Quantos fios, que técnica? O protocolo real por trás do fio liso na ruga fina
Na apostila anterior, o único estudo clínico dedicado a fio liso puro na região periorbital mostrou queda de 2,29 para 1,0 na escala de Lemperle. Agora entramos na pergunta prática — quantos fios, que técnica, que plano de inserção — e a resposta mais honesta é: não existe RCT de dose para fio liso em rugas finas; o melhor contraponto contra “mais fio = mais resultado” vem de outro fio, em outra área do rosto.
O fio liso de PDO é um PROCEDIMENTO MINIMAMENTE INVASIVO — um ato biomédico, realizado por profissional habilitado após avaliação individual. Este material é exclusivamente informativo e educativo, baseado em estudos publicados; não é promessa de resultado nem protocolo pronto. A quantidade de fios, o plano de inserção, os vetores e a técnica citados aqui descrevem o que pesquisadores usaram em cada estudo — nunca uma orientação de quanto fio, ou como, você deve receber. Quem define o protocolo, caso a caso, avaliando anatomia e objetivo, é o profissional que examina você.
Se você acompanhou a apostila anterior, já sabe que o fio liso periorbital tem, sim, um estudo clínico com escala validada por trás — coisa rara nesta série. A pergunta natural que vem a seguir é prática: quantos fios se usa, e como se aplica?
A resposta honesta tem duas partes. Primeiro, não existe nenhum ensaio clínico randomizado que tenha testado dose de fio liso (número de unidades) especificamente para rugas finas — o dado mais rigoroso que existe sobre “mais fio muda o resultado?” vem de outro tipo de fio, em outra lógica de aplicação, e ele é um alerta, não uma resposta pronta. Segundo, a única descrição de técnica associada a um resultado clinicamente validado, para fio liso na região periorbital, vem de um único estudo. Esta apostila mostra os dois — com a calibração que cada um exige.
Não há RCT de dose de fio liso dedicado a rugas finas. O dado mais rigoroso disponível sobre a pergunta “quantidade de fio muda o resultado?” vem de Germani et al. (2025), que randomizaram 22 pacientes em dois grupos de 11 na face inteira: um recebeu 6 fios de PDO totais (3 por hemiface) e o outro 12 fios totais (6 por hemiface) — fios farpados, com tração manual padronizada por tensiômetro, desenhados justamente para isolar a variável “quantidade”. O resultado foi medido por estereofotogrametria 3D — volume e deslocamento de tecido em números, não uma nota visual — em três momentos: antes, aos 20 dias e aos 60 dias.
É a peça mais próxima de um “teste de dose” que a literatura de fio facial já produziu — e ela existe justamente para contestar, com números, a lógica de marketing de “mais fio = mais sustentação”. Mas é preciso dizer com todas as letras: é um estudo em face inteira (não isolado na região periorbital), com fio farpado (que traciona; o liso desta série só bioestimula). Usar este dado para orientar dose de fio liso em rugas finas é extrapolação, não prova direta — e é assim que ele deve ser lido a seguir.
A diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa em nenhum dos dois momentos (p=0,645, face média). As larguras acima são proporcionais aos valores absolutos reportados — servem para ordenar visualmente a magnitude, não para provar que “12 fios ganhou mais”: o desvio-padrão foi, em 3 dos 4 pontos, maior que a própria média — a resposta variou mais entre pacientes do que entre grupos. Repetindo: fio farpado, face inteira — não fio liso, não região periorbital.
O dado mais importante do estudo de Germani et al. não é a comparação entre grupos — é o que acontece dentro de cada grupo entre os dias 20 e 60. Em ambos, o volume ganho no pico (dia 20) já havia regredido para valores negativos aos 60 dias: o grupo de 6 fios foi de +0,25 cm³ para −0,076 cm³; o grupo de 12 fios, de +0,7 cm³ para −0,88 cm³ — uma queda proporcionalmente maior no grupo que recebeu mais fio. Os autores explicam o motivo: “os fios de PDO não são ancorados a uma estrutura fixa” — a tração inicial cede com o tempo, independentemente de quantos pontos de fio existam, e a produção de colágeno novo “pode não afetar significativamente os resultados de lifting” nesse intervalo de 60 dias.
| Medida (aos 60 dias) | 6 fios (n=11) | 12 fios (n=11) | Diferença entre grupos |
|---|---|---|---|
| Volume — face média | −0,076 cm³ (±1,55) | −0,88 cm³ (±1,33) | sem diferença (p=0,645) |
| Volume — terço inferior | −0,27 cm³ (±0,52) | −0,26 cm³ (±0,33) | sem diferença (p=0,925) |
| Deslocamento de tecido | medido em ambos os grupos | sem diferença (p=0,821) | |
| Satisfação — paciente (GAIS) | 0,58 | 0,30 | sem diferença (p=0,31) |
| Satisfação — especialista (GAIS) | 0,17 | 0,30 | sem diferença (p=0,56) |
Se mesmo o fio farpado — que soma tração mecânica ao estímulo biológico — não escalou com a quantidade nem sustentou o ganho até os 60 dias, é razoável supor (não medir, pois não há esse dado) que o fio liso, que nunca teve componente de tração, tenha ainda menos motivo para “escalar” resultado só por aumentar o número de unidades na região periorbital. É inferência a partir do mecanismo, não um número medido em fio liso.
Para técnica dedicada a fio liso puro, com desfecho clínico validado, a literatura tem um estudo: Arora & Arora (2022), já apresentado na apostila anterior — 25 pacientes (21 completaram 16 semanas de seguimento), 40 a 65 anos, tratados com 10 fios monofilamento de PDO (5 fios por lado) na região infero-lateral periorbital. A técnica descrita: plano subdérmico, inserção pela abordagem “pinch and insert” (pinçamento do tecido seguido de inserção do fio), ao longo de vetores predefinidos, em sessão única, sob anestesia tópica. Os eventos adversos registrados foram equimose (2 casos) e deslocamento do fio (1 caso), sem nenhum evento grave.
É o parâmetro mais próximo de um “protocolo” que existe hoje para fio liso puro nesta indicação — mas segue sendo um único estudo, de um único centro, com um único operador, sem braço de comparação de dose. Ninguém testou, nesse desenho, se 8 fios ou 12 fios teriam produzido resultado diferente; o número “10” é o que os pesquisadores escolheram usar, não o que a evidência provou ser o ideal.
Achar que “mais fio” produz “mais resultado” — e, na direção oposta, transformar o número “10 fios” de Arora & Arora (2022) numa dose fechada e universal.
Os dois erros nascem da mesma pressa. O primeiro ignora que o único teste de dose disponível na literatura de fio facial (Germani et al., 2025, ainda que em fio farpado) mostrou o contrário: dobrar a quantidade não mudou volume, deslocamento nem satisfação, e o ganho regrediu em ambos os grupos aos 60 dias. O segundo ignora que o “10 fios, 5 por lado” de Arora & Arora é a descrição de um estudo, sem braço de comparação — não uma dose validada contra outras quantidades. Nenhum dos dois números, sozinho, autoriza uma recomendação fechada de “quanto fio” para qualquer rosto.
O certo: ler ambos os números como referência do que a ciência testou até agora — um alerta contra o exagero de quantidade e uma descrição de protocolo de um único estudo — e deixar a quantidade de fios, os vetores e o plano de inserção como decisão técnica do profissional, definida caso a caso pela anatomia examinada.
- Em face inteira, dobrar a quantidade de fio farpado (6→12) não alterou significativamente volume, deslocamento nem satisfação, em nenhum dos dois momentos avaliados (Germani et al., 2025).
- O ganho de volume, em ambos os grupos daquele estudo, já regredia para valores negativos aos 60 dias.
- Existe um estudo clínico com escala validada usando fio liso periorbital com protocolo descrito: 10 fios (5 por lado), plano subdérmico, vetores predefinidos, sessão única, anestesia tópica (Arora & Arora, 2022).
- Não existe RCT de dose de fio liso dedicado a rugas finas — a extrapolação a partir do fio farpado em face inteira é raciocínio biológico, não dado local.
- O protocolo de Arora & Arora (2022) não foi comparado a outras quantidades, vetores ou planos de inserção em outro estudo publicado.
- Não se sabe se o ganho do fio liso periorbital segue a mesma curva de regressão aos 60 dias observada no fio farpado — não há medição direta disso.
O que este pilar me deixa mais claro é que “protocolo” e “dose validada” não são a mesma coisa. Temos, sim, um estudo sério — Arora & Arora, com escala validada e resultado estatisticamente significativo — descrevendo 10 fios, 5 por lado, no plano subdérmico. Isso é raro nesta série, e vale como referência real. Mas nenhum estudo testou se 6, 8 ou 14 fios teriam feito diferença; e o único teste de dose que existe na literatura de fio facial (mesmo sendo de outro tipo de fio) mostrou o contrário do que o marketing costuma prometer: mais fio não sustentou mais resultado, e o ganho regrediu no tempo em ambos os grupos. Prefiro ser direta sobre isso: quando alguém promete “quanto mais fio, melhor” ou vende um número fechado de fios como se fosse regra, está confundindo a descrição de um estudo com a prova de uma dose. Quantidade, vetor e plano de inserção são decisão técnica, tomada depois de examinar o rosto de cada pessoa — não um número copiado de um artigo.
- Não existe RCT de dose de fio liso dedicado a rugas finas. O melhor dado disponível sobre “mais fio = mais resultado” vem de outro fio, em outra área do rosto.
- Germani et al. (2025): 22 pacientes, 6 vs 12 fios farpados em face inteira — nenhuma diferença estatística em volume, deslocamento ou satisfação, aos 20 ou 60 dias.
- O ganho de volume regrediu para valores negativos aos 60 dias em ambos os grupos — proporcionalmente mais no grupo que recebeu mais fio.
- O protocolo mais próximo de validado para fio liso periorbital é o de Arora & Arora (2022): 10 fios monofilamento (5 por lado), plano subdérmico, vetores predefinidos, sessão única, anestesia tópica.
- É derivado de um único estudo, sem braço de comparação de dose — o número “10” descreve o que foi feito, não uma dose comprovadamente ideal.
- Eventos adversos no estudo-protocolo foram leves: equimose (2 casos) e deslocamento de fio (1 caso), sem evento grave.
- Quantidade, vetores e plano de inserção são decisão técnica do profissional, avaliada caso a caso — não uma fórmula fixa a copiar de um artigo.
Se o protocolo ainda depende de um único estudo, e “mais fio” não é sinônimo de “mais resultado”, a pergunta seguinte é a mais importante desta série: para quem esse procedimento faz sentido — e para quem ele não é a escolha certa? A própria Arora & Arora (2022) já mostrou, nos “maus respondedores” do seu estudo, uma pista concreta sobre esse limite. É o assunto da próxima apostila.
- Arora G, Arora S. Periorbital Rejuvenation: A Study on the Use of Dermal Threads as Monotherapy, with a Review of Literature. J Cutan Aesthet Surg, 2022;15(3):236–243 — protocolo descrito: 10 fios monofilamento de PDO (5 por lado), plano subdérmico, técnica “pinch and insert”, vetores predefinidos, sessão única, anestesia tópica; eventos adversos: equimose (2) e deslocamento de fio (1).
- Germani M, et al. Is More Always Better? A Randomized Comparative Clinical Trial About the Impact of Polydioxanone Threads Quantity for Facial Lifting. Aesthet Surg J Open Forum, 2025;7:ojaf002 — 22 pacientes, 6 vs 12 fios farpados em face inteira; nenhuma diferença significativa em volume, deslocamento ou satisfação, e regressão do ganho aos 60 dias em ambos os grupos.
- Kim J, Zheng Z, Kim H, Nam KA, Chung KY. Investigation on the Cutaneous Change Induced by Face-Lifting Monodirectional Barbed Polydioxanone Thread. Dermatol Surg, 2017;43(1):74–80 — contexto: a hidrólise do PDO estimula colágeno tipo I e TGF-β1 (estudo animal), mecanismo comum a fio liso e farpado, sem componente de tração no fio liso.
- Adam A, Karypidis D, Ghanem A. Thread Lifts: A Critical Analysis of Treatment Modalities. J Drugs Dermatol, 2020;19(4):413–417 — classifica a maioria dos tipos de fio (incluindo PDO liso) como evidência Nível IV e pede estudos multicêntricos de longo prazo antes de recomendações definitivas por tipo e dose de fio.
- Contreras C, Ariza-Donado A, Ariza-Fontalvo A. Using PDO threads: A scarcely studied rejuvenation technique. Case report and systematic review. J Cosmet Dermatol, 2023;22:2158–2165 — contexto: fio PDO segue sendo técnica escassamente estudada na literatura de forma geral, inclusive quanto a parâmetros de dose e técnica.