O protocolo por trás do resultado: profundidade da agulha e número de sessões
Um estudo testou 2,5mm contra 1,5mm no mesmo rosto. Outro usou 4 sessões e chegou a 68,3% de melhora. Um terceiro usou só 3 sessões e ficou nos 31%. Antes de perguntar “qual é o protocolo certo”, esta apostila mostra uma coisa mais honesta: não existe UM protocolo — existe uma faixa testada, e cada estudo respondeu a uma pergunta diferente com ela.
O microagulhamento é um procedimento estético, ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo — descreve o que os estudos testaram, não é indicação de protocolo, receita de profundidade ou de número de sessões para você aplicar em si mesmo ou em terceiros. Profundidade da agulha, número de sessões e intervalo entre elas são definidos numa avaliação individual com o profissional habilitado — nunca copiando um número lido isoladamente aqui ou num blog.
Na apostila anterior desta série vimos que o microagulhamento tem eficácia real e mensurável em cicatriz atrófica de acne — isso não é a dúvida aqui. A dúvida que quase todo mundo faz em seguida é outra: “tá, funciona — mas com qual agulha, quantas vezes?”
É tentador procurar uma resposta fechada, tipo receita de bolo. Mas quando eu fui atrás dos três ensaios que mais isolam esses dois parâmetros — profundidade e número de sessões — o que encontrei não foi um número único. Foi uma faixa: agulha entre 1,5mm e 2,5mm, de 3 a 6 sessões, com resultados que vão de ~31% a 68,3% de melhora. Cada estudo fixou sua própria combinação para responder sua própria pergunta de pesquisa — nenhum comparou as combinações entre si para dizer qual é “a melhor”. É essa honestidade que esta apostila carrega.
El-Domyati et al. (2024, Int J Dermatol) fizeram o desenho mais forte para isolar especificamente a profundidade: 14 pacientes, split-face — metade do rosto tratada com agulha de 2,5mm, a outra metade com 1,5mm, na mesma pessoa, ao longo de 6 sessões quinzenais. Resultado: a agulha de 2,5mm foi superior à de 1,5mm, com significância estatística (p=0,02) — e essa superioridade apareceu tanto na avaliação clínica quanto na histológica (biópsia), o que reforça que não é só impressão do avaliador. É o único ensaio encontrado nesta série que compara profundidade diretamente, no mesmo desenho, controlando pelo próprio paciente como referência.
Não é essa a leitura correta. Um único ensaio com 14 pacientes mostrando 2,5mm superior a 1,5mm não fecha a questão de profundidade ideal — é um dado real, mas isolado, sem replicação independente no mesmo desenho até o momento desta apostila. Profundidade maior também tem outra variável que este resumo de estudo não isola: desconforto e tempo de recuperação tendem a subir junto. A profundidade adequada para cada caso é uma decisão que pesa isso tudo — e é do profissional, na avaliação.
Leheta et al. (2011, Dermatol Surg) compararam o microagulhamento com uma técnica já estabelecida para cicatriz de acne: o TCA CROSS (ácido tricloroacético em alta concentração, aplicado ponto a ponto). Nesse RCT com 30 pacientes, o protocolo de microagulhamento foi 4 sessões, a cada 4 semanas, e produziu 68,3% de melhora — estatisticamente comparável ao TCA CROSS, que teve 75,3% (p=0,47, ou seja, a diferença entre as duas técnicas não foi significativa). Este é um número forte porque a régua de comparação não foi “placebo” — foi outra técnica já usada na prática clínica.
Fabbrocini et al. (2014, J Dermatolog Treat) testaram um protocolo mais enxuto: 60 pacientes, apenas 3 sessões mensais. O ganho de textura foi de aproximadamente 31% — bem mais modesto que os 68,3% de Leheta. Mas o valor deste estudo não está só no número: os autores dividiram os 60 pacientes por fototipo (I-II, III-V e VI) e não encontraram discromia de curto ou longo prazo em nenhum grupo, o que reforça a segurança do protocolo com menos sessões em peles mais pigmentadas — tema que a apostila 4 desta série aprofunda.
| Estudo | N | Desenho | Profundidade | Sessões | Resultado |
|---|---|---|---|---|---|
| El-Domyati, 2024 | 14 | Split-face | 2,5mm x 1,5mm | 6 quinzenais | 2,5mm superior (p=0,02), clínica e histológica |
| Leheta, 2011 | 30 | RCT vs. TCA CROSS | Não detalhada no resumo | 4 a cada 4 sem. | 68,3% de melhora (vs. 75,3% do TCA CROSS, p=0,47) |
| Fabbrocini, 2014 | 60 | Por fototipo (I-VI) | Não detalhada no resumo | 3 mensais | ~31% de melhora na textura; zero discromia em qualquer fototipo |
| Leelavathy, 2021 (contexto) | 30 | Prospectivo | Não detalhada no resumo | 4 mensais | Acompanhamento de 6 meses; resultado por subtipo é o tema da apostila 8 |
Tabela de faixas de estudo, não prescrição de protocolo. Nenhum ensaio comparou diretamente as quatro combinações entre si.
Achar que existe “o” protocolo padrão-ouro do microagulhamento para cicatriz de acne — e copiar de um blog um número de milímetros específico “para box car” ou “para cicatriz rasa”.
Não existe. Os três estudos mais citados sobre profundidade e sessões nesta indicação usam combinações diferentes — 1,5 a 2,5mm de profundidade, 3 a 6 sessões, intervalo de 2 a 4 semanas — e nenhum deles testou uma profundidade diferenciada por subtipo de cicatriz. Um texto que promete “1,5mm é o ideal para box car raso” está citando um número que nenhum estudo produziu para essa comparação específica — é extrapolação de marketing, não achado de pesquisa.
O certo: tratar profundidade, número de sessões e intervalo como parâmetros definidos na avaliação individual pelo profissional habilitado — que considera o tipo e a gravidade da cicatriz, não um número copiado de blog.
Ter uma faixa em vez de um número único não é sinal de fraqueza da evidência — é o retrato honesto de como a pesquisa em microagulhamento para cicatriz de acne avançou até aqui: grupos diferentes testando combinações diferentes, cada um respondendo a uma pergunta específica (profundidade importa? quantas sessões bastam? é seguro em qualquer fototipo?). O que nenhum desses estudos fez foi testar a profundidade certa para cada subtipo de cicatriz — e é exatamente aí que a promessa comercial de “tal mm para tal cicatriz” ultrapassa o que a ciência, até agora, provou.
O que eu quero que fique desta apostila não é um número para você decorar — é a régua certa para avaliar qualquer promessa de protocolo que você encontrar por aí. Profundidade entre 1,5mm e 2,5mm, de 3 a 6 sessões, intervalo de 2 a 4 semanas: essa é a faixa que a literatura realmente testou, com resultados que vão de ~31% a 68,3% de melhora conforme o desenho. Nenhum desses estudos amarrou profundidade a subtipo de cicatriz — então quando um material promete “tal milímetro para box car”, ele está além do que qualquer ensaio citável mostrou. O protocolo certo para o seu caso — profundidade, sessões, intervalo — é decisão da avaliação individual, considerando o tipo e a gravidade da cicatriz, não um número fixo lido isoladamente.
- O único ensaio que testou profundidade cabeça a cabeça (El-Domyati, 2024, N=14, split-face): agulha de 2,5mm superou 1,5mm, clínica e histologicamente (p=0,02).
- 4 sessões a cada 4 semanas renderam 68,3% de melhora — estatisticamente comparável ao TCA CROSS, 75,3% (Leheta, 2011, N=30, p=0,47).
- 3 sessões mensais renderam um resultado mais modesto, ~31% na textura — mas sem discromia em nenhum fototipo testado (Fabbrocini, 2014, N=60).
- A faixa real da literatura: agulha entre 1,5mm e 2,5mm, de 3 a 6 sessões, intervalo de 2 a 4 semanas — não um número único.
- Nenhum estudo testou profundidade diferenciada por subtipo de cicatriz (box car x ice pick x rolling) — recomendações de “tal mm para tal subtipo” não têm base citável.
- Mais sessões e mais profundidade não são automaticamente “melhor” sem pesar recuperação e adequação ao caso — isso é avaliação clínica, não conta de aritmética.
- É procedimento: profundidade, sessões e intervalo são decisão da avaliação individual com o profissional habilitado — este material informa, não prescreve.
Se você ainda está decidindo se o microagulhamento é uma opção razoável para a sua cicatriz, vale voltar à apostila 2 desta série, que reúne os números gerais de eficácia. E se a dúvida é “isso funciona melhor para mim ou para outra pessoa”, a apostila 4 mostra por que a gravidade da cicatriz — mais do que o rótulo do subtipo — é o que mais pesa no resultado esperado.
- El-Domyati M, et al. Evaluation of microneedling depth of penetration in the treatment of atrophic acne scars: a split-face study. Int J Dermatol, 2024;63(5):632-638 — N=14, split-face, 6 sessões quinzenais; agulha 2,5mm superior a 1,5mm (p=0,02), clínica e histologicamente.
- Leheta T, El Tawdy A, Abdel Hay R, Farid S. Percutaneous collagen induction versus full-concentration trichloroacetic acid in the treatment of atrophic acne scars. Dermatol Surg, 2011;37(2):207-216 — RCT, N=30, 4 sessões a cada 4 semanas: 68,3% de melhora, comparável ao TCA CROSS (75,3%, p=0,47).
- Fabbrocini G, et al. Percutaneous collagen induction: an effective and safe treatment for post-acne scarring in different skin phototypes. J Dermatolog Treat, 2014;25(2):147-152 — N=60, 3 sessões mensais, ~31% de melhora na textura; sem discromia em nenhum grupo de fototipo (I-VI).
- Leelavathy B, Lalitha C, Shwetha S. Efficacy and outcome of Microneedling (Dermaroller) in post-acne scars. IP Indian J Clin Exp Dermatol, 2021;7(3):256-260 — N=30, prospectivo, 4 sessões mensais, acompanhamento de 6 meses.
- Shen YC, et al. Efficacy of Microneedling Monotherapy for Acne Scar: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Aesthetic Plast Surg, 2022;46(4):1913-1922 — meta-análise de 12 RCTs/414 pacientes; nível de evidência III; efeito significativo vs. controle, magnitude variável entre escalas.
- Atiyeh BS, et al. Microneedling: Percutaneous Collagen Induction (PCI) Therapy for Management of Scars and Photoaged Skin — Scientific Evidence and Review of the Literature. Aesthetic Plast Surg, 2021;45(1):296-308 — revisão de 25 estudos, nível de evidência IV; recomenda cautela antes de traduzir dados em recomendações clínicas fechadas.