Não existe uma dose ideal — o parâmetro certo depende do aparelho, da pele e da profundidade da cicatriz
A apostila 2 já mostrou que o laser não ablativo funciona como monoterapia real para cicatriz atrófica de acne. O que ela não respondeu é qual protocolo faz funcionar — e a literatura, lida com honestidade, mostra pelo menos quatro combinações diferentes de energia, profundidade e número de sessões, todas com resultado publicado. Isso não é inconsistência: é o retrato de uma decisão técnica que muda por aparelho, tipo de pele e cicatriz.
O laser fracionado não ablativo (família 1540/1550nm) é um procedimento que utiliza dispositivo médico. Este material tem finalidade exclusivamente informativa e educativa — ele descreve os parâmetros (energia, profundidade-alvo, número de sessões, intervalo) que estudos científicos publicados usaram em seus protocolos, não uma dose recomendada para o leitor pedir ou aplicar. Não substitui consulta, diagnóstico ou indicação de um profissional de saúde habilitado. Qual parâmetro é apropriado para cada aparelho, fototipo e profundidade de cicatriz é decisão técnica, tomada em avaliação individual — nunca uma escolha do paciente no orçamento.
Uma pergunta que aparece cedo, assim que alguém entende que o laser não ablativo funciona: “então qual é o protocolo certo — quantas sessões, de quanto em quanto tempo, com que energia?” É uma pergunta legítima. O problema é que ela pressupõe que existe uma resposta única, e a literatura que sustenta esta série não confirma essa premissa.
O que os estudos mostram, lidos lado a lado, é uma família de protocolos — todos dentro de uma faixa que se repete, mas nenhum deles apresentado como “o” protocolo definitivo. Nesta apostila, reunimos os parâmetros que os estudos mais citados da área efetivamente usaram: da unidade fundacional criada em 2004 ao protocolo moderno de duas camadas, passando pelo estudo mais citado da família e por um achado que muda a régua para pele mais escura. O objetivo não é te dar um número para pedir na consulta — é te dar contexto suficiente para entender por que o profissional que te atende vai calibrar esse número, e não confirmar um valor fixo trazido de fora.
Todo protocolo de laser fracionado não ablativo — não importa a marca comercial — deriva do mesmo conceito fundacional: a zona de tratamento microtérmico (MTZ), descrita por Manstein e colaboradores em 2004. No protótipo original, operando a um comprimento de onda próximo de 1500nm, a MTZ media 100µm de diâmetro por 300µm de profundidade — uma coluna microscópica de lesão térmica controlada, cercada de tecido intacto que acelera a cicatrização (Manstein et al., 2004).
Esse número de 2004 não é o parâmetro que os aparelhos modernos usam hoje — é a unidade de medida sobre a qual cada fabricante construiu seu próprio protocolo, ajustando profundidade, densidade e energia por disparo conforme a plataforma. É por isso que comparar “quantos mJ” entre dois equipamentos diferentes, sem contexto, engana: o mJ de um Fraxel não produz necessariamente a mesma MTZ que o mJ de um ResurFX. A pergunta certa não é “quanta energia”, é “qual profundidade essa energia alcança neste aparelho específico” — e essa tradução é trabalho do profissional, não do paciente.
O estudo mais recente e mais completo desta série, conduzido por Wang e colaboradores (2025) em 47 pacientes de Fitzpatrick I a VI, descreve o formato que os aparelhos atuais de foco duplo usam para lidar com a variação de profundidade dentro da mesma cicatriz: duas camadas de tratamento na mesma sessão. A camada profunda opera com 50 a 150mJ, mirando um alvo de 700 a 1300µm de profundidade — mais de quatro vezes a profundidade da MTZ original de Manstein. A camada superficial opera com 20 a 30mJ, mirando 200 a 400µm, mais próxima da textura de relevo da pele. O protocolo completo usou de 1 a 6 sessões, média de 3,3, a cada 3 a 6 semanas (Wang et al., 2025).
Entre os estudos que compõem esta série, o desenho de Kwon e colaboradores (2017) é o mais citado por trabalhos posteriores — inclusive pelos que testam combinação com radiofrequência microagulhada, tema da apostila 8. O protocolo desse RCT split-face foi mais simples do que o de duas camadas: 3 sessões, com intervalo de 4 semanas entre elas, e avaliação de resultado feita em 16 semanas — ou seja, 12 semanas após a última sessão, dando tempo para a remodelação de colágeno induzida pelo laser continuar acontecendo mesmo depois do tratamento ativo terminar (Kwon et al., 2017).
Esse intervalo entre a última sessão e a avaliação final não é um detalhe menor: aparece de forma consistente na literatura de laser fracionado porque o efeito de remodelação dérmica é gradual, não imediato — um ponto que a apostila 9 desta série retoma ao tratar de expectativa realista de prazo.
Um dos primeiros estudos a testar a família não ablativa especificamente em pele mais pigmentada foi Lee e colaboradores (2008), com 27 pacientes coreanos de Fitzpatrick IV-V. O protocolo usado foi de 3 a 5 sessões, com intervalo de 3 a 4 semanas — uma faixa de sessões um pouco mais ampla que a de Kwon (2017), mas com o mesmo intervalo aproximado entre elas. É um estudo mais antigo, do tipo série de casos sem grupo controle, então sua força de evidência é menor — mas ele já apontava, em 2008, para o mesmo território de 3 a 5 sessões e 3 a 4 semanas que reaparece nos estudos mais recentes.
| Fonte | Energia / parâmetro | Profundidade-alvo | Sessões / intervalo | Força da evidência |
|---|---|---|---|---|
| Manstein et al., 2004 | Parâmetro-base do conceito (protótipo, ~1500nm) | MTZ: 100µm diâmetro × 300µm profundidade | Conceito fundacional, não um protocolo clínico | Fundacional |
| Wang et al., 2025 | Profunda 50-150mJ · Superficial 20-30mJ | 700-1300µm (profunda) · 200-400µm (superficial) | 1-6 sessões (média 3,3), a cada 3-6 semanas | Prospectivo, N=47, Fitzpatrick I-VI |
| Kwon et al., 2017 | Não detalhado no resumo consultado | Não detalhado no resumo consultado | 3 sessões, intervalo de 4 semanas, avaliação em 16 semanas | RCT split-face |
| Lee HS et al., 2008 | Não detalhado no resumo consultado | Não detalhado no resumo consultado | 3-5 sessões, intervalo de 3-4 semanas | Série de casos, N=27, sem controle |
Repare que nem todo estudo relata energia e profundidade-alvo com o mesmo nível de detalhe — os resumos de Kwon (2017) e Lee HS (2008) descrevem sessões e intervalo, mas não especificam mJ nem µm. Marcar essa lacuna é mais honesto do que preencher com um número que o estudo não publicou no material consultado. O que a tabela deixa claro, apesar da variação de detalhe, é a faixa que se repete: 3 a 6 sessões, intervalo de 3 a 6 semanas — em quatro fontes com desenhos, aparelhos e décadas diferentes.
Até aqui, a variável em discussão foi “quanta energia por disparo”. Kaushik e Alexis (2017), numa revisão baseada em evidência sobre laser fracionado não ablativo em pele de cor, trazem um achado que desloca o foco: o que mais pesa na determinação do risco de hiperpigmentação pós-inflamatória (PIH) não é a energia isolada — é a densidade de MTZ por cm². Na revisão, a incidência de PIH em pele mais escura variou de 0% a 31% conforme o parâmetro usado, com nível de evidência 2b para cicatriz de acne em Fitzpatrick IV-VI (Kaushik & Alexis, 2017).
Na prática, isso separa duas discagens que é fácil confundir: a energia por disparo (que ajuda a definir a profundidade alcançada, como visto no protocolo de Wang) e a densidade de disparos por área (que ajuda a definir o risco de mancha escura, sobretudo em pele mais pigmentada). Um protocolo pode reduzir a densidade sem abrir mão da energia necessária para alcançar a profundidade da cicatriz — e é esse tipo de ajuste fino, específico do fototipo, que a apostila 6 desta série aprofunda.
→ risco de PIH em pele escura
→ profundidade alcançada
Achar que existe UMA dose certa, igual para qualquer aparelho, qualquer pele e qualquer cicatriz — e comparar orçamentos apenas pelo número de mJ ou pelo número de sessões, como se fossem a mesma unidade em todo lugar.
A literatura reunida aqui mostra pelo menos quatro protocolos diferentes, publicados por grupos diferentes, com números que não coincidem entre si — 3 sessões aqui, até 6 ali, mJ que varia por camada, densidade que varia por fototipo. Isso não é sinal de que a ciência “não sabe o que está fazendo”: é sinal de que o parâmetro certo depende de variáveis específicas do caso, e um número isolado de mJ ou de sessões, sem esse contexto, não diz nada sobre se o protocolo é adequado.
O certo: entender que a régua que se repete na literatura é uma faixa — 3 a 6 sessões, intervalo de 3 a 6 semanas — e que, dentro dela, a calibração exata de energia, profundidade-alvo e densidade é decisão técnica do profissional, ajustada ao aparelho disponível, ao fototipo e à profundidade da cicatriz que está sendo tratada.
Um padrão se repete entre quatro fontes independentes, com aparelhos e décadas diferentes: protocolos de 3 a 6 sessões, com intervalo de 3 a 6 semanas entre elas (Manstein et al., 2004; Wang et al., 2025; Kwon et al., 2017; Lee HS et al., 2008). E a densidade de MTZ/cm² — não só a energia — é a variável que a revisão de Kaushik & Alexis (2017) associa mais fortemente ao risco de PIH em pele mais escura.
O que a literatura verificada não estabelece é um valor único e universal de mJ, µm ou MTZ/cm² que sirva para qualquer equipamento comercial, fototipo e profundidade de cicatriz. Os aparelhos comerciais (Fraxel, ResurFX, entre outros) diferem entre si na forma como entregam a mesma unidade fundacional de Manstein (2004), e os próprios estudos citados aqui não relatam energia e profundidade com o mesmo nível de detalhe — comparar dois orçamentos só pelo número de mJ, sem saber o aparelho e o alvo de profundidade, não é uma comparação válida.
O que mais chama atenção ao colocar esses quatro protocolos lado a lado é que nenhum deles se apresenta como definitivo — e, ainda assim, todos convergem para a mesma faixa prática de 3 a 6 sessões com 3 a 6 semanas de intervalo. Isso é, na verdade, um sinal de maturidade da literatura, não de fragilidade: significa que diferentes grupos, com diferentes aparelhos, chegaram a um território parecido de forma independente. O que muda de um caso para outro não é “se” o protocolo segue essa lógica, é como a energia, a profundidade-alvo e a densidade são calibradas para a cicatriz e a pele específicas de cada pessoa — e essa calibração, incluindo o ajuste que protege pele mais pigmentada do risco de mancha, é trabalho técnico do profissional, não uma dose que se escolhe num cardápio.
- Todo protocolo deriva da mesma unidade fundacional: a MTZ de Manstein (2004), originalmente 100µm × 300µm — mas cada aparelho comercial entrega essa unidade de forma diferente.
- O protocolo moderno mais completo usa duas camadas na mesma sessão: profunda (50-150mJ, alvo 700-1300µm) e superficial (20-30mJ, alvo 200-400µm), 1-6 sessões (média 3,3) a cada 3-6 semanas (Wang et al., 2025).
- O protocolo mais citado da família é mais simples: 3 sessões, intervalo de 4 semanas, avaliação em 16 semanas (Kwon et al., 2017).
- O protocolo histórico em pele asiática já apontava para a mesma faixa: 3-5 sessões, 3-4 semanas de intervalo (Lee HS et al., 2008).
- Densidade de MTZ/cm² pesa mais que energia isolada no risco de PIH em pele mais escura — PIH variou de 0% a 31% conforme o parâmetro (Kaushik & Alexis, 2017).
- O padrão que se repete entre quatro fontes independentes é uma faixa, não um número fixo: 3 a 6 sessões, intervalo de 3 a 6 semanas — variando por aparelho comercial, fototipo e profundidade da cicatriz.
- A calibração exata do parâmetro é decisão técnica do profissional — não existe dose universal para o leitor pedir ou comparar entre orçamentos sem esse contexto.
Agora que ficou claro que o parâmetro certo é decisão técnica, e não um número universal, resta uma pergunta maior, que só faz sentido depois desta: como o laser não ablativo se compara ao laser ABLATIVO — a outra grande família usada em cicatriz de acne? A apostila 4, o primeiro pilar desta série, reúne duas meta-análises recentes que chegam a conclusões diferentes sobre esse trade-off — e mostra por que a resposta honesta não é “um vence o outro”, é “depende do que se está trocando por segurança”.
- Manstein D, Herron GS, Sink RK, Tanner H, Anderson RR. Fractional photothermolysis: a new concept for cutaneous remodeling using microscopic patterns of thermal injury. Lasers Surg Med, 2004;34(5):426-38 — parâmetro-base desta apostila: define a MTZ (100µm × 300µm no protótipo original) que estrutura toda a família de protocolos.
- Wang JV, Pomerantz H, Tran TN, et al. Treating Acne Scars in Fitzpatrick Skin Types I-VI Using a Novel 1550 nm Non-Ablative Resurfacing Laser With Focal Point Technology. J Cosmet Dermatol, 2025;24(12):e70620 — protocolo moderno de 2 camadas: profunda 50-150mJ (alvo 700-1300µm), superficial 20-30mJ (alvo 200-400µm), 1-6 sessões (média 3,3) a cada 3-6 semanas, N=47.
- Kwon HH, Park HY, Choi SC, Bae Y, Kang C, Jung JY, Park GH. Combined Fractional Treatment of Acne Scars Involving Non-ablative 1,550-nm Erbium-glass Laser and Micro-needling Radiofrequency. Acta Derm Venereol, 2017;97(8):947-951 — protocolo mais citado da série: 3 sessões, intervalo de 4 semanas, avaliação em 16 semanas.
- Lee HS, Lee JH, Ahn GY, Lee DH, Shin JW, Kim DH, Chung JH. Fractional photothermolysis for the treatment of acne scars: a report of 27 Korean patients. J Dermatolog Treat, 2008;19(1):45-9 — protocolo histórico em pele asiática (Fitzpatrick IV-V): 3-5 sessões, intervalo de 3-4 semanas.
- Kaushik SB, Alexis AF. Nonablative Fractional Laser Resurfacing in Skin of Color: Evidence-based Review. J Clin Aesthet Dermatol, 2017;10(6):51-67 — achado-chave: densidade de MTZ/cm² pesa mais que energia na determinação do risco de PIH; PIH variou 0-31% conforme parâmetro, evidência nível 2b para Fitzpatrick IV-VI.