Apostila 3 · Blefaroplastia inferior · Estudo · Pilar

A técnica decide o resultado: reposicionamento × excisão × enxerto de gordura

A maioria pensa que blefaroplastia inferior é “tirar a bolsa”. Na prática, o cirurgião escolhe entre três caminhos técnicos diferentes — e essa escolha, não o fato de operar, é o que determina se o sulco lacrimal some ou se sobra um contorno cavado. Esta é a apostila mais anti-óbvia da série.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

Blefaroplastia inferior é um PROCEDIMENTO CIRÚRGICO — ato exclusivamente médico, realizado por cirurgião plástico ou por oftalmologista/oculoplástico habilitado. Este material é produzido pela Dra. Daniele Florêncio, Biomédica (CRBM 8242-PR), com finalidade exclusivamente informativa e educativa — NÃO é indicação de cirurgia, não é recomendação de técnica para o seu caso e não é promoção de atendimento cirúrgico. As técnicas, comparações e números citados aqui descrevem o que os estudos científicos publicados relataram — nunca uma orientação de conduta. Quem avalia, indica a técnica e realiza a cirurgia é sempre o cirurgião habilitado, após exame presencial individual do seu rosto, sua pele e sua anatomia.

Na apostila anterior desta série, vimos que a blefaroplastia inferior de fato funciona para bolsa e sulco, com boas taxas de satisfação. Mas “funciona” ainda não responde à pergunta mais importante para quem vai se informar antes de decidir: funciona como? Se você pesquisou sobre blefaroplastia inferior, provavelmente encontrou a cirurgia resumida numa frase: “tira a bolsa de gordura, fecha o corte, pronto”. É uma simplificação perigosa — porque esconde exatamente a decisão que mais separa um resultado natural de um resultado que envelhece o rosto em vez de rejuvenescer.

“Blefaroplastia inferior” não é uma técnica única — é um nome guarda-chuva para pelo menos três estratégias cirúrgicas diferentes diante da mesma bolsa de gordura: remover, reposicionar ou complementar com enxerto. A escolha entre elas — feita pelo cirurgião, caso a caso — é o que decide se o sulco lacrimal desaparece ou se vira um novo problema, o “olho oco”. Esta apostila existe para mostrar essa decisão com os números que a ciência já mediu.

Três caminhos técnicos escondidos atrás de um nome só

A gordura orbital que forma a bolsa na pálpebra inferior não desaparece — ela pode ser tratada de três formas. A excisão simples remove o excesso de gordura herniada; é a técnica mais antiga e resolve bem o abaulamento, mas, se o cirurgião retirar volume além do necessário, pode aprofundar o sulco lacrimal em vez de corrigi-lo. O reposicionamento (ou transposição) da gordura desloca esse mesmo tecido — em vez de descartá-lo, ele é redistribuído para dentro do sulco, preenchendo a depressão com o próprio material do paciente. E o enxerto de gordura (fat grafting) complementa ou substitui essa lógica enxertando gordura adicional, geralmente colhida de outra área, para reforçar o preenchimento onde falta volume.

A razão de existirem três caminhos — não um “certo” e dois “errados” — é que pacientes chegam à cirurgia com padrões diferentes de perda: uns têm excesso real de gordura herniada (“hill”, na classificação de Turkmani, 2017), outros têm sulco por perda de volume e pele (“valley”), e muitos têm as duas coisas misturadas. Escolher a técnica sem observar esse padrão individual é a origem da maior parte dos resultados decepcionantes — tema que a apostila 4 desta série aprofunda. Aqui, o foco é comparar o que a ciência já mediu entre as técnicas.

A via de acesso também importa: transconjuntival × transcutânea

Além da técnica sobre a gordura em si, existe a via de acesso: transconjuntival (corte por dentro da pálpebra, sem cicatriz externa) ou transcutânea (corte pela pele, logo abaixo dos cílios). A via transconjuntival evita cicatriz visível na pele e, por não seccionar o músculo orbicular nem a lamela anterior da pálpebra, reduz o mecanismo mais associado à retração palpebral pós-operatória — um dos efeitos mais temidos da cirurgia. Uma revisão sistemática recente, reunindo estudos observacionais e prospectivos com pelo menos 50 pacientes e 1 ano de seguimento, registrou malposição palpebral entre 0% e 12% e ectrópio entre 0% e 11,3% conforme a técnica e a casuística de cada estudo (Gimenez et al., 2025) — faixa que reforça por que a escolha da via, tanto quanto a escolha da técnica sobre a gordura, é decisão do cirurgião, ponderada caso a caso.

Por que isso não é “quanto menor a taxa, melhor a técnica”

A faixa de 0–12% de malposição junta estudos muito diferentes entre si — técnicas, vias e perfis de paciente distintos — numa única revisão sistemática. Ela não permite concluir “a via X tem Y% de risco”; mostra apenas o intervalo observado na literatura como um todo. É um retrato do tamanho do problema, não uma tabela de risco por técnica.

O estudo que comparou de frente: reposicionar × enxertar

A comparação mais direta entre duas dessas estratégias vem de Hedén & Fischer, 2021: 339 blefaroplastias inferiores foram divididas entre reposicionamento da gordura e enxerto de gordura segmentar onlay (aplicado sobre a área, sem mover o tecido original), com seguimento médio de 12,9 meses (variando de 5 a 120 meses). O diferencial deste estudo é o método de avaliação: 148 especialistas, cegos para qual técnica cada foto representava, julgaram os resultados. O enxerto segmentar foi avaliado como superior ou equivalente ao reposicionamento em 82% das avaliações — sendo 47% superior e 35% equivalente — restando 18% em que o reposicionamento foi julgado superior. Nas complicações e na taxa de revisão cirúrgica, os dois grupos empataram: 4% e 9%, respectivamente, iguais nas duas técnicas.

Técnica clássica
Reposicionamento da gordura
Desloca o tecido original para dentro do sulco
Julgado superior ao enxerto18%
Complicações4%
Taxa de revisão9%
Técnica comparada
Enxerto de gordura segmentar
Adiciona volume sobre a área, sem mover o tecido original
Julgado superior ou equivalente82%
Complicações4%
Taxa de revisão9%

Os 82% e 18% somam a totalidade das avaliações comparativas entre as duas técnicas — 47% enxerto superior + 35% equivalente + 18% reposicionamento superior (Hedén & Fischer, 2021).

O que o “82%” mede — e o que ele não mede

Esse número vem de avaliação estética por especialistas cegos olhando fotos do resultado — não de uma medida objetiva de imagem (como volumetria por ressonância ou escaneamento 3D). É um dado forte, porque reduz o viés do próprio cirurgião avaliando seu resultado, mas é julgamento visual qualificado, não uma régua física. Leia “superior ou equivalente” como “pareceu melhor ou igual aos olhos de quem avalia”, não como “mediu-se mais volume ou menos sulco”.

A técnica evoluiu: reposicionar E enxertar — não escolher só um

Se o estudo de Hedén sugere que enxertar tende a igualar ou superar reposicionar, a prática cirúrgica mais recente não trata isso como “escolha uma das duas” — trata como “combine as duas”. Um estudo prospectivo de Wong, Hsieh & Mendelson (2025/2026) acompanhou 200 casos consecutivos de uma técnica estendida: transconjuntival, com liberação do ligamento do sulco lacrimal associada ao reposicionamento da gordura — e, na imensa maioria dos casos, complementada com enxerto. 96% dos pacientes receberam enxerto de gordura concomitante no sulco malar, no mesmo tempo cirúrgico. Com seguimento médio de 22 meses, não houve nenhum caso de scleral show (exposição da esclera abaixo da íris, um sinal clássico de retração palpebral) e a taxa de reoperação foi de apenas 1,0%, por abaulamento residual.

Como a técnica evoluiu — da remoção isolada à combinação
Ordena a evolução do raciocínio cirúrgico; não mede diferença de resultado entre as três etapas
Excisão simplesremove a gordura herniada; risco de aprofundar o sulco se o volume retirado for excessivo
Reposicionamentodesloca a gordura para dentro do sulco em vez de descartá-la
Reposicionamento + enxerto concomitantetécnica estendida (Wong, Hsieh & Mendelson, 2025/2026): 96% dos 200 casos com enxerto no sulco malar; sem scleral show; reoperação 1%
Por que isso importa: a evidência mais recente não aponta para “a melhor técnica isolada” — aponta para técnicas combinadas, ajustadas ao padrão de perda de cada paciente. É essa lógica que fundamenta a apostila 4 desta série.
Um erro muito comum

Achar que “tirar toda a gordura” é sempre o melhor resultado possível.

A lógica parece óbvia: se a bolsa incomoda, quanto mais gordura for retirada, melhor. Só que a gordura orbital inferior não é só “excesso indesejado” — em muitos rostos, parte dela sustenta o contorno natural da pálpebra e a transição suave entre pálpebra e bochecha. Retirar volume além do necessário — sobretudo sem reposicionar ou complementar com enxerto onde há perda de volume associada — pode produzir o chamado “olho oco”: um contorno cavado, com sombra profunda, que envelhece o olhar em vez de suavizá-lo. É um resultado tecnicamente “sem bolsa”, mas esteticamente pior do que o ponto de partida — e, ao contrário da bolsa, é muito mais difícil de corrigir depois.

O certo: a decisão entre remover, reposicionar e/ou enxertar — e em qual proporção — é avaliação técnica do cirurgião diante do padrão de gordura e pele daquele rosto específico, não uma regra fixa de “sempre tirar tudo”.

O quadro para guardar
TécnicaO que fazO que a evidência mostra
Excisão simplesRemove a gordura herniadaResolve o abaulamento; risco de olho oco se excessiva
ReposicionamentoDesloca a gordura original para o sulcoJulgado superior em 18% das comparações (Hedén, 2021)
Enxerto segmentar onlayAdiciona volume sobre a áreaSuperior ou equivalente em 82% das avaliações (Hedén, 2021)
Reposicionamento + enxerto concomitanteCombina as duas estratégias no mesmo tempo cirúrgico96% dos 200 casos; sem scleral show; reoperação 1% (Wong, 2025/2026)
Via transconjuntivalAcesso sem cicatriz externaAssociada a menor seccionamento de estrutura palpebral (Gimenez, 2025)
A Sacada dos DoutoresNão existe “a melhor técnica” — existe a técnica certa para aquele padrão de perda

O dado mais honesto desta apostila não é “enxerto vence reposicionamento” — é que as duas técnicas empataram em complicação e revisão, e a diferença apareceu só na avaliação estética por especialistas cegos, com o enxerto levando vantagem em pouco menos da metade dos casos e empatando em outro terço. E o estudo mais recente da série mostra a prática caminhando para combinar as duas, não escolher uma sozinha: 96% dos 200 casos de Wong, Hsieh e Mendelson receberam reposicionamento com enxerto concomitante, e o resultado, em quase 2 anos de seguimento, foi zero scleral show e reoperação de apenas 1%. A leitura correta não é “peça a técnica X” — é entender que o cirurgião está lendo o seu rosto, o seu padrão de gordura e pele, para decidir remover, reposicionar, enxertar ou combinar. Essa leitura individual é o que a próxima apostila desta série aprofunda: quem realmente se beneficia de cada padrão de técnica.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • “Blefaroplastia inferior” é um nome guarda-chuva para pelo menos três estratégias: excisão simples, reposicionamento e enxerto de gordura.
  • A via de acesso também é uma decisão técnica: transconjuntival evita cicatriz externa e reduz o seccionamento associado à retração palpebral (Gimenez et al., 2025).
  • No comparativo direto, o enxerto segmentar foi julgado superior ou equivalente ao reposicionamento em 82% das avaliações — 47% superior + 35% equivalente (Hedén & Fischer, 2021).
  • Esse “82%” é avaliação estética por especialistas cegos, não medida objetiva de imagem — calibrar a leitura desse número é essencial.
  • Complicações (4%) e revisão (9%) empataram entre reposicionamento e enxerto — a diferença apareceu só no julgamento estético.
  • A técnica mais recente combina, não escolhe: 96% de 200 casos com reposicionamento + enxerto concomitante teve zero scleral show e reoperação de 1% em 22 meses (Wong, Hsieh & Mendelson, 2025/2026).
  • “Tirar toda a gordura” não é sinônimo de melhor resultado — excesso de excisão é a origem do “olho oco”, mais difícil de corrigir que a bolsa original.
O próximo passo

Se a técnica certa depende do padrão de perda de gordura e de pele de cada rosto, a pergunta natural é: como saber qual é o seu padrão — bolsa, sulco, pigmentação ou pele frouxa — e o que, dentro disso, realmente se beneficia da cirurgia? É o assunto da próxima apostila da série. Leve estas leituras à consulta cirúrgica: quem examina o seu rosto e decide a técnica é o cirurgião habilitado.

Referências
  1. Hedén P, Fischer S. Comparison of Fat Repositioning Versus Onlay Segmental Fat Grafting in Lower Blepharoplasty. Aesthet Surg J, 2021;41(7):NP717–NP727 — 339 blefaroplastias comparadas, seguimento médio 12,9 meses; avaliação cega por 148 especialistas: enxerto superior ou equivalente em 82% (47% superior + 35% equivalente); complicações 4% e revisão 9% iguais nos dois grupos.
  2. Wong CH, Hsieh MKH, Mendelson B. Long-Term Results with the Extended Transconjunctival Lower Eyelid Blepharoplasty: A Prospective Study of 200 Consecutive Cases. Plast Reconstr Surg, 2025/2026;157(6):975–985 — 200 casos, seguimento médio 22 meses; 96% com enxerto de gordura concomitante no sulco malar; sem scleral show; reoperação 1,0%.
  3. Gimenez AR, Rohrich R, Borab Z, Fisher S, Fagien S, Rohrich RJ. Safety and Complications in Lower Eyelid Blepharoplasty: A Systematic Review. Plast Reconstr Surg Glob Open, 2025;13(9):e7102 — revisão de 36 estudos; malposição palpebral 0–12%; ectrópio 0–11,3% (16 artigos); reoperação 0–9% (maioria <3%).
  4. Turkmani MG. New Classification System for Tear Trough Deformity. Dermatol Surg, 2017;43(6):836–840 — proposta de classificação (hill/valley) do padrão de perda que orienta a escolha técnica; base observacional/opinião de especialista, sem validação externa ampla.
  5. Liu C, Wu Z, Tang L, Zhang Z, Li J, Sun X. A Combination of Conventional Transconjunctival Lower Blepharoplasty and Percutaneous Nanofat Grafting in a Young Chinese Population With Eyelid Bags and Tear Trough Deformities. J Cosmet Dermatol, 2025;24(1):e70009 — 183 pacientes/366 pálpebras, técnica combinada transconjuntival + nanofat; satisfação 96,6%; recidiva 1,6%.
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é indicação de cirurgia, prescrição de técnica nem promoção de atendimento cirúrgico. Blefaroplastia inferior é um procedimento cirúrgico, ato exclusivamente médico, realizado por cirurgião plástico ou oftalmologista/oculoplástico habilitado. As técnicas e números citados descrevem o que os estudos científicos referenciados relataram — não uma recomendação para o seu caso. A avaliação, a indicação da técnica e a realização da cirurgia dependem sempre de exame presencial individual com o cirurgião.