Segurança e complicações: o medo do olho seco x o que os números mostram
Quase todo mundo teme que a blefaroplastia vá “ressecar o olho”. Os maiores bancos de dados de segurança e a meta-análise mais recente mostram o contrário na maioria dos casos — e apontam o risco real para um lugar bem diferente do que o senso comum imagina.
A blefaroplastia superior é uma cirurgia, ato médico exclusivo de oftalmologista ou cirurgião plástico habilitado. A Dra. Daniele Florêncio é Biomédica — ela não opera, não indica e não prescreve nenhum procedimento cirúrgico. Os números de segurança, complicação e risco reunidos aqui vêm exclusivamente de estudos publicados em revistas científicas revisadas por pares; nada neste texto é orientação individual, estimativa de risco pessoal ou substituto de avaliação pré-operatória feita por um cirurgião, presencialmente, com exame físico e histórico clínico completos.
Pergunte a qualquer pessoa que já pesquisou blefaroplastia qual é o maior medo em relação à cirurgia, e a resposta mais comum vai ser alguma variação de “vai deixar meu olho seco para sempre”. Faz sentido como intuição: a pálpebra participa da lubrificação do olho, então mexer nela parece, à primeira vista, um risco óbvio para essa função.
Só que essa não é a pergunta que os estudos de segurança mais robustos respondem. Quando pesquisadores acompanharam dezenas de milhares de cirurgias reais e reuniram os ensaios clínicos de maior qualidade sobre o tema, o quadro que emergiu foi bem diferente do medo popular — em vários pontos, o oposto dele. Esta apostila junta esses números: o que de fato acontece, com que frequência, e onde está o risco que realmente merece atenção.
O maior contexto de comparação disponível vem de uma análise do banco de dados TOPS (Tracking Operations and Outcomes for Plastic Surgeons), que reuniu 214.504 pacientes submetidos a cinco dos procedimentos estéticos mais realizados nos Estados Unidos. Dentro desse universo, o subgrupo de 29.797 blefaroplastias permite algo raro: comparar, lado a lado e com a mesma metodologia de coleta, o quão frequentes são as complicações desse procedimento específico (Sergesketter, 2023).
O resultado, reunido abaixo, é consistente com o que a especialidade já suspeitava, mas raramente via quantificado em uma amostra tão grande: os eventos adversos mais temidos — infecção que exige nova intervenção, necessidade de voltar ao centro cirúrgico, internação não planejada — acontecem em uma fração pequena dos casos.
Vale registrar o que essa tabela não contém: olho seco. E essa ausência não é acidental — é o próprio ponto que a próxima seção desenvolve, porque é justamente aí que o medo mais comum do público diverge mais da evidência disponível.
Uma coorte dedicada especificamente a rastrear esse desfecho acompanhou 278 pacientes ao longo de 533 procedimentos de blefaroplastia e mediu quantos desenvolveram olho seco novo — ou seja, um sintoma que a pessoa não tinha antes da cirurgia — e que persistisse por três meses ou mais. O resultado: apenas 0,8% dos casos (Falcon Rodriguez, 2024). Isso é uma fração pequena mesmo comparada a outros eventos adversos já considerados raros na tabela acima.
Mas o achado mais interessante não está nessa coorte isolada — está numa meta-análise que reuniu ensaios clínicos randomizados e comparou, dentro do mesmo paciente, os sintomas de olho seco antes e depois da cirurgia. O resultado: a chance de sintomas de olho seco foi menor depois da cirurgia do que antes dela (razão de chances/OR 0,22; IC95% 0,13–0,36; P < 0,00001) (Todorov, 2025). Em outras palavras: na maioria dos pacientes que já tinham alguma queixa de olho seco antes de operar, a blefaroplastia esteve associada a melhora, não a piora, desse sintoma.
Uma razão de chances (OR) abaixo de 1 indica que o desfecho ficou menos frequente na comparação estudada — no caso de Todorov (2025), menos frequente depois da cirurgia do que antes. Isso não significa que ninguém sente olho seco após operar, nem que o sintoma desaparece em 100% dos casos: significa que, olhando o grupo como um todo, a tendência estatística foi de melhora, não de piora — o oposto do que a maioria das pessoas espera antes de pesquisar o assunto a fundo.
Existe ainda outro sintoma ocular que o público raramente associa à blefaroplastia, mas que também aparece na literatura: a epífora, o lacrimejamento excessivo. Uma coorte de 39 pacientes submetidos a blefaroplastia funcional mediu o escore MUNK (uma escala específica para quantificar a gravidade da epífora) antes e depois da cirurgia — e registrou redução estatisticamente significativa desse escore, sem piora do tempo de ruptura do filme lacrimal (o teste que avalia a estabilidade da lágrima na superfície do olho) (Pruksakorn & Chansangpetch, 2021).
Juntando os dois achados — menos sintomas de olho seco e menos lacrimejamento excessivo — o padrão que emerge é o de uma cirurgia que, na maior parte dos casos documentados, tende a reequilibrar a dinâmica da superfície ocular quando o excesso de pele da pálpebra caída estava, antes, atrapalhando essa função — não o de uma cirurgia que introduz disfunção lacrimal onde não havia.
O ponto que a evidência aponta como realmente sensível não é “operar ou não operar” — é qual estrutura o cirurgião decide remover. A mesma meta-análise que mostrou melhora nos sintomas de olho seco também mostrou que remover uma faixa de músculo orbicular além da pele — em vez de remover só a pele — não trouxe redução adicional de olho seco (OR 1,55; P=0,25), mas aumentou em quase 8 vezes a chance de lagoftalmo, a dificuldade de fechar completamente o olho (OR 7,98; IC95% 1,41–45,21; P=0,02) (Todorov, 2025). Essa é uma decisão técnica — feita pelo cirurgião, caso a caso, com base no exame físico — e não um parâmetro que qualquer material educativo deveria transformar em recomendação genérica.
Para fechar este panorama de segurança, vale um dado que não é sobre risco numérico — é sobre a qualidade da evidência disponível. Em 2022, a American Society of Plastic Surgeons publicou uma diretriz oficial sobre blefaroplastia, construída por um painel multidisciplinar com a metodologia GRADE (um dos padrões mais rigorosos para graduar evidência clínica). A conclusão do próprio painel foi direta: “recomendações fortes não puderam ser feitas na maioria das áreas temáticas por escassez de estudos metodologicamente robustos na literatura” (Kim, 2022).
Isso não invalida os números apresentados nesta apostila — eles seguem sendo os melhores dados disponíveis, vindos de estudos publicados e revisados por pares. Mas é um lembrete importante: mesmo uma cirurgia praticada há décadas, com um perfil de segurança historicamente favorável, ainda tem lacunas de evidência de altíssimo rigor em vários pontos específicos. Reconhecer isso é parte da honestidade científica — não um sinal de que o procedimento seja mal estudado de modo geral.
Achar que “olho seco permanente” é o principal risco a temer na blefaroplastia superior — e, por causa desse medo, ignorar qual é o risco que a evidência realmente aponta como mensurável.
Os dados mais robustos disponíveis mostram o oposto do medo mais comum: olho seco novo e persistente ocorreu em apenas 0,8% dos casos numa coorte dedicada (Falcon Rodriguez, 2024), e a meta-análise de RCTs mostrou melhora do sintoma na maioria dos pacientes (OR 0,22) (Todorov, 2025). O risco que de fato aumenta de forma mensurável está ligado a uma escolha técnica específica — remover músculo orbicular além da pele — e não à cirurgia em si.
O certo: levar essas perguntas específicas — sobre o que será removido e por quê — para a consulta com o cirurgião, em vez de descartar a cirurgia por um medo que a evidência de maior qualidade não confirma na maioria dos casos.
O que mais me chama atenção nesses números não é que a blefaroplastia seja “segura” de forma genérica — nenhuma cirurgia é isenta de risco, e essa apostila lista vários deles, com percentual e fonte. O que me chama atenção é o quanto o medo mais repetido nas buscas sobre o tema — “vai secar meu olho” — não bate com o que a literatura de maior qualidade mediu. Isso importa porque um medo mal direcionado tem dois efeitos ruins: pode afastar alguém de uma avaliação que faria bem, e pode desviar a atenção do que realmente merece pergunta na consulta, que é a escolha técnica sobre o que será removido. Meu papel aqui, como Biomédica que não opera, é justamente esse: trazer o dado correto para que a conversa com o cirurgião comece no lugar certo.
- Banco de dados TOPS, 29.797 blefaroplastias: seroma 0,3%, hematoma 0,8%, deiscência superficial 0,4%, infecção profunda 0,04%, readmissão não planejada 0,11%, retorno não planejado ao centro cirúrgico 0,58% (Sergesketter, 2023).
- Olho seco novo persistente ≥3 meses: apenas 0,8% em coorte de 278 pacientes / 533 procedimentos (Falcon Rodriguez, 2024).
- Meta-análise de RCTs: sintomas de olho seco foram menos frequentes depois da cirurgia do que antes (OR 0,22; P<0,00001) — o oposto do medo mais comum (Todorov, 2025).
- O risco real e mensurável: remover músculo orbicular além da pele não reduz mais o olho seco (OR 1,55; P=0,25), mas aumenta quase 8x o risco de lagoftalmo (OR 7,98; P=0,02) (Todorov, 2025).
- Epífora (lacrimejamento): também reduziu de forma significativa após blefaroplastia funcional em 39 pacientes, sem piorar o filme lacrimal (Pruksakorn & Chansangpetch, 2021).
- Achado de honestidade: a própria diretriz oficial da ASPS (metodologia GRADE) reconhece escassez de estudos robustos na maioria dos tópicos técnicos (Kim, 2022).
- Quem avalia o risco individual e decide a técnica é sempre o cirurgião, após exame físico presencial — este material descreve literatura, não substitui essa avaliação.
Esta apostila reuniu os números de segurança — e mostrou que o medo mais repetido sobre a blefaroplastia não é o risco que a evidência de maior qualidade confirma. A apostila 7 desta série olha para o outro lado dessa mesma moeda: como o marketing de clínicas costuma se afastar do que a ciência de fato mostra, e como reconhecer a diferença. Leve os números apresentados aqui para a avaliação com um cirurgião (oftalmologista ou cirurgião plástico) — é ele quem examina, quantifica o risco individual e decide a conduta certa para o seu caso.
- Sergesketter AR, et al. Analysis of complications across five common aesthetic surgical procedures using the TOPS database. Plast Reconstr Surg. 2023 — 214.504 pacientes analisados; subgrupo de 29.797 blefaroplastias com seroma 0,3%, hematoma 0,8%, deiscência superficial 0,4%, infecção profunda 0,04%, readmissão não planejada 0,11%, retorno não planejado ao centro cirúrgico 0,58%.
- Falcon Rodriguez CA, et al. Outcomes of upper blepharoplasty with and without ptosis repair. Plast Reconstr Surg. 2024 — coorte de 278 pacientes / 533 procedimentos; olho seco novo persistente ≥3 meses em 0,8% dos casos.
- Todorov P, et al. Surgical technique variations in upper blepharoplasty: a meta-analysis of randomized controlled trials. Aesthet Surg J. 2025 — meta-análise de RCTs; sintomas de olho seco pós-operatório vs. pré-operatório OR 0,22 (IC95% 0,13–0,36; P<0,00001); excisão de músculo+pele vs. só pele OR 1,55 (P=0,25) para olho seco e OR 7,98 (IC95% 1,41–45,21; P=0,02) para lagoftalmo.
- Pruksakorn D, Chansangpetch S. Effects of functional upper blepharoplasty on epiphora and tear film. PLoS ONE. 2021 — coorte de 39 pacientes; redução significativa do escore MUNK de epífora após blefaroplastia funcional, sem piora do tempo de ruptura do filme lacrimal.
- Kim JW, et al. Blepharoplasty: an evidence-based clinical practice guideline. Plast Reconstr Surg. 2022 — guideline oficial da American Society of Plastic Surgeons (painel multidisciplinar, metodologia GRADE); reconhece escassez de estudos metodologicamente robustos na maioria das áreas temáticas.