Apostila 3 · Microagulhamento × Melasma · Estudo

Profundidade, sessões e a concentração que muda de estudo pra estudo

Os dois ensaios mais robustos desta série usam um esqueleto de protocolo quase idêntico — mesma profundidade, mesmo número de sessões, mesmo intervalo. Mas quando chega no ativo que passa pelos micro-canais, a concentração usada num estudo é o dobro da usada no outro. Esta apostila mostra onde a literatura converge — e onde ela ainda não decidiu nada.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O microagulhamento é um procedimento. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve o que os estudos testaram, não é indicação de protocolo, receita de profundidade ou de concentração de ativo. Profundidade da agulha, número de sessões, intervalo entre elas e a concentração de qualquer ativo aplicado durante o procedimento são definidos numa avaliação individual com o profissional habilitado — nunca por um número lido isoladamente aqui.

Na apostila anterior desta série vimos que a metanálise mostra ganho real quando o microagulhamento entra como adjuvante do tópico no melasma — com efeito que cresce entre 8 e 16 semanas. Mas “funciona como adjuvante” não responde à pergunta que qualquer pessoa faz depois: adjuvante de quê, em que profundidade, em quantas sessões?

Aqui a resposta é mais organizada do que no par estrias/cicatriz: os dois ensaios clínicos randomizados mais citados especificamente em microagulhamento + melasma — não em outra indicação emprestada — usam uma estrutura de protocolo quase gêmea. O que diverge entre eles, e diverge bastante, é a concentração do ativo que passa pelos canais abertos pela agulha. É esse contraste que esta apostila rastreia até a fonte.

A parte que converge: profundidade, sessões e intervalo

Kaur et al. (2020, Dermatol Surg) randomizaram 40 pacientes num desenho split-face: metade do rosto recebeu microagulhamento + ácido tranexâmico (TXA) tópico, a outra metade microagulhamento + água destilada (controle), em 4 sessões quinzenais ao longo de 8 semanas. Al Mohammady et al. (2025, Eur J Med Res), num desenho de 3 braços com 45 pacientes, usaram profundidade de 1,5mm e também 4 sessões quinzenais em 8 semanas. Dois grupos de pesquisadores, países e comparadores diferentes — e ainda assim o esqueleto do protocolo (profundidade, frequência e janela de acompanhamento) veio praticamente igual nos dois. Isso é um sinal raro nesta série de pares: quando estudos independentes convergem sem combinar entre si, é porque a lógica biológica por trás — abrir canais suficientes para entrada do ativo, sem exagerar a agressão à pele do rosto — tende a apontar para a mesma faixa.

A linha do tempo que se repete nos dois estudos mais robustos
4 sessões quinzenais, profundidade citada de 1,5mm, 8 semanas de acompanhamento (Kaur 2020; Al Mohammady 2025)
Semana 01ª sessão · avaliação basal do mMASI
Semana 22ª sessão · reavaliação da tolerância
Semana 43ª sessão · ponto onde a diferença estatística é mais forte (Feng 2024, apostila 5)
Semana 6-84ª sessão + leitura final do mMASI
Por que isso importa: a estrutura de tempo (0-2-4-6 semanas, avaliação na semana 8) se repete em dois ensaios de grupos diferentes — o que sugere um intervalo quinzenal biologicamente sensato para renovação epidérmica antes da sessão seguinte. Não significa que seja o único intervalo possível, nem que sirva de regra fixa fora do contexto de estudo.
A profundidade também tem um teto de segurança conhecido

Uma revisão de 2026 voltada a peles mais pigmentadas (Fitzpatrick IV-VI) — fototipo em que o melasma é mais comum — recomenda profundidade entre 0,5mm e 1,5mm justamente para reduzir o risco de hiperpigmentação pós-inflamatória, citando o melasma nominalmente entre as indicações revisadas (Lee et al., 2026). Os 1,5mm usados por Al Mohammady (2025) ficam dentro dessa faixa — outro ponto de convergência entre o que os estudos de eficácia testaram e o que a literatura de segurança recomenda para esse tipo de pele. Aprofundamos o recorte por fototipo na apostila 4.

A parte que diverge: a concentração de TXA muda de estudo pra estudo

Aqui está o ponto anti-óbvio desta apostila. Enquanto profundidade e calendário de sessões convergem, a concentração do ativo mais estudado nesta combinação — o ácido tranexâmico tópico — não é a mesma entre os dois ensaios. Kaur et al. (2020) testaram TXA tópico a 10%: o lado do rosto tratado com microagulhamento + TXA 10% teve 65,92% de melhora no mMASI, contra 20,75% do lado controle (microagulhamento + água destilada), em 8 semanas. Al Mohammady et al. (2025) testaram TXA tópico a 5% (50mg/mL) — metade da concentração — e obtiveram 45,3% de redução no mMASI, superando estatisticamente a fórmula de Kligman (38,2%) e o microagulhamento + metformina 15% (22,1%), com p<0,001.

Kaur, 2020 · N=40
TXA tópico 10%
split-face vs água destilada, 4 sessões quinzenais, 8 sem.
Melhora no mMASI65,92%
Al Mohammady, 2025 · N=45
TXA tópico 5% (50mg/mL)
3 braços vs Kligman e metformina 15%, 4 sessões quinzenais, 8 sem.
Melhora no mMASI45,3%

Barras ordenam o percentual relatado por cada estudo (visual “ordena, não mede”) — não compare os dois números como se fossem o mesmo experimento: um mediu contra água destilada, o outro contra fórmula de Kligman e metformina. A diferença de desenho, e não só de concentração, também explica parte da distância entre os resultados.

Por que não dá pra dizer “10% é melhor que 5%”

Seria tentador olhar 65,92% contra 45,3% e concluir que a concentração maior “ganha”. Mas os dois estudos não competem entre si: comparadores diferentes (água destilada x fórmula de Kligman + metformina), populações diferentes, e nenhum ensaio até hoje testou 10% contra 5% lado a lado, no mesmo desenho, para isolar o efeito da concentração. O que existe são dois RCTs isolados, cada um validando sua própria concentração contra seu próprio comparador — não um comparativo direto de dose-resposta. Essa lacuna é exatamente o motivo de a concentração não ser um número fixo na literatura.

E o número de sessões também tem uma terceira variação

Um terceiro ensaio reforça que mesmo a parte “convergente” do protocolo tem limites. El Attar et al. (2022, J Cosmet Dermatol) randomizaram 20 pacientes, também em desenho split-face, comparando TXA tópico pós-microagulhamento com vitamina C — mas usaram 6 sessões quinzenais, não 4. O achado central desse estudo não foi só “qual ativo funciona mais”: foi que o TXA teve vantagem específica no componente vascular do melasma, avaliado por dermoscopia — um recorte que a apostila 8 desta série aprofunda. Ou seja: o número de sessões também varia (4 em dois estudos, 6 num terceiro) conforme o desfecho que o pesquisador quis capturar, reforçando que “o protocolo” não é uma tabela fixa — é uma decisão que muda com o objetivo clínico.

EstudoNDesenhoProfundidadeSessõesConcentração / comparadorResultado
Kaur, 202040Split-faceNão detalhada no resumo4 quinzenais, 8 sem.TXA 10% vs água destilada65,92% x 20,75% no mMASI
Al Mohammady, 2025453 braços1,5mm4 quinzenais, 8 sem.TXA 5% vs Kligman vs metformina 15%45,3% x 38,2% x 22,1% (p<0,001)
El Attar, 202220Split-faceNão detalhada no resumo6 quinzenaisTXA tópico vs vitamina CTXA superior no componente vascular (dermoscopia)
Lee, 2026 (contexto)Revisão narrativaRecomenda 0,5–1,5mm em Fitzpatrick IV-VICita melasma nominalmenteParâmetro de segurança, não de eficácia

Tabela de faixas de estudo, não prescrição de protocolo. Nenhum ensaio comparou diretamente as concentrações de TXA entre si.

Um erro muito comum

Achar que “TXA tópico para microagulhamento” é uma coisa só, com uma concentração universal validada pela ciência.

Não é. Os dois RCTs mais robustos desta combinação usam concentrações que diferem em 2 vezes (10% x 5%), com veículos, comparadores e populações diferentes — e nenhum ensaio até hoje testou as duas concentrações uma contra a outra. Um produto vendido como “TXA tópico para microagulhamento” pode estar a 5%, a 10%, ou em qualquer outro valor que nenhum RCT testou — a rotulagem, sozinha, não garante que o produto se comporta como o de nenhum dos dois estudos citados aqui.

O certo: tratar a concentração do ativo, assim como a profundidade e o número de sessões, como parâmetro definido na avaliação individual pelo profissional — nunca como um número universal que “é assim em todo lugar porque tem estudo”.

O que essa combinação de convergência e divergência significa na prática

Profundidade, número de sessões e intervalo entre elas têm hoje um consenso razoável entre os estudos de melasma — o que já é incomum nesta linha de pesquisa. Mas a concentração do ativo mais promissor (TXA tópico) ainda não tem esse consenso: ela varia 2x entre os dois ensaios mais citados, sem comparação direta entre si. Isso não é uma falha que alguém escondeu — é o estado real da literatura hoje. E é exatamente a diferença entre “protocolo de estudo”, que tem número e fonte, e “protocolo comercial genérico”, que promete uma concentração única como se fosse regra fechada.

A Sacada dos DoutoresA agulha convergiu; o ativo, ainda não

O que me chama atenção nesses dois estudos não é que eles concordem em quase tudo — é onde, especificamente, eles param de concordar. Profundidade, calendário de 4 sessões quinzenais e janela de 8 semanas se repetem de forma independente em grupos de pesquisa diferentes, o que dá segurança sobre a mecânica do procedimento em si. Mas a concentração do ativo mais estudado (TXA tópico) varia 2x entre os dois ensaios, sem nenhum RCT comparando as doses diretamente. Isso muda a leitura que eu faço de qualquer rótulo comercial que promete “a fórmula certa”: a fórmula certa, hoje, é uma decisão clínica caso a caso — não um número replicável de um único estudo.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Os dois RCTs mais robustos convergem em estrutura: 4 sessões quinzenais, 8 semanas de acompanhamento, profundidade citada de 1,5mm (Kaur 2020; Al Mohammady 2025).
  • Kaur et al. (2020), N=40: TXA tópico 10% + microagulhamento deu 65,92% de melhora no mMASI vs 20,75% do controle (água destilada), split-face.
  • Al Mohammady et al. (2025), N=45: TXA tópico 5% deu 45,3% de melhora, superando Kligman (38,2%) e metformina 15% (22,1%), p<0,001.
  • A concentração de TXA varia 2x entre os dois estudos — e nenhum RCT comparou as duas doses diretamente entre si.
  • Um terceiro estudo usa 6 sessões, não 4 (El Attar 2022, N=20) — o número de sessões também muda conforme o desfecho estudado.
  • A profundidade de 1,5mm está dentro da faixa de segurança recomendada para peles mais pigmentadas (0,5–1,5mm, Lee et al. 2026).
  • É procedimento: profundidade, sessões, intervalo e concentração de qualquer ativo são decisão da avaliação individual — este material informa, não prescreve.
O próximo passo

Agora que você sabe de onde vêm os números do protocolo — e por que a concentração do ativo ainda não tem consenso — vem a pergunta seguinte: para quem essa técnica pesa mais? A profundidade de 1,5mm não é uma escolha arbitrária — ela existe porque o fototipo muda o risco. A apostila 4 desta série mostra por que a segurança pigmentar é o critério que mais deveria pesar na decisão sobre usar ou não o microagulhamento no melasma.

Referências
  1. Kaur A, Bhalla M, Thami GP, Sandhu J. Clinical efficacy of topical tranexamic acid with microneedling in melasma. Dermatol Surg, 2020;46(11):e96-e101. PMID 32769524 — split-face, N=40; TXA tópico 10% + microagulhamento, 4 sessões quinzenais (0-2-4-6 sem.), 65,92% de melhora no mMASI vs 20,75% do controle (água destilada), 8 semanas.
  2. Al Mohammady A, et al. Microneedling-assisted delivery of metformin versus tranexamic acid in treating melasma: a randomized controlled study. Eur J Med Res, 2025. PMID 40826371 — 3 braços, N=45, profundidade 1,5mm, 4 sessões quinzenais, 8 semanas: TXA tópico 5% (50mg/mL) reduziu mMASI em 45,3% vs 38,2% (Kligman) vs 22,1% (metformina 15%), p<0,001; zero HPI, cicatriz ou infecção.
  3. El Attar Y, et al. Efficacy and Safety of tranexamic acid versus vitamin c after microneedling in treatment of melasma: Clinical and Dermoscopic study. J Cosmet Dermatol, 2022. PMID 34699671 — split-face, N=20, 6 sessões quinzenais; TXA topico com vantagem sobre vitamina C no componente vascular (avaliação dermoscópica).
  4. Lee SS, et al. Noninvasive Cosmetic Treatments for Fitzpatrick IV-VI: A Narrative Review of Safety and Efficacy Guidelines. Plast Reconstr Surg Glob Open, 2026;14(3). PMID 41884758 — recomenda profundidade de 0,5-1,5mm em Fitzpatrick IV-VI; cita melasma nominalmente entre as indicações revisadas.
  5. Bailey AJM, Li HO-Y, Tan MG, Cheng W, Dover JS. Microneedling as an adjuvant to topical therapies for melasma: a systematic review and meta-analysis. J Am Acad Dermatol, 2022;86(4):797-810 (epub 2021). PMID 33857549 — 12 estudos, N=459; efeito adjuvante moderado em 8 semanas e grande em 12-16 semanas.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é prescrição de protocolo. Profundidade da agulha, número de sessões, intervalo entre elas e a concentração de qualquer ativo aplicado descrevem o que os estudos citados testaram, em amostras e desenhos específicos — não uma recomendação fechada de uso. A definição do protocolo individual é feita na avaliação com o profissional habilitado, considerando fototipo, histórico da pele e características do melasma.