Apostila 6 · Toxina Botulínica × Pescoço · Segurança

Segurança no pescoço: por que aqui o risco é funcional, não só estético

No maior estudo já feito nesta região, o risco dentro do protocolo foi próximo de zero — zero disfagia em 424 participantes. Mas dois relatos de caso reais mostram, com precisão, o que acontece fora dele. E aqui está a diferença que muda tudo: o alerta não é uma assimetria estética, é a função de engolir e sustentar o pescoço.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes, especialmente esta apostila

A toxina botulínica no pescoço é um ato biomédico injetável. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de uso, promessa de resultado nem substituto de avaliação individual. Os números de segurança aqui descritos vêm de estudos e relatos de caso publicados, como informação — nunca como orientação de autoaplicação ou de técnica. O pescoço tem estruturas de deglutição e sustentação cervical próximas ao músculo tratado; qualquer dificuldade para engolir ou fraqueza muscular após uma aplicação exige avaliação médica imediata, não observação em casa.

Já mostramos, nas apostilas anteriores desta série, que a toxina tem respaldo forte para as bandas verticais do platisma — o maior RCT já feito na região. Esta apostila trata do outro lado da mesma moeda: a segurança. E aqui o pescoço não se comporta como a testa.

Na glabela, o efeito adverso mais temido é a ptose — incômoda, visível, mas estética. No pescoço, o efeito mais temido é outro: disfagia e fraqueza dos músculos que sustentam a cabeça e ajudam a engolir — funcional, não só estético. Dentro do protocolo estudado, esse risco foi zero numa amostra de 424 pessoas. Fora dele, existem dois relatos de caso reais, documentados em revista científica, que mostram exatamente o que pode acontecer quando a dose e a técnica saem do que foi validado. Vamos aos dois lados, número por número.

Dentro do protocolo de registro: o que o maior estudo do pescoço já mostrou

O RCT pivotal de fase 3 que embasa o registro regulatório mais recente para toxina no pescoço acompanhou uma população de segurança de 424 participantes, recebendo 26, 31 ou 36U de onabotulinumtoxinA (dose escalonada por gravidade basal), com técnica padronizada por protocolo de estudo (Shridharani, 2025). O resultado: eventos adversos emergentes do tratamento em 16,3% dos participantes que receberam toxina, contra 19,9% no grupo placebo — uma diferença que não favorece o placebo, ou seja, a toxina não aumentou o risco geral acima do que já ocorre com uma injeção de placebo. Eventos considerados relacionados ao tratamento foram raros nos dois grupos: 3,8% (toxina) vs. 3,2% (placebo).

O dado mais importante para esta apostila vem depois desses números gerais: nenhum evento adverso sério relacionado ao tratamento, nenhuma disfagia e nenhuma disseminação a distância foram documentados nessa amostra (Shridharani, 2025). É a maior população de segurança já reunida especificamente para toxina no platisma — um dado de nível A, específico da região, não extrapolado da face.

Eventos adversos no RCT pivotal — e o zero que mais importa
População de segurança N=424, dose de registro 26-36U, técnica padronizada por protocolo (Shridharani, 2025)
Eventos adversos gerais — Toxina
16,3%
Eventos adversos gerais — Placebo
19,9%
Disfagia (mesma amostra, N=424)
0 casos
As duas primeiras barras comparam a taxa de eventos adversos gerais entre os grupos (escala relativa, máximo ≈19,9%). A terceira linha não é uma taxa nessa mesma escala — é uma contagem absoluta em destaque: zero casos de disfagia entre os 424 participantes, dentro da dose de registro e da técnica padronizada do estudo.
Por que o pescoço é diferente da face: o alvo é funcional, não estético

O platisma não é um músculo pontual de expressão, como o corrugador da glabela — é uma lâmina muscular larga e superficial. No terço inferior do pescoço, ele fica a apenas 0,75 a 3mm da pele (Kang, Fabi & Hoss, 2025), com aderências pele-músculo frequentes — muito mais raso do que a maioria dos músculos faciais tratados com toxina. A inervação motora do platisma se concentra nos 2/3 superiores do músculo; o terço inferior é majoritariamente inervado por nervos sensitivos (cervical transverso, grande auricular, supraclavicular), não motores (Yi, Wong & Wan, 2025).

Essa anatomia — músculo raso, próximo a estruturas como a glândula submandibular e a musculatura profunda que sustenta o pescoço e participa da deglutição — é a razão técnica pela qual um erro de dose ou de posicionamento no pescoço tem um alcance diferente do que teria na testa. Na face, exagerar a dose perto da órbita gera, na pior hipótese, uma pálpebra caída por semanas. No pescoço, exagerar a dose ou injetar sem orientação anatômica perto de estruturas de deglutição pode comprometer a capacidade de engolir com segurança — é essa diferença de natureza, não só de grau, que esta apostila existe para explicar.

Dois casos reais: o que aconteceu quando a técnica saiu do protocolo

A literatura documenta dois relatos de caso que ilustram, com detalhe clínico, o que o RCT de registro não observou em sua amostra — porque esses casos não seguiram o mesmo protocolo. Não são estatística populacional (são N=1 cada), mas mostram o mecanismo real do pior cenário, e por isso merecem leitura atenta.

Caso 1 — Yang & Yi, 2026: contorno de mandíbula sem orientação por imagem
Mulher de 37 anos, saudável, sem doença neuromuscular prévia (Healthcare, 2026)
Dia 040U de incobotulinumtoxinA (20U por glândula submandibular), sem orientação por ultrassom, para contorno de mandíbula
Até o dia 11disfagia progressiva com aspiração silenciosa (escala FOIS 3 — ingestão muito restrita)
5 mesesrecuperação completa após reabilitação estruturada (manobra de Shaker, manobra de Masako, estimulação elétrica neuromuscular)
O que deu errado tecnicamente: dose próxima à faixa alta usada para contorno de mandíbula, aplicada sem orientação por imagem, junto a uma estrutura anatômica (glândula submandibular) adjacente às vias de deglutição.
Caso 2 — Zahur, Malik & Arshad, 2025: botulismo iatrogênico a partir da testa
Homem de 47 anos — aplicação cosmética na testa, fora do pescoço (Cureus, 2025)
Dia 0toxina botulínica cosmética aplicada na testa (fora do pescoço)
Dia 4ptose bilateral, diplopia, disartria, disfagia e fraqueza grave dos flexores do pescoço (força MRC 1/5); insuficiência respiratória com intubação e traqueostomia
A partir do dia 14melhora parcial com antitoxina heptavalente e piridostigmina
O que isso mostra: a fraqueza dos flexores do pescoço é, por si, um sinal de alarme sistêmico de disseminação da toxina — monitorado clinicamente mesmo quando a aplicação original foi feita em outra parte do corpo.
Um erro muito comum

Aplicar dose alta sem orientação anatômica ou por imagem perto de estruturas de deglutição — tratando o pescoço como se fosse “a mesma aplicação da testa, só que mais embaixo”.

No caso documentado por Yang & Yi (2026), a dose usada (40U, 20U por glândula submandibular) estava acima da faixa de registro (26-36U) e foi aplicada sem orientação por ultrassom, próxima a uma estrutura anatômica adjacente às vias de deglutição — foi essa combinação, não a toxina em si, que levou à disfagia progressiva. Já a técnica guiada por mapeamento motor (Yi, Wong & Wan, 2025) usa dose ainda menor (30-60U por lado, contra 60-100U da técnica histórica) e relatou zero disfagia em sua série.

O certo: dose dentro da faixa de registro (26-36U) e técnica guiada por conhecimento anatômico — idealmente por ultrassom — evitando aplicação perto de estruturas de deglutição sem orientação de imagem.

Atenção — sinal de alarme, não observação em casa

Dificuldade para engolir (líquidos ou sólidos) ou fraqueza muscular do pescoço após uma aplicação de toxina botulínica não são efeitos para “esperar passar sozinho”. Nos dois casos documentados nesta apostila, o sinal apareceu progressivamente — disfagia com aspiração silenciosa até o dia 11 em um caso (Yang & Yi, 2026), fraqueza de flexores do pescoço grau MRC 1/5 já no dia 4 no outro (Zahur, Malik & Arshad, 2025) — e em ambos a recuperação completa só veio com semanas a meses de acompanhamento médico estruturado. Procure avaliação médica imediatamente diante de qualquer dificuldade para engolir, respirar ou sustentar o pescoço após a aplicação.

O que reduz o risco a quase zero: dose de registro e técnica guiada

A boa notícia, honesta e sustentada por dado: a diferença entre os dois cenários acima não é sorte, é técnica e dose. A série mais recente com mapeamento do nervo motor por ultrassom (Yi, Wong & Wan, 2025) concentrou a injeção nos 2/3 superiores do platisma — onde de fato está a distribuição motora — e reduziu a dose total em cerca de 35% em relação à técnica histórica (que injetava o músculo inteiro). Resultado nessa série: 92,5% dos pacientes atingiram ao menos 2 graus de melhora nas bandas dinâmicas, mantida até a semana 12, sem nenhum caso de disfagia ou fraqueza de face inferior.

Sem mapeamento motor
Técnica histórica
injeta o platisma inteiro, por referência anatômica de superfície
Dose por lado60-100U
Mapeamento por ultrassom
Técnica guiada (Yi, 2025)
concentra a injeção nos 2/3 superiores, onde está a distribuição motora
Dose por lado30-60U

As barras ordenam a faixa de dose relatada em cada técnica (máximo de referência: 100U). A série guiada por ultrassom (N=40, Yi, Wong & Wan, 2025) é observacional e ainda não foi comparada à técnica histórica em ensaio controlado randomizado — o achado é consistente com o RCT de registro, mas ainda preliminar.

O quadro para guardar: quando é tranquilizador e quando é alerta
SituaçãoO que a evidência dizClassificação
Dose de registro (26-36U) + técnica padronizadaZero disfagia entre 424 participantes (Shridharani, 2025)Risco documentado baixo
Técnica guiada por ultrassomZero disfagia, dose ~35% menor, N=40 (Yi, Wong & Wan, 2025)Risco baixo, evidência preliminar
Dose alta sem orientação por imagem perto da glândula submandibularDisfagia progressiva com aspiração silenciosa até o dia 11; recuperação em 5 meses (Yang & Yi, 2026)Risco real, caso documentado
Fraqueza de flexores do pescoço após qualquer aplicação de toxinaSinal de alarme de disseminação sistêmica, mesmo se a aplicação foi em outra região (Zahur, Malik & Arshad, 2025)Sinal de alarme — avaliação imediata
A Sacada dos DoutoresO pescoço não é “a testa mais embaixo” — e essa diferença é o que importa dizer

A comparação que mais ajuda aqui não é “toxina no pescoço é segura ou perigosa” — é entender que, dentro do protocolo estudado (dose de registro, técnica padronizada), o risco documentado numa amostra de 424 pessoas foi próximo de zero, sem um único caso de disfagia. O que muda tudo é sair desse protocolo: dose acima da faixa validada, aplicação sem orientação anatômica perto de estruturas de deglutição. Os dois relatos de caso graves que existem na literatura não contradizem o RCT — eles mostram exatamente o cenário que o RCT não testou. E há um detalhe que vale grifar: a fraqueza dos flexores do pescoço é hoje um sinal clínico monitorado de alarme sistêmico até quando a aplicação foi feita na testa — o pescoço, aqui, funciona como o “alarme” do corpo inteiro para toxina, não só como o local de risco.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • No RCT pivotal, o risco geral não superou o placebo: eventos adversos em 16,3% (toxina) vs. 19,9% (placebo), população de segurança N=424 (Shridharani, 2025).
  • Zero disfagia e zero disseminação a distância nessa mesma amostra, dentro da dose de registro (26-36U) e técnica padronizada — o maior estudo de segurança já feito especificamente no pescoço.
  • No pescoço, diferente da face, o efeito mais temido é funcional, não estético: o platisma fica a 0,75-3mm da pele no terço inferior, perto de estruturas de deglutição (Kang, Fabi & Hoss, 2025).
  • Dois relatos de caso reais documentam o que acontece fora do protocolo: disfagia progressiva com aspiração silenciosa até o dia 11 (Yang & Yi, 2026) e fraqueza de flexores do pescoço grau MRC 1/5 com botulismo iatrogênico (Zahur, Malik & Arshad, 2025).
  • Técnica guiada por conhecimento anatômico (idealmente ultrassom) e dose dentro da faixa de registro reduzem o risco a quase zero — a técnica de Yi, Wong & Wan (2025) teve zero disfagia com dose ainda menor (30-60U vs. 60-100U histórico).
  • Sinal de alarme real: dificuldade para engolir ou fraqueza muscular do pescoço após a aplicação — procurar avaliação médica imediatamente, não esperar passar sozinho.
  • Avaliação individual prévia e triagem são o que sustenta esses números baixos dentro do protocolo estudado — não são burocracia, são a própria causa da segurança relatada.
O próximo passo

Agora que os riscos reais e as suas frequências no pescoço estão claros, vale olhar para o outro lado da moeda: os termos de marketing que circulam sobre toxina no pescoço — como “Nefertiti lift” — e o que a ciência realmente sustenta por trás de cada um deles. É o tema da próxima apostila da série. Leve o que aprendeu aqui à avaliação individual — é ela quem rastreia contraindicações e ajusta técnica e dose ao seu caso.

Esta é a apostila 6 de 9 desta série — o pilar 2, sobre segurança. A próxima apostila trata de marketing x ciência no pescoço, incluindo o “Nefertiti lift”.
Referências
  1. Shridharani SM, Ogilvie P, Couvillion M, et al. A Phase 3 Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Study of OnabotulinumtoxinA for the Treatment of Platysma Prominence. Aesthetic Surgery Journal, 2025;45(2):194-201 — RCT pivotal, população de segurança N=424, dose 26-36U: eventos adversos gerais 16,3% (toxina) vs. 19,9% (placebo); zero disfagia e zero disseminação a distância.
  2. Yi KH, Wong IKJ, Wan J. Ultrasound-Guided Botulinum Toxin Injection for Platysma Bands Based on Motor Endplate Distribution. Journal of Cosmetic Dermatology, 2025;24(7):e70301 — série guiada por ultrassom, N=40: dose reduzida ~35% (30-60U vs. 60-100U histórico), 92,5% com ≥2 graus de melhora, zero disfagia ou fraqueza de face inferior.
  3. Yang S, Yi YG. Dysphagia After Botulinum Toxin Injection for Jawline Contouring: A Case Report. Healthcare (Basel), 2026;14(2):235 — relato de caso: 40U sem orientação por ultrassom, próximo à glândula submandibular; disfagia progressiva com aspiração silenciosa até o dia 11, recuperação completa em 5 meses.
  4. Zahur H, Malik J, Arshad L. Iatrogenic Botulism Following Cosmetic Botulinum Toxin Injection: A Case Report. Cureus, 2025;17(12):e98836 — botulismo iatrogênico após toxina na testa: fraqueza de flexores do pescoço MRC 1/5, intubação e traqueostomia no dia 4, melhora a partir do dia 14.
  5. Kang BY, Fabi SG, Hoss E. Anatomic Considerations and Complications of Neck Rejuvenation Procedures. Journal of Cosmetic Dermatology, 2025;24(8):e70385 — revisão de anatomia: platisma a 0,75-3mm da pele no terço inferior do pescoço, aderências pele-músculo frequentes.
  6. Sugrue CM, Kelly JL, McInerney N. Botulinum Toxin Type A for the Treatment of Platysmal Bands: A Systematic Review. Aesthetic Surgery Journal, 2019;39(2):201-206 — revisão de estudos anteriores à otimização técnica recente: complicações em 15,4% dos pacientes, nenhuma exigiu intervenção.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo sobre segurança de procedimento injetável no pescoço — NÃO é indicação de uso, promessa de resultado nem substituto de avaliação clínica. O pescoço tem estruturas de deglutição e sustentação cervical próximas ao músculo tratado; dificuldade para engolir, respirar ou fraqueza muscular após a aplicação exigem avaliação médica imediata. Contraindicações e histórico de doenças neuromusculares só são identificados com triagem prévia feita por profissional habilitado. Procure avaliação individual antes de qualquer procedimento com toxina botulínica.