Ptose malar, sulco nasogeniano e jowls: o que a evidência sustenta
“Flacidez facial de terço médio” soa como uma queixa única. Na prática, são três — e elas não pesam igual na balança da ciência. Uma tem estudo comparativo dedicado. Outra tem série de dois anos com medição 3D. A terceira ainda não tem, isoladamente, um único estudo de fio PDO só para ela. Esta apostila separa as três, sem fingir que são a mesma coisa.
Fio de sustentação de PDO tracionador é um procedimento minimamente invasivo — ato biomédico. Este material é exclusivamente informativo e educativo — NÃO é indicação de uso, prescrição nem substitui avaliação individual. Nesta apostila, cada queixa é tratada pelo tamanho real da evidência que existe para ela — inclusive quando esse tamanho é pequeno — porque é isso que permite uma decisão informada. Quem examina o seu terço médio, confirma se você é candidato(a) e conduz o procedimento é o profissional habilitado, presencialmente.
Até aqui, esta série falou de “flacidez facial de terço médio” como se fosse uma coisa só. Não é. Debaixo desse nome guarda-chuva moram três queixas diferentes: a ptose malar (o volume do meio da face que desce), o sulco nasogeniano (a ruga que se aprofunda do nariz à boca) e os jowls iniciais (o começo daquela “bolsinha” na lateral da mandíbula, perto do queixo). Elas costumam aparecer juntas no espelho — e é por isso que muito material por aí trata as três como se tivessem a mesma prova científica por trás.
Não têm. Vou te mostrar exatamente onde a evidência é sólida, onde é razoável e onde, sendo honesta, ainda é fina — e por que a queixa que mais aparece nas minhas conversas com pacientes, os jowls, é justamente a que tem menos prova dedicada ao fio de PDO especificamente.
O sulco nasogeniano tem o que nenhuma das outras duas tem sozinha: um estudo prospectivo comparativo desenhado especificamente para ele. Shinde et al. (2026) acompanharam 32 pacientes com sulco nasogeniano moderado (grau 2–3 numa escala validada), metade tratada só com fio, metade com fio mais toxina botulínica, medindo profundidade da ruga e escalas validadas em 15 dias, 3 e 6 meses. A ptose de volume do terço médio/malar também tem corpo de prova real, só que vindo de dois estudos diferentes: Wan et al. acompanharam 11 pacientes por 24 meses com medição volumétrica 3D (fio combinado com preenchedor de ácido hialurônico), e Germani et al. rodaram um ensaio randomizado com 44 hemifaces testando quantidade de fio, com estereofotogrametria 3D. Jowls, isoladamente, não têm nada equivalente — nenhum estudo dedicado de fio PDO tracionador foi desenhado só para essa queixa. É essa assimetria que a tabela abaixo deixa impossível de ignorar.
| Queixa | Estudo PDO dedicado | Desenho e nº | Força de evidência |
|---|---|---|---|
| Sulco nasogeniano | Sim — Shinde et al., 2026 | Prospectivo comparativo, n=32, 15 dias–6 meses | B |
| Ptose/volume malar (terço médio) | Sim — Wan et al. + Germani et al. | Prospectivo 24 meses (n=11) + RCT (44 hemifaces) | B |
| Jowls iniciais | Não — só indireto | Ali et al.: jowls dentro de protocolo multi-área (bochecha+jowls+pescoço), sem isolar resultado por área | C |
Existe, sim, evidência quantificada de jowl e mandíbula em fio de sustentação — só que ela foi medida com um material diferente. Diaspro et al. (2021) mediram melhora estatisticamente significativa (p<0,05) na distância trago-jowl usando um fio farpado de copolímero PLLA/PCL — poli-L-láctico com policaprolactona, um polímero de degradação mais lenta que o PDO. Wanitphakdeedecha et al. (2021) mediram reposicionamento de gordura de jowl/bochecha com um fio de poli-L-láctico + caprolactona [p(LA-CL)] — a mesma família, novamente não PDO — com “efeito excelente” em 51,9% dos casos em 1 semana, mas 56% sem efeito de lifting em 12 meses por reabsorção do fio. São achados reais, mas de um material com propriedades mecânicas e cronograma de degradação diferentes do PDO tracionador desta série. Emprestar esse número para “provar” que o fio PDO resolve jowl é misturar duas categorias de fio farpado que não são intercambiáveis.
O dado de PDO mais próximo que existe para jowls vem de Ali et al. (2018): um acompanhamento prospectivo de 2 anos, com fio farpado absorvível de PDO aplicado num protocolo que incluiu bochecha/terço médio, jowls e pescoço, medindo elevação de pele de 3 a 10 mm, satisfação alta e taxa de complicação de aproximadamente 4,8% — com resultado potencializado quando combinado a toxina, preenchedor ou PRP. É um estudo sério, com seguimento longo. Mas ele não separa o que aconteceu especificamente na área de jowl do que aconteceu na bochecha ou no pescoço — o resultado é relatado para o protocolo multi-área como um todo. Isso é diferente de “não ter dado nenhum”; é ter um dado que não permite a pergunta “e só nos jowls, quanto melhorou?” — e essa é exatamente a pergunta que a categoria “jowls iniciais” precisaria responder para ter força B como as outras duas.
Ver “fio de sustentação melhora jowl” em algum material e presumir que essa frase tem o mesmo lastro científico que “fio de PDO reduz sulco nasogeniano” ou “fio de PDO sustenta volume malar”.
Não tem. Os estudos que mostram números para jowl/mandíbula (Diaspro, 2021; Wanitphakdeedecha, 2021) foram feitos com fio de PLLA/PCL, um material biodegradável diferente do PDO tracionador desta série — tempo de degradação, comportamento mecânico e resposta tecidual não são os mesmos. O dado de PDO mais próximo (Ali et al., 2018) inclui jowls dentro de um protocolo de três áreas, sem separar o resultado por região. Tratar essas três fontes como se fossem “a mesma prova” é o erro que esta apostila existe para corrigir.
O certo: reconhecer que jowl isolado, com fio PDO, é hoje uma extrapolação clínica razoável — apoiada no mecanismo e no dado indireto de Ali et al. — e não uma eficácia comprovada por estudo dedicado. É a avaliação individual que traduz essa diferença para o seu caso.
O que já está mostrado
Fato, com fonte- Sulco nasogeniano tem estudo prospectivo comparativo dedicado, n=32 (Shinde et al., 2026).
- Ptose/volume malar tem série de 24 meses com estereofotogrametria (Wan et al.) e RCT de quantidade de fio (Germani et al.).
- Ali et al. mostram elevação de pele de 3–10 mm em 2 anos num protocolo que inclui jowls, mas sem isolar essa área.
- Os números de jowl/mandíbula que existem na literatura de fio farpado foram medidos com PLLA/PCL, não PDO.
O que ainda é aberto
Debate, sem resposta- Quanto do resultado de Ali et al. pertence especificamente aos jowls, isolado de bochecha e pescoço — não foi respondido.
- Se o resultado do PLLA/PCL em jowl (Diaspro; Wanitphakdeedecha) se replicaria com PDO — nunca foi testado.
- Um estudo dedicado, com jowls como desfecho isolado e fio PDO, ainda não existe na literatura revisada.
- Quanto tempo o efeito do PDO se sustenta em jowl especificamente — sem estudo dedicado, não há número.
Esta é, para mim, a apostila mais importante da série — porque é a mais fácil de simplificar demais. “Flacidez de terço médio” vira uma frase só na conversa, mas na ciência são três histórias separadas. Para sulco nasogeniano e para o volume do terço médio, eu me sinto confortável dizendo que existe corpo de prova real, com estudo comparativo e seguimento longo — força B nas duas. Para jowls iniciais, sozinhos, eu não tenho um estudo de fio PDO desenhado especificamente para essa pergunta — tenho um dado indireto (Ali et al.) e dados de um material diferente (PLLA/PCL) que ajudam a entender o comportamento geral de fio farpado, mas não substituem uma prova dedicada. Isso não significa que o fio não funcione para jowl — o mecanismo é o mesmo, e a extrapolação é clinicamente razoável. Significa que, se alguém disser “está provado”, essa pessoa está indo além do que a literatura hoje sustenta. Quem avalia se a extrapolação faz sentido no seu terço médio específico é o profissional, no exame presencial.
- “Flacidez facial de terço médio” junta 3 queixas — ptose malar, sulco nasogeniano e jowls — que não têm o mesmo tamanho de evidência para fio PDO.
- Sulco nasogeniano: força B, com estudo prospectivo comparativo dedicado, n=32 (Shinde et al., 2026).
- Ptose/volume malar: força B, sustentada por série de 24 meses com estereofotogrametria (Wan et al.) e RCT de quantidade de fio (Germani et al.).
- Jowls iniciais, isoladamente: força C — nenhum estudo de fio PDO foi desenhado especificamente para essa queixa.
- Os números de jowl que existem na literatura (Diaspro; Wanitphakdeedecha) foram medidos com fio de PLLA/PCL, um material diferente do PDO.
- O dado de PDO mais próximo de jowl (Ali et al.) mistura bochecha, jowls e pescoço num só resultado, sem isolar a área.
- Isso não fecha a porta para jowl — é extrapolação clínica razoável, não eficácia comprovada por estudo dedicado. Quem avalia o seu caso é o profissional habilitado.
Depois de ver o tamanho real da evidência de cada queixa, a pergunta natural é: até onde essa evidência sustenta uma expectativa de resultado — e quando ela para de sustentar? É o que a última apostila da série fecha — Apostila 9 — O limite e a expectativa real. E, de qualquer forma, leve estas leituras à avaliação individual: quem confirma se você é candidato(a) e conduz o procedimento é o profissional habilitado.
- Shinde S et al. Correction of Nasolabial Folds Using Polydioxanone Cog Threads Combined With Botulinum Toxin Type A: A Prospective Comparative Clinical Study. Cureus, 2026 — n=32, sulco nasogeniano, fio isolado × fio+toxina, 15 dias–6 meses.
- Wan J, Park HJ, Choi HS, Yi KH. A Pilot One and Two-Year Prospective, Blinded Clinical Evaluation of Efficacy, and Safety of Combined Treatment With Crosslinked Hyaluronic Acid Dermal Filler and Barbed Polydioxanone Suspension Threads for Mid-Face Contour Enhancement. J Cosmet Dermatol — n=11, 24 meses, medição volumétrica 3D do terço médio.
- Germani M et al. Is More Always Better? A Randomized Comparative Clinical Trial About the Impact of Polydioxanone Threads Quantity for Facial Lifting. Aesthet Surg J Open Forum, 2025 — RCT, 44 hemifaces, quantidade de fio não alterou resultado.
- Ali YH. Two Years’ Outcome of Thread Lifting With Absorbable Barbed PDO Threads: Innovative Score for Objective and Subjective Assessment. J Cosmet Laser Ther, 2018;20(1):41–49 — protocolo multi-área (bochecha+jowls+pescoço), elevação de 3–10 mm, sem resultado isolado por área.
- Diaspro A, Luni M, Rossini G. Thread Lifting of the Jawline: A Pilot Study for Quantitative Evaluation. J Cutan Aesthet Surg, 2021 — fio de PLLA/PCL (não PDO), melhora significativa na distância trago-jowl.
- Wanitphakdeedecha R, Yan C, Ng JNC, Fundarò SP. Absorbable Barbed Threads for Lower Facial Soft-Tissue Repositioning in Asians. Dermatol Ther, 2021 — fio de p(LA-CL) (não PDO), 56% sem efeito de lifting aos 12 meses.