Apostila 3 · Laser Não Ablativo × Cicatriz de Acne · Estudo

Não existe uma dose ideal — o parâmetro certo depende do aparelho, da pele e da profundidade da cicatriz

A apostila 2 já mostrou que o laser não ablativo funciona como monoterapia real para cicatriz atrófica de acne. O que ela não respondeu é qual protocolo faz funcionar — e a literatura, lida com honestidade, mostra pelo menos quatro combinações diferentes de energia, profundidade e número de sessões, todas com resultado publicado. Isso não é inconsistência: é o retrato de uma decisão técnica que muda por aparelho, tipo de pele e cicatriz.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O laser fracionado não ablativo (família 1540/1550nm) é um procedimento que utiliza dispositivo médico. Este material tem finalidade exclusivamente informativa e educativa — ele descreve os parâmetros (energia, profundidade-alvo, número de sessões, intervalo) que estudos científicos publicados usaram em seus protocolos, não uma dose recomendada para o leitor pedir ou aplicar. Não substitui consulta, diagnóstico ou indicação de um profissional de saúde habilitado. Qual parâmetro é apropriado para cada aparelho, fototipo e profundidade de cicatriz é decisão técnica, tomada em avaliação individual — nunca uma escolha do paciente no orçamento.

Uma pergunta que aparece cedo, assim que alguém entende que o laser não ablativo funciona: “então qual é o protocolo certo — quantas sessões, de quanto em quanto tempo, com que energia?” É uma pergunta legítima. O problema é que ela pressupõe que existe uma resposta única, e a literatura que sustenta esta série não confirma essa premissa.

O que os estudos mostram, lidos lado a lado, é uma família de protocolos — todos dentro de uma faixa que se repete, mas nenhum deles apresentado como “o” protocolo definitivo. Nesta apostila, reunimos os parâmetros que os estudos mais citados da área efetivamente usaram: da unidade fundacional criada em 2004 ao protocolo moderno de duas camadas, passando pelo estudo mais citado da família e por um achado que muda a régua para pele mais escura. O objetivo não é te dar um número para pedir na consulta — é te dar contexto suficiente para entender por que o profissional que te atende vai calibrar esse número, e não confirmar um valor fixo trazido de fora.

A unidade que Manstein criou em 2004: a MTZ, parâmetro-base de toda a família

Todo protocolo de laser fracionado não ablativo — não importa a marca comercial — deriva do mesmo conceito fundacional: a zona de tratamento microtérmico (MTZ), descrita por Manstein e colaboradores em 2004. No protótipo original, operando a um comprimento de onda próximo de 1500nm, a MTZ media 100µm de diâmetro por 300µm de profundidade — uma coluna microscópica de lesão térmica controlada, cercada de tecido intacto que acelera a cicatrização (Manstein et al., 2004).

Esse número de 2004 não é o parâmetro que os aparelhos modernos usam hoje — é a unidade de medida sobre a qual cada fabricante construiu seu próprio protocolo, ajustando profundidade, densidade e energia por disparo conforme a plataforma. É por isso que comparar “quantos mJ” entre dois equipamentos diferentes, sem contexto, engana: o mJ de um Fraxel não produz necessariamente a mesma MTZ que o mJ de um ResurFX. A pergunta certa não é “quanta energia”, é “qual profundidade essa energia alcança neste aparelho específico” — e essa tradução é trabalho do profissional, não do paciente.

O protocolo moderno de duas camadas: por que a mesma sessão usa duas energias diferentes

O estudo mais recente e mais completo desta série, conduzido por Wang e colaboradores (2025) em 47 pacientes de Fitzpatrick I a VI, descreve o formato que os aparelhos atuais de foco duplo usam para lidar com a variação de profundidade dentro da mesma cicatriz: duas camadas de tratamento na mesma sessão. A camada profunda opera com 50 a 150mJ, mirando um alvo de 700 a 1300µm de profundidade — mais de quatro vezes a profundidade da MTZ original de Manstein. A camada superficial opera com 20 a 30mJ, mirando 200 a 400µm, mais próxima da textura de relevo da pele. O protocolo completo usou de 1 a 6 sessões, média de 3,3, a cada 3 a 6 semanas (Wang et al., 2025).

Wang et al., 2025 — o protocolo de duas camadas numa mesma sessão
A lógica: a cicatriz de acne não tem uma profundidade só — icepick, boxcar e rolling ocupam faixas diferentes, então a mesma sessão trata duas faixas de profundidade com duas energias
Camada profunda50-150mJ · alvo 700-1300µm
+
Camada superficial20-30mJ · alvo 200-400µm
Repetição1-6 sessões (média 3,3), a cada 3-6 semanas
Guarde o contraste: a camada profunda deste protocolo moderno (700-1300µm) já ultrapassa em muito a MTZ fundacional de Manstein (300µm) — mostra como a tecnologia evoluiu para tentar alcançar cicatrizes mais fundas sem abandonar o princípio não ablativo. Ainda assim, como a apostila 5 desta série mostra, mesmo essa profundidade nem sempre alcança o fundo de um icepick típico (~1933µm).
O protocolo mais citado da família: 3 sessões, 4 semanas, avaliação em 16 semanas

Entre os estudos que compõem esta série, o desenho de Kwon e colaboradores (2017) é o mais citado por trabalhos posteriores — inclusive pelos que testam combinação com radiofrequência microagulhada, tema da apostila 8. O protocolo desse RCT split-face foi mais simples do que o de duas camadas: 3 sessões, com intervalo de 4 semanas entre elas, e avaliação de resultado feita em 16 semanas — ou seja, 12 semanas após a última sessão, dando tempo para a remodelação de colágeno induzida pelo laser continuar acontecendo mesmo depois do tratamento ativo terminar (Kwon et al., 2017).

Esse intervalo entre a última sessão e a avaliação final não é um detalhe menor: aparece de forma consistente na literatura de laser fracionado porque o efeito de remodelação dérmica é gradual, não imediato — um ponto que a apostila 9 desta série retoma ao tratar de expectativa realista de prazo.

O protocolo histórico em pele asiática: mais sessões, intervalo parecido

Um dos primeiros estudos a testar a família não ablativa especificamente em pele mais pigmentada foi Lee e colaboradores (2008), com 27 pacientes coreanos de Fitzpatrick IV-V. O protocolo usado foi de 3 a 5 sessões, com intervalo de 3 a 4 semanas — uma faixa de sessões um pouco mais ampla que a de Kwon (2017), mas com o mesmo intervalo aproximado entre elas. É um estudo mais antigo, do tipo série de casos sem grupo controle, então sua força de evidência é menor — mas ele já apontava, em 2008, para o mesmo território de 3 a 5 sessões e 3 a 4 semanas que reaparece nos estudos mais recentes.

FonteEnergia / parâmetroProfundidade-alvoSessões / intervaloForça da evidência
Manstein et al., 2004Parâmetro-base do conceito (protótipo, ~1500nm)MTZ: 100µm diâmetro × 300µm profundidadeConceito fundacional, não um protocolo clínicoFundacional
Wang et al., 2025Profunda 50-150mJ · Superficial 20-30mJ700-1300µm (profunda) · 200-400µm (superficial)1-6 sessões (média 3,3), a cada 3-6 semanasProspectivo, N=47, Fitzpatrick I-VI
Kwon et al., 2017Não detalhado no resumo consultadoNão detalhado no resumo consultado3 sessões, intervalo de 4 semanas, avaliação em 16 semanasRCT split-face
Lee HS et al., 2008Não detalhado no resumo consultadoNão detalhado no resumo consultado3-5 sessões, intervalo de 3-4 semanasSérie de casos, N=27, sem controle
Como ler esta tabela

Repare que nem todo estudo relata energia e profundidade-alvo com o mesmo nível de detalhe — os resumos de Kwon (2017) e Lee HS (2008) descrevem sessões e intervalo, mas não especificam mJ nem µm. Marcar essa lacuna é mais honesto do que preencher com um número que o estudo não publicou no material consultado. O que a tabela deixa claro, apesar da variação de detalhe, é a faixa que se repete: 3 a 6 sessões, intervalo de 3 a 6 semanas — em quatro fontes com desenhos, aparelhos e décadas diferentes.

O achado que muda a régua na pele mais escura: densidade pesa mais que energia

Até aqui, a variável em discussão foi “quanta energia por disparo”. Kaushik e Alexis (2017), numa revisão baseada em evidência sobre laser fracionado não ablativo em pele de cor, trazem um achado que desloca o foco: o que mais pesa na determinação do risco de hiperpigmentação pós-inflamatória (PIH) não é a energia isolada — é a densidade de MTZ por cm². Na revisão, a incidência de PIH em pele mais escura variou de 0% a 31% conforme o parâmetro usado, com nível de evidência 2b para cicatriz de acne em Fitzpatrick IV-VI (Kaushik & Alexis, 2017).

Na prática, isso separa duas discagens que é fácil confundir: a energia por disparo (que ajuda a definir a profundidade alcançada, como visto no protocolo de Wang) e a densidade de disparos por área (que ajuda a definir o risco de mancha escura, sobretudo em pele mais pigmentada). Um protocolo pode reduzir a densidade sem abrir mão da energia necessária para alcançar a profundidade da cicatriz — e é esse tipo de ajuste fino, específico do fototipo, que a apostila 6 desta série aprofunda.

Kaushik & Alexis, 2017 — duas discagens diferentes, dois papéis diferentes
Barra ilustrativa: ordena qual variável a revisão associa mais fortemente a cada desfecho — não é uma medida numérica de “quanto” cada uma pesa, é uma leitura qualitativa do achado da revisão.
Densidade de MTZ/cm²
→ risco de PIH em pele escura
variável mais associada ao risco
Energia por disparo (mJ)
→ profundidade alcançada
variável associada à profundidade, não ao risco isolado
PIH variou de 0% a 31% conforme o parâmetro, nível de evidência 2b (Kaushik & Alexis, 2017). A barra ordena o papel de cada variável descrito na revisão; não representa uma fórmula de risco aplicável a qualquer aparelho ou paciente.
Um erro muito comum

Achar que existe UMA dose certa, igual para qualquer aparelho, qualquer pele e qualquer cicatriz — e comparar orçamentos apenas pelo número de mJ ou pelo número de sessões, como se fossem a mesma unidade em todo lugar.

A literatura reunida aqui mostra pelo menos quatro protocolos diferentes, publicados por grupos diferentes, com números que não coincidem entre si — 3 sessões aqui, até 6 ali, mJ que varia por camada, densidade que varia por fototipo. Isso não é sinal de que a ciência “não sabe o que está fazendo”: é sinal de que o parâmetro certo depende de variáveis específicas do caso, e um número isolado de mJ ou de sessões, sem esse contexto, não diz nada sobre se o protocolo é adequado.

O certo: entender que a régua que se repete na literatura é uma faixa — 3 a 6 sessões, intervalo de 3 a 6 semanas — e que, dentro dela, a calibração exata de energia, profundidade-alvo e densidade é decisão técnica do profissional, ajustada ao aparelho disponível, ao fototipo e à profundidade da cicatriz que está sendo tratada.

O que dá para afirmar — e o que ainda não
Fato

Um padrão se repete entre quatro fontes independentes, com aparelhos e décadas diferentes: protocolos de 3 a 6 sessões, com intervalo de 3 a 6 semanas entre elas (Manstein et al., 2004; Wang et al., 2025; Kwon et al., 2017; Lee HS et al., 2008). E a densidade de MTZ/cm² — não só a energia — é a variável que a revisão de Kaushik & Alexis (2017) associa mais fortemente ao risco de PIH em pele mais escura.

Debate

O que a literatura verificada não estabelece é um valor único e universal de mJ, µm ou MTZ/cm² que sirva para qualquer equipamento comercial, fototipo e profundidade de cicatriz. Os aparelhos comerciais (Fraxel, ResurFX, entre outros) diferem entre si na forma como entregam a mesma unidade fundacional de Manstein (2004), e os próprios estudos citados aqui não relatam energia e profundidade com o mesmo nível de detalhe — comparar dois orçamentos só pelo número de mJ, sem saber o aparelho e o alvo de profundidade, não é uma comparação válida.

A Sacada dos DoutoresA pergunta certa não é “qual a dose”, é “qual dose para qual caso”

O que mais chama atenção ao colocar esses quatro protocolos lado a lado é que nenhum deles se apresenta como definitivo — e, ainda assim, todos convergem para a mesma faixa prática de 3 a 6 sessões com 3 a 6 semanas de intervalo. Isso é, na verdade, um sinal de maturidade da literatura, não de fragilidade: significa que diferentes grupos, com diferentes aparelhos, chegaram a um território parecido de forma independente. O que muda de um caso para outro não é “se” o protocolo segue essa lógica, é como a energia, a profundidade-alvo e a densidade são calibradas para a cicatriz e a pele específicas de cada pessoa — e essa calibração, incluindo o ajuste que protege pele mais pigmentada do risco de mancha, é trabalho técnico do profissional, não uma dose que se escolhe num cardápio.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Todo protocolo deriva da mesma unidade fundacional: a MTZ de Manstein (2004), originalmente 100µm × 300µm — mas cada aparelho comercial entrega essa unidade de forma diferente.
  • O protocolo moderno mais completo usa duas camadas na mesma sessão: profunda (50-150mJ, alvo 700-1300µm) e superficial (20-30mJ, alvo 200-400µm), 1-6 sessões (média 3,3) a cada 3-6 semanas (Wang et al., 2025).
  • O protocolo mais citado da família é mais simples: 3 sessões, intervalo de 4 semanas, avaliação em 16 semanas (Kwon et al., 2017).
  • O protocolo histórico em pele asiática já apontava para a mesma faixa: 3-5 sessões, 3-4 semanas de intervalo (Lee HS et al., 2008).
  • Densidade de MTZ/cm² pesa mais que energia isolada no risco de PIH em pele mais escura — PIH variou de 0% a 31% conforme o parâmetro (Kaushik & Alexis, 2017).
  • O padrão que se repete entre quatro fontes independentes é uma faixa, não um número fixo: 3 a 6 sessões, intervalo de 3 a 6 semanas — variando por aparelho comercial, fototipo e profundidade da cicatriz.
  • A calibração exata do parâmetro é decisão técnica do profissional — não existe dose universal para o leitor pedir ou comparar entre orçamentos sem esse contexto.
O próximo passo

Agora que ficou claro que o parâmetro certo é decisão técnica, e não um número universal, resta uma pergunta maior, que só faz sentido depois desta: como o laser não ablativo se compara ao laser ABLATIVO — a outra grande família usada em cicatriz de acne? A apostila 4, o primeiro pilar desta série, reúne duas meta-análises recentes que chegam a conclusões diferentes sobre esse trade-off — e mostra por que a resposta honesta não é “um vence o outro”, é “depende do que se está trocando por segurança”.

Referências
  1. Manstein D, Herron GS, Sink RK, Tanner H, Anderson RR. Fractional photothermolysis: a new concept for cutaneous remodeling using microscopic patterns of thermal injury. Lasers Surg Med, 2004;34(5):426-38 — parâmetro-base desta apostila: define a MTZ (100µm × 300µm no protótipo original) que estrutura toda a família de protocolos.
  2. Wang JV, Pomerantz H, Tran TN, et al. Treating Acne Scars in Fitzpatrick Skin Types I-VI Using a Novel 1550 nm Non-Ablative Resurfacing Laser With Focal Point Technology. J Cosmet Dermatol, 2025;24(12):e70620 — protocolo moderno de 2 camadas: profunda 50-150mJ (alvo 700-1300µm), superficial 20-30mJ (alvo 200-400µm), 1-6 sessões (média 3,3) a cada 3-6 semanas, N=47.
  3. Kwon HH, Park HY, Choi SC, Bae Y, Kang C, Jung JY, Park GH. Combined Fractional Treatment of Acne Scars Involving Non-ablative 1,550-nm Erbium-glass Laser and Micro-needling Radiofrequency. Acta Derm Venereol, 2017;97(8):947-951 — protocolo mais citado da série: 3 sessões, intervalo de 4 semanas, avaliação em 16 semanas.
  4. Lee HS, Lee JH, Ahn GY, Lee DH, Shin JW, Kim DH, Chung JH. Fractional photothermolysis for the treatment of acne scars: a report of 27 Korean patients. J Dermatolog Treat, 2008;19(1):45-9 — protocolo histórico em pele asiática (Fitzpatrick IV-V): 3-5 sessões, intervalo de 3-4 semanas.
  5. Kaushik SB, Alexis AF. Nonablative Fractional Laser Resurfacing in Skin of Color: Evidence-based Review. J Clin Aesthet Dermatol, 2017;10(6):51-67 — achado-chave: densidade de MTZ/cm² pesa mais que energia na determinação do risco de PIH; PIH variou 0-31% conforme parâmetro, evidência nível 2b para Fitzpatrick IV-VI.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo. O laser fracionado não ablativo é um procedimento com dispositivo médico; a avaliação, a indicação e a condução do protocolo — energia, profundidade-alvo, densidade, número de sessões e intervalo — são atos do profissional habilitado. Os parâmetros citados aqui são os que os estudos científicos usaram em pesquisa, não uma dose recomendada para solicitar ou aplicar por conta própria. Procure avaliação individual antes de qualquer procedimento.