Apostila 5 · Toxina Botulínica × Pés de Galinha · Estudo

Combinações: quando a toxina sozinha não é suficiente

O orbicular lateral é um músculo fino, colado à pele e cercado de estruturas que não podem ser tocadas. Por isso “combinar procedimentos” ali pede mais cautela do que em qualquer outra região do rosto — e esta apostila separa, com honestidade, o que tem ensaio clínico real por trás do que ainda é prática consolidada sem comparação controlada.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Toxina botulínica, preenchimento com ácido hialurônico (skinbooster) e procedimentos a laser são atos de saúde, realizados por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de combinação, protocolo pessoal nem substitui avaliação. As evidências citadas descrevem o que os estudos relatam, como informação — nunca como roteiro para seguir sozinho. Se, quando e como combinar procedimentos no seu pé de galinha é decisão do profissional, após avaliação individual do seu rosto.

Uma dúvida frequente de quem já trata pé de galinha é: “por que às vezes a clínica sugere mais de um procedimento na mesma região, se a toxina já resolve a ruga?” A resposta honesta é que a toxina resolve só uma parte do problema — a contração muscular repetida. Ela não repõe volume perdido, não refaz colágeno queimado pelo sol e não substitui uma pele que já perdeu sustentação.

Nesta apostila, tratamos três combinações reais — cada uma com um tipo de prova diferente por trás — e um estudo de segurança sobre tratar várias regiões do terço superior ao mesmo tempo. Separamos o que é ensaio clínico randomizado do que ainda é evidência sem grupo controle. Não vamos vender a segunda como se fosse a primeira.

Por que o pé de galinha, especificamente, pede mais cautela ao combinar

O orbicular lateral do olho fica a apenas 4,7 a 5,5mm da pele — um músculo fino e superficial — e o complexo do zigomático maior/menor está a só 3,0 a 4,5mm de profundidade do próprio orbicular: planos praticamente colados (Piao, 2025). É essa vizinhança apertada, não uma bioquímica diferente da toxina, que explica por que a região aceita menos dose que a glabela e exige mais precisão técnica (detalhado na apostila 1 desta série). A mesma lógica se aplica a somar procedimentos: antes de decidir “toxina + outra coisa”, é preciso identificar qual componente da ruga está presente — só o dinâmico (contração), ou também volume/textura perdidos por fotodano.

Duas causas possíveis da mesma ruga periorbital — e qual ferramenta trata cada uma
Combinar faz sentido quando as duas causas coexistem, não por padrão
Componente dinâmicocontração repetida do orbicular ao sorrir/franzir — trata-se com toxina
+
Componente de textura/volumefotodano, sulco de tear trough, pele já sem sustentação — trata-se com laser, AH ou preenchedor
=
Duas causas, uma queixapor isso combinar não é “reforçar”, é somar alvos diferentes
Por que isso importa: se a ruga é só dinâmica, a toxina isolada resolve — somar outro procedimento ali trataria uma causa que não existe. A avaliação individual é o que diferencia os dois cenários, não uma regra genérica de “sempre combinar”.
A combinação com prova mais forte: toxina antes do laser de resurfacing

Esta é a única combinação desta apostila sustentada por comparação controlada real, medida diretamente na região dos pés de galinha — sem extrapolação de outra área do rosto. Um ensaio clínico prospectivo, randomizado, cego e split-face (cada lado do próprio rosto do paciente como seu controle) aplicou toxina botulínica cerca de 1 semana antes de um resurfacing a laser em 10 pacientes: a melhora foi estatisticamente significativa a favor da combinação (P≤0,05), com o ganho mais pronunciado justamente nos pés de galinha — a área que mais respondeu, entre todas as tratadas (Zimbler, 2001). Um estudo controlado independente, de desenho semelhante, replicou o benefício adjuvante da toxina ao resurfacing a laser periorbital (Carruthers, 2004/2005). São dois estudos apontando na mesma direção — mas é importante ser honesto sobre a amostra: N=10 é pequeno, o que classifica esta evidência como força B (RCT real, não força A de meta-análise ampla).

Por que “toxina antes” e não “depois” do laser

A lógica testada no ensaio é mecânica: reduzir a contração repetida do orbicular antes do resurfacing diminui o estresse mecânico sobre uma pele que está cicatrizando, favorecendo o resultado do laser. É raciocínio testado em desenho controlado — diferente das outras duas combinações desta apostila, que dependem de evidência mais fraca ou sem grupo controle.

Toxina + AH skinbooster: o que muda e o que não muda

Um RCT duplo-cego, split-face, com 25 mulheres, testou toxina isolada versus toxina combinada com skinbooster de ácido hialurônico em um lado do rosto (Neves, 2025). O achado mais honesto do estudo: o AH não altera a atividade eletromiográfica (EMG) do músculo — ou seja, não interfere no bloqueio neuromuscular da toxina (p=0,86). O que muda é outra coisa: o lado combinado apresentou melhora da severidade da ruga em repouso a partir do 3º mês (p=0,04) e maior satisfação da paciente, mantida até o 6º mês (p=0,001). Em outras palavras — o skinbooster não potencializa nem atrapalha o efeito muscular da toxina; ele soma um ganho de qualidade de pele que aparece depois, na fase em que o efeito da toxina isolada já começa a estabilizar.

Não muda
Atividade EMG do músculo
Bloqueio neuromuscular da toxina, medido objetivamente
Toxina isolada × toxina+AHp=0,86
Diferença estatísticaausente
Muda
Severidade em repouso + satisfação
Desfecho clínico e percepção da paciente
Severidade em repouso (a partir do 3º mês)p=0,04
Satisfação (até o 6º mês)p=0,001
RCT real (força B)
Sem grupo controle (força C)
Toxina + laser de resurfacing (Zimbler, 2001; Carruthers, 2004/2005) e toxina + AH skinbooster (Neves, 2025). Ensaios prospectivos, randomizados, cegos, split-face, com comparação real dentro do mesmo paciente e desfecho medido — amostras pequenas (N=10 e N=25), mas comparação controlada de verdade.
Toxina isolada para tear trough leve (Zhou, 2025). Estudo prospectivo com 42 pacientes, sem grupo controle — mede a mudança dentro do mesmo grupo, não compara com placebo ou com “sem tratamento”. Sinal real, mas de força bem mais fraca.
Toxina isolada no tear trough leve: sinal real, mas com um limite que precisa ficar claro

Um estudo prospectivo sem grupo controle, com 42 pacientes, testou toxina isolada (sem preenchedor) para tear trough leve e bolsas discretas: o escore de gravidade caiu de 7,2 para 3,3 em 2 semanas, resultado mantido até a 12ª semana, com apenas 1 efeito colateral leve (2,3%) (Zhou, 2025). É um resultado real e clinicamente relevante — mas, sem grupo placebo, não é possível descartar parte do efeito sendo regressão natural do edema ou expectativa do paciente. E há um limite ainda mais importante: esse desenho testou apenas tear trough leve, causado majoritariamente por hipertrofia/contração do orbicular. Para tear trough por perda real de volume — a olheira funda, o sulco ósseo que aparece com a idade — o tratamento primário continua sendo o preenchedor de ácido hialurônico, não a toxina. A toxina não repõe volume; ela relaxa músculo.

Escore de gravidade do tear trough — antes × depois (braço único, sem placebo)
Zhou, 2025 · N=42 · a barra ilustra a mudança dentro do próprio grupo, não uma medida comparada a controle
Antes do tratamento
7,2
2 semanas depois
3,3
Escala de gravidade usada no estudo (maior = mais grave). Resultado mantido até a 12ª semana. Sem grupo controle — parte da melhora pode refletir regressão natural do edema, não apenas o efeito da toxina.
Um erro muito comum

Tratar toda “olheira” ou tear trough com toxina, achando que basta relaxar o músculo — sem antes diferenciar se a causa é hipertrofia muscular leve ou perda real de volume.

Quando o sulco existe porque já houve perda de gordura ou osso ao redor do olho, a toxina isolada não tem um mecanismo capaz de corrigir isso — ela não adiciona volume nem sustentação. Aplicá-la sozinha nesse cenário tende a decepcionar, não porque a toxina “não funcionou”, mas porque foi usada para uma causa que ela não trata.

O certo: a diferenciação entre tear trough leve (dinâmico) e tear trough por perda de volume depende de avaliação individual — é essa avaliação, não a queixa do paciente, que decide se o caminho é toxina, preenchedor de AH, ou os dois.

Tratar 3 regiões ao mesmo tempo é seguro? O RCT que testou isso

Uma dúvida prática comum é se tratar pés de galinha junto com glabela e testa na mesma sessão aumenta o risco. Um ensaio clínico fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 730 pacientes, tratou simultaneamente as três regiões do terço superior com toxina incobotulínica em dose única de até 64U: superioridade estatisticamente significativa sobre placebo em todos os desfechos avaliados (P<0,0001), sem novos sinais de segurança em relação ao tratamento isolado de cada região (Joseph, 2024). Este é, dos quatro dados reunidos nesta apostila, o de maior força de evidência — RCT amplo, controlado por placebo, desfecho pré-especificado — mas ele responde a uma pergunta diferente das combinações acima: não é “toxina mais outro procedimento”, é “toxina em mais de uma região ao mesmo tempo”. Ainda assim, é o dado que mais tranquiliza sobre a segurança de sessões que tratam o terço superior inteiro.

Ranking das combinações por força de evidência

Nem toda combinação praticada tem o mesmo tipo de prova por trás. O quadro abaixo ordena os quatro achados desta apostila da evidência mais robusta à mais frágil.

1

Tratar 3 regiões do terço superior na mesma sessão

Força A — RCT fase 3, placebo-controlado, N=730

Superioridade sobre placebo em todos os desfechos (P<0,0001), sem novos sinais de segurança tratando pés de galinha junto com glabela e testa (Joseph, 2024). É a maior amostra e o único desenho com placebo real desta apostila — mas responde à pergunta de segurança de multi-região, não à de somar tipos de procedimento.

2

Toxina + laser de resurfacing (1 semana antes)

Força B — RCT split-face, medido no próprio pé de galinha

Melhora estatisticamente significativa (P≤0,05), com o maior ganho justamente nos pés de galinha, replicada em estudo controlado independente (Zimbler, 2001; Carruthers, 2004/2005). Amostra pequena (N=10) — força B, não A — mas é comparação controlada real, medida diretamente na região, sem extrapolação.

3

Toxina + AH skinbooster

Força B — RCT split-face, N=25

Não altera a atividade EMG do músculo (p=0,86), mas melhora severidade em repouso a partir do 3º mês (p=0,04) e satisfação até o 6º mês (p=0,001) (Neves, 2025). RCT real, porém com amostra pequena e um único centro.

4

Toxina isolada para tear trough leve

Força C — sem grupo controle

Escore de gravidade caiu de 7,2 para 3,3 em 2 semanas, mantido até 12 semanas (Zhou, 2025) — mas sem placebo, e válido só para tear trough leve, não para perda real de volume, onde o preenchedor de AH continua sendo o tratamento primário.

O que essa diferença de força de prova significa na prática

Não significa que a combinação com skinbooster ou o uso isolado no tear trough leve sejam “menos seguros” — significa que o tipo de prova por trás é diferente do RCT de toxina+laser ou do estudo de segurança multi-região, e uma apostila honesta precisa dizer isso com todas as letras. Vale lembrar também que o efeito da toxina é transitório por definição do próprio mecanismo, com duração mediana entre 119 e 148 dias (Glogau, 2012 — dado reaproveitado da glabela, mesma biologia) — o que significa que qualquer combinação precisa ser pensada dentro de um calendário de manutenção, já que skinbooster, laser e toxina têm cronogramas próprios e diferentes.

A Sacada dos DoutoresCombinar bem, no pé de galinha, é respeitar a anatomia antes de somar procedimentos

A pergunta certa nunca é “quais procedimentos combinar no pé de galinha”, e sim “o que exatamente está causando essa ruga — só contração, ou já tem textura/volume perdidos?”. A toxina resolve a contração; o laser, aplicado antes dela ou depois de uma semana de pré-tratamento, ganha de uma pele que cicatriza sob menos tração muscular; o skinbooster soma qualidade de pele sem interferir no bloqueio muscular; e a toxina isolada no tear trough tem um limite claro — não substitui o preenchedor quando o problema é volume perdido. Dito isso, é preciso ser honesto sobre o tipo de prova: o estudo de segurança multi-região é o mais robusto (RCT com placebo, N=730); a combinação com laser e com skinbooster têm RCT real, mas de amostra pequena; e o uso isolado para tear trough leve é o mais frágil, por não ter grupo controle. Qual combinação cabe no seu caso — e se ela cabe — é avaliação do profissional, olhando o seu rosto, não uma fórmula genérica.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Combinar faz sentido quando a ruga tem mais de uma causa: a toxina trata só a contração; textura, volume e cicatrização de laser pedem outras ferramentas.
  • A combinação com prova mais forte, medida diretamente no pé de galinha, é toxina 1 semana antes do laser de resurfacing — melhora significativa (P≤0,05), maior ganho justamente nessa região (Zimbler, 2001; Carruthers, 2004/2005).
  • Toxina + AH skinbooster não interfere no bloqueio muscular (EMG, p=0,86), mas soma melhora de severidade e satisfação a partir do 3º mês (Neves, 2025).
  • Toxina isolada melhora tear trough LEVE (7,2→3,3 em 2 semanas, Zhou 2025) — mas é evidência sem grupo controle, e não substitui preenchedor de AH quando a causa é perda real de volume.
  • Tratar 3 regiões do terço superior na mesma sessão é seguro segundo o maior RCT desta apostila (N=730, placebo-controlado, sem novos sinais de risco).
  • O efeito da toxina é transitório (~4-5 meses) — qualquer combinação exige calendário de manutenção, não é “fazer uma vez e está resolvido”.
  • O erro mais comum é tratar toda queixa periorbital com toxina isolada sem diferenciar contração de perda de volume antes de decidir o caminho.
O próximo passo

Combinar bem também exige conhecer os limites de segurança específicos desta região — diplopia, ptose labial por difusão ao zigomático, equimose pela veia sentinela e o que muda quando se soma técnica a técnica na mesma sessão. É esse o tema da próxima apostila da série: segurança. Leve as dúvidas sobre a combinação ideal para o seu caso à avaliação com o profissional habilitado.

Referências
  1. Zimbler MS, Holds JB, Kokoska MS, Glaser DA, Prendiville S, Hollenbeak CS, Thomas JR. Effect of botulinum toxin pretreatment on laser resurfacing results. Arch Facial Plast Surg, 2001;3(3):165-169 — RCT prospectivo, randomizado, cego, split-face, N=10: toxina 1 semana antes do laser melhora significativamente o resultado (P≤0,05), maior ganho nos pés de galinha.
  2. Carruthers J, et al. Adjunctive botulinum toxin A with periorbital laser resurfacing. J Cosmet Laser Ther, 2004/2005 — estudo controlado independente, replica o benefício adjuvante da toxina ao resurfacing a laser periorbital.
  3. Neves MLBB, Thome C, da Silva Junior SV, et al. Combination of botulinum toxin and hyaluronic acid skinbooster for periorbital rejuvenation. J Cosmet Dermatol, 2025;24(8):e70403 — RCT duplo-cego, split-face, N=25: AH não altera EMG (p=0,86); melhora severidade em repouso a partir do 3º mês (p=0,04) e satisfação até o 6º mês (p=0,001).
  4. Zhou S, Liu H, Pan Z, Pan F, Liang Q, Qiu H, Wu B, Zhang L, Zhou X. Botulinum toxin for mild tear trough deformity. J Cosmet Dermatol, 2025;24(6):e70253 — estudo prospectivo sem grupo controle, N=42: escore de gravidade cai de 7,2 para 3,3 em 2 semanas, mantido até 12 semanas.
  5. Joseph J, Sudimac V, Mersmann S, Kerscher M. IncobotulinumtoxinA in the Treatment of Upper Facial Lines: Results From Two Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Phase III Studies. Aesthetic Surg J, 2025;45(3):293-304 — RCT fase 3, N=730: tratamento simultâneo de testa, glabela e pés de galinha superior a placebo em todos os desfechos (P<0,0001), sem novos sinais de segurança.
  6. Piao JZ, Lee JH, Hu KS, Kim HJ. Ultrasonographic analysis of the orbicularis oculi and zygomaticus complex. Clinical Anatomy, 2025 (PMID 40341629) — base anatômica: orbicular a 4,7-5,5mm da pele; zigomático a 3,0-4,5mm de profundidade do orbicular.
  7. Glogau R, Kane M, Beddingfield F, Somogyi C, Lei X, Caulkins C, Gallagher C. OnabotulinumtoxinA: A Meta-analysis. Dermatol Surg, 2012;38(11):1794-1803 — duração mediana de efeito, base do calendário de manutenção em qualquer combinação.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é prescrição nem roteiro de combinação pessoal. Toxina botulínica, preenchimento com ácido hialurônico e procedimentos a laser são atos realizados por profissional habilitado. As evidências citadas descrevem o que estudos científicos relatam, não uma recomendação de uso para o seu caso. Não decida combinações de procedimentos por conta própria — procure avaliação individual.