo receptor A2A (Veronesi et al., 2016).
Para região periorbital, o estudo com maior rigor metodológico localizado é um ensaio randomizado, duplo-cego e split-face, com 27 participantes, que comparou injeção de PN com preenchedor de ácido hialurônico não reticulado, um lado de cada face, em três sessões com intervalo de duas semanas (Lee et al., 2020). O resultado: nas escalas subjetivas (analógica visual e de melhora estética global), não houve diferença estatística entre os dois lados — mas nos parâmetros objetivos de qualidade de pele, a taxa de melhora de hidratação e elasticidade foi maior no lado tratado com PN, assim como a melhora de rugosidade e volume dos poros (Lee et al., 2020). Já um estudo mais recente, observacional e sem grupo controle, acompanhou 42 pacientes submetidos a injeção intradérmica de PN para rugas periorbitais: 40 completaram a avaliação de 3 meses e 38 a de 6 meses, com melhora estatisticamente significativa (p<0,001) nos escores de pálpebra inferior e “pés de galinha” em todos os pontos de acompanhamento, e maior satisfação registrada aos 3 meses, após duas sessões (Ziade et al., 2026).
Desenho: cada participante serve de controle de si mesmo (um lado PN, outro HA) — reduz viés, mas a amostra é pequena.
Achado: sem diferença estatística nas escalas subjetivas; maior taxa de melhora de hidratação e elasticidade no lado PN.
Desenho: mede a evolução do próprio paciente ao longo do tempo, sem comparação cega com placebo ou outro ativo.
Achado: melhora significativa (p<0,001) em pálpebra inferior e “pés de galinha” em todos os pontos de acompanhamento até 6 meses.
Os dois desenhos respondem perguntas diferentes: um isola melhor o efeito do ativo (duplo-cego), o outro descreve melhor o comportamento no mundo real (observacional) — nenhum dos dois, isoladamente, fecha a questão.
Uma revisão sistemática publicada em 2025, que buscou em Embase, Medline e Cochrane todos os estudos primários sobre eficácia de polinucleotídeos em medicina estética entre 2010 e 2024, encontrou apenas 9 estudos elegíveis, somando 219 pacientes no total (entre 5 e 72 por estudo) — dos quais só 4 eram ensaios randomizados; os outros 5 eram estudos de caso ou desenhos abertos (Lampridou et al., 2025). A qualidade metodológica foi classificada como baixa a moderada, “nenhum dos estudos incluídos atingiu pontuação máxima” na avaliação de qualidade, e a própria heterogeneidade de desenho, coleta de dados, tamanho de amostra e desfechos “impediu a realização de meta-análise” (Lampridou et al., 2025). E o dado que mais chama atenção: 7 dos 9 estudos (78%) vinham da Coreia do Sul, e os outros 2, da Itália. Isso é coerente com um levantamento de prática clínica com 235 dermatologistas certificados na Coreia do Sul, no qual 88% já usavam injeção de PN na rotina, com rugas finas periorbitais entre as indicações mais citadas (Rho et al., 2024) — ou seja: o uso clínico está mais maduro na Coreia do que a evidência controlada consegue acompanhar.
Fora da região dos olhos, o estudo mais amplo localizado para face, pescoço e colo é um levantamento observacional “de vida real” (real-life), sem grupo controle e sem cegamento, com 66 pacientes adultos tratados em até três áreas — rosto, pescoço e colo — com três sessões de injeção intradérmica de PN de alta purificação (Lanza et al., 2026). Ao todo foram 106 avaliações (47 de rosto, 33 de pescoço, 26 de colo), medidas pelas escalas GCI-S e GAIS. O resultado: 100% dos tratamentos de rosto mostraram melhora visível segundo o avaliador clínico, sendo 53,5% classificados como “acentuada” ou “excelente”; no pescoço, melhora moderada a significativa em mais de 93% dos casos; no colo, em mais de 88%; e a satisfação do paciente variou entre 97% e 100% nas três áreas, sem eventos adversos graves registrados (Lanza et al., 2026). É o único dado quantitativo específico sobre colo encontrado nesta busca — e, como o próprio desenho é aberto e sem controle, funciona como sinal de segurança e de percepção clínica, não como prova controlada de eficácia.
Uma revisão de 2026 dedicada a comparar preenchedores de ácido hialurônico com polinucleotídeos na região periorbital resume bem onde a balança está hoje: ácido hialurônico continua sendo o padrão-ouro para correção volumétrica estrutural, enquanto os polinucleotídeos mostram melhora consistente em parâmetros de qualidade da pele — elasticidade, hidratação e rugas finas — com um perfil de segurança favorável (Khan & Hafeez, 2026). Mas a mesma revisão é explícita sobre o limite: “a heterogeneidade no desenho dos estudos, na formulação dos produtos e nas medidas de desfecho limita a capacidade de tirar conclusões definitivas” — e o caminho apontado é padronização de protocolo, seguimento de longo prazo e ensaios comparativos diretos (Khan & Hafeez, 2026). É exatamente essa combinação — mecanismo plausível e bem descrito, resultados positivos repetidos, mas estudos pequenos, majoritariamente abertos e heterogêneos — que classifica a evidência como C, emergente: nem “sem base nenhuma”, nem “comprovado e definitivo”.
Mecanismo via receptor A2A descrito e replicado (Veronesi, 2016; Marques, 2025).
Melhora de hidratação, elasticidade e rugas finas relatada em múltiplos estudos, com poucos eventos adversos graves (Lee, 2020; Ziade, 2026; Lanza, 2026).
Só 4 de 9 estudos revisados eram randomizados; o restante era aberto ou caso único (Lampridou, 2025).
Heterogeneidade de produto, dose e protocolo ainda impede comparação direta e padronização (Khan & Hafeez, 2026).
| Estudo | Desenho | N | O que mediu |
|---|---|---|---|
| Lee et al., 2020 | Randomizado, duplo-cego, split-face | 27 | PN × HA na região periorbital: elasticidade, hidratação, rugosidade, poros |
| Ziade et al., 2026 | Observacional, aberto, sem controle | 42 (38 em 6 meses) | Rugas periorbitais e satisfação (FACE-Q) até 6 meses |
| Lampridou et al., 2025 | Revisão sistemática (9 estudos: 4 ECR + 5 abertos/caso) | 219 | Síntese de eficácia geral de PN em estética — qualidade baixa a moderada, sem meta-análise |
| Lanza et al., 2026 | Observacional “real-life”, aberto, sem controle | 66 (106 avaliações) | Rosto, pescoço e colo — melhora clínica (GCI-S/GAIS) e satisfação |
| Rho et al., 2024 | Inquérito com especialistas (survey) | 235 dermatologistas | Padrão de uso clínico na Coreia — não é dado de eficácia |
Achar que “DNA de salmão injetável” significa que um DNA estranho passa a integrar o seu — como se fosse uma pequena terapia genética ou uma transferência de material genético entre espécies.
Não é isso que a literatura descreve. O PDRN passa por um processo de purificação e despurinação que, segundo a revisão de Marques et al. (2025), “elimina a capacidade informacional do polímero” — ou seja, retira justamente a propriedade que permitiria a uma sequência de DNA funcionar como código genético. O que resta são fragmentos que atuam do lado de fora da célula, ligando-se ao receptor de adenosina A2A na membrana de fibroblastos e macrófagos (Veronesi et al., 2016; Marques et al., 2025) — nunca entrando no núcleo, nunca sendo “lidos” como gene.
O certo: pense no PDRN/PN como um sinal químico extracelular, não como material genético. Ele “bate na porta” do receptor A2A da sua própria célula e estimula que ela produza mais colágeno e mais vasos — usando exclusivamente a maquinaria genética que já era 100% sua. É bioestimulação por sinalização, não substituição nem edição de DNA.
O que torna o PDRN interessante não é o apelido “DNA de salmão” — é um mecanismo real, replicado em diferentes tecidos, via receptor de adenosina A2A (Veronesi et al., 2016). Os dados de qualidade de pele na região periorbital, no pescoço e no colo são consistentes na direção positiva em vários estudos (Lee, 2020; Ziade, 2026; Lanza, 2026), o que justifica o interesse crescente. Mas a honestidade científica pede duas ressalvas ao mesmo tempo: a maior parte dessa evidência vem de estudos abertos, sem cegamento, com amostras pequenas e concentrados num único país — a Coreia do Sul, onde o uso clínico é mais maduro do que a pesquisa controlada (Lampridou et al., 2025; Rho et al., 2024). Isso não invalida o mecanismo nem os resultados relatados; apenas os coloca no lugar correto: força de evidência C, emergente — um ativo promissor que ainda está sendo estudado, não um ativo com eficácia definitivamente estabelecida. A indicação, o protocolo e a expectativa de resultado são sempre definidos em avaliação individual.
- PDRN e PN são fragmentos de DNA de salmão purificados e despurinados — o processamento remove a capacidade informacional/genética da molécula (Marques et al., 2025).
- O mecanismo comprovado é sinalização extracelular via receptor de adenosina A2A, não incorporação genética — o próprio fibroblasto produz o colágeno, usando seu próprio DNA (Veronesi et al., 2016; Marques et al., 2025).
- No único ensaio duplo-cego encontrado (n=27), o lado tratado com PN teve maior taxa de melhora de hidratação e elasticidade periorbital que o lado com ácido hialurônico, sem diferença nas escalas subjetivas (Lee et al., 2020).
- Um estudo observacional maior (n=42) mostrou melhora significativa (p<0,001) em pálpebra inferior e “pés de galinha” em todos os pontos de acompanhamento até 6 meses (Ziade et al., 2026).
- A revisão sistemática de 2025 encontrou só 9 estudos elegíveis, 219 pacientes ao todo, qualidade baixa a moderada e nenhuma possibilidade de meta-análise pela heterogeneidade dos desenhos (Lampridou et al., 2025).
- 78% desses estudos (7 de 9) vieram da Coreia do Sul — coerente com o fato de 88% de 235 dermatologistas coreanos já usarem PN na rotina clínica (Lampridou et al., 2025; Rho et al., 2024).
- Força de evidência C, emergente: mecanismo plausível e resultados positivos repetidos, mas ainda sem ensaios grandes, cegos e de longo prazo — a indicação é sempre definida em avaliação individual com o profissional habilitado.
- Lee YJ, et al. Comparison of the effects of polynucleotide and hyaluronic acid fillers on periocular rejuvenation: a randomized, double-blind, split-face trial. J Dermatolog Treat, 2022;33(1):254–260 — n=27, RCT duplo-cego split-face, PN × ácido hialurônico periorbital.
- Ziade G, et al. Prospective Observational Study of Polynucleotide Injections for Periorbital Rhytides. J Cosmet Dermatol, 2026;25(2):e70736 — n=42, observacional aberto, melhora significativa (p<0,001) até 6 meses.
- Lampridou S, Bassett S, Cavallini M, Christopoulos G. The Effectiveness of Polynucleotides in Esthetic Medicine: A Systematic Review. J Cosmet Dermatol, 2025;24:e16721 — 9 estudos, 219 pacientes, 78% da Coreia do Sul, qualidade baixa a moderada.
- Rho NK, Han KH, Cho M, Kim HS. A survey on the cosmetic use of injectable polynucleotide: The pattern of practice among Korean Dermatologists. J Cosmet Dermatol, 2024;23(4):1243–1252 — 235 dermatologistas coreanos, 88% usam PN injetável na rotina.
- Marques C, Porcello A, Cerrano M, et al. From Polydeoxyribonucleotides (PDRNs) to Polynucleotides (PNs): Bridging the Gap Between Scientific Definitions, Molecular Insights, and Clinical Applications of Multifunctional Biomolecules. Biomolecules, 2025;15(1):148 — mecanismo via receptor A2A, despurinação e classificação por peso molecular.
- Veronesi F, Dallari D, Sabbioni G, Carubbi C, Martini L, Fini M. Polydeoxyribonucleotides (PDRNs) From Skin to Musculoskeletal Tissue Regeneration via Adenosine A2A Receptor Involvement. J Cell Physiol, 2017;232(9):2299–2307 — revisão de 29 estudos pré-clínicos e clínicos (1990–2016), mecanismo via receptor A2A.
- Lanza E, Perna A, Bizzarri S, et al. A Real-Life Assessment of Injectable Polynucleotides High Purification Technology in Aesthetic Medicine for Skin Rejuvenation. J Cosmet Dermatol, 2026;25:e70532 — n=66, rosto/pescoço/colo, observacional real-world.
- Khan RS, Hafeez K. Hyaluronic Acid Fillers Versus Polynucleotides for Under-Eye Rejuvenation. J Clin Med, 2026;15(13):4971 — revisão comparativa, limites de heterogeneidade de desenho e produto.