Apostila 1 · Laser CO2 × Ice Pick · Par

Cicatriz ice pick: o furo mais profundo — e o mais comum — que a acne deixa

Quase todo mundo trata “cicatriz de acne” como uma coisa só. Não é. Existem três subtipos com formatos e profundidades diferentes — e o que a maioria imagina como “exceção rara” (o furo estreito e fundo) é, na verdade, o mais comum de todos. Entender essa diferença é o primeiro passo antes de escolher qualquer ferramenta de tratamento.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O laser de CO2 fracionado é um procedimento estético a laser — um ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne o que a literatura científica mostra sobre a classificação e a profundidade das cicatrizes de acne. Ele não substitui avaliação individual: o tipo de cicatriz, a pele e o histórico de cada pessoa mudam a ferramenta e o protocolo mais indicados — e é isso que uma consulta avalia caso a caso.

Esta é a apostila 1 de uma série sobre um par específico: laser de CO2 fracionado × cicatriz ice pick — o furo profundo, estreito, em formato de “V”, que a acne mais grave costuma deixar. Antes de discutir se o laser funciona bem ou mal para esse subtipo (isso vem nas próximas apostilas), é preciso entender uma coisa que o marketing de tratamento de cicatriz quase nunca explica: nem toda cicatriz de acne é igual, e o ice pick não é uma curiosidade rara — é o subtipo mais frequente e, por dado direto de medição em tecido, o mais profundo dos três.

Essa combinação — mais comum e mais profundo — é o motivo pelo qual esta série existe. Profundidade muda o que uma ferramenta de tratamento precisa alcançar fisicamente. Se o subtipo mais comum é também o mais difícil de alcançar, isso merece ser dito antes de qualquer promessa de “resolve toda cicatriz de acne”.

Cicatriz de acne não é uma coisa só: três subtipos, três formatos

A classificação que a dermatologia usa até hoje para descrever cicatriz atrófica de acne (a que “afunda” a pele, ao contrário da cicatriz hipertrófica, que “levanta”) vem de um artigo de referência: Jacob, Dover & Kaminer, 2001, publicado no Journal of the American Academy of Dermatology. Ele organiza a cicatriz atrófica em três formatos distintos, cada um com implicação de tratamento diferente.

O ice pick (“furo de picador de gelo”, a tradução literal) é definido como um canal estreito — menos de 2 mm de largura — em formato de “V”, que se estende profundamente, podendo alcançar a derme profunda ou até o tecido subcutâneo (Jacob et al., 2001). O boxcar é mais largo, com bordas mais retas, em formato de “U” ou caixa, e profundidade mais rasa e uniforme. Já o rolling tem um formato ondulado, mais largo e superficial, causado por bandas de fibrose que “puxam” a pele por baixo (tethering) — é o único dos três que responde bem a técnicas que rompem essas bandas, como a subcisão.

Essa diferenciação não é um detalhe acadêmico: cada formato representa um desafio físico diferente para qualquer ferramenta de tratamento. Um canal estreito e profundo (ice pick) exige alcançar fundo sem alargar demais a superfície; um platô raso e largo (boxcar) exige nivelar bordas; uma onda com tração por baixo (rolling) exige romper uma aderência, não apenas resurfacing da superfície. É a partir dessa classificação de 2001 que todo o resto da literatura — inclusive os estudos de laser que as próximas apostilas desta série vão detalhar — organiza suas comparações.

Por que “atrófica” e não só “cicatriz”

Cicatriz atrófica é a que perde volume — a pele “afunda” porque o colágeno normal da derme foi destruído pela inflamação da acne e não foi totalmente reposto. É diferente de cicatriz hipertrófica ou queloide, que sobra colágeno e a pele fica elevada. Ice pick, boxcar e rolling são os três subtipos de cicatriz atrófica — o foco desta série inteira.

O subtipo mais comum — e o que menos aparece no imaginário popular

Se a maioria das pessoas imaginasse a cicatriz de acne “típica”, provavelmente descreveria algo parecido com o rolling — uma ondulação mais suave e discreta. Os números não confirmam essa intuição. Uma revisão sistemática de tratamentos para cicatriz de acne (Kravvas & Al-Niaimi, 2017, publicada em Scars, Burns & Healing) reporta o ice pick como o subtipo mais prevalente, respondendo por 60% a 70% de todas as cicatrizes atróficas — à frente do boxcar (20% a 30%) e bem à frente do rolling (15% a 25%).

Vale registrar a origem desse número com honestidade: a revisão de Kravvas & Al-Niaimi cita esse intervalo de prevalência, mas não é, ela própria, o estudo epidemiológico primário que mediu essa distribuição — é uma citação secundária consolidada na literatura de tratamento. Isso não invalida o dado (ele é amplamente repetido em revisões da área), mas justifica classificá-lo como evidência de força mais descritiva do que estatística direta.

Na prática, isso significa que na maioria das pessoas que procuram tratamento para “cicatriz de acne” — 6 a 7 em cada 10 — pelo menos parte do quadro provavelmente inclui ice pick. Um material educativo ou um protocolo de tratamento que não nomeia esse subtipo especificamente está, na prática, ignorando o problema mais frequente da sala.

1

Ice pick

~60-70% dos casos

O subtipo mais comum de cicatriz atrófica. Canal estreito, profundo, em “V” — o protagonista desta série.

2

Boxcar

~20-30% dos casos

Bordas retas, formato de “U” ou caixa, profundidade mais rasa e uniforme que o ice pick.

3

Rolling

~15-25% dos casos

Ondulação larga e superficial, causada por bandas de fibrose que tracionam a pele por baixo.

Ranking ordena a prevalência relativa relatada entre os três subtipos — as faixas têm origem em citação secundária consolidada (Kravvas & Al-Niaimi, 2017), não em um único estudo epidemiológico primário: os números ordenam, não medem com precisão de casa decimal.
Um erro muito comum

Achar que ice pick é uma cicatriz “rara” ou “exótica” — um caso à parte que só aparece em quadros muito graves de acne.

Na prática, é o contrário: é o subtipo mais frequente de todos, presente na maioria dos quadros de cicatriz atrófica (Kravvas & Al-Niaimi, 2017). O erro de achar que é “raro” leva a um erro maior: tratar toda cicatriz de acne com o mesmo protocolo, presumindo que o subtipo predominante do paciente é o mais fácil de resolver (rolling ou boxcar), quando estatisticamente a chance maior é de ser exatamente o mais desafiador.

O certo: pedir, na avaliação individual, para o profissional nomear especificamente quais subtipos de cicatriz estão presentes no seu caso — e em que proporção — antes de aceitar qualquer protocolo padrão de tratamento.

E também o mais profundo: o dado direto de medição em tecido

Prevalência é uma parte da história. A outra — talvez a mais importante para o resto desta série — é a profundidade real de cada subtipo, medida diretamente em biópsia de pele. Um estudo histopatológico transversal (Bansal et al., 2026, publicado no Indian Journal of Dermatology, Venereology and Leprology) mediu a profundidade vertical de cicatrizes ice pick, boxcar e rolling em amostras de biópsia e encontrou uma diferença que confirma, com dado de tecido, o que a definição clínica já sugeria.

A profundidade média do ice pick foi de 1.933,4 µm (±1.117,8) — quase 2 milímetros de canal. O boxcar mediu 1.327,9 µm (±571,3) e o rolling, 1.357,1 µm (±578,3). A diferença entre ice pick e boxcar foi estatisticamente significativa (p=0,02) — o ice pick é, em média, cerca de 600 µm mais profundo que o boxcar, quase 1 milímetro a mais de canal para qualquer ferramenta de tratamento precisar alcançar.

É um estudo piloto, com amostra de biópsias pequena (10 ice pick, 32 boxcar, 7 rolling) — por isso classificamos essa evidência como força B, e não como certeza definitiva. Mas é, hoje, o melhor dado de profundidade-alvo comparando os três subtipos lado a lado com medição direta em tecido — não estimativa, não inferência de imagem de superfície.

Profundidade média dos três subtipos (biópsia, µm)
Medição histopatológica direta — Bansal et al., 2026. Diferença estatisticamente significativa entre ice pick e boxcar (p=0,02); a comparação ice pick × rolling não teve significância relatada nesse estudo.
Ice pick
1.933 µm (±1.118)
Rolling
1.357 µm (±578)
Boxcar
1.328 µm (±571)
Barras proporcionais aos valores médios de profundidade medidos em biópsia (µm) — aqui os números medem, não apenas ordenam. Amostra pequena (10/32/7 biópsias); força de evidência B (estudo piloto transversal, foco em pele de fototipos mais escuros).
Por que isso importa antes de falar em laser

Uma ferramenta de tratamento que atua por profundidade fixa ou por coluna de dano térmico controlado — como o laser de CO2 fracionado, o mais estudado para cicatriz de acne em geral — precisa, fisicamente, alcançar o fundo do canal para remodelar o colágeno ali. Se o subtipo mais comum de cicatriz de acne (ice pick, 60-70% dos casos) é também, por dado direto, o mais profundo dos três (quase 2 mm, contra ~1,3 mm dos outros dois), a pergunta que se impõe não é “o laser de CO2 funciona para cicatriz de acne?” — é “o laser de CO2 alcança fundo o suficiente para o subtipo mais comum e mais profundo?”.

Essa pergunta tem uma resposta baseada em dado — e ela não é confortável para quem vende o laser de CO2 como solução única. Um estudo retrospectivo com 121 pacientes (Li et al., 2022, publicado no Journal of Cosmetic Dermatology) mediu justamente isso, comparando a resposta ao laser de CO2 fracionado entre os subtipos, e vai ser o ponto de partida da próxima apostila desta série.

A Sacada dos DoutoresO erro não é falar de “laser para cicatriz de acne” — é não perguntar de qual cicatriz, exatamente.

O que eu quero que fique desta primeira apostila é simples de dizer e raro de ouvir num consultório apressado: cicatriz de acne não é uma coisa só, e o subtipo mais frequente que você provavelmente tem — o ice pick — é também o mais profundo dos três, por dado direto de medição em tecido. Isso não é uma má notícia disfarçada; é a informação que faltava para calibrar expectativa antes de qualquer procedimento. Na minha avaliação, o primeiro passo nunca é escolher a ferramenta — é nomear com precisão qual subtipo de cicatriz está na frente, e só depois discutir o que a evidência mostra sobre cada opção para aquele formato específico. É exatamente esse caminho que as próximas apostilas desta série percorrem.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • Cicatriz atrófica de acne tem três subtipos diferentes: ice pick, boxcar e rolling — cada um com formato e desafio de tratamento distintos (Jacob et al., 2001).
  • Ice pick é um canal estreito (<2 mm) em “V” que pode chegar à derme profunda ou ao subcutâneo — não é uma variação leve do boxcar.
  • Ice pick é o subtipo mais comum de todos: 60-70% das cicatrizes atróficas, à frente de boxcar (20-30%) e rolling (15-25%) (Kravvas & Al-Niaimi, 2017).
  • Ice pick também é o mais profundo, por medição direta em biópsia: 1.933 µm em média, contra 1.328 µm do boxcar (p=0,02) e 1.357 µm do rolling (Bansal et al., 2026).
  • Prevalência alta + profundidade máxima no mesmo subtipo é o motivo pelo qual “o laser de CO2 resolve cicatriz de acne” precisa ser desmembrado por subtipo, não tratado como frase única.
  • A força da evidência varia: prevalência vem de citação secundária consolidada (força C); profundidade vem de medição histopatológica direta, mas amostra pequena (força B).
  • A decisão de qual ferramenta usar depende do subtipo predominante — e isso só se define numa avaliação individual, olhando as cicatrizes presentes, não uma média populacional.
O próximo passo

Agora que você sabe que o ice pick é o subtipo mais comum e mais profundo, a pergunta técnica seguinte é inevitável: o laser de CO2 fracionado — o mais estudado para cicatriz de acne em geral — funciona igual para todos os subtipos, ou responde pior exatamente aqui? A próxima apostila desta série mostra o dado direto que compara a resposta do laser de CO2 entre ice pick e rolling — e por que esse número muda a conversa. Leve o que aprendeu aqui, inclusive a definição precisa de cada subtipo, para a sua avaliação individual.

Referências
  1. Jacob CI, Dover JS, Kaminer MS. Acne scarring: a classification system and review of treatment options. J Am Acad Dermatol, 2001;45(1):109-117 — artigo fundacional que propõe os 3 subtipos de cicatriz atrófica; ice pick definido como canal estreito (<2mm), profundo, em “V”, estendendo-se à derme profunda ou subcutâneo.
  2. Bansal A, et al. A cross-sectional pilot study evaluating the histopathology of atrophic acne scars with a focus on the vertical depth of ice pick, boxcar, and rolling scars and its implications in skin of colour. Indian J Dermatol Venereol Leprol, 2026;92:14-21 — estudo piloto histopatológico; ice pick 1.933,4±1.117,8 µm vs. boxcar 1.327,88±571,34 µm vs. rolling 1.357,14±578,3 µm (p=0,02, ice pick × boxcar).
  3. Kravvas G, Al-Niaimi F. A systematic review of treatments for acne scarring. Part 1. Scars Burns Heal, 2017;3:2059513117695312 — revisão que reporta o ice pick como subtipo mais prevalente (60-70% das cicatrizes atróficas), à frente de boxcar (20-30%) e rolling (15-25%).
  4. Li B, Ren K, Yin X, She H, Liu H, Zhou B. Efficacy and adverse reactions of fractional CO2 laser for atrophic acne scars and related clinical factors: a retrospective study on 121 patients. J Cosmet Dermatol, 2022;21(5):1989-1997 — estudo retrospectivo (n=121) que compara a resposta ao laser de CO2 entre subtipos de cicatriz; referência central da apostila 2 desta série.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo. O laser de CO2 fracionado é um procedimento estético realizado por profissional habilitado. Os dados aqui apresentados descrevem classificação e profundidade de cicatriz de acne conforme os estudos citados — não são garantia de resultado individual. O subtipo de cicatriz predominante, a pele, o histórico e a expectativa mudam a conduta indicada; a avaliação individual é o que define o protocolo aplicável ao seu caso.