Apostila 8 · Toxina Botulínica × Sobrancelha Caída/Flácida · Estudo

Tratar a testa pode baixar a sobrancelha: o paradoxo do frontalis

Tratar as linhas horizontais da testa com toxina, injetando o frontalis junto com os depressores, é a aplicação que a maioria das pessoas associa a “sobrancelha mais alta”. Dois estudos controlados, com métodos independentes, mediram exatamente o oposto na maior parte da sobrancelha. Esta apostila traz os dois na íntegra — e por que o resultado não é acaso.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

A toxina botulínica é um procedimento injetável, realizado por profissional habilitado. Sua aprovação de bula (ANVISA/FDA) cobre rugas glabelares e frontais, entre outras indicações; a elevação ou a queda de sobrancelha discutidas nesta apostila são efeitos da técnica de injeção sobre músculos específicos — não uma indicação isolada aprovada em bula, e a literatura aqui reunida vem de ensaios clínicos e estudos prospectivos dedicados a medir esse efeito, não de bula de produto. Este material é exclusivamente educativo: descreve o que a evidência científica mostra sobre o efeito do tratamento da testa na posição da sobrancelha — não é indicação de tratamento, não substitui consulta nem define ponto, dose ou técnica de injeção. A decisão sobre tratar ou não linhas horizontais da testa, e como fazê-lo, depende sempre de avaliação individual com um profissional habilitado.

Na primeira apostila desta série eu expliquei que a sobrancelha tem um único músculo que a sustenta para cima — o frontalis — e vários que puxam para baixo. Também contei que existe um terceiro caminho, o mais contraintuitivo dos três: injetar o frontalis junto com os depressores, mesmo com a melhor das intenções de suavizar as linhas horizontais da testa, tende a derrubar a sobrancelha, não a levantar. Prometi uma apostila inteira dedicada a esse erro, com os estudos que mediram isso em detalhe. Esta é ela.

Aqui eu trago dois estudos que chegaram à mesma conclusão por caminhos diferentes: um ensaio clínico randomizado que testou três formas distintas de injetar o frontalis, e um estudo prospectivo com imagem tridimensional que comparou tratar só a glabela contra tratar a glabela junto com a testa. Os dois mediram a posição da sobrancelha antes e depois — e os dois viram a mesma coisa: quando o frontalis é enfraquecido, a sobrancelha tende a cair, não subir. É o oposto do que a maioria espera de “Botox na testa”.

Por que isso acontece: o elevador não escolhe entre “linha da testa” e “sobrancelha”

O mecanismo já foi explicado na primeira apostila desta série, mas ele é a base de tudo o que vem a seguir, então vale reforçá-lo em uma frase: o músculo frontalis é o único elevador da sobrancelha — é ele, e só ele, que puxa a sobrancelha para cima contra a ação de vários depressores (corrugador, prócero, orbicular) e contra a gravidade (Knize, 1996). Quando alguém trata “as linhas da testa”, na prática está injetando toxina justamente nesse músculo — não existe uma forma de suavizar a ruga horizontal sem reduzir, em algum grau, a força do único elevador.

Uma revisão recente sobre a região glabelar e frontal resume o risco de forma direta: enfraquecer sem querer o terço inferior do frontalis é apontado como a causa mais comum de resultado insatisfatório no terço superior da face, porque esse músculo consegue elevar a pálpebra superior de 1 a 2 mm acima da margem da íris no esforço máximo — uma capacidade de sustentação que se perde quando a toxina atinge as fibras erradas (Bertucci et al., 2022). A região glabelar, segundo os mesmos autores, tem múltiplos músculos interligados, e tratar essa área — ou a testa — com uma abordagem genérica, sem considerar a dominância relativa entre elevador e depressores de cada rosto, é o que abre espaço para o efeito paradoxal.

A frase que resume o paradoxo

Numa carta de resposta a colegas que comentaram seu próprio ensaio clínico, os autores resumiram o mecanismo nestes termos: não importa quanto de toxina seja injetado nos depressores, isso não vai elevar a sobrancelha se o frontalis for paralisado ao mesmo tempo (Jabbour, Kechichian & Nasr, 2019). É essa frase que os dois estudos a seguir colocam à prova, com medição direta.

O ensaio clínico: três formas de tratar a testa, um resultado quase idêntico

O estudo mais direto sobre esse efeito é um ensaio clínico randomizado com 45 pacientes (90 sobrancelhas), divididos em três grupos de 15 pacientes (30 sobrancelhas por grupo). Em todos os grupos, os depressores mediais e laterais da sobrancelha (corrugador, prócero e porção lateral do orbicular) receberam toxina — a variável testada foi apenas o padrão de injeção no frontalis: um padrão em V, um padrão horizontal na faixa média da testa, e um padrão horizontal na faixa alta, perto da linha do cabelo (Jabbour et al., 2018).

O resultado, medido por fotografia padronizada duas semanas após a aplicação: em todos os três grupos, a sobrancelha ficou mais baixa em praticamente todas as posições medidas — a única exceção foi a borda lateral, que subiu nos três grupos, provavelmente pelo efeito do bloqueio dos depressores discutido na primeira apostila desta série. Entre os padrões horizontais, o que injetava a faixa média da testa baixou mais a sobrancelha do que o padrão alto, perto da linha do cabelo; o padrão em V não teve diferença estatística clara em relação a nenhum dos dois horizontais. As linhas da testa melhoraram nos três grupos, com o padrão em V levando vantagem na contração ativa — ou seja, a técnica que mais poupou a queda também não foi, isoladamente, a que mais suavizou a ruga (Jabbour et al., 2018).

Padrão de injeção do frontalisO que priorizaSobrancelha 2 semanas depois
V (linha em V no centro da testa)Maior melhora das linhas dinâmicas da testaCaiu na maioria dos pontos (exceto borda lateral); sem diferença estatística clara frente aos dois padrões horizontais
Horizontal médioFaixa média do frontalisCaiu mais que o padrão alto — a maior queda entre os três grupos
Horizontal altoFaixa perto da linha do cabeloCaiu menos que o padrão médio — o mais poupador dos três, mas ainda com queda
Direção do efeito na sobrancelha, 2 semanas após a injeção — todos os 3 padrões combinados
Ilustrativo — ordena a direção do efeito relatada no ensaio, não os milímetros exatos por ponto (o artigo original não publicou uma tabela ponto-a-ponto de fácil acesso); N=45 pacientes / 90 sobrancelhas (Jabbour et al., 2018)
Pontos mediais e centrais
Caíram nos 3 grupos
Borda lateral
Subiu nos 3 grupos
Mesmo com a borda lateral subindo nos três grupos — efeito do bloqueio concomitante dos depressores —, isso não foi suficiente para evitar que a sobrancelha, como um todo, ficasse mais baixa na maior parte de sua extensão. As barras ordenam a direção relatada (queda × subida), não uma escala numérica comum aos dois pontos.
Confirmação independente: imagem 3D mostra a mesma queda, por outro caminho

Um segundo estudo, com metodologia completamente diferente, chegou à mesma conclusão. Pesquisadores compararam, com fotografia tridimensional (não fotografia 2D como no ensaio anterior), dois grupos: um tratado só na região glabelar (grupo G) e outro tratado na glabela junto com o frontalis — ou seja, incluindo o tratamento das linhas da testa (grupo F/G) (Schlager et al., 2019).

Duas semanas após a aplicação, o grupo F/G apresentou queda significativa da sobrancelha ao longo de quase toda a sua extensão — enquanto o grupo tratado só na glabela não mostrou uma tendência clara de queda. Aos três meses, a queda no grupo F/G diminuiu e se deslocou mais para a região medial, sinal de que o efeito é temporário mas não desaparece rápido. A conclusão dos próprios autores é a mais importante para esta apostila: o grau de mudança na posição da sobrancelha foi determinado pela quantidade de enfraquecimento do frontalis, não pelo tratamento da glabela em si (Schlager et al., 2019).

Grupo G — só glabela
Frontalis preservado
Toxina só nos depressores da glabela; frontalis não recebeu injeção. Medição 3D não mostrou tendência clara de queda da sobrancelha em 2 semanas (Schlager et al., 2019)
Queda medidaSem tendência clara
Grupo F/G — glabela + frontalis
Frontalis também tratado
Toxina nos depressores da glabela E no frontalis (tratamento das linhas da testa). Queda significativa ao longo de quase toda a sobrancelha em 2 semanas, atenuada aos 3 meses (Schlager et al., 2019)
Queda medidaSignificativa

Ilustrativo, não medido em escala comum: as barras representam a diferença qualitativa entre “sem tendência clara” e “queda significativa” relatada pelos autores com imagem 3D objetiva (Schlager et al., 2019) — não uma métrica numérica única comparável entre os dois estudos desta apostila.

Dois métodos, um mesmo achado — isso importa mais do que parece

Um ensaio clínico randomizado medindo por fotografia 2D e um estudo prospectivo medindo por imagem 3D são desenhos de pesquisa diferentes, em populações diferentes, sem relação entre os grupos de autores. Quando dois métodos independentes chegam à mesma direção de efeito — a sobrancelha cai quando o frontalis é tratado junto com os depressores —, a chance de o achado ser um acaso estatístico de um único estudo cai bastante. É essa convergência, mais do que qualquer estudo isolado, que sustenta o peso desta apostila.

Um erro muito comum

Achar que “fazer Botox na testa” é sempre uma forma segura de deixar a sobrancelha mais alta — ou pelo menos de não mexer nela.

É o raciocínio mais intuitivo que existe: “vou suavizar a ruga horizontal, e de quebra a sobrancelha ainda sobe um pouco”. Os dois estudos desta apostila mostram o contrário na prática. No ensaio randomizado, os três padrões de injeção testados — mesmo variando onde exatamente o frontalis foi tratado — baixaram a sobrancelha em quase todos os pontos medidos, e o padrão que passava pela faixa média da testa (uma escolha comum, por cobrir bem a ruga) foi o que mais baixou (Jabbour et al., 2018). No estudo com imagem 3D, o grupo que tratou a testa junto com a glabela teve queda significativa da sobrancelha, enquanto o grupo que poupou o frontalis não teve essa tendência (Schlager et al., 2019).

O erro não é tratar a testa — é tratá-la sem antes olhar para a posição da sobrancelha e para o equilíbrio entre elevador e depressores daquele rosto específico. Quem já tem a sobrancelha caída, ou uma testa com pouca reserva de força no frontalis inferior, corre o maior risco de sair do consultório com a sobrancelha mais baixa do que entrou — mesmo tendo pedido apenas para “suavizar as rugas”.

O certo: avaliar a posição da sobrancelha e a atividade do frontalis antes de decidir tratar as linhas horizontais da testa — não depois. A escolha de onde, exatamente, o frontalis é injetado (padrão, altura na testa, dose) muda o quanto o elevador é poupado, como mostrou a diferença entre o padrão médio e o padrão alto no ensaio de Jabbour et al. (2018); e a revisão de Bertucci et al. (2022) recomenda especificamente evitar a injeção direta do terço inferior do frontalis para preservar a posição da sobrancelha sempre que isso for prioridade clínica. Nenhuma dessas decisões substitui uma avaliação individual e feita caso a caso.

Afirmação desta apostilaForça da evidênciaBase
Tratar o frontalis junto com os depressores baixa a sobrancelha em quase todos os pontos medidos, em 3 padrões de injeção diferentesForça ARCT, N=45 pacientes/90 sobrancelhas, 15/grupo (Jabbour et al., 2018)
O grau de queda é determinado pela quantidade de frontalis enfraquecido, não pelo tratamento da glabela em si; confirmado por imagem 3DForça AEstudo prospectivo controlado, medida 3D objetiva (Schlager et al., 2019)
Enfraquecer sem querer o frontalis inferior é a causa mais comum de resultado insatisfatório no terço superior da faceForça CRevisão narrativa amplamente citada (Bertucci et al., 2022)
“Não importa quanto toxina vá nos depressores — isso não eleva a sobrancelha se o frontalis for paralisado junto”Força CCarta de resposta científica, síntese de achados próprios (Jabbour, Kechichian & Nasr, 2019)
A Sacada dos DoutoresO maior risco de “Botox na testa” não é o efeito colateral — é a expectativa invertida

Quando alguém me pergunta se pode “fazer a testa e a sobrancelha sobe de brinde”, eu explico que a literatura mostra o oposto do que a intuição sugere. A testa e a sobrancelha não são dois alvos separados — o mesmo músculo, o frontalis, sustenta a sobrancelha para cima e é justamente o músculo que precisa ser tratado para suavizar a ruga horizontal. Não existe uma forma de “desligar” a ruga sem, em algum grau, reduzir a força desse elevador. Os dois estudos que reuni aqui mediram isso com métodos diferentes — fotografia padronizada num ensaio randomizado com 90 sobrancelhas, imagem tridimensional num estudo prospectivo — e os dois viram a mesma direção: quando o frontalis é enfraquecido junto com os depressores, a sobrancelha tende a cair, não a subir. Isso não significa que tratar a testa seja errado; significa que o resultado sobre a sobrancelha depende inteiramente de onde, quanto e em que contexto anatômico a toxina é aplicada — e essa é uma decisão que só uma avaliação individual, olhando a posição da sobrancelha antes de qualquer aplicação, consegue tomar com segurança.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • O frontalis é o único elevador da sobrancelha — tratar as linhas horizontais da testa significa, necessariamente, injetar esse mesmo músculo (Knize, 1996).
  • Um RCT com 45 pacientes/90 sobrancelhas mostrou que os 3 padrões de injeção do frontalis testados baixaram a sobrancelha em quase todos os pontos, mesmo com os depressores também bloqueados (Jabbour et al., 2018).
  • O padrão que injeta a faixa média da testa baixa mais a sobrancelha do que o padrão que injeta perto da linha do cabelo (Jabbour et al., 2018).
  • Um segundo estudo, com imagem 3D independente, confirmou o mesmo efeito: tratar só a glabela não mostrou tendência de queda; tratar glabela + frontalis mostrou queda significativa (Schlager et al., 2019).
  • O grau de queda depende da quantidade de frontalis enfraquecido — não do tratamento da glabela isoladamente (Schlager et al., 2019).
  • Enfraquecer sem querer o frontalis inferior é apontado como a causa mais comum de resultado insatisfatório no terço superior da face (Bertucci et al., 2022).
  • É procedimento injetável de profissional habilitado: avaliar a posição da sobrancelha antes de tratar a testa, e não depois, é o que evita esse erro — sempre por avaliação individual.
O próximo passo

Agora que você entende por que tratar a testa pode baixar a sobrancelha, a pergunta que fecha a série é sobre limites e expectativa: quando essa técnica NÃO compensa uma ptose já instalada, para quem ela não é indicada, e o que é razoável esperar de resultado. A última apostila da série reúne essa expectativa realista. Leve o que aprendeu aqui para qualquer avaliação individual: perguntar como a técnica poupa (ou não) o frontalis inferior é uma pergunta que qualquer pessoa pode levar ao profissional que for avaliar seu caso.

Referências
  1. Jabbour SF, Awaida CJ, ElKhoury JS, Rayess YA, Makhoul RB, Kechichian EG, Nasr MW. The Impact of Upper Face Botulinum Toxin Injections on Eyebrow Height and Forehead Lines: A Randomized Controlled Trial and an Algorithmic Approach to Forehead Injection. Plastic and Reconstructive Surgery, 2018;142(5):1212-1217 — RCT com 45 pacientes/90 sobrancelhas (15/grupo); os 3 padrões de injeção do frontalis testados, todos com depressores também tratados, baixaram a sobrancelha na maioria dos pontos medidos.
  2. Schlager S, Kostunov J, Henn D, Stark BG, Iblher N. A 3D Morphometrical Evaluation of Brow Position After Standardized Botulinum Toxin A Treatment of the Forehead and Glabella. Aesthetic Surgery Journal, 2019;39(5):553-564 — estudo prospectivo com imagem 3D; tratar glabela + frontalis causou queda significativa da sobrancelha, ausente no grupo tratado só na glabela.
  3. Bertucci V, Carruthers JD, Sherman DD, Gallagher CJ, Brown J. Integrative Assessment for Optimizing Aesthetic Outcomes When Treating Glabellar Lines With Botulinum Toxin Type A: An Appreciation of the Role of the Frontalis. Aesthetic Surgery Journal, 2023;43(Suppl 1):S19-S31 — revisão sobre o papel do frontalis como elevador único e o risco de enfraquecê-lo sem querer.
  4. Jabbour S, Kechichian E, Nasr M. Reply: The Impact of Upper Face Botulinum Toxin Injections on Eyebrow Height and Forehead Lines: A Randomized Controlled Trial and an Algorithmic Approach to Forehead Injection. Plastic and Reconstructive Surgery, 2019;144(3):510e-511e — carta que resume o mecanismo do efeito paradoxal ao injetar o frontalis junto com os depressores.
  5. Knize DM. An anatomically based study of the mechanism of eyebrow ptosis. Plastic and Reconstructive Surgery, 1996;97(7):1321-1333 — base anatômica do frontalis como único elevador da sobrancelha, referência de mecanismo desta série.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de tratamento nem protocolo de aplicação. A toxina botulínica é um procedimento injetável realizado por profissional habilitado; a elevação ou a queda de sobrancelha discutidas aqui são efeitos da técnica de injeção sobre músculos específicos, não uma indicação isolada aprovada em bula. As informações descrevem o que estudos clínicos e prospectivos mostram sobre o efeito do tratamento da testa na posição da sobrancelha; a decisão sobre tratar a testa, com qual técnica e em qual paciente, depende sempre de avaliação individual com um profissional habilitado.