Ácido poli-L-láctico para Rolling — ondulações amplas (área extensa): o que a ciência mostra
Um ensaio randomizado recente, com 60 pacientes, mediu pela primeira vez o quanto cada tipo de cicatriz de acne responde ao ácido poli-L-láctico (PLLA) — e o rolling amplo, com suas ondulações difusas, foi o que mais ganhou (Zhou et al., 2025). Esta apostila explica por que o bioestímulo do PLLA é construído para levantar uma área extensa como um todo, não para apagar uma cicatriz isolada — e o que a ciência recomenda para essa segunda tarefa.
O ácido poli-L-láctico injetável é um procedimento — ato biomédico — realizado por profissional habilitado, sempre após avaliação individual da pele e do padrão de cicatriz. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne o que estudos publicados mostram sobre o mecanismo do PLLA, o tipo de cicatriz em que ele tem mais evidência de resposta e o tempo real de resultado. Não é promessa de resultado, não descreve protocolo, dose ou técnica de nenhuma clínica específica, e não substitui a avaliação presencial — a indicação depende do exame direto da pele.
Existe uma expectativa comum sobre bioestimuladores de colágeno em cicatriz de acne: a ideia de que, como um preenchedor de ácido hialurônico, eles vão “entrar” em cada cicatriz e apagá-la, uma a uma. Não é assim que o ácido poli-L-láctico (PLLA) funciona — e entender essa diferença é o que separa uma expectativa realista de uma frustração.
O PLLA não deposita volume no ponto exato onde é injetado, como faz um preenchedor. Ele dispara uma reação de corpo estranho controlada, que estimula os fibroblastos do tecido ao redor a produzir colágeno novo de forma difusa, ao longo de semanas e meses, na área tratada como um todo. É um efeito de conjunto — não um efeito de ponto. Essa lógica é exatamente o que torna o PLLA mais interessante no rolling amplo, com várias ondulações rasas espalhadas por uma área extensa, do que numa cicatriz individual, estreita e profunda.
Ao ser injetado, o PLLA provoca um efeito de volume perceptível de imediato — mas esse efeito inicial vem do gel que carrega as microesferas do produto, e dura apenas alguns dias, até ser reabsorvido (Avelar et al., 2024). O que fica no tecido são as microesferas de PLLA, e é aí que o mecanismo relevante para esta apostila começa.
As microesferas disparam uma cascata inflamatória controlada: neutrófilos e, em seguida, monócitos são recrutados para a região; os monócitos se diferenciam em macrófagos, que tentam fagocitar as partículas e acabam encapsulando-as. Nesse processo, primeiro é depositado colágeno tipo III ao redor das microesferas; depois, com a resposta fibroblástica, o tecido deposita colágeno tipo I na periferia (Bernardo et al., 2024). Esse remodelamento é sustentado por sinalização molecular: os níveis de TGF-β1 e das proteínas SMAD-1 e SMAD-2 fosforiladas aumentam após a estimulação por PLLA, ativando a proliferação de fibroblastos e a síntese de tecido conjuntivo (Avelar et al., 2024). Em um dos estudos revisados nessa mesma publicação, o colágeno tipo I chegou a aumentar 65,5% em 3 meses de acompanhamento (Goldberg et al., citado em Avelar et al., 2024).
A classificação mais usada para cicatriz de acne divide o dano em três padrões: ice-pick (menos de 2 mm, trajeto estreito e profundo, em V, chegando à derme profunda ou ao subcutâneo), boxcar (1 a 4 mm, bordas nítidas e verticais, fundo plano) e rolling (4 mm ou mais, sem bordas nítidas, causado por bandas fibrosas que prendem a derme ao subcutâneo numa área ampla, dando o aspecto ondulado) (Goodman & Baron, 2006). O rolling, por definição, não é um defeito pontual — é uma superfície inteira puxada para baixo em vários pontos rasos.
É exatamente essa geometria que combina com um bioestímulo difuso. Um ensaio randomizado com 60 pacientes comparou laser fracionado de CO2 isolado com laser seguido de PLLA injetável (3 sessões ao longo de 5 meses) e mediu, por tipo de cicatriz, o ganho adicional na escala ASRS trazido pelo PLLA: rolling ganhou 1,31 ± 0,11 ponto a mais, boxcar ganhou 0,78 ± 0,11, e ice-pick, apenas 0,32 ± 0,07 (Zhou et al., 2025). A hierarquia acompanha a geometria: quanto mais rasa e mais espalhada a ondulação, mais ela se beneficia de um colágeno que cresce por baixo de toda a área — não só num ponto.
No ice-pick — e em qualquer cicatriz isolada, estreita e profunda — o problema não é falta de volume espalhado; é um trajeto fibroso específico, muitas vezes com uma banda que prende um único ponto da pele para baixo. Nesse cenário, a ferramenta com mecanismo compatível é mecânica e pontual, não difusa. A subcisão — inserir uma agulha ou cânula sob a cicatriz para romper fisicamente a banda fibrosa — foi testada em 40 pacientes com cicatrizes rolling: pacientes e avaliadores relataram, em média, cerca de 50% de melhora, e 90% dos pacientes consideraram que o procedimento melhorou a aparência da pele, em acompanhamento de 6 meses (Alam et al., 2005).
Mas atenção à mesma lógica geométrica, agora do lado da subcisão: ela funciona quando existe uma banda de tração a romper — o que é típico do rolling. Uma revisão sobre tratamentos não energéticos para cicatriz atrófica descreve a subcisão isolada como praticamente ineficaz para boxcar e quase totalmente ineficaz para ice-pick, justamente porque esses padrões não têm o mesmo mecanismo de aderência fibrosa a liberar (Tam et al., 2022). Ice-pick profundo tende a pedir abordagem focal — punch, laser pontual — e não um bioestímulo difuso isolado.
PLLA e subcisão não respondem à mesma pergunta. O PLLA responde a “como levanto o colágeno de uma área extensa, de forma gradual”. A subcisão responde a “como rompo uma aderência pontual, de forma imediata”. Definir isso antes da decisão é o que evita expectativa desalinhada com o mecanismo.
Como o mecanismo depende de uma cascata biológica — não de um preenchimento mecânico —, nenhum estudo sério mostra uma cicatriz rolling “corrigida” depois de uma única aplicação. No maior estudo aberto clássico de PLLA injetável para cicatriz de acne e varicela (20 pacientes), foram aplicadas 7 sessões de tratamento; a redução no tamanho e na gravidade da cicatriz, avaliada pelo investigador, foi estatisticamente significativa (p<0,0001), e a redução relatada pelo próprio paciente também (p=0,0078) — mas a satisfação do paciente cresceu de forma apenas próxima da significância a cada sessão (p=0,0899), um lembrete de que a percepção subjetiva demora mais para acompanhar a medida objetiva (Beer, 2007).
Em uma série de casos menor, com injeção sem agulha (jato de PLLA), a melhora visível em cicatrizes rolling foi registrada entre 2 e 3 meses depois de uma única sessão (Rho et al., 2024) — resultado descritivo, por fotografia clínica, sem escala validada. Já no ensaio de Zhou et al. (2025) citado nas seções anteriores, o braço com PLLA recebeu 3 sessões de injeção, espaçadas ao longo de 5 meses após o laser. O padrão que se repete entre os estudos: resultado progressivo, mais de uma sessão, e uma janela de meses — não de semanas — para o efeito se consolidar.
É honesto dizer, aqui, onde a evidência ainda é fina. O estudo aberto clássico de PLLA em cicatriz de acne tem 20 pacientes e não separa os resultados por tipo de cicatriz (Beer, 2007). A série de injeção sem agulha usada nesta apostila para ilustrar o tempo de resposta tem apenas 3 casos, no degrau mais baixo da pirâmide de evidência — revisão de literatura com relato de caso (Rho et al., 2024). O único estudo que mediu resposta por tipo de cicatriz de forma comparativa e randomizada — a peça central desta apostila — testou o PLLA associado a laser fracionado de CO2, não como monoterapia isolada contra um grupo sem nenhum procedimento (Zhou et al., 2025). Até a data desta apostila, não existe um ensaio randomizado de PLLA isolado, de grande porte, comparando diretamente rolling amplo contra cicatriz individual profunda.
É esse conjunto — convergente na direção, mas ainda pequeno e heterogêneo em desenho — que classifica esta indicação como evidência emergente, força C: promissora e coerente com o mecanismo biológico descrito, mas ainda não definitiva em escala.
PLLA e subcisão não competem pelo mesmo problema — cobrem geometrias diferentes do dano. O PLLA levanta o conjunto de uma área ampla, de forma difusa e gradual; a subcisão rompe uma aderência pontual, de forma imediata e mecânica. É por isso que o estudo com o melhor desenho comparativo por tipo de cicatriz citado nesta apostila usou os dois tipos de ferramenta juntos — PLLA para o componente difuso, laser fracionado para o componente focal (Zhou et al., 2025). Tratar as duas técnicas como substitutas uma da outra é o erro mais comum nesta indicação, detalhado a seguir.
Ilustrativo — as barras ordenam o tipo de ação de cada mecanismo, não medem magnitude clínica comparável entre técnicas. Os dois mecanismos são frequentemente combinados na literatura recente, não escolhidos um contra o outro (Zhou et al., 2025).
| Tipo de cicatriz | Definição (Goodman & Baron, 2006) | Resposta ao somar PLLA (Zhou et al., 2025) | Abordagem melhor descrita na literatura |
|---|---|---|---|
| Rolling | ≥4 mm, sem bordas nítidas, aderência fibrosa difusa numa área ampla | +1,31 ASRS — maior resposta | PLLA difuso; subcisão associada quando há tether localizado |
| Boxcar | 1–4 mm, bordas verticais nítidas, fundo plano | +0,78 ASRS — resposta intermediária | Resurfacing focal (laser, peeling) associado |
| Ice-pick | <2 mm, trajeto profundo em V, até derme profunda/subcutâneo | +0,32 ASRS — resposta mais discreta | Punch ou laser focal pontual; PLLA isolado tem pouco a oferecer aqui |
Injetar PLLA numa cicatriz ice-pick isolada, ou numa única cicatriz profunda e bem demarcada, esperando que ela “suma” como aconteceria com um preenchedor de ácido hialurônico.
O mecanismo do PLLA é difuso e depende de uma cascata biológica que leva semanas a meses para amadurecer (Bernardo et al., 2024; Avelar et al., 2024). Numa cicatriz individual e profunda, não existe “área ao redor” suficiente para redistribuir esse ganho de colágeno de forma visível — e os dados disponíveis mostram exatamente isso: o ganho adicional de PLLA em ice-pick foi de apenas 0,32 ± 0,07 ponto na escala ASRS, quase quatro vezes menor que no rolling (Zhou et al., 2025).
O certo: usar o PLLA para o componente difuso de uma área extensa com múltiplas ondulações rasas, associando uma ferramenta focal (subcisão, punch, laser pontual) quando existe cicatriz individual, profunda, ou uma banda de aderência localizada — e esperar o resultado em meses, com mais de uma sessão, não numa única aplicação.
O que mais chama atenção nesse conjunto de estudos é a coerência entre o mecanismo biológico e o padrão de resposta clínica: quando um tratamento age de forma difusa sobre o colágeno de uma área inteira, ele tende a funcionar melhor exatamente onde o dano também é difuso — o rolling amplo, com suas várias ondulações rasas. Onde o dano é pontual e profundo, como no ice-pick, o número disponível já mostra a resposta mais discreta ao PLLA isolado (Zhou et al., 2025), e a lógica mecânica aponta para uma ferramenta pontual, como a subcisão (Alam et al., 2005). Isso não desvaloriza o PLLA — recalibra o que esperar dele: um bioestimulador que constrói o alicerce de uma região inteira, ao longo de meses, e que rende mais quando a expectativa é “nivelar a área”, não “apagar aquele ponto ali”.
- O PLLA não preenche a cicatriz no ponto injetado: dispara uma reação de corpo estranho controlada, que deposita colágeno tipo III e depois tipo I ao redor das microesferas, de forma difusa (Bernardo et al., 2024).
- Em um dos estudos revisados, o colágeno tipo I aumentou 65,5% em 3 meses de estímulo por PLLA (Goldberg et al., citado em Avelar et al., 2024).
- Em ensaio randomizado com 60 pacientes, somar PLLA ao laser fracionado rendeu ganho de 1,31 ± 0,11 ponto em ASRS no rolling, contra 0,78 ± 0,11 no boxcar e apenas 0,32 ± 0,07 no ice-pick (Zhou et al., 2025).
- O rolling é definido por aderência fibrosa difusa numa área ≥4 mm — geometria que combina com um estímulo de colágeno espalhado (Goodman & Baron, 2006).
- Para cicatriz individual, profunda e demarcada (ice-pick), a ferramenta com lógica mecânica compatível é pontual — como a subcisão, que rendeu ~50% de melhora e 90% de satisfação em 40 pacientes com rolling tratados por ruptura de banda fibrosa (Alam et al., 2005).
- O resultado do PLLA é progressivo: os estudos usaram entre 3 e 7 sessões, com efeito se consolidando ao longo de meses — nunca numa única aplicação (Beer, 2007; Rho et al., 2024; Zhou et al., 2025).
- A evidência específica para PLLA em rolling ainda é emergente — pequena e heterogênea em desenho, mas convergente na direção; é um procedimento biomédico que exige avaliação individual da pele e do padrão de cicatriz antes de qualquer decisão.
- Goodman GJ, Baron JA. Postacne scarring: a qualitative global scarring grading system. Dermatol Surg, 2006;32(12):1458–1466 — classificação em ice-pick, boxcar e rolling por diâmetro, borda e mecanismo de aderência dérmica.
- Tam C, Khong J, Tam K, Vasilev R, Wu W, Hazany S. A Comprehensive Review of Non-Energy-Based Treatments for Atrophic Acne Scarring. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2022;15:455–469 — subcisão isolada pouco eficaz em boxcar e quase ineficaz em ice-pick, por ausência do mesmo mecanismo de aderência fibrosa do rolling.
- Alam M, Omura N, Kaminer MS. Subcision for acne scarring: technique and outcomes in 40 patients. Dermatol Surg, 2005;31(3):310–317 — ~50% de melhora relatada por pacientes e avaliadores; 90% dos pacientes relataram melhora da aparência em 6 meses.
- Bernardo RTR, Oliveira RCG, Freitas KMS, Albergaria-Barbosa JR, Rizzatti-Barbosa CM. Effect of poly-L-lactic acid and polydioxanone biostimulators on type I and III collagen biosynthesis. Skin Res Technol, 2024;30(4):e13681 — descreve a cascata de reação de corpo estranho e a deposição sequencial de colágeno tipo III e depois tipo I.
- Avelar LET, Nabhani S, Wüst S. Unveiling the Mechanism: Injectable Poly-L-Lactic Acid’s Evolving Role — Insights From Recent Studies. J Cosmet Dermatol, 2024;24(1) — via TGF-β/SMAD; colágeno tipo I aumentou 65,5% em 3 meses num dos estudos revisados (Goldberg et al.).
- Beer K. A single-center, open-label study on the use of injectable poly-L-lactic acid for the treatment of moderate to severe scarring from acne or varicella. Dermatol Surg, 2007;33(Suppl 2):S159–S167 — 20 pacientes, 7 sessões; redução de gravidade significativa (p<0,0001 pelo investigador; p=0,0078 pelo paciente).
- Rho NK, Kim HJ, Kim HS, Lee W. Needle-Free Jet Injection of Poly-(Lactic Acid) for Atrophic Acne Scars: Literature Review and Report of Clinical Cases. J Clin Med, 2024;13(2):440 — melhora visível em cicatriz rolling entre 2 e 3 meses após sessão única; série pequena (3 casos).
- Zhou C, Chen W, Zhang L, Luo X, Zhu L, Zhang E, Li K, Qin X. Poly-L-Lactic Acid Combined With CO2 Fractional Laser for the Treatment of Acne Scars. J Cosmet Dermatol, 2025;24(6):e70271 — ensaio randomizado, 60 pacientes; ganho adicional em ASRS de 1,31±0,11 (rolling), 0,78±0,11 (boxcar) e 0,32±0,07 (ice-pick) ao somar PLLA ao laser.