CaHA × PLLA × PDLLA: qual tem mais evidência para pescoço
Essa pergunta não é a mesma coisa que “qual funciona melhor”. Não existe, até esta busca, um único estudo que tenha colocado os três produtos lado a lado no pescoço e medido qual venceu. O que existe é uma quantidade e uma qualidade de pesquisa dedicada bem diferentes entre os três — e é isso, só isso, que esta apostila compara.
Bioestimuladores de colágeno injetáveis (hidroxiapatita de cálcio, ácido poli-L-lático e ácido poli-D,L-lático) são procedimentos realizados por profissional habilitado, mediante avaliação individual. Este material é exclusivamente informativo e educativo — compara quantidade e qualidade de estudo científico dedicado ao pescoço, não é ranking de eficácia, protocolo nem indicação para o seu caso. A escolha do produto depende de avaliação presencial, não desta leitura.
Toda vez que alguém pergunta “qual bioestimulador de colágeno é melhor para o pescoço”, a pergunta honesta de volta é: melhor segundo qual estudo? Porque nenhum ensaio, até hoje, testou hidroxiapatita de cálcio (CaHA), ácido poli-L-lático (PLLA) e ácido poli-D,L-lático (PDLLA) ao mesmo tempo, no mesmo grupo de pacientes, no pescoço, medindo qual produziu mais colágeno ou mais satisfação. Essa comparação simplesmente não existe na literatura ainda.
O que existe — e é isso que esta apostila organiza — é uma diferença bem real na quantidade de estudos dedicados a cada produto, no tipo de desenho de pesquisa usado e em quem já tem um achado histológico (biópsia) a favor. Isso não diz qual produto “ganha”. Diz onde a ciência já olhou com mais atenção — e onde ela praticamente ainda não olhou.
“Qual tem mais evidência” pergunta sobre volume e desenho de pesquisa: quantos estudos existem, com quantos pacientes, com que rigor metodológico. “Qual é melhor” pergunta sobre resultado clínico comparado: qual produto, testado contra o outro no mesmo paciente ou no mesmo grupo, produziu mais melhora. A primeira pergunta a literatura de bioestimulador no pescoço responde — com limitações, mas responde. A segunda, ela simplesmente não responde: não existe nenhum ensaio comparativo direto (head-to-head) entre CaHA, PLLA e PDLLA especificamente no pescoço.
Essa distinção parece sutil, mas muda tudo o que pode ser dito com honestidade. É possível — e é isso que este texto faz — dizer “CaHA tem mais estudos dedicados ao pescoço que PLLA, que por sua vez tem mais que PDLLA”. Não é possível dizer “CaHA funciona melhor que PLLA no pescoço”, porque nenhum estudo mediu essa comparação diretamente.
Dentro dos três produtos, a hidroxiapatita de cálcio hiperdiluída é a que acumula o maior número de trabalhos com dado específico de pescoço nesta busca: 6 estudos, entre eficácia e segurança — de Almeida 2023 (N=22, avaliador cego + ultrassom), Guida 2021 (N=20), Park 2025 (N=10, sessão única), Yutskovskaya & Kogan 2017 (N=20, biópsia), Nipshagen 2020 (nódulo, texto bloqueado por paywall) e Kang, Fabi & Hoss 2025 (caso + revisão de anatomia). Nenhum desses é um ensaio controlado por placebo — mas é, dos três produtos, o conjunto mais numeroso.
O diferencial mais forte do CaHA não é só a quantidade: é ter o único achado histológico da série sobre pescoço. Yutskovskaya & Kogan (2017) biopsiaram tecido e mediram colágeno tipo I aumentando de forma estatisticamente significativa — p<0,05 aos 4 meses e p<0,00001 aos 7 meses (N=20) — a prova mais direta, entre os três produtos, de que a neocolagênese está mesmo acontecendo. A ressalva já detalhada na apostila 3 desta série continua valendo: a biópsia foi peri-auricular, não no tecido do pescoço efetivamente injetado.
O ácido poli-L-lático tem uma base de pesquisa menor e mais fragmentada para pescoço especificamente. Quatro trabalhos aparecem citados nesse universo — Mazzuco & Hexsel 2009 (N=36, pescoço e decote juntos), Wilkerson & Goldberg 2018 (N=25, só decote), o registro NCT05538728 (N=30, só decote, randomizado entre duas diluições) e Amselem et al. 2024 (N=70, com um subconjunto de 31 sessões de pescoço). Só dois desses — Mazzuco 2009 e Amselem 2024 — reportam de fato um dado isolado do pescoço; os outros dois são de decote, uma área vizinha frequentemente tratada junto e citada em conjunto, o que dilui um pouco a leitura de “quantos estudos são realmente de pescoço”.
Mesmo com menos volume, o PLLA carrega duas peças de evidência que o CaHA não tem. A primeira é o único ensaio randomizado de toda a classe voltado a essa região: o NCT05538728 comparou duas diluições do produto (8mL × 17mL) em 30 participantes, com 93,8% e 78,6% melhorando pelo menos 1 grau na escala GDS de decote aos 9 meses — randomizado entre doses, não contra placebo, e no decote, não no pescoço propriamente dito. A segunda é o maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço da série toda: Amselem et al. 2024, N=70, com 31 sessões dedicadas ao pescoço e 87,9% de satisfação — maior em escala de uso real do que qualquer estudo de CaHA aqui reunido, ainda que sem grupo controle.
Para o ácido poli-D,L-lático, a honestidade exige uma frase curta: não foi encontrado, nesta busca, nenhum estudo clínico de eficácia dedicado especificamente ao pescoço. O que existe sobre PDLLA e a classe dos bioestimuladores injetáveis para essa região é, em grande parte, extrapolação de uso em outras áreas do corpo — face, tronco — descrita de forma genérica em textos de revisão e marketing, sem um ensaio próprio de pescoço para sustentar.
O único achado de PDLLA nesta busca com relevância direta não é de eficácia — é de segurança, e nem sequer é de pescoço: Perez Willis & Ramirez Galvez (2024) descrevem um caso de granuloma por PDLLA tratado com triancinolona, mas o caso é facial (mandíbula/bochecha). Ele é útil aqui só como nota de segurança geral da classe — o tipo de complicação que um bioestimulador pode gerar e como ela costuma ser manejada — nunca como evidência de que o PDLLA funciona (ou não) no pescoço.
CaHA — hidroxiapatita de cálcio
Mais estudado no pescoço6 estudos com dado dedicado, incluindo o único achado histológico da série (Yutskovskaya 2017). A base mais numerosa, mas ainda sem nenhum ensaio controlado por placebo.
PLLA — ácido poli-L-lático
Menos estudado, com 1 randomizado4 estudos citados (2 de pescoço isolado), mas dono do único desenho randomizado da classe (NCT05538728) e do maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço (Amselem 2024, 31 sessões).
PDLLA — ácido poli-D,L-lático
Sem estudo de eficácia de pescoço0 estudos de eficácia dedicados ao pescoço nesta busca. Único achado relacionado é um caso de granuloma — e é facial, não cervical. Uso no pescoço apoia-se em extrapolação de outras áreas.
| Produto | Nº de estudos dedicados a pescoço | Maior N (dado de pescoço) | Desenho mais forte encontrado | Achado histológico? |
|---|---|---|---|---|
| CaHA | 6 | 22 — avaliador cego + ultrassom (de Almeida, 2023) | Prospectivo aberto, avaliador cego + ultrassom | Sim — colágeno I, p<0,05→p<0,00001 (peri-auricular) |
| PLLA | 4 (2 de pescoço) | 31 sessões de pescoço, dentro de estudo pós-mercado N=70 (Amselem, 2024) | Randomizado dose × dose, N=30 — mas é decote, não pescoço (NCT05538728) | Não encontrado |
| PDLLA | 0 de eficácia | — | 1 relato de caso de granuloma — facial, não pescoço | Não |
| Comparação direta entre os 3, no pescoço | Nenhum estudo encontrado — gap confirmado | |||
Nenhum estudo, nesta busca, comparou CaHA, PLLA e PDLLA entre si dentro do mesmo desenho, no pescoço. Toda a comparação desta apostila é de volume e tipo de evidência já publicada — não é o resultado de um estudo que colocou os três produtos lado a lado e apurou um vencedor. Essa comparação, hoje, não existe na literatura.
Confundir “mais estudado” com “melhor resultado clínico” — são perguntas diferentes.
CaHA ter 6 estudos dedicados ao pescoço e PLLA ter 4 (ou PDLLA ter 0) não significa que o primeiro produza um resultado clínico superior ao segundo. Significa que a comunidade científica já dedicou mais atenção de pesquisa a um produto do que a outro nessa região específica — o que pode refletir tempo de mercado, facilidade de acesso a uma técnica hiperdiluída documentada antes, interesse editorial ou simplesmente a ordem em que os grupos de pesquisa decidiram investigar. Nenhum desses fatores prova superioridade de eficácia.
O certo: usar “quem tem mais evidência” para saber o que já está mais bem documentado e o que ainda depende de extrapolação — não para eleger um produto “vencedor” sem que exista o estudo que provaria isso.
Significa, sobretudo, que quem decide sobre PDLLA no pescoço está decidindo com bem menos pesquisa dedicada por trás do que quem decide sobre CaHA ou PLLA — não porque o PDLLA seja necessariamente pior, mas porque a pergunta específica “isso funciona no pescoço” ainda não foi feita, em estudo próprio, para esse produto. É uma diferença de mapa de conhecimento, não de resultado medido.
Esta apostila é, de propósito, a mais cautelosa da série em uma coisa: ela não diz qual bioestimulador “é melhor” para pescoço, porque a literatura simplesmente não fez esse teste ainda. O que ela mostra é onde a ciência já olhou com mais cuidado — o CaHA, com o maior número de estudos e o único achado histológico; o PLLA, com menos volume, mas com o único desenho randomizado da classe; e o PDLLA, praticamente sem pesquisa própria de pescoço até este levantamento. Essa é uma informação real e útil — para calibrar expectativa de “quanto já se sabe” — mas é força C: compara quantidade e qualidade de estudo disponível, não resultado clínico comparado. Qual produto, diluição e técnica cabem no seu caso é decisão que se toma na avaliação individual, não numa tabela de contagem de estudos.
- CaHA tem a maior base de evidência dedicada ao pescoço: 6 estudos, incluindo o único achado histológico da série (colágeno I, p<0,05 aos 4 meses e p<0,00001 aos 7 meses — Yutskovskaya & Kogan, 2017).
- PLLA tem menos estudos dedicados (4, sendo só 2 de pescoço isolado), mas é o único com um desenho randomizado (NCT05538728, dose × dose, decote) e o maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço (Amselem, 2024 — 31 sessões).
- PDLLA não tem nenhum estudo de eficácia dedicado ao pescoço nesta busca — só um relato de segurança, e ele é facial, não cervical (Perez Willis & Ramirez Galvez, 2024).
- Nenhum estudo comparou os três produtos entre si no pescoço — não existe base para afirmar superioridade clínica de nenhum deles sobre os outros.
- “Mais estudado” mede volume de pesquisa, não resultado clínico — são perguntas diferentes, e essa é a confusão mais comum ao redor deste tema.
- Esta comparação é força C: compara quantidade e qualidade de evidência disponível, não desfecho clínico medido cabeça a cabeça.
- A escolha do produto é decisão da avaliação individual — depende do seu caso, não de qual produto “tem mais artigo publicado”.
Depois de comparar quanto cada produto já foi estudado, a pergunta que fecha o ciclo de segurança é: o que acontece quando algo dá errado? A próxima apostila da série detalha nódulo e granuloma — o que a literatura mostra sobre frequência, tempo até aparecer e manejo, incluindo por que o pescoço é considerado a área tecnicamente mais sensível dentro da própria classe de bioestimuladores (Kang, Fabi & Hoss, 2025; Wang et al., 2025). Leve estas leituras à avaliação individual: quem examina o seu caso e decide sobre produto, técnica e indicação é o profissional habilitado.
- de Almeida ART, Figueredo V, da Cunha ALG, et al. Improvement in Skin Laxity and Rhytides of the Neck Following Treatment With Diluted Calcium Hydroxylapatite. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2023;16:1359–1367 — N=22, avaliador cego + ultrassom; maior N entre os estudos de CaHA dedicados ao pescoço.
- Yutskovskaya YA, Kogan EA. Improved Neocollagenesis and Skin Mechanical Properties After Injection of Diluted Calcium Hydroxylapatite. J Drugs Dermatol, 2017;16:68–74 — N=20, único achado histológico da série: colágeno I p<0,05 (4m) e p<0,00001 (7m), biópsia peri-auricular.
- Mazzuco R, Hexsel D. Poly-L-lactic acid for neck and chest rejuvenation. Dermatol Surg, 2009;35:1228–1237 — N=36, primeiro estudo relevante de PLLA com dado isolado de pescoço.
- [Autores não individualizados no registro]. Safety and Effectiveness of Two Reconstitution Volumes of Poly-L-Lactic Acid for Correction of Decolletage Wrinkles. J Drugs Dermatol — registro NCT05538728 — N=30, único ensaio randomizado da classe (dose × dose); área = decote.
- Amselem M, et al. Poly-L-Lactic Acid for Facial and Body Rejuvenation: A Postmarketing Study. J Cosmet Dermatol, 2024;23:3277–3286 — N=70 (31 sessões de pescoço), 87,9% de satisfação; maior estudo pós-mercado com subconjunto de pescoço.
- Perez Willis KM, Ramirez Galvez R. Granuloma after the Injection of Poly-D,L-Lactic Acid (PDLLA) Treated with Triamcinolone. Case Rep Dermatol Med, 2024;2024:6544506 — único achado de PDLLA nesta busca; caso facial, não de pescoço — usado só como nota de segurança da classe.
- Wang H, et al. Foreign Body Granulomas Reaction Related to Collagen Stimulatory Cosmetic Fillers: A Systematic Review. J Cosmet Dermatol, 2025;24:e70459 — revisão de 40 estudos/117 pacientes; CaHA 27,35% e PLLA 30,77% dos casos relatados de granuloma; sem dado específico de pescoço.