Para quem é — e para quem definitivamente não é
As duas primeiras apostilas mostraram que o preenchedor funciona no rolling porque a lesão tem uma banda de fibrose rasa que traciona a pele para baixo, mas que se distende ao ser esticada. Esse mesmo raciocínio, lido ao contrário, já diz quem não é candidato: cicatriz rígida, endurecida, que não estica sob o dedo. Esta é a quarta de nove apostilas desta série, e ela existe para separar, com critério, quem entra e quem fica de fora dessa indicação.
Preenchimento com ácido hialurônico em cicatriz de acne é um PROCEDIMENTO ESTÉTICO INJETÁVEL — ato biomédico, sempre realizado por profissional habilitado, com exame presencial do tipo, do tamanho e do grau de fibrose de cada cicatriz. Os critérios reunidos aqui são os mesmos que a literatura científica usou para descrever quem responde bem ao preenchedor e quem não responde — nunca um roteiro de autodiagnóstico. Nenhuma pessoa deve decidir sozinha, olhando no espelho, se sua cicatriz “é candidata” ou não: essa distinção exige palpação e avaliação clínica presencial, feita por quem tem treinamento para isso.
Nem toda cicatriz que parece uma ondulação no rosto responde da mesma forma ao ácido hialurônico. A apostila 01 desta série já explicou o mecanismo: rolling é preenchível porque tem uma banda de fibrose rasa que traciona a derme para baixo, mas que continua distensível — ao contrário do icepick, com fibrose funda e aderida, e do boxcar, com bordas verticais rígidas. Esta apostila usa esse mesmo mecanismo como critério de seleção: o que separa quem é bom candidato ao preenchedor de quem não é.
A resposta não é “rolling sim, icepick e boxcar não” de forma automática. Existe uma variável dentro do próprio rolling que muda tudo: o grau de fibrose sob a lesão. Um rolling amplo, macio e que se distende ao esticar a pele é o cenário descrito na literatura como ideal. Um rolling endurecido, que não cede à tração manual, é outra história — mesmo tendo o mesmo nome clínico.
Fife (2011, Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology) descreve o critério de seleção de forma direta: os candidatos ideais para preenchedor são cicatrizes rolling amplas, macias e distensíveis/esticáveis — ou seja, que cedem visivelmente quando a pele ao redor é esticada com os dedos, mostrando que a base da depressão ainda tem tecido mole capaz de ser elevado pelo volume injetado. O mesmo texto nomeia o cenário oposto com igual clareza: quando existe fibrose sob a lesão, a deposição do preenchedor pode ficar desigual, resultando em extrusão do material para a pele ao redor da cicatriz (Fife, 2011).
Esse alerta não é um detalhe menor. Ele descreve um resultado estético ruim e específico: em vez de nivelar a depressão, o preenchedor pode “vazar” visualmente para os lados, porque a base fibrosada e aderida não aceita o volume de forma uniforme. É esse risco de resultado desigual, mais do que qualquer regra abstrata, que sustenta a cautela com rolling fibrosado — e que justifica a subcisão prévia como opção nesses casos (assunto da apostila 05 desta série).
- Ondulação ampla, de bordas suaves
- Macia ao toque, sem endurecimento perceptível
- Distensível: cede visivelmente ao esticar a pele ao redor
- Base da depressão ainda tem tecido mole mobilizável
- Endurecida, não cede à tração manual
- Risco de deposição desigual e extrusão do material (Fife, 2011)
- Icepick: excluído por desenho de ensaio controlado (Abdelwahab, 2022)
- Boxcar profundo e icepick: resposta inferior em revisão sistemática (Albargawi, 2025)
As barras ilustram a presença relativa do mecanismo que sustenta a indicação (tração fibrosa rasa e distensível) em cada cenário — não uma nota de resposta clínica medida.
Um dos achados mais diretos desta seção não vem de um estudo desenhado para comparar subtipos de cicatriz entre si — vem de uma decisão de desenho de pesquisa. O ensaio controlado de três braços de Abdelwahab, Omar e Hamdino (2022, Lasers in Medical Science), que testou subcisão combinada a preenchedor de ácido hialurônico reticulado, excluiu icepick puro da elegibilidade para participar do estudo. Essa exclusão não foi um detalhe burocrático: é o reconhecimento direto de que o mecanismo de tração fibrosa rasa — a base física de por que subcisão e preenchedor funcionam em rolling — simplesmente não existe no icepick, cuja fibrose é funda, estreita e aderida à derme profunda.
Esse mesmo raciocínio já estava presente, de forma mais geral, no trabalho fundacional de Jacob, Dover e Kaminer (2001, Journal of the American Academy of Dermatology), que criou a classificação de cicatriz atrófica em três subtipos e propôs um algoritmo de tratamento por subtipo: o preenchedor aparece como opção listada para rolling, não para icepick ou para boxcar profundo — subtipos que, no algoritmo original, pedem outras ferramentas, como punch excision, CROSS ou laser fracionado.
É importante nomear o limite exato deste critério: nenhum estudo localizado testou formalmente um “teste de distensibilidade” com corte quantitativo, comparando o desfecho entre rolling distensível e rolling fibrosado/rígido dentro do mesmo ensaio. O que existe é (1) o critério clínico direto de Fife (2011), força C, uma observação de revisão narrativa; (2) reforçado indiretamente por um ensaio controlado que excluiu icepick por desenho, não por teste de subgrupo (Abdelwahab, 2022, força B); e (3) por uma revisão sistemática que relata resposta relativa menor do icepick frente a rolling e boxcar, também sem corte quantitativo de distensibilidade (Albargawi, 2025, força B). É uma lógica clínica bem estabelecida e convergente — não um achado experimental de subgrupo controlado.
Achar que toda cicatriz que parece uma ondulação é rolling que pode ser preenchida.
É comum alguém olhar no espelho, ver uma depressão de bordas suaves e concluir “isso é rolling, então dá para preencher”. O nome do subtipo, sozinho, não garante a indicação. Uma cicatriz rolling fibrosada e endurecida tem o mesmo nome clínico de uma rolling macia e distensível, mas um mecanismo de fixação diferente — e, segundo Fife (2011), pode responder ao preenchedor com deposição desigual e extrusão de material para a pele ao redor, exatamente o oposto do resultado estético desejado. Classificar pelo nome do subtipo sem checar a distensibilidade é confundir a categoria com o critério real de seleção.
O certo: o critério que decide a indicação não é só “é rolling”, é “é rolling amplo, macio e que estica sob a tração manual”. Quando a cicatriz é rolling, mas fibrosada e rígida, a avaliação presencial do profissional habilitado é quem decide se o caminho é subcisão antes do preenchedor, preenchedor combinado a outra técnica, ou outra abordagem — nunca preenchedor isolado aplicado por presunção do nome do subtipo.
Na avaliação presencial, a primeira coisa que eu faço com uma cicatriz que parece rolling não é medir a profundidade nem tirar foto — é esticar a pele ao redor com os dedos e ver o que acontece com a depressão. Se ela cede, se a ondulação quase desaparece sob a tração, isso me diz que a base ainda tem tecido mole mobilizável: é o cenário que Fife descreve como candidato ideal. Se a pele fica dura, se a depressão não muda de forma sob a tração, isso muda a conversa inteira — não significa que a pessoa não tenha solução, significa que o caminho provavelmente passa por subcisão antes, ou por outra combinação, não pelo preenchedor isolado. É esse gesto simples, feito com as mãos, que decide mais sobre a indicação do que o nome do subtipo escrito num laudo.
- Candidato ideal: rolling amplo, macio e distensível/esticável ao teste de tração manual (Fife, 2011).
- Alerta direto de Fife (2011): quando há fibrose sob a lesão, a deposição do preenchedor pode ficar desigual e extrudir para a pele ao redor.
- Icepick foi excluído por desenho de um ensaio controlado (Abdelwahab et al., 2022, N=40) — reconhecimento de que a tração fibrosa rasa não existe nesse subtipo.
- Revisão sistemática (Albargawi 2025, 26 estudos, N=1.121): rolling e boxcar melhoraram significativamente mais que icepick, de forma consistente entre os estudos.
- Jacob et al. (2001) já listava preenchedor como opção para rolling, não para icepick ou boxcar profundo, no algoritmo fundacional de tratamento por subtipo.
- Honestidade: nenhum estudo testou formalmente um “teste de distensibilidade” com corte quantitativo comparando subgrupos dentro do mesmo ensaio — o critério é consenso clínico consistente (força C), reforçado indiretamente por dois estudos de força B.
- É procedimento estético injetável: ato biomédico, realizado por profissional habilitado; a distinção entre rolling distensível e fibrosado exige avaliação presencial, nunca autodiagnóstico.
Com os critérios de seleção mapeados — quem responde bem ao preenchedor isolado e quem precisa de outra estratégia —, a pergunta natural é: “e quando a cicatriz é fibrosada, ou quando o preenchedor sozinho não é suficiente, o que se combina com ele?” A próxima apostila da série reúne o que a evidência mostra sobre combinar preenchedor com subcisão e com outras técnicas. Leve estas informações à avaliação individual: é o profissional habilitado, presencialmente, quem examina o grau de distensibilidade da sua cicatriz e decide o que é seguro e o que é possível no seu caso.
- Fife D. Practical Evaluation and Management of Atrophic Acne Scars: Tips for the General Dermatologist. J Clin Aesthet Dermatol, 2011 — critério de candidato ideal (rolling amplo, macio, distensível) e alerta sobre deposição desigual/extrusão em rolling fibrosado.
- Abdelwahab AA, Omar GA, Hamdino M. Subcision versus subcision plus fractional CO2 laser versus subcision plus cross-linked hyaluronic acid filler in treatment of atrophic post-acne scars. Lasers Med Sci, 2022 — ensaio controlado de 3 braços, N=40; icepick puro excluído da elegibilidade por desenho do estudo.
- Albargawi S. Comparative efficacy and safety of synthetic fillers for acne scar treatment: a systematic review. J Cosmet Dermatol, 2025 — revisão sistemática, 26 estudos, N=1.121; rolling e boxcar melhoraram significativamente mais que icepick, de forma consistente entre os estudos.
- Jacob CI, Dover JS, Kaminer MS. Acne scarring: a classification system and review of treatment options. J Am Acad Dermatol, 2001 — classificação fundacional em 3 subtipos (icepick, rolling, boxcar) e algoritmo de tratamento por subtipo, com preenchedor listado como opção para rolling.