Quantos fios, que técnica? O protocolo real por trás do fio liso no sulco
Na apostila anterior vimos o tamanho real da lacuna: fio farpado tem estudo com escala validada em 32 pacientes; fio liso isolado no sulco nasogeniano tem 1 relato de caso. Agora entramos no protocolo — quantos fios, que técnica, que parâmetros — e a resposta mais honesta que os dados permitem é: não existe um padrão validado para fio liso nesta dobra.
O fio liso de PDO é um PROCEDIMENTO MINIMAMENTE INVASIVO — um ato biomédico, realizado por profissional habilitado após avaliação individual. Este material é exclusivamente informativo e educativo, baseado em estudos publicados; não é promessa de resultado nem protocolo pronto. A quantidade de fios, o comprimento, as zonas de inserção e os volumes citados aqui descrevem o que pesquisadores usaram em cada estudo — nunca uma orientação de quanto fio, ou como, você deve receber. Quem define o protocolo, caso a caso, avaliando anatomia e objetivo, é o profissional que examina você.
Se você chegou até aqui já sabe que a literatura de fio no sulco nasogeniano é a mais volumosa de toda a face — e que quase todo esse volume pertence ao fio farpado, não ao liso. A pergunta natural que vem a seguir é prática: então, quantos fios lisos se usa, e como se aplica?
A resposta honesta tem duas partes. Primeiro, não existe nenhum ensaio clínico randomizado que tenha testado dose de fio liso (número de unidades) especificamente no sulco nasogeniano — o dado mais próximo que existe vem de outro tipo de fio, em outra lógica de aplicação. Segundo, a única descrição de técnica dedicada a fio liso nesta dobra vem de um único caso publicado. Esta apostila mostra os dois — com a calibração que cada um exige.
Não há RCT de dose de fio liso dedicado ao sulco nasogeniano. O dado mais rigoroso disponível sobre a pergunta “mais fio é mais resultado?” vem de Germani et al. (2025), que randomizaram 22 pacientes em dois grupos de 11 na face: um recebeu 6 fios de PDO totais (3 por hemiface) e o outro 12 fios totais (6 por hemiface) — fios farpados, com tração manual padronizada por tensiômetro, para isolar a variável quantidade. O resultado foi medido por estereofotogrametria 3D — volume e deslocamento de tecido em números, não uma nota visual — em três momentos: antes, aos 20 dias e aos 60 dias.
É a peça mais próxima de um “teste de dose” que a literatura de fio facial já produziu — e ela existe justamente para contestar, com números, a lógica de venda “mais fio = mais sustentação”. Mas é preciso dizer com todas as letras: é um estudo em face (não isolado no sulco), com fio farpado (que traciona; o liso desta série só bioestimula). Usar este dado para orientar dose de fio liso no sulco é extrapolação, não prova direta — e é assim que ele deve ser lido a seguir.
A diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa em nenhum dos dois momentos (p=0,645, face média, comparação entre grupos). As larguras acima são proporcionais aos valores absolutos reportados — servem para ordenar visualmente a magnitude, não para provar que “12 fios ganhou mais”: o desvio-padrão foi, em 3 dos 4 pontos, maior que a própria média — a resposta variou mais entre pacientes do que entre grupos. Lembre-se: este é fio farpado, na face — não fio liso, no sulco.
Germani e colegas mediram quatro desfechos — volume na face média, volume no terço inferior, deslocamento de tecido e satisfação (escala GAIS, −2 a +2, por paciente e por especialista, aos 60 dias) — e em nenhum a quantidade de fio fez diferença estatística. A conclusão dos próprios autores: “a quantidade de fios de PDO usada não influenciou significativamente os resultados sustentados de lifting nem a satisfação do paciente” (Germani et al., 2025).
| Medida (aos 60 dias) | 6 fios (n=11) | 12 fios (n=11) | Diferença entre grupos |
|---|---|---|---|
| Volume — face média | −0,076 cm³ (±1,55) | −0,88 cm³ (±1,33) | sem diferença (p=0,645) |
| Volume — terço inferior | −0,27 cm³ (±0,52) | −0,26 cm³ (±0,33) | sem diferença (p=0,925) |
| Deslocamento de tecido | medido em ambos os grupos | sem diferença (p=0,821) | |
| Satisfação — paciente (GAIS) | 0,58 | 0,30 | sem diferença (p=0,31) |
| Satisfação — especialista (GAIS) | 0,17 | 0,30 | sem diferença (p=0,56) |
O motivo, segundo os próprios autores, reforça a lógica que atravessa esta série: “os fios de PDO não são ancorados a uma estrutura fixa” — a tração inicial cede com o tempo, independentemente de quantos pontos de fio existam; e a produção de colágeno novo “pode não afetar significativamente os resultados de lifting” nesse intervalo de 60 dias. Se mesmo o fio farpado — que soma tração mecânica ao estímulo biológico — não escalou com a quantidade, é razoável supor (não medir) que o fio liso, que nunca teve componente de tração, tenha ainda menos motivo para “escalar” só por aumentar o número de unidades no sulco.
Para técnica — não dose em RCT, mas a descrição concreta de como um profissional aplicou fio liso nesta dobra — a literatura tem 1 relato de caso: Kang, Choung e Hwang (2021) trataram uma paciente de 67 anos, com sulco nasogeniano profundo, usando fio de PDO em formato de malha (construção lisa, sem farpa) combinado a preenchedor de ácido hialurônico, com acompanhamento de 3 meses.
A técnica descrita: 5 fios de PDO de 6,0 cm por sulco, inseridos em três zonas distintas da dobra — não ao acaso, mas seguindo a anatomia do próprio sulco. Combinado a isso, 4,0 ml de ácido hialurônico distribuídos em três planos: subdérmico, gordura superficial e submuscular. O resultado foi descrito qualitativamente (“sulco suavizado, sem migração do preenchedor”) — sem pontuação fotográfica nem escala validada.
Transformar a técnica de Kang et al. (2021) — 5 fios de 6 cm, 3 zonas, 4 ml de AH — numa “receita padrão” de fio liso para o sulco nasogeniano.
É a descrição de 1 paciente, sem grupo controle, sem escala fotográfica validada, e com o fio liso usado junto a um preenchedor — não isolado. Não há replicação publicada desses parâmetros em outros pacientes, nem comparação com outras quantidades ou zonas de inserção. Tratar esses números como protocolo fechado é o mesmo erro, em escala menor, de tratar “mais fio” como sinônimo de “mais resultado” — a única coisa que os dados realmente sustentam aqui é uma descrição do que foi feito em um caso, não um padrão validado.
O certo: ler a técnica de Kang como referência descritiva — um ponto de partida para o raciocínio clínico — e deixar a quantidade de fios, o comprimento, as zonas e a eventual combinação com preenchedor como decisão técnica do profissional, definida caso a caso pela anatomia do sulco examinado.
- Em face, dobrar a quantidade de fio farpado (6→12) não alterou significativamente volume, deslocamento nem satisfação, em nenhum dos dois momentos avaliados (Germani, 2025).
- Existe 1 relato de caso publicado com técnica descrita de fio liso especificamente no sulco nasogeniano: 5 fios de 6,0 cm, 3 zonas, combinado a 4,0 ml de AH (Kang et al., 2021).
- O mecanismo biológico do fio liso (hidrólise → estímulo de fibroblasto e colágeno tipo I) é conhecido separadamente, sem relação testada com quantidade (Kim, 2017 — estudo animal).
- Não existe RCT de dose de fio liso dedicado ao sulco nasogeniano — a extrapolação a partir do fio farpado na face é raciocínio biológico, não dado local.
- A técnica de Kang (2021) não foi replicada nem comparada a outras combinações de zona/quantidade/comprimento em outro paciente publicado.
- Não se sabe se o fio liso isolado (sem AH) reproduziria o resultado qualitativo relatado — o caso combinou as duas intervenções.
O que este pilar deixa mais claro, na minha leitura, é que a “robustez da literatura de fio no sulco nasogeniano” — tão citada em material de divulgação — não se traduz em protocolo para fio liso. O melhor dado sobre dose vem de outro fio (farpado, com tração mecânica) e o único dado sobre técnica vem de 1 paciente tratada com fio liso junto a preenchedor. Isso não é acaso: o sulco se aprofunda por deslocamento de gordura, uma causa estrutural — e é justamente a estrutura que o farpado consegue tracionar e o liso não. Emprestar a robustez de estudo do farpado para “validar” uma dose ou técnica de liso é, no fim, o mesmo erro de origem que atravessa toda esta série. Quantos fios, que comprimento, que zonas e se há combinação com preenchedor — isso é decisão do profissional que avalia o seu sulco, não um número de um artigo.
- Não existe RCT de dose de fio liso dedicado ao sulco nasogeniano. O melhor dado disponível sobre “mais fio = mais resultado” vem de outro fio, em outra área.
- Germani et al. (2025): 22 pacientes, 6 vs 12 fios farpados na face — nenhuma diferença estatística em volume, deslocamento ou satisfação, aos 20 ou 60 dias.
- Os próprios autores explicam por quê: fio sem ancoragem fixa não sustenta tração só por ter mais unidades; colágeno novo ainda não “assumiu” o efeito aos 60 dias.
- A única técnica descrita para fio liso no sulco é de 1 caso: Kang et al. (2021), 5 fios de PDO de 6,0 cm, em 3 zonas (lateral dobrada, medial deprimida, crista central), combinados a 4,0 ml de AH.
- O caso de Kang combinou fio com preenchedor — o resultado relatado não isola o que veio só do fio liso.
- É descrição de 1 paciente, não padrão validado: sem grupo controle, sem escala fotográfica, sem replicação publicada.
- Quantidade, comprimento, zonas e combinações são decisões técnicas do profissional, avaliadas caso a caso — não uma fórmula fixa a copiar de um artigo.
Se o protocolo de dose e técnica ainda é uma lacuna desta modalidade, a pergunta seguinte é decisiva: para quem este procedimento faz sentido — e para quem ele não é a escolha certa? É o assunto da próxima apostila da série — Apostila 4 — Para quem é (e para quem não é). Leve estas leituras à avaliação individual: quem examina o seu sulco, a profundidade da dobra e o histórico, e decide o protocolo, é o profissional habilitado.
- Germani M, et al. Is More Always Better? A Randomized Comparative Clinical Trial About the Impact of Polydioxanone Threads Quantity for Facial Lifting. Aesthet Surg J Open Forum, 2025;7:ojaf002 — 22 pacientes, 6 vs 12 fios farpados; nenhuma diferença significativa em volume, deslocamento ou satisfação, aos 20 e 60 dias.
- Kang K, Choung H, Hwang U. Correction of nasolabial fold by combination of polydioxanone thread and hyaluronic acid filler: a case report. J Cosmet Med, 2021;5(2):103–107 — único caso com técnica descrita de fio liso no sulco: 5 fios de 6,0 cm, 3 zonas, + 4,0 ml de AH em 3 camadas.
- Hong GW, et al. Anatomical Considerations for Thread Lifting Procedure. J Cosmet Dermatol, 2025;24(1):e16618 — o aprofundamento do sulco resulta de deslocamento de gordura (coxim superficial × coxim medial profundo), não só de perda de colágeno dérmico.
- Kim J, Zheng Z, Kim H, Nam KA, Chung KY. Investigation on the Cutaneous Change Induced by Face-Lifting Monodirectional Barbed Polydioxanone Thread. Dermatol Surg, 2017;43(1):74–80 — hidrólise do PDO estimula fibroblastos e produção de colágeno tipo I e TGF-β1 (estudo animal).
- Shinde SU, Mansuri S, Choudhary N, et al. Correction of Nasolabial Folds Using Polydioxanone Cog Threads Combined With Botulinum Toxin Type A: A Prospective Comparative Clinical Study. Cureus, 2026;18(1):e101158 — contexto: fio farpado tem estudo prospectivo com 32 pacientes e escala validada no sulco (apostila 2 desta série).
- Contreras C, Ariza-Donado A, Ariza-Fontalvo A. Using PDO threads: A scarcely studied rejuvenation technique. Case report and systematic review. J Cosmet Dermatol, 2023;22:2158–2165 — contexto: fio PDO segue sendo técnica escassamente estudada na literatura de forma geral.