Apostila 4 · Preenchimento com Ácido Hialurônico · Estudo

Para quem é indicado o preenchimento no bigode chinês — o grau que os estudos testaram

A busca por “pra quem é indicado” costuma devolver uma lista genérica: “quem tem a dobra”, “quem quer rejuvenescer o terço médio”. Os ensaios pivotais desta série testaram outra coisa, bem mais específica: sulco simétrico, bilateral, em grau 3 a 4 numa escala validada. “Eu tenho uma linha bem fininha” não é, estritamente, o paciente que a ciência testou — e essa diferença muda a conversa sobre expectativa.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Preenchimento com ácido hialurônico no sulco nasolabial (bigode chinês) é um PROCEDIMENTO INJETÁVEL — ato biomédico, realizado por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve os critérios de gravidade, simetria e perfil que os estudos clínicos usaram para incluir participantes, nunca uma indicação fechada, um diagnóstico ou uma promessa de resultado para o seu caso específico. Se o seu sulco se encaixa nesses critérios, e qual é a conduta adequada, é decisão da avaliação individual com profissional habilitado.

Toda vez que uma apostila desta série chega a “para quem é indicado”, existe uma tentação de escrever uma lista confortável: “para quem tem o sulco marcado”, “para quem quer rejuvenescer”, “para quem começou a notar a dobra no espelho”. Essa lista existe em quase todo material de mercado — e ela não é falsa, só é vaga demais para ser útil.

Quando fui olhar, um por um, os critérios de entrada dos ensaios clínicos que sustentam a eficácia desta série (apostila 2), encontrei algo mais estreito e mais interessante: os estudos pivotais não testaram “quem tem a dobra” — testaram quem tinha sulco simétrico, bilateral, classificado como grau 3 ou 4 numa escala validada de gravidade. Isso não invalida o procedimento para graus mais leves; significa que, para esses casos, a resposta é extrapolada, não medida diretamente. Esta apostila separa o que foi testado do que é inferência — e traz também um dado que desmonta um medo recorrente sobre pele de cor.

A escala que os estudos usaram: WSRS grau 1 a 4

Os RCTs pivotais desta série usaram, de forma consistente, a Wrinkle Severity Rating Scale (WSRS) — uma escala validada de 1 a 4 (mínimo a grave) para classificar a profundidade e o relevo do sulco nasolabial em repouso. O critério de entrada mais repetido entre os estudos foi grau 3 a 4, moderado a grave, e simétrico entre os dois lados da face: o RCT de Alimohammadi et al. (2024, N=48) exigiu explicitamente sulco grau 3–4 simétrico bilateral; o de Kaminer et al. (2025, N=140) exigiu “moderado ou grave” na WSRS, com idade mínima de 22 anos; o de Monheit et al. (2020, N=174) também recrutou sulcos moderados a graves. Nenhum desses ensaios foi desenhado para medir resposta em graus 1 ou 2 (ausente a leve).

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Grau 1 — sulco ausente ou quase imperceptível

Fora do desenho dos RCTs pivotais

Linha muito fina, visível só sob tração da pele ou em determinadas expressões. Nenhum dos ensaios pivotais desta série recrutou este grau como população-alvo primária — não há RCT medindo diretamente a resposta aqui.

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Grau 2 — sulco leve, presente em repouso

Fora do desenho dos RCTs pivotais

Dobra rasa, contínua, mas de baixo relevo. Também não é o critério de entrada dos grandes ensaios de eficácia revisados nesta série — a resposta ao preenchimento neste grau é inferida, não medida em RCT dedicado.

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Grau 3 — sulco moderado

Critério de entrada testado (limiar mínimo)

O limiar mínimo de gravidade exigido pelos RCTs pivotais (Alimohammadi 2024; Kaminer 2025; Monheit 2020). É a partir daqui que a evidência direta de eficácia (apostila 2) se aplica com solidez.

4

Grau 4 — sulco grave

Critério de entrada testado (o extremo estudado)

O outro extremo do critério de inclusão. Junto ao grau 3, forma a faixa 3–4, simétrica e bilateral, que é, de fato, o “paciente estudado” pelos ensaios que embasam esta série.

Como o critério de elegibilidade de um RCT virou, no mercado, “todo mundo com a dobra é indicado”
Nenhuma das três etapas abaixo é um estudo comparando quem se beneficia mais ou menos
Critério de entrada do RCTWSRS grau 3–4, simétrico, bilateral, idade ≥22 (Alimohammadi 2024; Kaminer 2025)
Leitura de mercadoqualquer sulco visível é lido como “indicação comprovada”
A lacuna realgrau 1–2 e pacientes muito jovens: extrapolação, não teste direto
Por que isso importa: o critério de elegibilidade serve para medir eficácia num grupo definido — não para provar que o mesmo efeito, na mesma magnitude, ocorre em quem tem sulco mais leve ou é mais jovem que a amostra estudada.
Um erro muito comum

Achar que “ter a dobra” já é, por si só, indicação — ignorando o grau e a gravidade que os próprios estudos usaram como critério de entrada.

A indicação que a evidência sustenta com mais solidez não é “ter o bigode chinês visível”: é ter um sulco classificado como grau 3 ou 4, simétrico e bilateral, o mesmo perfil recrutado pelos ensaios que mostraram melhora estatisticamente significativa e sustentada por meses (apostila 2). Fora dessa faixa, o procedimento pode ainda fazer sentido clínico — mas a decisão passa a depender mais da avaliação individual e menos de um número de RCT.

O certo: tratar grau e simetria como parte central da conversa sobre indicação — não só “eu tenho a dobra, então é pra mim”. Quem classifica o grau do seu sulco e decide a conduta é o profissional habilitado, em avaliação individual.

O grau também decide o gel — não só a técnica

A gravidade do sulco não muda apenas “se” o procedimento é indicado; ela muda qual produto os próprios estudos usaram. No RCT de 18 meses que testou a nova geração de géis de reticulação reduzida, o desenho do estudo alocou o RHA2 para rugas classificadas como moderadas e o RHA3/RHA4 para rugas graves (Rzany et al., 2019) — ou seja, a estratificação por grau já está embutida na própria lógica de escolha do produto testado, não é um detalhe secundário de bula.

Pele de cor: o medo do queloide que os dados não confirmam

Um receio recorrente em quem tem fototipo mais alto é achar que “preenchimento em pele negra faz queloide” ou responde pior. Uma análise post-hoc reunindo 217 participantes de dois ensaios avaliou especificamente pacientes com fototipos de Fitzpatrick IV a VI tratados com géis RHA no sulco nasolabial: a melhora da WSRS foi igual ou maior que a observada em fototipos mais claros, e não houve nenhum relato de cicatriz queloide nessa população (Taylor et al., 2023).

Melhora da WSRS por fototipo — análise post-hoc pooled, N=217
Barras ilustrativas: o estudo relatou melhora “igual ou maior” em fototipos IV-VI sem publicar o delta exato por subgrupo — a barra ordena a direção do achado, não mede a magnitude com precisão adicional
Fototipos I-III (claros)
melhora consistente
Fototipos IV-VI (pele de cor)
melhora igual/maior · 0 queloide
Fonte: Taylor SC, et al. Aesthetic Surgery Journal, 2024;44(4):412-420 (N=217 pooled). Sem relato de cicatriz queloide na subamostra de pele de cor.
Fato × debate — o que os estudos comprovam sobre “para quem”
Fato — bem estabelecido
Grau 3–4, simétrico, bilateral

É o critério de entrada convergente entre múltiplos RCTs (Alimohammadi 2024, N=48; Kaminer 2025, N=140; Monheit 2020, N=174) e é onde a eficácia (apostila 2) e a segurança em pele de cor (Taylor 2023, N=217) foram medidas diretamente. Força de evidência A/B.

Debate / lacuna real
Grau leve (1–2) e pacientes muito jovens

Nenhum RCT pivotal desta série recrutou primariamente sulcos grau 1–2 nem testou especificamente população mais jovem que a média das amostras. A resposta esperada nesses perfis é extrapolação anatômica e clínica, não medição direta. Força de evidência C.

Quem realmente entrou nos estudos: idade e sexo

Vale nomear quem, de fato, formou as amostras que sustentam esta série — porque isso também é parte de “para quem a evidência fala mais alto”. A idade média das participantes gira entre 55 e 57 anos entre os ensaios pivotais revisados, e a amostra é majoritariamente feminina: no estudo de Kaufman-Janette et al. (2019, N=88 por protocolo/~140 randomizados), 92% dos participantes eram mulheres. Isso não significa que homens ou pacientes mais jovens não possam se beneficiar — significa que, para esses perfis, a evidência direta dos RCTs pivotais desta série é mais escassa, e a decisão se apoia mais fortemente na avaliação individual.

O que esta lacuna NÃO significa

Idade média de 55-57 anos e amostra majoritariamente feminina descrevem quem os estudos recrutaram — não um critério de exclusão para quem foge desse perfil. Significa apenas que, fora dessa faixa etária e desse perfil de gravidade, a resposta esperada é extrapolação clínica, e a avaliação individual pesa mais na decisão do que um número de RCT.

A Sacada dos Doutores“Para quem” não é uma lista de sinais — é uma pergunta sobre gravidade e sobre o que a ciência testou

Quando eu fui separar, estudo por estudo, quem realmente formou as amostras desta série, o retrato foi bem mais específico do que qualquer lista de marketing sugere: sulco grau 3 ou 4 na WSRS, simétrico, bilateral, em mulheres na faixa dos 55 aos 57 anos, na maioria dos ensaios. É esse o “paciente estudado”. Um dado que me chamou a atenção, e que vale desmontar aqui: o medo de que pele de cor responda pior ou tenha mais risco de queloide não se confirma — a análise pooled de 217 participantes com fototipos IV a VI mostrou melhora igual ou maior, sem nenhum relato de queloide. Já para sulco leve ou pacientes bem mais jovens, sou honesta: a resposta esperada existe pela lógica clínica e anatômica, mas não pelo mesmo tipo de prova direta que sustenta o grau moderado a grave. Quem classifica o grau do seu sulco, avalia seu histórico de pele e decide a conduta certa é sempre o profissional habilitado, em avaliação individual.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • O critério de entrada convergente dos RCTs pivotais é grau 3–4 na WSRS, simétrico e bilateral (Alimohammadi 2024, N=48; Kaminer 2025, N=140; Monheit 2020, N=174).
  • Graus 1 e 2 (ausente a leve) não foram a população-alvo de nenhum ensaio pivotal desta série — resposta esperada por extrapolação, não medida em RCT dedicado.
  • O grau também decide o produto: RHA2 alocado para moderado, RHA3/RHA4 para grave, no próprio desenho do estudo (Rzany et al., 2019).
  • Pele de cor (fototipos IV-VI) teve melhora igual ou maior que fototipos claros, sem nenhum relato de queloide, em análise pooled de 217 participantes (Taylor et al., 2023).
  • A idade média das participantes gira entre 55 e 57 anos, com amostra majoritariamente feminina — 92% em Kaufman-Janette et al. (2019).
  • “Ter a dobra” não é sinônimo de indicação comprovada — o critério que sustenta a evidência é gravidade classificada, simetria e o desenho do próprio estudo.
  • Quem classifica o grau do seu sulco e decide a conduta é o profissional habilitado, em avaliação individual.
O próximo passo

Se a indicação depende de grau e simetria, a pergunta seguinte que mais aparece em consultório é sobre combinar ferramentas: o preenchimento no sulco combina com toxina botulínica e bioestimuladores? A próxima apostila da série detalha o que a evidência apoia — e onde ainda falta RCT desenhado especificamente para o sulco nasolabial. Leve estas informações à avaliação individual: quem classifica o grau do seu caso e indica a conduta certa é o profissional habilitado.

Referências
  1. Alimohammadi M, Furman-Assaf S, Nilsson J. Prospective, Randomized, Double-Blind, Split-Face, Comparative Study to Evaluate DKL23 and Juvéderm Volift for Correcting Moderate-to-Severe Nasolabial Folds. Aesthetic Surg J, 2024;44(11):1218-1226 — RCT N=48; critério de entrada grau 3–4 WSRS simétrico bilateral.
  2. Kaminer MS, et al. Long-term Safety and Effectiveness of Cold-Crosslinked Hyaluronic Acid Fillers: Multicenter, Randomized, Controlled, Double-Blind Study. Aesthetic Surg J, 2025;45(8):842-849 — RCT N=140; critério de entrada WSRS moderado/grave, idade ≥22 anos.
  3. Monheit G, et al. Efficacy and Safety of Two Resilient Hyaluronic Acid Fillers in the Treatment of Moderate-to-Severe Nasolabial Folds: A 64-Week RCT. Dermatol Surg, 2020;46(12):1521-1529 — RCT N=174; sulco moderado a grave, testado em todos os fototipos.
  4. Rzany B, et al. Efficacy and Safety of 3 New Resilient Hyaluronic Acid Fillers, Crosslinked With Decreased BDDE, for the Treatment of Dynamic Wrinkles: Results of an 18-Month RCT. Dermatol Surg, 2019;45(10):1304-1314 — RHA2 alocado para rugas moderadas e RHA3/RHA4 para graves, no próprio desenho do estudo.
  5. Taylor SC, et al. Effectiveness and Safety of Resilient Hyaluronic Acid (RHA) Dermal Fillers for the Correction of Moderate-to-Severe Nasolabial Folds in People of Color: Post Hoc Subgroup Analyses. Aesthetic Surg J, 2024;44(4):412-420 — análise pooled N=217, fototipos IV-VI com melhora igual/maior, sem relato de queloide.
  6. Kaufman-Janette J, Taylor SC, Cox SE, Weinkle SH, Smith S, Kinney BM. Efficacy and safety of a new resilient hyaluronic acid dermal filler in the correction of moderate-to-severe nasolabial folds: 64-week study. J Cosmet Dermatol, 2019;18(5):1244-1253 — N=88 por protocolo/~140 randomizados; 92% da amostra do sexo feminino.
Dra. Daniele Florêncio
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação fechada nem promessa de resultado. Preenchimento com ácido hialurônico no sulco nasolabial é procedimento injetável, realizado por profissional habilitado. Os critérios de gravidade e perfil citados descrevem o desenho dos estudos, não uma recomendação individual. O grau do seu sulco, a simetria e a conduta adequada dependem de avaliação individual do caso.