Apostila 4 de 9 · Peeling Superficial × Estrias · Protocolo

As concentrações são quase as mesmas de sempre — o regime é que muda

TCA 35%, ácido salicílico 30%, ácido glicólico 70% — praticamente as mesmas faixas usadas em acne e melasma. A diferença real do protocolo de estrias está no tempo que ele pede: sessões mensais sustentadas por até 6 meses seguidos (Mazzarello et al., 2012) — e, mesmo assim, uma melhora que a própria literatura descreve como modesta. Números para calibrar a expectativa antes da 1ª sessão.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Peeling químico superficial é um PROCEDIMENTO ESTÉTICO — ato de profissional habilitado, inclusive biomédico(a), conforme regulamentação do Conselho Federal de Biomedicina. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve o que a literatura científica mostra sobre ácidos aplicados a estrias (striae distensae), nunca uma indicação fechada, um protocolo pronto ou uma promessa de resultado. As concentrações e intervalos citados aqui são o que os estudos usaram, como dado científico — nunca uma receita para pedir ou reproduzir sozinho(a). Estrias têm classificação (rubra × alba), extensão e tempo de evolução diferentes; a concentração, o intervalo entre sessões e o número de aplicações certos para o seu caso dependem de avaliação individual por profissional habilitado.

Quem já fez peeling de acne ou de melasma costuma estranhar quando ouve, pela primeira vez, o protocolo usado nos estudos de estrias: TCA a 35%, ácido salicílico a 30%, ácido glicólico a 70%. São, essencialmente, as mesmas faixas de concentração já conhecidas de outras indicações — não existe um “peeling especial mais forte” desenhado só para estria. A pergunta que esta apostila responde é: se a concentração não muda, o que muda?

A resposta está no regime — no tempo que o protocolo pede para produzir algum efeito. E aqui a evidência é honesta: mesmo sustentando o ácido glicólico a 70% por 6 meses consecutivos, Mazzarello et al. (2012) relataram melhora de textura em apenas 15% dos casos, sem recuperação completa da estria. Esta apostila detalha, protocolo a protocolo, o que cada estudo aplicou — e por que vale calibrar a expectativa de prazo antes de começar (retome, se ainda não leu, a apostila 03 desta série, sobre se o peeling funciona mesmo para estria).

O que os estudos realmente aplicaram — concentração por protocolo

Karia, Padhiar e Shah (2016) testaram 5 protocolos em 50 pacientes com estria rubra (10 por grupo): microdermabrasão (MDA) isolada, MDA associada a TCA 35%, dermaroller isolado, dermaroller associado a TCA 15-30%, e MDA associada a ácido salicílico 30% mais retinol — todos em sessões mensais. As concentrações usadas (TCA 35%, salicílico 30%) são exatamente as faixas clássicas de peeling médio-superficial descritas para outras indicações: Sharad (2013) classifica o ácido glicólico a 70% como peeling “médio-profundo” justamente pelo tempo de contato maior, e situa a faixa de 30-50% como “muito superficial” — não há concentração exclusiva de estria na literatura revisada.

Mazzarello et al. (2012) usaram ácido glicólico 70% em aplicação clínica mensal, repetida por 6 meses consecutivos — a mesma concentração que a classificação de Sharad (2013) já descreve como padrão médio-profundo de peeling em geral, mas aqui sustentada por um regime bem mais longo do que uma série curta de poucas sessões espaçadas. Ebrahim et al. (2022) testaram peeling combinado — glicólico 70% seguido de TCA 35% — associado a plasma rico em plaquetas (PRP), em 75 pacientes divididas em 3 grupos, usando o lado contralateral de cada paciente como controle. É o único dos três estudos que combina dois ácidos na mesma sessão, e o único que associa o peeling a outro procedimento desde o desenho do estudo.

EstudoProtocolo (ácido/associação)Intervalo e duraçãoAmostra
Karia et al. 2016TCA 35% (MDA+TCA) · Salicílico 30%+retinol (MDA+salicílico), entre 5 grupos comparadosSessões mensais (duração total não fechada no resumo verificado)50 pacientes (10/grupo)
Mazzarello et al. 2012Glicólico 70% tópico, isoladoMensal, 6 meses consecutivosN não detalhado no resumo verificado (PubMed)
Ebrahim et al. 2022Glicólico 70% + TCA 35% combinado, associado a PRPIntervalo entre sessões não detalhado no resumo verificado75 pacientes (3 grupos; lado contralateral como controle)

Fontes: Karia, Padhiar & Shah (2016); Mazzarello, Farace, Ena et al. (2012); Ebrahim et al. (2022); classificação de profundidade por Sharad (2013).

Seis meses seguidos — o regime mais longo desta série de evidência

Se a concentração de 70% já é familiar de outras indicações do ácido glicólico, o que chama atenção no protocolo de Mazzarello et al. (2012) é a duração: 6 aplicações mensais consecutivas, sem pausa precoce para reavaliação. É o regime mais longo entre os três estudos revisados nesta série — Karia et al. (2016) descrevem “sessões mensais” sem fechar o número total de meses no resumo disponível, e Ebrahim et al. (2022) não detalham o intervalo entre sessões do peeling combinado no resumo verificado.

E, ainda assim, ao final desse regime estendido, o próprio estudo registra melhora de textura em apenas 15% dos casos — sem recuperação completa, nem em estria rubra nem em estria alba (Mazzarello et al., 2012). É esse contraste — concentração comum, regime longo, resultado modesto — que deveria calibrar a expectativa de quem considera o peeling isolado para estria.

Ácido glicólico 70%, aplicação mensal — a linha do tempo de Mazzarello et al. (2012)
6 sessões consecutivas, uma por mês — o resultado só foi mensurado ao final do regime completo. Larguras intermediárias representam a passagem do tempo, não a intensidade do efeito a cada sessão.
Mês 1
sessão 1
Mês 2
sessão 2
Mês 3
sessão 3
Mês 4
sessão 4
Mês 5
sessão 5
Mês 6
15% de melhora (final)
Mazzarello V, Farace F, Ena P et al. (2012) — ácido glicólico 70% tópico, aplicação clínica mensal repetida por 6 meses. Melhora de textura em apenas 15% dos casos, sem recuperação completa em estria rubra nem em estria alba. As barras dos meses 1 a 5 são ilustrativas da progressão temporal, não medições clínicas mês a mês publicadas — o único ponto de resultado medido e reportado é o desfecho final, ao 6º mês.
Um erro muito comum

Achar que a mesma concentração usada num peeling de acne ou melasma (TCA 35%, glicólico 70%) vai entregar, na estria, um resultado parecido no mesmo prazo de poucas sessões.

A concentração não é o que distingue o protocolo de estria — é praticamente a mesma faixa usada em outras indicações do mesmo ácido (Sharad, 2013). O que muda é o tempo: Mazzarello et al. (2012) sustentaram o glicólico 70% por 6 meses consecutivos, e mesmo assim a melhora de textura ficou em 15% dos casos, sem recuperação completa. Esperar “resultado de melasma” num “prazo de melasma”, usando peeling isolado para estria, é a expectativa que mais gera frustração nesta indicação.

O certo: entrar no protocolo sabendo que, para estria, o regime tende a ser mais longo e o resultado, mesmo assim, mais modesto do que em outras indicações do mesmo ácido — e que quantas sessões, com qual concentração e por quanto tempo é sempre decisão do profissional, após avaliação individual.

O resultado, protocolo por protocolo — por que calibrar antes da 1ª sessão

Nenhum dos três estudos revisados mostra “sumiço” da estria — todos relatam graus de melhora, quase sempre parciais. Karia et al. (2016): o grupo MDA+TCA 35% teve 60% dos pacientes com melhora leve (25-50%); o grupo MDA+ácido salicílico 30%+retinol teve 60% dos pacientes com melhora moderada (50-75%) — a associação com salicílico e retinol superou o TCA isolado na intensidade da melhora, embora o estudo não tenha aplicado teste estatístico formal entre os grupos.

Mazzarello et al. (2012): 15% de melhora de textura, sem recuperação completa. Ebrahim et al. (2022): o peeling combinado (glicólico 70%+TCA 35%) associado a PRP teve “melhora muito significativa” em 36% dos casos — superior ao PRP isolado (28%), mas atrás do PRP associado a subcisão (44%). Ou seja: mesmo quando o peeling é reforçado por outro procedimento, ele não foi o braço mais eficaz do próprio estudo que o testou.

O padrão que emerge: a magnitude do resultado varia bastante entre protocolos — de 15% a 60% — mas nenhum estudo desta série relata algo perto de resolução completa, e o próprio Ebrahim et al. (2022) mostra que, comparado a uma alternativa (subcisão) dentro do mesmo desenho de pesquisa, o peeling combinado fica em segundo lugar.

Resultado reportado, protocolo por protocolo
Percentual de pacientes com melhora relatada — cada barra é de um estudo diferente, com critério de melhora próprio; os números não são diretamente comparáveis entre estudos.
MDA+TCA 35% (Karia, 2016) — leve
60%
MDA+salicílico 30%+retinol (Karia, 2016) — moderada
60%
Glicólico 70%, 6 meses (Mazzarello, 2012)
15%
PRP isolado (Ebrahim, 2022)
28%
PRP+peeling combinado GA70%+TCA35% (Ebrahim, 2022)
36%
PRP+subcisão (Ebrahim, 2022)
44%
Karia, Padhiar & Shah (2016) e Ebrahim et al. (2022) usam critérios de melhora diferentes (faixas percentuais de melhora visual × classificação “muito significativa”); os números não são comparáveis diretamente entre estudos, apenas dentro do desenho de cada um. Barras em tom acinzentado marcam os braços que não usam peeling (PRP isolado; PRP+subcisão), citados como referência de contexto. Nenhum protocolo relata recuperação completa da estria.
Como ler estas concentrações e prazos

Quando esta apostila diz “TCA 35%” ou “6 meses consecutivos”, está descrevendo o que os estudos usaram — informação científica, não uma receita para pedir ou reproduzir. Qual ácido, qual concentração, qual intervalo entre sessões e por quantos meses fazem sentido para a sua estria é decisão do profissional, tomada depois de avaliar o tipo (rubra ou alba), a extensão e o tempo de evolução (retome a apostila 03 desta série, sobre se o peeling funciona mesmo para o seu caso).

A Sacada dos DoutoresO regime é longo, e mesmo assim o resultado costuma ser modesto — isso não é o peeling falhando

Quando alguém me pergunta por que o peeling de estria “demora tanto” se a concentração é a mesma que já viu funcionar rápido em outro lugar, a resposta está no próprio desenho dos estudos que revisei para esta apostila. TCA 35%, glicólico 70%, salicílico 30% — nenhuma dessas faixas é exclusiva de estria; são concentrações padrão de peeling médio-superficial, usadas em várias indicações. O que muda, e muda bastante, é o tempo que o protocolo pede: Mazzarello e colaboradores sustentaram o glicólico 70% por 6 meses seguidos e, ainda assim, registraram melhora de textura em só 15% dos casos. Isso não é o peeling “não funcionando” — é a estria sendo, estruturalmente, um dano dérmico que uma camada mais superficial de ácido tem dificuldade genuína de alcançar por inteiro. Entrar no protocolo sabendo disso é o que separa expectativa realista de frustração.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • As concentrações não são exclusivas de estria: TCA 35%, salicílico 30% e glicólico 70% são as mesmas faixas de peeling médio-superficial usadas em outras indicações (Karia 2016; Mazzarello 2012; Ebrahim 2022; classificação de Sharad, 2013).
  • O regime mais longo desta série: glicólico 70% aplicado mensalmente por 6 meses consecutivos (Mazzarello et al., 2012).
  • Mesmo com esse regime estendido, a melhora de textura registrada foi de apenas 15% dos casos, sem recuperação completa (Mazzarello et al., 2012).
  • Karia et al. (2016): MDA+TCA 35% → 60% com melhora leve (25-50%); MDA+salicílico 30%+retinol → 60% com melhora moderada (50-75%).
  • Ebrahim et al. (2022): peeling combinado (glicólico 70%+TCA 35%) associado a PRP → 36% de melhora muito significativa, atrás do PRP+subcisão (44%).
  • Nenhum dos três estudos relata recuperação completa da estria em qualquer protocolo testado.
  • Concentração e intervalo aqui são o que os estudos usaram — o protocolo individual (ácido, concentração, número de sessões) é sempre definido após avaliação profissional.
O próximo passo

Agora que ficou claro que a concentração não é o que muda no protocolo de estrias — e que o regime mais longo, mesmo assim, entrega um resultado modesto — a pergunta seguinte é: para quem esse protocolo realmente faz sentido? É o que a apostila 05 desta série aprofunda. Leve as informações desta apostila à avaliação com o profissional: é ele quem decide o protocolo certo para o seu caso.

Referências
  1. Karia UK, Padhiar BB, Shah BJ. Evaluation of Various Therapeutic Measures in Striae Rubra. J Cutan Aesthet Surg, 2016;9(2):108-113. DOI 10.4103/0974-2077.184056 — 50 pacientes, 5 protocolos; MDA+TCA35% (60% melhora leve) e MDA+salicílico30%+retinol (60% melhora moderada).
  2. Mazzarello V, Farace F, Ena P et al. A Superficial Texture Analysis of 70% Glycolic Acid Topical Therapy and Striae Distensae. Plast Reconstr Surg, 2012;129(3):589e-590e. PMID 22374035 — glicólico 70% mensal por 6 meses; 15% de melhora de textura, sem recuperação completa.
  3. Ebrahim HM et al. Subcision, chemical peels, and platelet-rich plasma: combination approaches for the treatment of striae distensae. Dermatol Ther, 2022;35(3):e15245. DOI 10.1111/dth.15245 — 75 pacientes; peeling combinado GA70%+TCA35% associado a PRP, 36% de melhora muito significativa.
  4. Sharad J. Glycolic acid peel therapy – a current review. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2013;6:281-288. DOI 10.2147/CCID.S34029 — classificação de profundidade e mecanismo do ácido glicólico por concentração; base mecanística geral, não menciona estrias como indicação.
  5. Hague A, Bayat A. Therapeutic targets in the management of striae distensae: a systematic review. J Am Acad Dermatol, 2017;77(3):559-568. DOI 10.1016/j.jaad.2017.02.048 — 74 artigos avaliados; nenhum tratamento demonstrou ser completamente eficaz.
  6. Striae Distensae. StatPearls, NCBI Bookshelf NBK436005 — fisiopatologia: elastólise na derme média, ruptura de colágeno e elastina, base para calibrar por que uma camada mais superficial de ácido tem alcance limitado sobre o dano da estria.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de protocolo para autoaplicação. Peeling químico superficial é procedimento estético, realizado por profissional habilitado, inclusive biomédico(a), conforme regulamentação do Conselho Federal de Biomedicina. Concentração, intervalo entre sessões e duração do regime citados descrevem o que os estudos usaram, não uma receita fixa para qualquer estria. A definição do protocolo individual é sempre feita após avaliação presencial.