RFM funciona mesmo nas estrias? O que os estudos mostram (e o que não mostram)
A resposta curta é sim: o efeito é estatisticamente real e aparece em mais de um desenho de estudo. A resposta completa importa mais — porque “funciona” e “quanto funciona” são perguntas diferentes, e a segunda tem uma resposta bem mais modesta do que a propaganda costuma sugerir.
A radiofrequência microagulhada é um procedimento — ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo, e não é promessa de resultado, indicação de tratamento nem convite a agendamento. Os números e desfechos citados aqui descrevem o que os estudos clínicos mediram, como informação científica. A adequação do procedimento a cada caso, o protocolo e o acompanhamento dependem de avaliação individual com profissional habilitado — a resposta ao tratamento varia entre pessoas e não é garantida pela literatura.
Na primeira apostila desta série vimos o que acontece fisicamente na pele durante a RFM: agulhas finas entregam energia de radiofrequência dentro da derme, gerando um calor controlado que estimula a produção de colágeno e elastina. O mecanismo está bem descrito. Aqui a pergunta muda: esse mecanismo realmente vira resultado clínico mensurável — e, se vira, de que tamanho?
A resposta tem duas partes, e as duas são verdadeiras ao mesmo tempo. A primeira: sim, existe queda estatisticamente significativa e reprodutível em mais de um desenho de estudo — isso separa a RFM de um procedimento sem base. A segunda: o tamanho desse efeito, medido do jeito que a estatística mede tamanho de efeito, fica na faixa pequena-a-moderada — não na faixa “a estria desaparece”. Esta apostila mostra os dois números, com fonte, para calibrar a expectativa certa antes de qualquer decisão.
O dado mais forte disponível hoje sobre a eficácia da RFM nas estrias vem de uma meta-análise de 2024 assinada por Sun, Jia e Huang, publicada na Aesthetic Plastic Surgery, que reuniu os ensaios controlados sobre microagulhamento com radiofrequência e calculou a diferença padronizada de médias (SMD) entre o grupo tratado e o grupo controle sem tratamento. O resultado: SMD de 0,57 (IC 95% 0,20–0,94; p=0,003) — diferença estatisticamente significativa, suficiente para descartar o acaso como explicação (Sun, Jia & Huang, 2024).
Traduzindo o número: a SMD (também chamada de d de Cohen) é a régua que a ciência usa para medir o tamanho de um efeito quando estudos diferentes usam escalas distintas para avaliar a mesma coisa. Por convenção estatística, valores próximos de 0,2 são considerados efeito pequeno; próximos de 0,5, moderado; a partir de 0,8, grande. O 0,57 da RFM cai exatamente na fronteira entre pequeno e moderado — real e mensurável, mas longe de “grande”.
Um ensaio publicado por Afify e colaboradores em 2020, no Journal of Cosmetic Dermatology, testou se adicionar fatores de crescimento à sessão de RFM melhorava o resultado em estrias alba (as mais antigas e esbranquiçadas — o tipo mais difícil de tratar). A largura da estria caiu de forma estatisticamente significativa nos dois braços — RFM isolada e RFM combinada a fatores de crescimento —, com p<0,0001 em ambos (Afify et al., 2020).
O detalhe que a maioria do material comercial não conta: a diferença que chamou atenção nesse estudo não foi entre os dois braços — foi a coincidência entre eles. O procedimento, sem nenhum aditivo, já produziu redução de largura estatisticamente sólida. Isso desloca a pergunta que interessa: o que está fazendo o trabalho é a energia de radiofrequência entregue pela agulha na derme — não o soro, o ativo ou a “fórmula” anunciada ao lado dela.
n conforme desenho de Afify et al. (2020). As barras representam a mesma significância estatística nos dois braços — o estudo não relatou diferença de magnitude que favorecesse claramente o braço com aditivo; portanto as alturas são iguais por desenho, não uma medida percentual.
Achar que o resultado da sessão vem do “ativo especial” aplicado junto com a RFM, e não do próprio procedimento.
O marketing de muitos protocolos vende o soro, o “coquetel” ou o produto aplicado após a passagem das agulhas como o diferencial que faz a estria melhorar. O estudo de Afify et al. (2020) mostra o contrário: a redução de largura foi estatisticamente significativa com e sem o aditivo (p<0,0001 nos dois braços) — o que sustenta o resultado é a energia de radiofrequência entregue na derme, não o produto extra.
O certo: avaliar o procedimento pelos seus parâmetros técnicos (profundidade, energia, nº de sessões — tema da apostila 3 desta série), não pelo rótulo de um produto adicional anunciado junto.
Boa parte da desconfiança em torno de procedimentos estéticos vem de desfechos subjetivos — uma nota dada por um avaliador olhando fotos de antes e depois. A RFM também tem esse tipo de dado, mas não só ele: um estudo com ultrassom cutâneo mediu a espessura e a densidade da derme antes e depois do tratamento e encontrou aumento de 204,9 μm na espessura dérmica e de 8,8% na densidade dérmica, com significância estatística (p<0,05) (Seong et al., 2021). É uma medida física do tecido, não uma opinião — e ela caminha na mesma direção do resultado clínico relatado.
Em outro ensaio comparativo, a resposta clínica de pelo menos 50% de melhora apareceu em quase metade das lesões tratadas só com RFM — entre 47,9% e 50%, dependendo do critério de avaliação usado (Fatemi Naeini et al., 2016) — antes de qualquer combinação com outra tecnologia. É um número que, sozinho, já derruba a ideia de que a RFM pura seria apenas um “passo fraco” para justificar a venda de um pacote combinado.
Combinar a RFM com laser CO2 fracionado ou com PRP eleva ainda mais esses números em alguns estudos — mas também eleva o risco de efeitos indesejados. Essa balança entre ganho e risco da combinação é o assunto dedicado da apostila 8 desta série; aqui o foco é a RFM isolada.
Um estudo piloto de Sany e colaboradores (2022) classificou o grau de melhora clínica alcançado nos braços de tratamento isolado (RFM ou laser CO2 fracionado, sem combinação) em três faixas. O resultado: 22% das lesões tiveram melhora leve, 55,5% melhora moderada e 22,5% melhora acentuada (Sany et al., 2022). Nenhuma lesão, em nenhum braço isolado deste desenho, foi classificada como remissão completa.
Essa distribuição é a tradução mais honesta da SMD de 0,57 citada no início desta apostila: a maioria das pessoas fica na faixa “moderada” — melhora real e perceptível, mas não o desaparecimento anunciado em fotos de antes-e-depois escolhidas a dedo. É amostra pequena e um único estudo piloto, então a distribuição exata deve ser lida como direção, não como probabilidade exata para qualquer paciente individual.
A RFM reduz a largura e melhora a aparência da estria de forma estatisticamente significativa, em mais de um desenho de estudo e mais de uma equipe de pesquisa — isso não é mais uma pergunta em aberto.
Se essa melhora se aproxima ou fica atrás do resultado do laser CO2 fracionado — hoje o comparador mais estabelecido — é uma pergunta com resposta específica, que esta apostila não antecipa: ela é o assunto dedicado da apostila 5 desta série.
Duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e tratar qualquer uma delas como mentira seria desonesto. A primeira: a RFM funciona — o efeito aparece contra controle (SMD 0,57; p=0,003), aparece num desfecho objetivo de imagem (espessura e densidade dérmica por ultrassom), e aparece mesmo no braço sem nenhum aditivo de marketing. A segunda: o tamanho desse efeito é pequeno-a-moderado, a distribuição real de resposta concentra a maioria das pessoas na faixa “moderada”, e nenhum estudo desta linha de pesquisa relatou o desaparecimento completo de uma estria. Quem decide se esse patamar de resultado justifica o procedimento, com qual expectativa e em qual protocolo, é uma conversa de avaliação individual — não uma imagem de antes-e-depois escolhida a dedo.
- A RFM reduz a largura da estria de forma estatisticamente significativa contra controle: SMD 0,57 (IC 95% 0,20–0,94; p=0,003) (Sun, Jia & Huang, 2024).
- Por convenção estatística, esse SMD fica na fronteira entre efeito pequeno e moderado — real, mas não “grande”.
- Em Afify et al. (2020), a largura caiu de forma significativa (p<0,0001) tanto com RFM isolada quanto com RFM + fatores de crescimento — o aditivo não foi o que fez a diferença.
- Ultrassom cutâneo confirmou ganho objetivo de espessura (+204,9 μm) e densidade dérmica (+8,8%), p<0,05 (Seong et al., 2021).
- Quase metade das lesões tratadas só com RFM (47,9–50%) teve resposta ≥50% de melhora, antes de qualquer combinação (Fatemi Naeini et al., 2016).
- A distribuição real de resposta concentra a maioria dos casos na faixa “moderada” (55,5%) — nenhuma remissão completa foi relatada (Sany et al., 2022).
- A comparação direta com o laser CO2 fracionado (eficácia e segurança lado a lado) é o pilar da apostila 5 desta série.
Se a RFM funciona, mas com uma régua de expectativa definida, a pergunta seguinte é prática: com quantas sessões, em qual intervalo e com quais parâmetros os estudos chegaram a esses números? É exatamente essa engenharia que a próxima apostila da série destrincha. Leve estas leituras a uma avaliação individual: é nela que se discute se o procedimento e o protocolo fazem sentido para o seu caso.
- Sun X, Jia X, Huang L. Microneedling Therapy for Striae Distensae: Systematic Review and Meta-Analysis. Aesthetic Plast Surg, 2024;48(15):2915-2926 — SMD 0,57 (IC 95% 0,20–0,94; p=0,003) microagulhamento com RF x controle.
- Afify AA, Fawzy HM, Al-Rubaiay NHA, Abdallah M. Fractional microneedling radiofrequency in striae alba: Do growth factors add value? J Cosmet Dermatol, 2020;19(10):2583-2590 — redução de largura da estria estatisticamente significativa nos dois braços (p<0,0001).
- Seong GH, Jin EM, Ryu TU, Kim MH, Park BC, Hong SP. Fractional Radiofrequency Microneedling Combined With Fractional Carbon Dioxide Laser Treatment for Striae Distensae. Lasers Surg Med, 2021;53(2):219-226 — ganho objetivo de espessura (+204,9 μm) e densidade dérmica (+8,8%) por ultrassom, p<0,05.
- Fatemi Naeini F, Behfar S, Abtahi-Naeini B, et al. Promising Option for Treatment of Striae Alba: Fractionated Microneedle Radiofrequency in Combination with Fractional Carbon Dioxide Laser. Dermatol Res Pract, 2016;2016:2896345 — resposta ≥50% de melhora em 47,9–50% das lesões no braço RFM isolado.
- Sany I, Mohamed Sobhi R, Badawi A, Elmaadawi ZM. Comparative Study Between the Efficacy of Fractional CO2 Laser/Radiofrequency, PRP and a Combination of Both in the Treatment of Striae Distensae: A Pilot Study. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2022;15:1687-1694 — distribuição de resposta 22% leve / 55,5% moderada / 22,5% acentuada nos braços isolados.