Apostila 4 · Laser CO2 × Estrias · Par · Pilar

O que mais pesa na resposta ao laser: a cor da estria

“O laser de CO2 funciona para estria?” é a pergunta que quase todo mundo faz — e é a pergunta errada. Em pelo menos três tecnologias de laser diferentes, um mesmo padrão se repete: estrias recentes respondem melhor do que estrias antigas. A pergunta certa, antes de qualquer protocolo, é em que estágio está a sua estria.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

O laser de CO2 fracionado é um procedimento estético a laser — um ato de profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo: reúne o que estudos comparativos mostram sobre a resposta ao laser conforme o estágio da estria. Ele não substitui avaliação individual: o estágio da estria (rubra, alba, ou as duas coexistindo), a pele e o histórico de cada pessoa mudam a indicação, o protocolo e a expectativa realista — e é isso que uma consulta avalia caso a caso.

Esta é a apostila 4 de nove desta série sobre laser de CO2 fracionado × estrias roxas, vermelhas ou brancas — e é o capítulo-pilar do conjunto: o ângulo que mais muda a expectativa de quem procura esse tratamento. A apostila 1 desta série mostrou que estria rubra e estria alba não são a mesma marca em dois momentos: são dois estágios de tecido com biologia diferente — rubra, ainda vascular e inflamatória, com colágeno desorganizado mas ativo; alba, já cicatricial e avascular, com colágeno compactado em fibras paralelas (Mikes et al., 2025). As apostilas 2 e 3 trataram de saber se o laser de CO2 funciona e com quais parâmetros os estudos trabalham.

Esta apostila junta as duas pontas. A pergunta que a maioria faz — “o laser de CO2 funciona para estria?” — trata a estria como uma coisa só, e por isso é a pergunta errada. A pergunta que a evidência recomenda fazer é outra: em que estágio está a estria que você quer tratar? Porque, em pelo menos três tecnologias de laser diferentes, incluindo o CO2 fracionado, o mesmo padrão aparece de forma consistente: estria rubra — o estágio recente — responde melhor do que estria alba — o estágio antigo. Essa diferença de estágio pesa mais no resultado do que qual laser específico é escolhido.

60 estrias, mesmo protocolo, um resultado bem diferente: o comparativo direto de Lakshmipathi (2026)

O estudo mais direto sobre esse ponto é um comparativo controlado publicado no Journal of Cutaneous and Aesthetic Surgery (Lakshmipathi et al., 2026). O desenho é o que dá força ao argumento: 60 estrias foram divididas em dois grupos de 30 — um de estria rubra, outro de estria alba — e tratadas com exatamente o mesmo protocolo de laser de CO2 fracionado: 12 W de potência, 40 mJ de energia por pulso, spot de 1 cm², em 3 sessões espaçadas a cada 4 semanas.

Isso importa porque isola a variável que a série inteira está tentando medir. Não é uma comparação entre protocolos diferentes, entre aparelhos diferentes, nem entre profissionais diferentes — isso mudaria o que está sendo testado. É o mesmo laser, a mesma potência, a mesma energia, o mesmo número de sessões, aplicados a dois tecidos que só diferem no estágio biológico da lesão. E, sob essas condições controladas, o resultado relatado foi uma melhora nitidamente superior no grupo de estria rubra em comparação ao grupo de estria alba.

Grupo 1 · n=30
Estria alba
Mesmo protocolo de laser CO2 fracionado
Potência 12 W
Energia por pulso 40 mJ
Sessões 3 · a cada 4 semanas
Melhora clínica relatada Mais discreta
Grupo 2 · n=30
Estria rubra
Mesmo protocolo de laser CO2 fracionado
Potência 12 W
Energia por pulso 40 mJ
Sessões 3 · a cada 4 semanas
Melhora clínica relatada Nitidamente superior

Spot de 1 cm², n=30/30, potência e energia idênticas entre os dois grupos — números reais do desenho do estudo (Lakshmipathi et al., 2026). A barra de “melhora clínica” ordena a diferença qualitativa relatada entre os grupos (rubra “nitidamente superior” a alba); a evidência disponível não especifica um escore numérico de melhora por grupo, por isso essa barra não deve ser lida como medição em percentual — só as barras de potência, energia e sessões representam valores exatos e idênticos do protocolo.

O que esse estudo não é

É um comparativo direto e controlado — o melhor desenho disponível para isolar “estágio da estria” como variável — mas ainda é um único estudo. Isso não invalida o achado: o mesmo padrão aparece em outras duas tecnologias de laser completamente diferentes, discutido logo abaixo. Mas a força dessa combinação vem de convergência entre estudos pequenos, não de um único ensaio com amostra grande — por isso a evidência geral desta série é classificada como força B, não como certeza definitiva.

3 tecnologias, um mesmo padrão: rubra responde melhor que alba

Se o achado de Lakshmipathi et al. (2026) fosse uma particularidade isolada do laser de CO2, valeria menos como orientação prática. Não é o caso: o mesmo padrão — rubra responde melhor, alba responde pior — aparece também em tecnologias de laser diferentes, tratando a mesma lesão.

Um estudo controlado mais antigo (Jimenez et al., 2003, publicado no Dermatologic Surgery) testou o laser de corante pulsado de 585 nm (PDL) — uma tecnologia diferente do CO2, que não fraciona nem faz resurfacing ablativo, mas atua sobre vasos sanguíneos — em 20 pacientes com estrias rubra e alba. O resultado: melhora do eritema nas estrias rubra, e nenhuma melhora relatada nas estrias alba. É importante ser preciso aqui: o PDL não é o laser de CO2 e este dado não mede eficácia do CO2 — ele serve como evidência de que o padrão “rubra responde, alba não responde bem” atravessa tecnologias diferentes, o que fortalece a hipótese de que a causa é o tecido, não o aparelho específico.

Um terceiro estudo (Gungor et al., 2014, publicado no Indian Journal of Dermatology, Venereology and Leprology) comparou o laser de Er:YAG em 20 pacientes, divididos de forma desigual entre os estágios: 17 com estria alba e apenas 3 com estria rubra. Mesmo com essa amostra pequena e desbalanceada, a resposta relatada segue a mesma direção — pobre em alba, moderada em rubra.

TecnologiaEstudoAmostraResposta em rubraResposta em alba
Laser CO2 fracionadoLakshmipathi et al., 202660 estrias (30 rubra + 30 alba)Nitidamente superiorMais discreta
PDL 585 nm (corante pulsado)Jimenez et al., 200320 pacientesMelhora do eritemaNenhuma melhora
Er:YAGGungor et al., 201420 pacientes (17 alba + 3 rubra)ModeradaPobre

Três tecnologias diferentes, três estudos independentes — o mesmo padrão de estágio se repete em todos. Amostras dos três estudos são pequenas (n entre 20 e 60); nenhum é uma certeza estatística populacional isolada, mas a convergência entre eles é o que dá peso a esse padrão.

Uma ressalva sobre o estudo de Gungor (2014)

Vale registrar com honestidade: o grupo de estria rubra desse estudo teve apenas 3 pacientes — uma amostra pequena demais para conclusão isolada. Ele é usado aqui como reforço de padrão junto aos outros dois estudos, não como prova independente. Sozinho, esse dado teria pouco peso; junto ao comparativo direto de Lakshmipathi (2026) e ao achado com PDL de Jimenez (2003), ele soma a um padrão que se repete três vezes, em três tecnologias diferentes.

Um erro muito comum

Perguntar “o laser de CO2 funciona para estria?” e esperar a mesma resposta, seja a estria recente e avermelhada, seja antiga e esbranquiçada.

Em pelo menos três tecnologias de laser diferentes — CO2 fracionado, PDL e Er:YAG — o padrão se repete: estria rubra responde melhor do que estria alba, sob o mesmo protocolo e no mesmo estudo. Perguntar “funciona ou não funciona” sem nomear o estágio da estria é perguntar a coisa errada — e leva a uma expectativa desalinhada, principalmente para quem só tem estrias brancas antigas, o quadro em que a resposta tende a ser mais discreta.

O certo: perguntar, na avaliação individual, qual é o estágio predominante das suas estrias — rubra, alba, ou as duas — antes de perguntar “o laser funciona”. A resposta à segunda pergunta depende inteiramente da resposta à primeira.

A Sacada dos DoutoresNão existe “o laser funciona para estria” — existe “para essa estria, nesse estágio, funciona assim”.

Esta é, para mim, a apostila mais importante de toda a série — e por isso quero ser bem direta. A pergunta “o laser de CO2 funciona para estria?” não tem uma resposta única, porque não existe “a estria” — existem estágios diferentes de um mesmo processo de cicatrização, e eles respondem de forma diferente ao mesmo tratamento. Isso apareceu com clareza rara num único estudo controlado, onde 60 estrias foram tratadas com o protocolo idêntico e ainda assim o resultado divergiu conforme o estágio. E não é coincidência isolada: o mesmo padrão se repetiu em outras duas tecnologias de laser, tratando o mesmo tipo de lesão.

Na minha avaliação, isso muda a forma como a conversa sobre expectativa deveria começar. Quem tem estria recente, ainda avermelhada ou arroxeada, tende a ver uma resposta mais nítida. Quem tem só estria antiga, já esbranquiçada, precisa saber — antes de começar, não depois — que a resposta relatada nos estudos tende a ser mais discreta nesse estágio, e que isso não é falha do laser nem do profissional: é a biologia do tecido que muda o que há para remodelar. Isso não significa que a estria alba não possa ser tratada — significa que a expectativa correta para ela é diferente da expectativa para a estria rubra, e essa diferença só se calibra numa avaliação individual, olhando as suas estrias, não uma média de estudo.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • “O laser funciona para estria?” é a pergunta errada: a pergunta certa é em que estágio está a estria — rubra (recente) ou alba (antiga).
  • O comparativo direto de Lakshmipathi (2026) tratou 60 estrias (30 rubra + 30 alba) com o mesmo protocolo de CO2 fracionado (12 W, 40 mJ, spot 1 cm², 3 sessões/4 semanas) — e a melhora foi nitidamente superior no grupo rubra.
  • O mesmo padrão aparece em outras duas tecnologias: PDL 585 nm melhorou eritema em rubra e não teve melhora relatada em alba (Jimenez et al., 2003); Er:YAG teve resposta moderada em rubra e pobre em alba (Gungor et al., 2014).
  • A convergência entre 3 estudos, em 3 tecnologias diferentes, é o que dá peso ao padrão — cada estudo isolado tem amostra pequena, mas a repetição do achado fortalece a hipótese de que o tecido, não o aparelho, decide boa parte da resposta.
  • A força de evidência tem limites: Lakshmipathi (2026) é um único comparativo controlado; Gungor (2014) tem só 3 pacientes no grupo rubra; Jimenez (2003) não é laser de CO2 — cada um pesa diferente, nenhum é prova isolada e definitiva.
  • Quem só tem estria alba (branca, antiga) precisa calibrar a expectativa: os estudos mostram resposta tendendo a ser mais discreta nesse estágio — o que não significa “não tratar”, significa “esperar diferente”.
  • O estágio predominante das suas estrias — rubra, alba, ou as duas — só se define numa avaliação individual, e é isso que deve orientar protocolo e expectativa, não uma média de estudo.
O próximo passo

Agora que você sabe que o estágio da estria pesa mais do que o aparelho, a pergunta técnica seguinte é: o laser de CO2 funciona melhor sozinho, ou combinado com outras abordagens, como PRP ou radiofrequência? A próxima apostila desta série mostra o que muda quando o CO2 é associado a essas técnicas. Leve o que aprendeu aqui — inclusive o estágio das suas estrias — para a sua avaliação individual.

Referências
  1. Lakshmipathi et al. Fractional CO2 Laser in Striae Rubra versus Striae Alba. J Cutan Aesthet Surg, 2026;19(1) — comparativo direto e controlado, 60 estrias (30 rubra + 30 alba), mesmo protocolo (12 W, 40 mJ, spot 1 cm², 3 sessões/4 semanas); melhora nitidamente superior no grupo rubra. Referência do dossiê científico interno; link de journal não disponível na base verificada.
  2. Jimenez GP, Flores F, Berman B, Gunja-Smith Z. Treatment of striae rubra and striae alba with the 585-nm pulsed-dye laser. Dermatol Surg, 2003;29(4):362-5 — controlado, 20 pacientes; PDL melhora eritema em rubra, nenhuma melhora relatada em alba. Não é laser de CO2 — usado como evidência de padrão cross-tecnologia.
  3. Gungor S, Sayilgan T, Gökdemir G, Ozcan D. Evaluation of Er:YAG and Nd:YAG lasers in the treatment of striae distensae. Indian J Dermatol Venereol Leprol, 2014;80(5):409-13 — RCT split-body, 20 pacientes (17 alba + 3 rubra); resposta pobre em alba, moderada em rubra, amostra pequena e desbalanceada por subgrupo.
  4. Mikes BW, et al. Striae Distensae. StatPearls, 2025 — revisão da histologia comparada rubra x alba, base conceitual apresentada na apostila 1 desta série.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo. O laser de CO2 fracionado é um procedimento estético a laser, realizado por profissional habilitado. Os dados aqui apresentados descrevem resultados de estudos comparativos conforme o estágio da estria — não são garantia de resultado individual. O estágio da estria (rubra, alba, ou as duas), a pele, o histórico e a expectativa mudam a conduta indicada; a avaliação individual é o que define o protocolo aplicável ao seu caso.