Funciona mesmo? Os números reais — e o que caiu pela metade
O estudo mais citado sobre preenchimento nessa área não foi desenhado para linha de marionete — foi desenhado para mandíbula. O único estudo dedicado a ela existe, mas é aberto, sem grupo controle, e o efeito cai pela metade em 12 meses. Os números, sem inflar.
O preenchimento da região da linha de marionete com ácido hialurônico é um PROCEDIMENTO INJETÁVEL — um ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo: apresenta os números que a literatura científica sobre esta região realmente mostra, com o desenho de cada estudo declarado, nunca uma promessa de resultado. Se o preenchimento é indicado para o seu caso, e o que esperar dele, depende de avaliação individual, feita por profissional habilitado.
Na apostila anterior desta série vimos o mecanismo: a linha de marionete tem um componente dinâmico — o músculo depressor anguli oris (DAO) puxando o canto da boca para baixo a cada expressão — somado a um componente estático, que faz a linha aprofundar mesmo em repouso conforme o suporte de tecido se perde. Entendido o mecanismo, a pergunta que decide expectativa é outra: o preenchimento funciona mesmo nessa linha específica, e quanto?
A resposta honesta exige contar uma história em duas partes, porque não existe hoje um único estudo perfeito. Existe um estudo desenhado especificamente para a linha de marionete — mas ele é aberto, sem grupo controle. E existe um ensaio clínico randomizado, de nível de evidência mais alto — mas ele foi desenhado para outra coisa (definição de mandíbula), e a linha de marionete aparece ali como desfecho secundário. Nenhum dos dois, sozinho, responde tudo. Juntos, dão o quadro mais honesto disponível.
Ruiz Del Cueto e colaboradores publicaram, em 2024/2025, o único estudo prospectivo dedicado especificamente à linha de marionete encontrado na literatura levantada para esta série — os demais ensaios de preenchimento na face inferior tratam a marionete como parte de um conjunto maior (sulco nasogeniano, mandíbula) ou como desfecho secundário (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025). É um estudo pós-comercialização, aberto (open-label), de braço único (single-arm), feito em 1 centro na França, com 83 participantes (78 completaram o seguimento de 12 meses).
O desfecho primário foi a proporção de participantes com melhora de pelo menos 1 ponto na Allergan Marionette Line Scale (AMLS) no mês 1: 69,9% responderam. É o número mais próximo de “funciona, medido direto na linha de marionete” que a literatura atual oferece — mas é um único ponto no tempo, sem grupo comparativo.
mês 1 (desfecho primário)
melhorado” — mês 1
melhorado” — mês 12
mês 1 (Δ pontos)
mês 12 (Δ pontos)
Foram registrados 14 eventos adversos relacionados ao dispositivo em 13 dos 83 participantes — dor foi o mais comum (metade dos casos), resolvendo em até 8 dias, sem nenhum evento adverso grave relatado. Os próprios autores declaram as limitações do desenho: pouca diversidade de fototipo (maioria fototipo II-III), 92,8% mulheres, um único centro, e ausência de grupo controle — ou seja, não é um estudo cego nem randomizado (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025).
Burgess e colaboradores publicaram, em 2025, os desfechos secundários de um ensaio clínico randomizado (RCT) com VYC-25L: 157 participantes tratadas versus 49 no grupo controle sem tratamento, seguidas por 6 meses. É um desenho controlado e randomizado — nível de evidência mais alto que o Estudo A. Mas o produto e o alvo primário desse ensaio são a definição de mandíbula e o sulco pré-jowl, não a linha de marionete isolada; a marionete entra como um dos desfechos relatados dentro do estudo, não como o que o desenho foi construído para medir (Burgess et al., 2025).
Ainda assim, o dado existe e é robusto: nas participantes tratadas cujo protocolo incluiu a linha de marionete, o escore FACE-Q “Appraisal of Lines: Marionette” melhorou 32,6 pontos entre a linha de base e o mês 6. O mesmo braço de tratamento também mostrou profundidade do sulco pré-jowl +4,6mm (vs. +2,5mm no controle) e ganho de volume de mandíbula +6,0mL (vs. -2,6mL no controle) — métricas de mandíbula, citadas aqui só para deixar claro o que o estudo realmente mediu como alvo principal (Burgess et al., 2025).
Vale registrar, en passant, o RCT-mãe da mesma coorte: Rivkin e colaboradores (2024), N=206, mostrou taxa de resposta na Allergan Lower Jawline Definition Scale (ALJDS) de 69,0% no braço VYC-25L vs. 38,0% no controle (p=0,0001), e ganho de +45,9 pontos no FACE-Q de face inferior/mandíbula — números de mandíbula, não de marionete, mas que dão o contexto de robustez estatística do desenho de onde o dado de marionete de Burgess et al. (2025) foi extraído.
Nenhum dos dois estudos reúne, ao mesmo tempo, alta especificidade para marionete e alto controle metodológico — é por isso que esta série declara força de evidência B, não A, para este par.
Citar só o número mais bonito — “98,8% de melhora!” — sem dizer que era no mês 1, sem grupo controle, e que caiu pela metade até o mês 12.
É o tipo de recorte que o marketing costuma fazer com dados científicos: pegar o pico mais favorável de um estudo (mês 1, sem comparação com nada) e apresentá-lo como se fosse o resultado esperado o tempo todo. Os mesmos dados do Estudo A mostram GAIS caindo de 98,8% para 50% entre o mês 1 e o mês 12, e satisfação FACE-Q caindo de +18,1 para +10,9 pontos no mesmo intervalo (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025). Omitir essa curva não é mentira explícita, mas distorce a expectativa.
O certo: sempre dizer o momento da medida, se houve grupo controle, e como o efeito se comportou até o fim do seguimento — os três elementos que separam um número honesto de um número de vitrine. A apostila 7 desta série aprofunda essa diferença entre marketing e ciência.
Repor volume com agulha ou cânula na região da linha de marionete — próxima de estruturas vasculares da face inferior — traz um risco raro, porém grave, de oclusão vascular. A técnica de injeção, o plano correto e a anatomia de segurança dessa região têm capítulo próprio nesta série, na apostila 3. Esta apostila trata apenas dos números de eficácia; a segurança tem seu espaço dedicado.
Vale calibrar o que foi apresentado. Uma revisão sistemática de Cohen e colaboradores (2013), que reuniu 53 relatos clínicos primários sobre preenchedores de ácido hialurônico, mostrou que a evidência de mais alta qualidade da especialidade — ensaios randomizados face-dividida e cegos — está concentrada no sulco nasogeniano. A linha de marionete aparece no grupo de evidência mais baixa da própria revisão: estudos não-randomizados, abertos ou retrospectivos, na companhia de sulco lacrimal, pálpebras, nariz, comissura oral, rugas periorais, têmporas e bochechas (Cohen et al., 2013). Isso não é uma falha desta série — é o retrato real do que existe publicado sobre essa região específica até agora.
Dito de outro modo: não existe, na literatura levantada, nenhum ensaio clínico randomizado e controlado desenhado especificamente para linha de marionete como desfecho primário. O que existe é o melhor que os dois desenhos disponíveis oferecem — um estudo dedicado mas aberto (Estudo A), e um RCT robusto mas com a marionete como desfecho secundário de um produto para mandíbula (Estudo B). É por isso que esta apostila apresenta os dois lado a lado, com as ressalvas de cada um, em vez de escolher só o número mais confortável.
Quando alguém cita um número de eficácia de preenchimento — “quase 99% de melhora” ou qualquer porcentagem isolada — vale fazer três perguntas antes de se empolgar: em que momento do seguimento esse número foi medido, houve algum grupo de comparação, e o efeito foi acompanhado até quando. No caso da linha de marionete, a resposta honesta é: o estudo dedicado tem um pico expressivo no mês 1, cai pela metade até o mês 12, e não tem grupo controle; o RCT que tem controle não foi desenhado para essa linha, mas para mandíbula. Nenhuma das duas frases sozinha conta a história inteira — juntas, sim.
- O único estudo dedicado à linha de marionete (Ruiz Del Cueto et al., 2024/2025) é aberto, single-arm, 1 centro, sem grupo controle — N=83 (78 no mês 12).
- Endpoint primário desse estudo: 69,9% dos participantes com melhora ≥1 ponto na AMLS no mês 1.
- O efeito cai com o tempo: GAIS “melhorado/muito melhorado” foi de 98,8% (mês 1) para 50% (mês 12); satisfação FACE-Q, de +18,1 para +10,9 pontos.
- O RCT de maior nível de evidência (Burgess et al., 2025) mostrou +32,6 pontos no FACE-Q de marionete em 6 meses — mas foi desenhado para definição de mandíbula, não para essa linha.
- Nenhum estudo reúne, ao mesmo tempo, desenho controlado e alvo primário na linha de marionete — por isso a força de evidência declarada é B, não A (Cohen et al., 2013).
- O erro comum é citar o número do mês 1 isolado, sem dizer o desenho do estudo nem a queda registrada até o mês 12.
- É procedimento injetável, ato biomédico: o que esperar no seu caso específico depende de avaliação individual, feita por profissional habilitado.
Números de eficácia, mesmo os honestos, não dizem nada sobre como o procedimento é feito com segurança nessa região específica. A próxima apostila da série entra no protocolo, na técnica e na anatomia de segurança da linha de marionete — o que profissionais habilitados avaliam antes de indicar cânula ou agulha, e por quê. Leve os números desta apostila à avaliação individual: quem decide se e como o preenchimento se aplica ao seu caso é o profissional habilitado.
- Ruiz Del Cueto S, Urdiales Gálvez F, Gritti A, et al. An Evaluation of VYC-17.5L for the Treatment of Marionette Lines: A Prospective, Open-Label, Postmarketing Study. J Cosmet Dermatol, 2024/2025;24(2):e16694. doi:10.1111/jocd.16694. PMID 39600229 — único estudo prospectivo dedicado especificamente à linha de marionete; N=83 (78 no mês 12), single-arm, open-label, sem controle; base do Estudo A e do gráfico de queda ao longo do tempo desta apostila.
- Burgess CE, Dayan S, Bank D, Weinkle S, Sartor M, Chawla S, Keaney T. Hyaluronic Acid Filler VYC-25L for Jawline Restoration Yields High Satisfaction, Improved Jawline Measurements, and Sustained Effectiveness Across Skin Types, Age, and Gender for up to 12 Months. Aesthetic Surg J, 2025;45(1):98-107. doi:10.1093/asj/sjae172. PMID 39141784 — RCT (VYC-25L n=157 vs. controle n=49, 6 meses); desfecho secundário de marionete (FACE-Q +32,6 pts); base do Estudo B desta apostila.
- Rivkin A, et al. Safe and Effective Restoration of Jawline Definition With Hyaluronic Acid Injectable Gel VYC-25L: Results From a Randomized Controlled Study. Aesthetic Surg J, 2024. doi:10.1093/asj/sjae… PMID 38985546 — RCT-mãe da mesma coorte de Burgess et al. (N=206); citado en passant só para contextualizar a robustez estatística do desenho de origem do dado de marionete.
- Cohen JL, Dayan SH, Brandt FS, Nelson DB, Axford-Gatley RA, Theisen MJ, Narins RS. Systematic Review of Clinical Trials of Small- and Large-Gel-Particle Hyaluronic Acid Injectable Fillers for Aesthetic Soft Tissue Augmentation. Dermatol Surg, 2013;39(2):205-231. doi:10.1111/dsu.12036. PMID 23164066 — revisão sistemática de 53 relatos clínicos; sustenta por que a linha de marionete está no grupo de evidência mais baixa da especialidade e por que esta série declara força B.